A fertilização in vitro é uma jornada cheia de incertezas. Ela então criou uma rede de apoio para quem busca o sonho de gerar um bebê

Simone Tinti - 7 dez 2022
Marianna Peretti, criadora da Fiva.
Simone Tinti - 7 dez 2022
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Quando iniciou sua jornada pela FIV (fertilização in vitro), há cerca de dois anos, Marianna Peretti descobriu um universo à parte. 

São muitas informações (por vezes, desencontradas), clínicas, especialistas, e muitas histórias. Histórias protagonizadas por mulheres como Marianna, que partiram para a reprodução assistida em busca da sonhada gravidez.

A FIV, técnica que consiste na união do espermatozoide com o óvulo em ambiente laboratorial, apesar de ser efetiva, nem sempre resulta em gravidez logo na primeira tentativa. Isso, claro, gera frustrações e angústias entre as tentantes (como são chamadas as mulheres que passam pelo processo de reprodução assistida), casais e toda a família. 

Foi nesse contexto de incertezas e de esperança que Marianna decidiu criar a Fiva. A plataforma online, lançada há cerca de quatro meses, reúne depoimentos de mulheres, além de avaliações e indicações de dezenas de clínicas ao redor do país especializadas na técnica. 

“Durante o processo de FIV, a gente conversa muito com médicos e passa dias tomando injeções de hormônios, o que deixa nosso corpo e o emocional meio bagunçados”, diz Marianna, 38, profissional de vendas e marketing no ramo da construção (com MBA pela IE Business School). 

“O especialista em fertilização obviamente tem as respostas técnicas que a gente precisa – mas falar com uma paciente que tem o mesmo fator de complicação, que está passando pelas mesmas dúvidas e sensações, muda o nosso relacionamento com a jornada pela FIV”

O objetivo é que a Fiva seja um ponto de apoio e de informações sobre fertilização in vitro. Confira a seguir o bate-papo de Marianna com o Draft.

 

Você iniciou a Fiva a partir de sua experiência pessoal com a fertilização in vitro. Como surgiu a ideia?
Eu fui diagnosticada com alguns fatores complicadores, como endometriose profunda, trombofilia [predisposição em desenvolver trombose] e alta atividade de células NK [natural killers, células de defesa do sistema imune com função de reconhecer aquelas estranhas ao organismo]. E meu marido é vasectomizado. 

Então, decidimos partir para a FIV e comecei a procurar informações online sobre como era o processo, as etapas, os custos e as clínicas especializadas. 

Tem muita coisa disponível e me senti perdida, até que cheguei a um grupo de Whatsapp com 250 mulheres tentantes de FIV. E foi aí que a minha relação com o momento que eu estava vivendo mudou. 

Percebi que não estava sozinha, que muitas outras passavam pelo mesmo processo que eu e que tinham vontade de compartilhar dúvidas, histórias e experiências. No grupo, encontrei apoio, acolhimento e muita informação sobre o assunto. E aí surgiu a ideia: por que não levar essa rede de apoio tão linda para outro tipo de formato? 

Assim surgiu a Fiva: um portal que visa trazer informação de tentante para tentante nesse processo que gera tantas dúvidas. 

Em que momento da sua jornada pela FIV você está hoje?
Estou grávida de 9 semanas [na época da entrevista, em 21 de novembro], o que é uma alegria muito grande! 

E como se deu esse positivo, você pode contar um pouco?
Logo na minha primeira FIV eu engravidei – o que é algo difícil de acontecer e nos deixou muito felizes –, mas tive um aborto com três semanas de gestação. 

Quando fomos tentar novamente, iniciamos o processo em Salvador, com um tratamento considerado polêmico no Brasil, mas que está liberado na capital baiana como pesquisa clínica. 

Geralmente, mulheres que têm aborto de repetição são encaminhadas para esse método. Eu não queria passar por um aborto de novo e conversei bastante com meu médico, que reforçou o quanto acredita na técnica 

Então, foram seis meses indo para Salvador uma vez por mês para o tratamento, que consiste em tomar uma vacina que contém os linfócitos do marido.

De que maneira esse seu novo momento, agora grávida, se conecta com a Fiva? O que tem sido diferente nas trocas com as mulheres?
A plataforma é voltada a tentantes, mas aos poucos se formam novos grupos, como o das mulheres que estão gestando. A importância da troca continua, o que imagino que aconteça também depois, com o nascimento do bebê. 

Minhas amigas tiveram gravidezes em que saíram por aí, cheias de energia. Mas eu tenho muito enjoo e preciso tomar uma série de injeções, tanto de hormônios quanto para o meu processo de trombofilia. 

Nos três primeiros meses, a gestação é considerada “gestação de FIV”, só depois passa a ser considerada uma gravidez normal. Então, entender que essas mulheres estão com sensações parecidas com as suas, que o nosso primeiro trimestre é ainda mais difícil, é uma troca que acalenta e não nos deixa sentir sozinhas nesse mar de emoções que é a gravidez.

A plataforma alcança o país todo e tem cadastro gratuito. Quantas mulheres fazem parte dela hoje em dia e como é o perfil delas – tentantes de primeira viagem ou experientes?
Tem de tudo, mas o perfil predominante é o de pessoas mais experientes. A gente sente que a mulher quer compartilhar mais quando o processo já “deu certo”, mas a gente explica que não é essa intenção. 

Nosso objetivo é a troca. Em cerca de quatro meses de Fiva no ar, reunimos mais ou menos 100 histórias 

Percebi, logo de início, que elas estavam um pouco relutantes. Como é uma plataforma aberta, e não fechada para as tentantes – apesar de ser possível escrever o relato de forma anônima –, senti que elas estavam a passinhos lentos… 

Mas, agora, essa sensação passou. Vejo que elas estão compartilhando mais. 

Para você, pessoalmente, o que tem sido mais recompensador na criação da Fiva? E como são os feedbacks das participantes?
A quebra de tabu e o fato de falar abertamente sobre o assunto estão entre as primeiras coisas que me vêm à cabeça. 

Quando eu comecei a falar do tema, foi “do nada”, as pessoas nem sabiam que eu estava no processo de FIV e fiz um post no Instagram já comentando sobre a Fiva. E aí me deparei com várias outras mulheres passando pela mesma coisa. 

Então, comecei a entender que, quando você abre a sua vulnerabilidade, o outro fica propenso a compartilhar com você também. E a questão da maternidade hoje é um tabu: as mulheres têm dificuldade em falar que têm dificuldade em engravidar 

Quanto mais falamos sobre isso, mais fácil fica. E, assim, o tabu vai se quebrando.

A atriz Jennifer Aniston relatou, recentemente, suas dificuldades com a fertilização in vitro e como foi tudo tão difícil…
Ela mesma comentou que “foi um alívio” quando finalmente tocou no assunto. 

Acho que, quando a gente fala, encerra a vontade de outras pessoas comentarem o assunto, porque estamos ali, abertamente, falando sobre um tema que, na verdade, faz parte da vida feminina. 

A Fiva também reúne avaliações de clínicas especializadas ao redor do país. Como chegam essas indicações?
No momento em que contam suas histórias, em geral, as mulheres já experimentaram duas, três ou quatro clínicas. 

As primeiras experiências costumam ser “um horror”, com falta de pedidos de exames básicos, por exemplo… 

Mas reparei que, em vez de realizarem, na plataforma, uma avaliação ruim dessas primeiras clínicas, elas tendem a indicar as clínicas onde estão felizes. 

Quais são os próximos passos da Fiva?
Estamos realizando workshops digitais com especialistas. O próximo será no dia 10 de dezembro, com uma psicóloga que vai trazer um pouco sobre o que é a maternidade de fato, com foco em despertar outro olhar nessas mulheres que já passaram por tantas FIVs e buscam hoje ressignificar o maternar de alguma forma. 

Esses encontros digitais vão acontecer esporadicamente, pois nossa ideia não é ser uma empresa voltada a eventos, mas trazer mais proximidade e olho no olho – mesmo que no ambiente digital – a essa comunidade que estamos formando 

Também queremos trazer materiais escritos por especialistas e expandir os temas, como ovodoação e inseminação artificial, pois existem mulheres que tentam engravidar de diversas maneiras antes de chegar na FIV. 

E há previsão de monetizar a plataforma de alguma maneira?
Teremos que monetizar em algum momento, mas ainda estamos desenvolvendo esse formato. Esperamos ter novidades em breve.

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