A Filma Eu eterniza os seus melhores momentos de “craque de fim de semana” ao toque de um botão (e quem paga é o dono da quadra)

Matheus Andrade - 19 fev 2020
Os sócios da Filma Eu (da esq. à dir.): Rafael Guimarães, Vitor Brandão e Thássio Oliveira.
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No Maracanã ou num campinho de várzea, todo jogo de futebol tem momentos marcantes. Para eternizar seus lances, os craques contam com a TV. Os “pernas-de-pau”, ao contrário, só costumam aparecer nas transmissões como torcedores, talvez segurando um cartaz de “Filma Eu, Galvão!”.

Fundada em 2015, a Filma Eu nasceu para preservar jogadas de brilho de peladeiros. A empresa criou um sistema de filmagem (para clubes, quadras de futebol society etc.) com um supertrunfo: um botão instalado no alambrado, junto à quadra, capaz de resgatar um drible, um golaço, uma “bicicleta” cinematográfica…

Como funciona? Simples. Duas câmeras capturam toda a partida. Caso haja algum momento de brilho, basta acionar — rapidamente! — o botão que os últimos 15 segundos de filmagem são automaticamente disponibilizados na plataforma, prontinhos para serem eternizados nas redes sociais.

CERCA DE 50 MIL VÍDEOS POR MÊS, RODANDO NO WHATSAPP, INSTA E FB

Vitor Brandão, 28, Thássio Oliveira, 28, e Rafael Guimarães, 26, estão à frente do negócio, criado em Itajubá, sul de Minas. Hoje eles têm 35 quadras como clientes, em lugares tão díspares como Jaboatão dos Guararapes (PE) e Rondonópolis (MT), que usam os vídeos para divulgar seu estabelecimento e seus patrocinadores. Thássio afirma:

“São cerca de 50 mil vídeos por mês, rodando pelo Whatsapp, Instagram e Facebook, é uma grande divulgação instantânea… Alguém pega o vídeo, passa para os amigos, e o patrocinador está tendo sua marca exposta ali”

Pela plataforma, dá para inserir anúncios nos vídeos, assim como narração e trilha sonora. Segundo Thássio, a maioria dos clientes tem patrocinadores que instalam banners dentro de campo, mais ou menos como ocorre nos estádios.

Há uma quadra-cliente da Filma Eu, por exemplo, que já tem 16 patrocinadores se intercalando quinzenalmente — oito marcas a cada vídeo divulgado por semana. E os filmetes ajudam esses patrocinadores a ganhar visibilidade nas redes.

PARA EMPREENDER, O PERNA-DE-PAU ASSUMIDO VENDEU SEU FUSCA

Os sócios, aliás, assumem logo de cara: nenhum deles era lá tão bom de bola… Quando teve a ideia, Vitor cursava Engenharia de Controle e Automação na Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). Ele diz que a inspiração foi meio que uma “epifania”: “Não vi nada [parecido] em nenhum lugar”.

O rapaz quebrava a cachola pensando em como disponibilizar o serviço. E como três cabeças pensam melhor do que uma, chamou Thássio, seu colega de curso, e Rafael, que estudava Engenharia de Computação e foi fundamental na programação.

“Na época não existia ainda smartphones como hoje.. A partir daí, procuramos como desenvolver o melhor software para gravar jogadas. A ideia era dar um jeito de ‘voltar no tempo’ de alguma maneira”

O investimento inicial no negócio foi de cerca de 3 mil reais, dos quais parte veio da venda do carro de Vitor, um Fusca. O grosso do dinheiro foi usado para a compra de equipamentos.

POR ORA, A PRESENÇA SE CONCENTRA QUASE TODA NO INTERIOR

A primeira quadra a usar o serviço foi lá mesmo de Itajubá, em 2015. Eles não cobraram nada, foi mais um teste. O projeto, porém, não despertou muita atenção logo de cara, pouca gente entendeu para que servia o botão.

Leia também: Tinder do futebol? À procura de um modelo de negócio, a Tero quer atualizar o obsoleto mercado da bola

O boca a boca se encarregou de passar a mensagem de que “tinha um negócio legal ali”, e as poucos, foram levando o serviço para outras cidades. Em Minas, por exemplo, chegaram a Juiz de Fora, São Lourenço… Segundo Thássio:

“No interior, os donos costumam serem mais próximos, costumam até jogar bola. Na conversa surge o Filma Eu, e o dono nos procura. Na capital, não costuma ter essa proximidade, muita das vezes o dono do estabelecimento nem fica presente na quadra”

Por enquanto, a única capital é São Paulo, onde o serviço foi adotado por dois estabelecimentos que, por acaso, não são voltados ao futebol: o Hoops Park, de basquete, e a Riplay, de futevôlei.

AMEAÇAS DENTRO E FORA DO CAMPO, DE BOLADAS À SEGURANÇA

A Filma Eu envia os equipamentos e explica a montagem. A adesão ao serviço varia entre 1 200 reais e 2 500 reais, e a mensalidade, entre 400 e 700 reais — os valores mudam conforme o número de quadras no local.

Um fator que encarece a operação é que a empresa usa câmeras blindadas, à prova de boladas (e imagina-se que sejam muitas, a depender da qualidade dos atletas em ação…). São duas, cada uma filmando metade do campo.

O medo de que os aparelhos despertem a atenção de ladrões não passou batido, segundo Vitor:

“Há campos em lugares abertos e afastados, mas todo o equipamento é muito bem fixado, fica difícil de alguém roubar… Até hoje não tivemos problema. E como se tratam de câmeras, ladrões podem ter medo de estarem sendo gravados”

Apesar de pesado, o equipamento é de montagem relativamente simples, dizem os sócios. Junto com as câmeras, chega um rack com roteador próprio, instalado no escritório do cliente.

Assim, mesmo que a internet caia, as jogadas podem ser gravadas offline, e sobem para o site quando houver conexão.

EM BREVE, O TRIO ESPERA LANÇAR UM APLICATIVO DA FILMA EU

“Para os melhores, e piores, momentos, Filma Eu”. O slogan reflete, com certa galhofa, o lado democrático da plataforma. Nas suas redes, a empresa posta lances — e os golaços dividem tempo de vídeo com frangos vexaminosos, no melhor estilo “Bola Cheia” e “Bola Murcha”.

Atualmente, os vídeos gravados ficam disponíveis apenas no site (é preciso um login para ter acesso). Thássio diz que a ideia é mudar isso com o lançamento de um aplicativo, hoje em fase de testes.

“Em vez do pessoal entrar no site para baixar as jogadas, poderá fazer isso direto pelo aplicativo. Queremos que ele seja uma rede social esportiva no futuro, como um Instagram ou Youtube do esporte”

Os sócios vislumbram também bolar novos projetos de tecnologia esportiva e criaram uma empresa (Endorfine Tecnologia) para ser o guarda-chuva desses produtos, mas por ora não há nada de concreto.

O PRIMEIRO CLIENTE INTERNACIONAL DEVE VIR DO URUGUAI

Para começar uma gravação, basta pressionar o botão por 3 segundos.

A Filma Eu projeta um faturamento de 300 mil reais. A intenção é terminar o ano com algo entre 60 e 65 quadras atendidas.

A tabelinha entre os sócios é um desafio. Hoje vive cada um em uma cidade: Thássio em Itajubá, Vitor em Campinas e Rafael em São José dos Campos, em jornada dupla, dividida com outro emprego (os demais estão focados na Filma Eu).

Segundo o trio, há conversas em andamento de olho num primeiro cliente internacional, em Rivera, no Uruguai. Com dois estagiários dando apoio, eles dizem buscar um crescimento sustentável, sem muita pressa, priorizando a qualidade.

Eles contam que já até surgiram concorrentes, sites com proposta idêntica, alguns praticando preços menores no mercado. “Normalmente são empresas de segurança que utilizam câmeras analógicas, que já não têm uma qualidade muito boa…”, diz Thássio.

A opção da tela de patrocínio não seria, segundo ele, o único diferencial da empresa:

“Nós temos um sistema diferente, um software próprio para a gravação das jogadas. Alguns concorrentes usam o sistema DVR, que não é automatizado, é preciso procurar [pelos lances de destaque] em todo o vídeo, o que dá muito mais trabalho.”

Fazer apenas o “feijão-com-arroz”, como se diz no futebol, não basta. Quem quer permanecer no topo precisa inovar sempre.

 

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Filma Eu
  • O que faz: Sistema automático de gravações esportivas
  • Sócio(s): Vitor Brandão, Thássio Oliveira e Rafael Guimarães
  • Funcionários: 2 estagiários
  • Sede: Itajubá (MG), com sócios-remotos em Campinas e São José dos Campos
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: R$ 3 mil
  • Faturamento: R$ 300 mil (previsão para 2020)
  • Contato: [email protected]
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