A Cozinhe.me começou com molhos e experiências gastronômicas. Agora é (também) uma startup de bots para a cozinha

Marília Marasciulo - 23 dez 2019
Da esquerda para a direita, a equipe da Cozinhe.me: Flávio Lucce, Paulo Renato Rizzardi, Marina Coelho (engenheira de alimentos e única funcionária da startup) e Rogério Lucce.
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Olívia tem 45 anos e é uma cozinheira criativa, com personalidade forte. Bastam algumas perguntas e ela dá dicas rápidas de receitas (ou ainda restaurantes ou serviços de delivery, se preferir). No futuro, ela até poderá personalizar sugestões conforme os ingredientes disponíveis na geladeira. Não sabe o que fazer com o tomate, o ovo e a berinjela? Deixe com a Olívia. 

Só não espere encontrá-la pessoalmente: Olívia é uma assistente virtual, lançada em versão beta, em novembro, pela Cozinhe.me. A empresa porto-alegrense — que também produz molhos, sua principal fonte de receita, e vende experiências gastronômicas — surgiu em 2016, idealizada por Paulo Renato Rizzardi, 37, um advogado com mestrado em antropologia que largou a carreira para empreender seguindo sua paixão:

“Quero que as pessoas enxerguem o ato de cozinhar como uma possibilidade de se conectar com o que nos mantém vivos, que é a comida”

Seus sócios na empreitada são o amigo de infância, Flávio Lucce, 37, e o irmão deste, Rogério Lucce, 46, donos também da Basilic, que há dez anos atua no mercado de gastronomia e eventos da capital gaúcha.

AOS 30, A MORTE DO PAI FEZ PAULO REPENSAR SUAS ESCOLHAS

Paulo jamais esqueceu o molho vermelho para a macarronada preparada pelo avô materno. Considera ainda que a avó paterna é a “melhor cozinheira do mundo” — aos 91 anos, ela vive em Palmeiras das Missões, no interior gaúcho, e ainda prepara o prato favorito do neto (rocambole de batata) a cada visita. Na juventude, conta, ele e Flávio eram os “cozinheiros da gurizada”. 

Mesmo assim, na hora de escolher uma carreira, Paulo nem cogitou gastronomia. “O sonho da minha mãe era que eu fosse juiz ou desembargador”, conta. Como gostava de estudar, argumentava e falava bem, achou que a faculdade de direito seria a opção lógica. Só foi repensar a decisão aos 30, após a morte do pai:

“Pensei: a vida está passando e eu aqui, ‘recortando e colando’ ou escrevendo parecer jurídico”

Em crise, trocou o setor jurídico pelo de educação na Prefeitura de Porto Alegre (onde trabalha até hoje) e chegou a fundar uma lawtech para facilitar a mediação de processos contra companhias aéreas; a experiência não deu certo, mas trouxe aprendizados e serviu para inculcar um mantra do Vale do Silício na sua cabeça: “Se ninguém falhou, faliu ou errou, [o negócio] não está no caminho certo”

UMA MENTORIA O AJUDOU A ENTENDER QUE A COZINHA ERA O CAMINHO

Paralelamente, Paulo e Flávio produziam e apresentavam um programa — Banquete — na Band local, em que chefs gaúchos percorriam o estado para buscar receitas de família (e criar releituras a partir delas).

Por mais que a empreitada na TV fosse divertida e desse vazão ao seu apreço pela cozinha, Paulo não se via fazendo aquilo por muito tempo. 

“Estava muito angustiado, não me sentia feliz. Ou, então, tinha picos de felicidade com alguns projetos — mas o faturamento não correspondia” 

Decidiu procurar uma mentoria, para encontrar um norte que fizesse sentido. “Um dia, quando comecei a falar sobre comida, ela disse ‘eu tinha que estar te filmando agora’”, lembra.

Finalmente enxergando o “óbvio”, Paulo foi em busca de tudo o que pôde encontrar sobre cozinha, tentando entender se aquele hobby tinha potencial para se tornar um negócio. Chegou ao livro Cozinhar, de Michael Pollan, jornalista e defensor da “comida de vó”, que virou sua leitura de cabeceira. “Entendi que realmente existe uma tendência do ‘farm to table’ e de as pessoas voltarem a cozinhar.”

UM FILÉ AO MOLHO BARBECUE DE GOIABADA TROUXE UMA EPIFANIA

Em janeiro de 2016, Paulo e Flávio começaram a elaborar a Cozinhe.me. O propósito estava claro: inspirar pessoas a cozinhar, mesmo aquelas sem traquejo na cozinha. A ideia seria atuar em três frentes — educação, experiências e produtos.

A semente do projeto foram o cursos, na sede da Basilic, em Porto Alegre, para grupos de até 16 pessoas (incluindo “amigos de amigos”), com recortes temáticos — por exemplo, culinária italiana, cozinha para o dia a dia… Em junho daquele ano, com o gancho do Dia dos Namorados, os sócios lançaram jantares secretos que misturavam boas histórias e boa comida.

Faltava bolar um produto, que surgiu meio por acaso, ao sabor de um filé com molho barbecue de goiabada preparado por Rogério:

“Um dia estávamos sentados aqui nessa cozinha e o Rogério chegou com uma carne e disse ‘comam esse filé. “E aí a gente meio que se olhou e uma luzinha acendeu nas nossas cabeças: bah, cara, temos que fazer molhos!”

A ideia quase caiu por terra quando encararam a saga de reproduzi-lo em larga escala. Até encontrarem a paulistana Legurmê, que não só disse a eles “que tudo pode”, como topou produzir amostras do molho do exigente Rogério (foram dez testes até o ok definitivo). 

SACADA SEGUINTE: CAIXAS MISTERIOSAS, KITS PARA REFEIÇÕES-SURPRESA

Entre cursos, jantares e elaboração de molhos, os sócios lançaram em 2017 uma família de cinco molhos autorais. Cada um custa em média 20 reais, e são vendidos no e-commerce da startup e em pontos de venda principalmente em Porto Alegre. 

Mais ou menos na mesma época, a Cozinhe.me lançou outro produto, em parte como estratégia de divulgação para os molhos: a “caixa misteriosa”. São kits (vendidos por um preço médio de R$ 150) com ingredientes necessários para compor uma refeição para quatro pessoas — qual refeição, porém, só abrindo a caixa para descobrir.

A primeira caixa lançada foi a do hambúrguer, num Dia das Crianças. No interior, vinham os pãezinhos, a carne, o queijo, os molhos. Era um jeito meio descontraído de “gamificar” o ato de cozinhar para engajar os clientes da Cozinhe.me, dando a eles uma missão numa pegada meio “MasterChef”. 

A caixa misteriosa fez sucesso, mas em pouco tempo se tornou um problema. Faltavam braços para montá-las, e havia sempre um risco de contaminação por lidarem diretamente com alimentos frescos e perecíveis. Era um produto difícil de escalar e de gerir. “O sonho do Flávio era abandonar a caixa”, diz Paulo. 

Em vez disso, porém, decidiram pivotar a ideia, convidando restaurantes para montarem suas próprias caixas, com curadoria da Cozinhe.me. Em junho, estrearam o formato em parceria com o Mantra, um restaurante vegano da capital gaúcha que montou uma receita inspirada na culinária ayurvédica (foram 50 caixas vendidas, mostrando que o caminho talvez seja atuar em rede).

O NOVO PASSO: INSPIRAR O ATO DE COZINHAR POR MEIO DA TECNOLOGIA

Em 2019, os sócios decidiram levar a Cozinhe.me para um novo estágio, mais tecnológico. De olho no futuro em que a Internet das Coisas vai conectar os aparelhos domésticos estão conectados com a rede, eles começaram a se questionar se um dia não seria possível abrir a geladeira e consultar um assistente de voz: “Fulana, tenho esse, esse e aquele ingrediente…O que posso preparar com isso?” 

Assim nasceu Olivia, uma assistente virtual pensada para receitas. Ela é a primeira de uma linhagem, que inclui mais quatro bots a serem lançados em 2020. Todos foram desenvolvidos por um programador freelancer, por encomenda da Cozinhe.me. O job levou dois meses, ao custo de 20 mil reais. 

A aposta parece ter sido acertada. Em meados do ano, a IBM fez um contato com a Cozinhe.me, sondando sobre a possibilidade de integrar o projeto de bots à sua plataforma Watson, de inteligência artificial e Machine Learning. A ideia ainda está sendo avaliada pelos sócios — a alternativa seria desenvolver o próprio sistema, preservando assim sua autonomia.

EM 2020, OLÍVIA VAI GANHAR A COMPANHIA DE MAIS QUATRO “CHEF-BOTS”

Olivia ainda não é fonte de receita. Hoje, 70% do faturamento da Cozinhe.me — de cerca de 130 mil reais, em 2019 — vêm da venda dos molhos. A empresa também segue fazendo jantares e participando de festivais e eventos.

“Olívia veio para melhorar as experiências com os molhos, para ajudar a escalar as caixas, inspirar a criação de receitas e, eventualmente, vai ser também um produto”

Por ora, a inteligência artificial está programada apenas para sugerir receitas (elaboradas por nutricionistas), ela poderá fazer a curadoria das caixas criadas por restaurantes ou, em visões mais futuristas da gastronomia, ser usada em totens em supermercados para facilitar a lista de compras. 

No ano que vem, a “chef-bot” vai ganhar outros quatro companheiros, cada um com uma personalidade diferente: o uruguaio Javier, especialista em assados; Enrico, italiano de 23 anos que cozinha desde os 12; o indiano Hassam, “o rei das especiarias”; e Tina, especialista em confeitaria. 

Para 2020, os sócios da Cozinhe.me esperam captar meio milhão de reais em investimentos para alavancar a operação, especialmente contratando pessoas para a equipe dedicadas à tecnologia. E, confiantes, não descartam dar aos seus bots outros sotaques e temperos — replicando o modelo de negócios no exterior. 

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  • Projeto: Cozinhe.me
  • O que faz: Produz molhos, vende experiências gastronômicas e assistentes virtuais para a cozinha.
  • Sócio(s): Flávio Lucce, Rogério Lucce e Paulo Renato Rizzardi
  • Funcionários: 1
  • Sede: Porto Alegre
  • Início das atividades: 2016
  • Investimento inicial: R$ 140 mil
  • Faturamento: R$ 130 mil (previsão para 2019)
  • Contato: [email protected]
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