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Toda orgulhosa, Dona Dulce mostra para o grupo de turistas como suas “meninas” estão resistindo e crescendo no “berçário”. Logo mais, em agosto, ela poderá levá-las para o seu “jardim”.
As “meninas” são sementes e brotos de vitória-régia e o jardim, o Canal do Jari, lago que une os rios Amazonas e Tapajós, na região Oeste do Pará, em Santarém. Já dona Dulce é Dulcicléia Oliveira, 53, a responsável pelo Jardim de Vitória-Régia, um lago ornamental que ela cultiva de forma sustentável desde 2014. O espaço começou a receber espontaneamente curiosos atraídos pela notícia de que Dulce cozinhava iguarias feitas com a planta símbolo da Amazônia.
“A demanda para abrir o jardim ao público veio da fofoca. As pessoas souberam que eu estava fazendo alimentos à base da vitória-régia e vinham até aqui para experimentar. E quando elas chegavam e se deparavam com aquela quantidade de vitórias-régias, ficavam enlouquecidas com sua beleza”
Em 2017, Dulce resolveu abrir seu espaço para visitação e oferecer um menu degustação com o uso da planta na formulação das receitas. Hoje, a iniciativa é reconhecida como uma atração de turismo de base comunitária da região e a idealizadora foi chamada para marcar presença na COP30, que vai acontecer em novembro, em Belém.
Dulce é natural de Capitão do Poço, no Nordeste do Pará, mas em 2014 se mudou para o Alto Jari. Lá, teve a ideia do jardim, junto com o marido, Evandro Tapajós, morador da região.
“Buscávamos uma planta que fizesse sombra para os peixes, servisse de alimento para os animais, e de bônus nos desse uma linda paisagem”
Nativa da bacia amazônica, a vitória-régia é uma planta aquática de folhas flutuantes, também conhecida por outros nomes, como cará-d’água, uapé, nampé, irupé, cará-do-rio ou jaçana. A planta foi identificada pela primeira vez por Thaddäus Haenke, um botânico inglês que visitava o Amazonas em 1801. Ele levou sementes para cultivar nos jardins do palácio real, em Londres. E lá, em 1865, outro botânico, John Lindley, deu à planta o nome da então rainha britânica, Vitória.
O jardim de Dulce começou com apenas algumas espécimes até chegar a mais de 200. Dependendo da época do ano, é possível ver sua beleza de pertinho, em um passeio de barco no lago. Infelizmente, quando a repórter esteve por lá, no começo de maio, Dulce estava ocupada com o trabalho de manter suas sementes e brotos em uma bacia para mais tarde plantá-los.

Dulce em seu jardim (foto: Deveras Amazônia/divulgação).
Geralmente, a planta se mantém na cheia e também na época da seca dos rios amazônicos, só diminuindo o número de espécimes. Em 2024, porém, foi diferente, uma seca extrema assolou a região.
“Isso prejudicou bastante o meu trabalho, assim como o de outras pessoas que mexem com turismo de base comunitária”
Por esse mesmo motivo, Dulce está pensando em oferecer um curso sobre como cultivar vitórias-régias. Trata-se da maior planta aquática do mundo. Suas folhas crescem cerca de 25 centímetros por dia e podem chegar a até 2,5 metros de diâmetro.
As flores são um show à parte. Elas brotam na cor branca, por volta das 19 horas, e no dia seguinte, às 16h, ganham a tonalidade rosa escuro. Lindas e breves: duram apenas 48 horas, depois murcham.
Por 11 anos, Dulce trabalhou como cozinheira da Marinha do Brasil. Nesse tempo, aprendeu a identificar plantas comestíveis. Quando decidiu plantar as vitórias-régias, a proposta era apenas ornamental, mas a observação da natureza deu a ela outra ideia.
“Comecei a notar que as tartarugas comem a vitória-régia e vivem cento e poucos anos – e humanos comem tartarugas. Peixes comem vitória-régia e humanos comem peixes”, conta. “Então, eu esperava o peixe comer a vitória-régia e depois ia comer o peixe. Ou seja, eu estava tercerizando o negócio”, brinca.
“Aí, pensei: não, não mata ninguém, porque se o peixe, a tartaruga, o peixe-boi e as aves comem, está tudo certo. Vou começar a comer”
Ela não sentiu nenhum tipo de desconforto e resolveu fazer testes na cozinha. Sua primeira criação foi um vinagrete à base do pecíolo (caule) da planta. Esse foi só o primeiro experimento. E quando os vizinhos souberam que Dulce estava cozinhando com a planta, a reação não foi das melhores.
“Falavam: ‘Tem uma doida no Canal do Jari que faz comida com vitória-régia.’ E aí vieram muitas críticas. As pessoas questionavam que horas eu ia morrer, diziam que eu não devia cozinhar com o que não conhecia, perguntavam se eu tinha estudado gastronomia ou nutrição.”
Dulce não se intimidou e continuou a criar suas receitas, chegando a um menu degustação com mais de 20 iguarias.
Em 2019, ela decidiu buscar uma validação científica para tirar o pé atrás das pessoas com o consumo da vitória-régia. Pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará ficaram encarregados dessa missão, entre eles a professora Rosa Helena Veras Mourão.
E sim, eles confirmaram o que Dulce já sabia: a vitória-régia é uma PANC, planta alimentícia não convencional. Azedinha, capuchinha, hibisco, peixinho, taioba e ora-pro-nóbis são algumas das mais conhecidas. Ou seja, a vitória-régia está em ótima companhia.

Degustação de iguarias no Jardim de Vitória-Régia.
Depois do “selo” da academia, ficou mais fácil a aceitação. Atualmente, Dulce oferece a degustação para os turistas de iguarias feitas a partir do caule, flores, folhas e sementes. A planta, segundo os estudos, é rica em fibras, proteínas, ferro, sais minerais e antioxidantes.
No dia da visita, Dulce serviu geleia, picles, batatinha-régia, tempurá e rabanada (feitos com o caule da planta) e pizza, brownie e quiche (de farinha da semente de vitória-régia). Esta repórter é vegana há alguns anos, provou e pode confirmar: o sabor é tão bom quanto o das receitas originais. Mais do que isso: é uma oportunidade pra gente de outras partes do país e do mundo experimentar algo com gostinho da Amazônia e se educar sobre a necessidade de preservar a natureza.
Além dos pratos servidos no dia da visita, Dulce também usa a vitória-régia para fazer conservas, pipoca (ela garante que estoura igual ao milho!), espaguete, paçoca, moqueca, salada de flores, tapioca, licor, bombons, pudim, gelatina e pão.
Com a escassez da planta causada pela seca, a produção para degustações atualmente é feita por meio de colaboração, com plantas doadas por vizinhos que ainda têm um ou outro exemplar. Toda a visita, incluindo as explicações (com direito à simpatia da anfitriã) e o menu degustação, custa 30 reais por adulto e 10 por criança.
Ainda em 2019, Dulce firmou uma parceria com os mesmos pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará para levar a divulgação sobre a gastronomia com vitória-régia ainda mais longe.
Os biólogos Claudio Monteiro, Rosa Mourão e Valéria Mora criaram a Deveras Amazônia, que produz alimentos usando os frutos e ervas da floresta e convidaram Dulce para colocar suas geleias e conservas de vitória-régia no mercado. São lotes especiais, sazonais e únicos, visando sempre a conservação da espécie.
É possível adquiri-los no espaço de Dulce, no site da marca ou em pontos de vendas parceiros. Em São Paulo, por exemplo, o produto pode ser encontrado na loja Flor de Jambu, na Rua Augusta.

Geleias e conservas de vitória-régia feitas por Dulce e vendidas para todo o Brasil na parceria com a Deveras Amazônia (foto: Deveras Amazônia/divulgação).
Na COP30, Dulce terá a oportunidade de apresentar para o mundo o seu trabalho, mas confessa que não está tão empolgada assim. “Particularmente, acho que são muitos gastos para pouca coisa que deve acontecer ali concretamente. Às vezes, a gente participa de eventos e descobre que foi lá só para fazer figuração.”
Ela elabora mais a crítica:
“Afinal, quantas COPs já teve e quais foram os resultados? Se o clima está como está hoje, ele já foi discutido outras vezes. O que foi acordado? E diante desses acordos, o que foi cumprido? Tudo isso é algo pra gente pensar e, juntos, pedirmos um pouco mais de respeito dos nossos funcionários — que as pessoas chamam de ‘governantes’, mas eu entendo como funcionários da população”
Independentemente do que acontecer na COP, Dulce vai seguir esbanjando dedicação e carinho ao seu trabalho e às suas “meninas”. Hoje, a meta é estar com 40% do seu jardim refeito até dezembro de 2025. E ela revela que tem um sonho:
“Gostaria de ver um produto meu em alguma creche pela quantidade de benefícios que a vitória-régia oferece… Se uma criança só tem oportunidade de provar enlatados e embutidos, com certeza crescerá sem experimentar algo diferente. Então, levar um prato natural para essas crianças seria maravilhoso.”
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