“A Laís que era atleta, ginasta e dava saltos mortais hoje faz tudo isso de forma diferente, buscando mais acessibilidade no dia a dia”

Geoffrey Scarmelote - 14 dez 2022
A ex-ginasta, palestrante (e agora, também pintora) Laís Souza.
Geoffrey Scarmelote - 14 dez 2022
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Laís Souza tinha apenas 15 anos quando participou dos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. “Menina dos olhos” do treinador ucraniano Oleg Ostapenko, a paulista de Ribeirão Preto havia ajudado a seleção brasileira a conquistar a inédita vaga por equipes um ano antes, no Mundial de Anaheim, nos EUA. 

Laureada em Jogos Pan-Americanos e em etapas da Copa do Mundo de ginástica artística, Laís chegou a Londres, em 2012, para aquela que seria a terceira Olimpíada da carreira. A duas semanas do início da competição, foi cortada após fraturar a mão direita. 

Após encerrar seu ciclo olímpico, a ginasta resolveu mudar de esporte e migrou para o esqui aéreo. Conquistou uma vaga para representar o Brasil nas Olimpíadas de Inverno de Sochi, em 2014. Mas um acidente durante os treinos, em janeiro daquele ano, a deixou entre a vida e a morte.

Laís perdeu os movimentos, mas não a vida. Tetraplégica, ela se reinventou como palestrante e influenciadora, e hoje faz apresentações para executivos de grandes empresas e organizações, como Unicef, Nike e Magazine Luiza, 

A seguir, Laís Souza – que completou 34 anos nesta última terça, 13 de dezembro – fala sobre sua jornada, perseverança, a alegria de viver e como os aprendizados do esporte a inspiram a superar obstáculos:

 

Em janeiro, seu acidente completará nove anos. Como você enxerga as mudanças que enfrentou?
É muito difícil enxergar literalmente o que está acontecendo com consciência.  

Vira e mexe me pego numa semana “pô, tá pesadão”; e depois, na outra, eu penso “caraca, eu evoluí nisso ou naquilo”… 

Então, se for olhar assim, dentro da minha tetraplegia. com a minha evolução profissional, acho que consegui dar passos grandes – e venho evoluindo como mulher também

Falta muito ainda para eu me descobrir, tirando a parte da paciência. Tive que trabalhar bastante para segurar as pontas, mas acho que foram nove anos do que eu chamaria de “aventura”. 

E nessa aventura, do que você mais se orgulha?
Da organização da minha vida em geral: desde coisas como manter minha casa organizada, minhas roupas limpas, comer de uma forma melhor, até mesmo gerir a minha empresa. 

Trabalho com quatro meninos e mais uma equipe que faz o meu marketing, uma equipe que faz a minha assessoria. Não é pouca gente. Nunca tive uma experiência assim. 

Sempre fui atleta e mandada pelo meu treinador. Nunca precisei passar mensagem para ninguém ou, de certa forma, ficar monitorando o profissional… Então, estou gostando disso, e acho que as coisas estão se alinhando 

No início, achei que só trabalharia com mulheres cuidadoras, por exemplo. Depois, percebi que meu perfil para conviver com aquela pessoa por tantas horas mudou. 

Percebi a questão da força [física] também, porque os meninos conseguem me pegar no colo, e isso me traz mais liberdade para ir à rua, para entrar no carro, para tudo.

Então, o perfil que encontrei hoje dos cuidadores que trabalham com a Laís Souza são homens e gays. E fiquei feliz de ter encontrado.

Aproveitando o gancho, você também representa a comunidade LGBTQIA+. Isso te parece uma responsabilidade dupla, ser uma pessoa com deficiência e LGBT?
Acho que não é só minha responsabilidade, sabe? É de todo mundo. 

Sou tetraplégica e não escolhi ser. Sou gay e não escolhi ser. Mas se estão acontecendo coisas que não deixam essas minorias felizes, por algum motivo a gente está gritando… então por que que ninguém está ouvindo? 

Sou uma pessoa que estou gritando aqui – e não diria [que estou levantando] bandeira, que estou à frente, não é por aí… Estou para somar, colocando a verdade à frente das minhas entrevistas. A minha palavra, enfim. 

É isso. Estou tentando somar e trazer consciência.

Você sempre precisou se superar, primeiro na ginástica, depois no esqui… Como seus aprendizados esportivos te ajudam a conectar com os objetivos nos negócios, enquanto palestrante?
Ah, em tudo. Tudo. Essa minha trajetória me formou.

A Laís que era atleta, a Laís que foi ginasta e fazia todos aqueles [saltos] mortais, de certa forma, continua fazendo ainda. Mas de uma forma diferente, buscando mais acessibilidade, mais praticidade para o meu dia, tentando deixar meu funcionário mais capacitado.

Muitas vezes os cuidadores e enfermeiros chegam para trabalhar com a pessoa com deficiência e não sabem como lidar com a pessoa, com a família da pessoa, como cuidar da vida de outra pessoa. Sinto que a maioria tem dificuldade. 

Então, isso fez parte da minha carreira lá atrás – e continua agora.

Hoje as empresas falam muito em ESG, diversidade, acessibilidade, inclusão… Pela sua experiência como palestrante, e olhando para o contexto corporativo do país, você vê isso mais como um marketing? Ou percebe, de fato, uma mudança concreta em relação a essas pautas?
É melhor a gente nem falar sobre isso… Tô brincando. Vou tentar falar do meu jeito. Muito sensível esse tema para responder rápido – mas não acho que é marketing. Seria até ignorância minha se eu falasse que é. 

Querendo ou não, é um passo grande. E a pandemia nos fez pensar e repensar muita coisa. Essa consciência de que eu estava falando lá no começo está fazendo a gente acordar 

As pessoas não estão aceitando mais qualquer coisa. Mas, ao mesmo tempo, ainda há uma venda que não deixa a gente enxergar tudo. Assim como responder essa pergunta (risos), foi bem difícil. 

Temos que simplesmente continuar lutando para que se tenha respeito. E é estranho falar disso, né? Pô, [precisar] pedir respeito para a pessoa… 

Mas, infelizmente, é [sobre] pedir respeito, é fazer com que ela entenda que não é todo mundo igual àquele padrão que ela vive.

Como são as suas palestras? Você tem um roteiro? Como você se prepara?
Eu tenho sim, eu mesma construo. Faço ali o meu textinho, as minhas anotações – e nunca faço uma fala igual a outra. Não fico preocupada em seguir um slide que vai estar todo igual. Muito pelo contrário. 

Até prefiro que seja uma fala para você. Vou sentar aqui contigo e falar de um jeito; com meu amigo, vou falar de outro. 

Então, acabo tentando entrar dentro das pessoas para entender o olhar delas, o que elas precisam para aquele momento, qual é a fala, aonde a gente vai chegar… 

Eu crio, eu gosto. Sem maldade, é como se fosse uma incorporação. Sento ali e falo, aí sinto as pessoas. Sinto a plateia, a emoção.

Você acha que consegue chegar no coração das pessoas em razão da sua sinceridade, ou por que você vai com um olhar um pouco mais empático?
Nenhuma dessas coisas. Na verdade, acho que é a minha posição. Quando eu caminhava, era atleta, estava lá no alto, de pé, olho no olho com as pessoas, o respeito delas parecia que era de igual pra igual. 

 A partir do momento em que me sentei em uma cadeira de rodas, parece que entendi melhor o que uma pessoa da pele preta passa, uma pessoa bem velhinha passa, uma pessoa com deficiência passa… 

Estou nessa posição, né? Acho que está tudo meio misturado. Essas linhas são interseccionais, está caminhando tudo junto. Tanto racismo, capacitismo, está junto, em nós, é cultural. 

Por isso, estou conseguindo enxergar um pouco melhor o lado perverso do ser humano. Entendi o fantasma que está por trás daquela pessoa.

Pegando o gancho do capacitismo, o preconceito contra pessoas com deficiência… Você convive com isso com frequência?
Sim, acontece sempre. 

Estou num hotel e estava lá na piscina trabalhando. E toda vez que eu passava para ir ao banheiro, uma mulher soltava um “ai, tadinha”. No que eu voltei, ela “ai, tadinha”… Passei quatro vezes e, nas quatro, ela falou

Então, isso é estranho… Por que se ela falasse “ai, tadinha, vou te dar uma cadeira nova!”, olha aí como seria diferente. Ou então “olha, vou deixar meu restaurante acessível”, seriam “outros quinhentos”.

Agora simplesmente você achar que é “tadinha” porque você olhou um corpo que não é padrão aos seus olhos, ou porque tem um pé um pouco torto, ou tem um respirador… Essas diferenças acontecem porque as pessoas não estudam, não sabem o que está rolando. 

E me incluo também, porque eu não sabia. Não sabia o que era tetraplegia até acontecer comigo. Então é chato, sim, quando acontece.

Então você atribuiria esse capacitismo à falta de conhecimento?
Com certeza. É uma falta de conhecimento, de olhar nas escolas e ver outras pessoas assim. De estar na minha escola e ver que tinha um cara cego, que tinha um cara surdo, e entender que existem pessoas com outra deficiência. Normalizaria.

Laís, e às vezes as pessoas sequer tem ideia do que você é capaz de fazer… Inclusive pintar com a boca, que você começou recentemente. Sempre gostou de arte? É um hobby novo?
Sim, eu acho que todo mundo que, sei lá, sofre um acidente ou simplesmente uma pessoa da família que acaba morrendo, não vai conseguir se adaptar dentro daquele mundo. Mas, no fim das contas, a gente se adapta. 

Com a pessoa com deficiência é da mesma forma. Poderia estar sem um braço que iria me adaptar. Em vez de usar a mão direita, usaria a esquerda. Se não tivesse a perna direita, usaria a esquerda. 

 Essa coisa de pintar já veio de criança. Já gostava de pintar na escola. Minhas aulas favoritas eram artes, ciências, biologia. E na pandemia simplesmente surgiu a vontade de fazer porque eu não estava indo para a rua, não estava sentindo a adrenalina da rua 

Normalmente eu pego o carro, ando por aí, escuto som alto ou vou viajar, fazer alguma coisa, e na pandemia a gente ficou em casa e foi onde eu fui começando a pintar.

E você pretende expor em galerias? Ou é algo mais para você mesma?
(Risos). Ainda não tenho certeza de como vai ser o futuro disso, mas tomara que dê certo! Se fosse possível algumas pessoas terem a minha arte, seria um prazer. Mas vamos ver como vai ser a produção.

E a sua rotina hoje, como está? Qual o seu momento favorito do dia e o que te deixa mais feliz?
Ah, no meu dia a dia sinto que continuo com aquela pegada de atleta, sabe? Por exemplo, se eu quero tomar um banho, vão aí duas horas e meia, três horas. Se eu quiser ficar arrumadíssima, maquiagem, cabelo, demora muito. 

Então, se o evento for às 9 horas, às 6h eu tenho que acordar no pique. Esse ritmo do dia não para. É um ritmo de atleta 

 Depois de tomar esse “banhão”, ficar limpinha, aí vou para o meu treino,o meu trabalho… No final do dia dou uma volta, vou para casa dos meus amigos. 

Normalmente tenho palestra, também, ou alguma entrevista. Na maioria das vezes acaba girando nisso. Tem viagem, às vezes uma publicidade que tenho que fazer. 

É um “ritminho” bom. Amo minha vida. Gosto de estar ativa

Acho que [o momento preferido] é o momento de lazer, estar conversando, comer, estar num bar…   

Quais são seus planos e projetos para o futuro?
Há algumas coisas, mas o que posso te falar agora é que quero trabalhar muito. 

 Estou buscando sempre estar na fila para qualquer oportunidade de poder voltar com os movimentos, seja um dedo, um braço… qualquer coisa 

Esse acaba sendo o meu objetivo. E também estar com a minha família, e estar na minha casa.

Você está construindo sua casa 100% adaptada?
Isso, em Ribeirão Preto. Lá, não vou ter nenhum problema com adaptação. Pelo menos ali eu vou ter tranquilidade e paz. Ainda vai mais um ano aí, pelo menos, para ficar pronta.

Há algum ponto que a gente não abordou que você gostaria de destacar?
A parte de me relacionar, também. 

 Namorar, ficar com outras pessoas… a minha vida continua normal. Eu beijo, tudo normal. Não mudou 

 Existe o capacitismo, óbvio. Mas há uma grande parte das pessoas que não tem [preconceito].

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