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A nossa arte-final é o próprio rascunho

Duda Scartezini - 27 ago 2026 Duda Scartezini, fundador da Casula
Duda Scartezini, fundador da Casula
Duda Scartezini - 27 ago 2026
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O Adriano, em seu artigo “Para onde estamos indo (com muita alegria) – e de onde viemos (com muito orgulho)”, contou a história do Draft de sua criação até aqui. É uma honra me juntar a ele e a todos que colaboraram na escrita, literalmente, dessa história incrível. E, honrando esse legado, eu quero falar de onde partimos para pensar o futuro do Novo Draft.

Quero começar pelo significado de Draft, porque acho que ele diz muito sobre o propósito do nosso projeto — sobre a ambição, e não sobre o fim de um processo de criação.

Na arte, pode até existir o momento “Parla!” que Michelangelo deve ter sentido ao terminar a escultura de Moisés. Exultante com a perfeição da sua obra, teria ordenado que ela falasse. Mas, na maioria das atividades humanas, o “pronto” nunca chega. O que existe é a busca. Contínua, incessante, inalcançável. Quando o amanhã vira hoje, lá está o amanhã de novo, teimando em não chegar

Rascunho, no Draft, significa que ainda há muito trabalho a fazer. Significa que o que queremos alcançar ainda não chegou. É o desenho que sabe que ainda vai mudar e que, por isso mesmo, pode ser corajoso, pode arriscar, pode tentar o que a versão definitiva não ousaria. Afinal, Michelangelo não arriscaria uma última marteladinha em seu Moisés…

Doze anos depois, seguimos ambicionando construir o Draft como uma obra aberta — uma empresa capaz de espelhar o seu tempo e ajudar a moldar o futuro.

PRÉDIO “INOVADOR”, ARQUITETURA RUIM

No começo dos anos 90, quando eu estudava arquitetura, lembro de uma matéria que discutia “a crise dialética da arquitetura”. O diagnóstico era o seguinte: os novos (e inovadores) materiais disponíveis (o vidro estrutural, o alucobond, as peles espelhadas) de repente viraram o centro. 

Prédios que eram caixotes, sem nenhuma qualidade arquitetônica, conquistaram premiação porque estavam vestidos com a novidade. A promessa de bem-estar e felicidade da arquitetura, muitas vezes, virava uma miragem refletida em todo aquele espelhamento 

O material tinha deixado de ser meio e virado fim. E quando essa inversão acontece, o resultado não é duradouro. Aliás, passado o tempo, costuma virar constrangimento.

O FIM E O MEIO

Em algum momento, a inovação passou a ser tratada como sinônimo de coisa necessariamente boa, e a tecnologia, como sinônimo de inovação. 

O publicitário José Renato Autilio fala sobre isso, num artigo recente: “O mercado se acostumou a confundir novidade com relevância. E são coisas completamente diferentes. Novidade chama atenção. Relevância transforma comportamento”. E ele escreve algo que eu gostaria de ter formulado: sem inteligência estratégica, sensibilidade humana e clareza de propósito, a tecnologia não potencializa valor, “apenas escala a mediocridade em alta velocidade”.

É o caixote com pele de vidro, de novo.

Não é uma crítica à tecnologia, e não é nostalgia. Eu acredito profundamente no poder da inovação para resolver problemas sociais reais; dedico minha atividade profissional a isso. 

O que envelheceu mal não foi a inovação. Foi a inovação tratada como fim em si mesma, como se o simples fato de algo ser inovador já bastasse para que fosse bom — e para o bem 

(O Adriano Silva listou, em seu artigo, exemplos de “inovações” que nos levaram a lugares sombrios.) 

O Draft nasceu nesse contexto. E aqui está o ponto que interessa: o Draft não envelheceu mal como algumas “inovações” de quando ele foi criado. Porque o que ele sempre fez de melhor não foi cobrir inovação — foi contar a história de quem estava por trás dela, e perguntar para que servia. E isso não envelhece nunca.

O QUE MUDA AGORA

Então o Draft, a partir daqui, com a chegada da Casula, aprofundará os compromissos fundamentais que o trouxeram até aqui.

O coração continua o mesmo: empreendedorismo e inovação. A alma também: a capacidade de contar boas histórias e inspirar pessoas, que é, no fim das contas, o que faz alguém mudar de ideia ou de atitude.

A isso, estamos adicionando uma premissa inegociável. Não dá mais para falar de inovação sem falar de para onde ela nos leva. O Draft passa a existir a serviço de uma agenda explícita: a transição para uma economia regenerativa, socialmente justa e ambientalmente viável — e das pessoas e comunidades que estão lutando por isso, muitas vezes sem que ninguém esteja olhando

Isso amplia a importância do Draft. Porque essa pauta não é setorial: ela atravessa todas as indústrias, todas as cadeias, todas as decisões de negócio que serão tomadas nas próximas décadas. É transversal porque é existencial.

A CASULA

Aqui eu talvez devesse me apresentar, mas acho mais produtivo apresentar a Casula, já que ela sintetiza o jeito de pensar e fazer negócios que desenvolvi em mais de 35 anos empreendendo.

A Casula parte do princípio de que um negócio é uma tecnologia social. Uma forma universalmente compreensível de organizar relações humanas com incentivos, contratos e consequências, capaz de mobilizar recursos e talentos com uma eficiência que poucas criações humanas alcançam. E, como toda tecnologia, é meio, e não fim

Em vez de servir apenas para gerar lucro e concentrar riqueza, acreditamos que essa tecnologia pode, e deve, ser usada para resolver problemas sociais e ambientais. O compromisso com essa utilização precisa ser intencional e inegociável para acionistas e empreendedores, e a estrutura de governança de cada iniciativa precisa estar orientada para sustentá-lo. Intencionalidade, propósito, eficiência e governança. Sem isso, é só discurso.

Antes de entrar em qualquer negócio, olhamos para quatro coisas: se pode ser um bom negócio, se é um negócio “do bem”, se tem sinergia com o nosso ecossistema e se temos condição de ser bons sócios. 

A Casula não pensa como investidora, aceleradora ou incubadora, porque estamos do mesmo lado do empreendedor — essa é a nossa natureza. Cocriamos negócios sociais e de impacto junto com empreendedores incríveis, sempre em sinergia e simbiose com nosso ecossistema

É nesse contexto que enxergamos a importância de cocriar um canal de comunicação 100% orientado a impacto social positivo. E é nesse contexto que nos juntamos ao Draft.

POR QUE PRECISAMOS DE UM CANAL NOSSO

Quando olhamos para as disputas por espaço, pela atenção e pelo controle de narrativas, uma constatação se impõe: toda pauta que virou agenda construiu ou comprou um canal próprio de comunicação. O agronegócio fez isso, e fez bem feito. Associou-se à cultura popular, ocupou o horário nobre e conquistou um lugar de centralidade que quase nenhum outro setor da economia tem. 

O mercado financeiro comprou veículos inteiros, e hoje os canais que ele controla são a fonte de onde a imprensa não especializada tira o que publica sobre economia. Correntes políticas de todos os espectros, sem exceção, construíram infraestrutura própria de produção e distribuição em vez de disputar espaço na mídia generalista.

Ou seja: quem quer que sua pauta vire agenda constrói canais próprios.

A economia de impacto, que precisa disso talvez mais do que qualquer outro campo, ainda não tem esse canal. Existem iniciativas nobres e relevantes, mas dispersas, quase todas lutando ao mesmo tempo pela relevância e pela sobrevivência 

Nenhuma consegue ser o lugar de onde a agenda se irradia com constância, consistência e relevância, tanto para quem já está comprometido com a agenda quanto para quem ainda não está. E também para as outras mídias, que precisam de uma fonte confiável quando o assunto aparece na pauta delas.

É esse lugar que queremos construir.

DESAFIADOR, MAS NECESSÁRIO

Não tenho ilusão sobre o tamanho do desafio. Sei que soa, digamos, ousado, propor uma empresa baseada em conteúdo num ambiente em ebulição, com as plataformas e os algoritmos redefinindo onde a influência acontece, com a creators economy desafiando as mídias tradicionais, com a produção de conteúdo radicalmente descentralizada e com a própria busca por informação sendo reescrita pela inteligência artificial. Ainda mais ousado num momento em que o jornalismo digital ainda luta para se pagar.

Mas preciso dizer uma coisa: várias das iniciativas que propusemos anos atrás pareciam ousadas demais. E hoje estão sólidas. O principal motivo para isso é que não nasceram sozinhas. Não foram jogadas em mar aberto. Nutrimos — ou “casulamos”, como usamos internamente — esses negócios em um ambiente de colaboração, paciência, persistência, propósito e boa governança. 

E é por aí que queremos construir o novo Draft. Com mais colaboração do que competição, com mecanismos reais de compartilhamento de valor com quem cria, com gestão descentralizada, com propósito como critério de decisão e não como discurso, com governança que alinhe os incentivos de todos que participam

Seria impossível fazermos isso sozinhos — nem queremos. Um canal que serve ao ecossistema inteiro só se sustenta apoiado por esse mesmo ecossistema. Esse é o nosso real desafio: mobilizar, engajar, convencer e buscar recursos dentro do próprio ecossistema de impacto para essa construção.

O CONVITE

Na produção gráfica, arte-final é a versão que vai para a impressão: a que sai da mesa e ganha o mundo. É o destino de todo rascunho. Só que o mundo que a gente quer construir não tem versão final. Ele vai continuar sendo corrigido, revisado e redesenhado por muita gente, por muito tempo depois de nós. 

Talvez o nosso trabalho não seja terminar o desenho… E sim fazer com que este rascunho, o nosso, chegue perto o bastante do que precisa ser para convencer mais gente a continuar desenhando.

Se você lidera uma causa, um negócio que se importa, um instituto ou uma fundação, e sente que a sua agenda merece muito mais espaço do que consegue ocupar: vamos juntos. Se você investe em impacto e já entendeu que capital, sozinho, não constrói mercado: vamos juntos 

Se você cria conteúdo e quer que a sua audiência vire comunidade, e que a comunidade vire algum produto ou serviço: vamos juntos. Se você tem uma história que o mundo precisa conhecer: vamos juntos — isso é literalmente o que fazemos há doze anos.

E seguiremos rascunhando, aprimorando, desejando desenhar o novo. Que venham os próximos traços.

 

Duda Scartezini é fundador da Casula — holding dedicada a negócios de impacto positivo e à transição para uma economia regenerativa — e cocriador do novo Draft.

 

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