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O Projeto Draft, que por mais de uma década tem se dedicado a cobrir o melhor do empreendedorismo e da disrupção no Brasil, chegou a uma conclusão: não dá mais para falar de inovação, no país, sem falar em impacto positivo. Não dá mais para falar em Nova Economia sem falar em inclusão. Não dá mais para falar em novo capitalismo brasileiro se ele não for regenerativo.
Para avançar na construção desse futuro, o Draft encontrou na holding Casula um ótimo sócio.
Duda Scartezini, à frente da Casula, dedica-se há muitos anos a construir o mesmo mundo que nós. Temos a mesma visão acerca do papel que queremos assumir na transformação do país – e no aprimoramento do capitalismo que praticamos por aqui.
Com a abertura inédita do seu capital, e a chegada do primeiro sócio, o Draft, que até esse momento, no seu próprio critério de classificação, era considerado um “negócio criativo”, passa a atuar primordialmente como um “negócio de impacto”.
Até aqui, o Draft foi um grupo de talentos empenhado em construir um negócio a partir da sua vocação. A partir de agora, o Draft passa a representar um grupo mais amplo de empreendedores e de empreendimentos trabalhando de modo alinhado pela transformação do mundo dos negócios num lugar melhor e mais justo, mais diverso e mais pujante.
Como você sabe, estreamos o Draft em agosto de 2014.
Com uma proposta de valor bem definida: construir uma plataforma digital de jornalismo de negócios 100% dedicada a cobrir a expansão da Nova Economia no Brasil.
É com muita alegria que estamos completando doze anos de vida.
Nosso trabalho tem sido garimpar as iniciativas mais inovadoras e esquadrinhar os/as empreendedores/as mais inspiradores/as entre os negócios pós-industriais brasileiros.
Como resultado, o Draft se transformou num mapa da disrupção no país – o melhor da economia criativa, dos negócios de impacto social, dos negócios de escala e da inovação corporativa no país.
A estreia do Draft coincidiu com a digitalização do mundo. A revolução tecnológica aterrissava de vez na vida real, e no mundo dos negócios, com a promessa de que tudo seria possível: trocaríamos a lógica da escassez pela da abundância; todos teríamos a chance de, com uma boa ideia bem executada, resolver um problema e escalar essa solução para milhares de pessoas.
As barreiras de entrada nunca haviam sido tão baixas, as ferramentas nunca tinham estado tão acessíveis e o capital no Brasil nunca estivera tão disponível para o investimento em novos negócios
Ao mesmo tempo, o Draft floresceu no que podemos considerar uma década perdida no Brasil – em 2013, depois de anos de confiança no país, a economia brasileira começou a esfriar. A atividade foi desacelerando, mês a mês, ao longo de mais de dois anos, até fechar 2015 afundada na recessão: -3,5%. Em 2016, outro encolhimento brutal: -3,3%.
Entre 2017 e 2019 tivemos um crescimento anual pífio, ao redor de 1%. Aí veio a pandemia e em 2020 tivemos mais uma retração violenta: -4,1%. Nesse período turbulento, em que enfrentamos doença letal, crise econômica e desvario político, chegamos a ter uma taxa de inflação acima de 10% em 2015 e uma desvalorização de 54% do real frente ao dólar entre 2013 e 2023.
Portanto, as mais de 3 500 empresas brasileiras que perfilamos no Draft desde 2014 são, antes que tudo, exemplos de resiliência diante das adversidades, e de crença no potencial realizador de homens e mulheres que não apenas desafiaram esse cenário hostil – mas contribuíram, com sua capacidade criativa, para revertê-lo.
Nesses primeiros doze anos do Draft, testemunhamos avanços importantes, no Brasil e no mundo.
Quase todas as indústrias foram de algum modo hackeadas pela inovação. Da gastronomia ao sistema bancário, das lojas físicas ao aluguel de imóveis, dos meios de comunicação à agricultura, da educação aos cosméticos. O Draft estava lá acompanhando de perto os movimentos dos novos entrantes em seu desafio aos líderes estabelecidos
Ao longo do caminho, o Draft se ocupou de registrar e explicar todos os conceitos e tendências da Nova Economia: de lean startup a microcrédito, de growth hacking a PechaKucha, de Teoria U a makerspace, de métodos ágeis a effectuation, da singularidade à exponencialidade, do mundo VUCA ao mundo BANI – não por acaso, um dos três livros que publicamos pelo selo Draft Books é precisamente Dicionário de Inovação, com o melhor da nossa seção “Verbete Draft”.
Desde que lançamos o Draft, o mundo do trabalho parece ter se tornado um lugar menos afeito ao assédio moral e à atuação de chefes brutais, e mais propício ao desenvolvimento da carreira como um empreendimento, e com um significado que possa transcender o mero holerite. Parece haver hoje um reconhecimento maior da importância de as pessoas terem uma vida plena fora do escritório. Estamos falando mais abertamente sobre temas como saúde mental e burnout.
Parece também que conseguimos avançar um pouco nas questões de gênero, raça e orientação sexual. E que estamos, de modo geral, menos machistas, menos racistas e menos homofóbicos do que na década passada.
(Ou, ao menos, parece estar mais claro, para muitos de nós, o quanto precisamos nos tornar mais feministas, mais antirracistas e mais ativos na desconstrução da heteronormatividade como um axioma em nossas vidas. E tornar isso uma prática, e não apenas um ideal.)
Ainda há muito a conquistar em termos de direitos civis e de liberdades individuais. Ainda falta avançar um bocado na consolidação do país como um lugar em que as pessoas se sintam de fato incluídas, com a certeza de que seus direitos serão garantidos, independente das suas escolhas pessoais
Ainda precisamos espalhar e sedimentar a compreensão de que as diferenças são bem-vindas e de que a diversidade nos torna, em conjunto, muito mais fortes e interessantes. E, da mesma forma, avançar na transformação do ambiente de trabalho num lugar menos tóxico e menos neurótico.
Ainda assim, parece que o mundo, entre idas e vindas, caminhou para frente.
Ao lado disso, várias das promessas que nos entusiasmavam quando fundamos o Draft involuíram. Ou se revelaram enganos.
Em termos gerais, precisamente como uma reação aos avanços que ocorreram, vimos crescer no Brasil e no mundo uma onda conservadora tenebrosa.
O ambiente ficou mais hostil e a conversa ficou mais burra. Vários dos pilares de uma sociedade moderna, democrática e liberal, que soavam como conquistas estabelecidas, foram colocados em xeque. Discursos de ódio, ações violentas, condutas autocráticas e ideações deliberadamente mentirosas emergiram das sombras – e foram recebidos com muitos aplausos entusiasmados.
Em termos específicos, houve também algumas decepções. Doze anos atrás, a gig economy era celebrada pelos seus aspectos positivos, como a possibilidade de cada indivíduo se conectar ao mercado como uma empresa – ainda não enxergávamos o modelo de negócios com frequência baseado na exploração do trabalho precarizado
Mark Zuckerberg era só um menino simpático e esquisitão. O Facebook, que há pouco se estabelecera como a principal rede social, trazia todo mundo para o ambiente digital, aproximava as pessoas, tornava as conversas mais divertidas.
O Whatsapp era apenas uma ferramenta eficaz de comunicação entre os indivíduos. Ainda não tinha sido usado para a reverberação infinita de inverdades e teorias conspiratórias.
O Twitter era só um passarinho azul e indie que servia para as pessoas trocarem informações e análises em tempo real. Um espaço democrático para o debate inteligente e desintermediado.
E o Instagram e o Tik Tok ainda não tinham estabelecido a hegemonia do vídeo sobre o texto, e da mensagem curtíssima como a única possibilidade de conversa entre seres humanos.
Não imaginávamos a tremenda falta que nos faria o bom jornalismo: notícias checadas profissionalmente, com método, junto a fontes confiáveis, e publicadas com critério, em canais sérios e independentes, curados com responsabilidade.
Não supúnhamos que tanta informação, com virtualmente todo mundo produzindo e reproduzindo conteúdo, nos traria tanta desinformação.
Como resultado, fomos perdendo a noção da diferença entre verdade e mentira, entre fato e opinião, entre informação confiável e aquilo que é apenas narrativa falsa, oriunda de ignorância ou a serviço da manipulação. De um lado, passamos a acreditar em tudo; nos tornamos crédulos e ingênuos. De outro, passamos a duvidar de fatos históricos e verdades científicas
Elon Musk trazia a promessa de popularização dos carros elétricos com a Tesla – e era o mais ousado e bem-sucedido dos empreendedores da New Economy; o herói que salvaria o planeta acelerando o uso sustentável de energia limpa, e disseminando o jeito de pensar dos negócios pós-industriais.
Não imaginávamos que Zuck e Elon se transformariam em vilões. Eles nos provaram que não existe bilionário inocente – que inocentes éramos nós ao não percebermos que a própria existência de bilionários é uma anomalia do sistema, tão antiga quanto a avareza humana; uma ineficiência que a Nova Economia não conseguiu resolver.
No começo da década passada, o capitalismo parecia apresentar, em especial aqui no Brasil, e talvez pela primeira vez na história, uma face menos cínica e truculenta, cuja promessa era conjugar ambição pessoal com bem-estar coletivo.
A iniciativa privada, de um lado, funcionava como um motor para a realização individual, para a geração de riqueza, para os ganhos de eficiência e produtividade. De outro lado, havia a ideia de que as empresas da Nova Economia pudessem agir de modo menos egoísta e predatório, com mais transparência, construindo relações sustentáveis com as comunidades ao seu redor, preservando (e regenerando) o ambiente, e funcionando como agentes de produção e distribuição de satisfação e oportunidades entre as pessoas.
Pela janela do Draft, vimos a realidade se revelar um tanto mais árida. A conversa de trabalho com propósito se resumiu, para muitos, a enfiar dinheiro no bolso
Acompanhamos o surgimento do empreendedorismo de palco – que em determinado momento chegou a ganhar timbres messiânicos e se transformar numa espécie de “culto neopentecostal do startupismo”.
Registramos também, estupefatos, a aparição do empreendedorismo de ultradireita, buscando aplicar um verniz de inovação e modernidade ao mais selvagem e tacanho modelo de capitalismo feudal.
Por esse prisma, o mundo piorou nessa última década.
Por tudo isso, gostaria de afirmar: o Draft tem hoje um papel ainda mais importante do que tinha em 2014.
Por conta das conquistas que precisamos garantir, e dos retrocessos que precisamos reverter, e pelo projeto de desenvolvermos no Brasil um outro capitalismo – mais humano, mais compassivo e mais responsável –, o Draft faz mais sentido hoje do que há doze anos
O Draft continua acreditando na inovação e no empreendedorismo como ferramentas poderosas para a construção e o compartilhamento de bem-estar humano.
E no poder da iniciativa privada para espalhar (e não concentrar) conforto, prosperidade e felicidade entre as pessoas.
Acreditamos na engenhosidade e na força transformadora dos/as realizadores/as para resolver problemas e tornar a vida melhor para todo mundo.
Com esses princípios, o Draft continuará fazendo o seu trabalho: dar visibilidade a quem está fazendo coisas incríveis – e, com isso, inspirar muitas outras pessoas a fazerem coisas incríveis também, em suas carreiras e em suas vidas.
Tudo isso por meio da nossa competência central – o bom jornalismo, a excelência editorial, a curadoria rigorosa, a narrativa bem construída – sem proselitismos nem embelezamentos de nenhuma natureza.
Se você comunga desses valores, cai dentro.
Seja você um/a seguidor/a do Draft há anos ou um/a leitor/a que nos descobriu ontem. Seja você um/a parceiro/a comercial antigo/a ou uma marca em cujo radar o Draft entrou recentemente. Seja você um/a candidato/a a protagonizar uma das nossas histórias ou a patrocinar um dos nossos canais.
Eis o nosso convite, renovado: vem com a gente. Temos muito a fazer – juntos.
Com a chegada da Casula, viro sócio minoritário da empresa que fundei. O Draft passa a ser administrado por Duda Scartezini.
Aproveito esse momento para fazer alguns agradecimentos.
A Phydia de Athayde, que tirou o Draft do papel junto comigo e deu enorme contribuição à construção da plataforma, sua linha editorial e seu tom de voz, ao longo dos anos em que atuou como nossa editora-chefe.
A Bruno Leuzinger e Dani Rosolen, que se tornam sócios do Draft com a chegada da Casula, e que conduzem o Draft editorialmente, com apuro e dedicação, há anos.
A todos os repórteres que escreveram para o Draft ao longo do tempo.
Aos talentos não-editoriais que vestiram a camisa do Draft – em frentes como negócios, tecnologia e design.
A todos/as os/as parceiros/as comerciais que apostaram em nosso trabalho e contribuíram para que o Draft tenha se mantido ativo e relevante ao longo desses anos.
A todos os empreendedores e empreendedoras perfilados/as no Draft – obrigado por compartilharem suas histórias conosco.
A todos os/as leitores/as e seguidores/as – nossos queridos “Drafters” – a quem sempre buscamos informar e inspirar da melhor forma possível.
Muito obrigado por tudo. Sigamos juntos/as. Tem muito mais vindo por aí.
Adriano Silva, 55, é escritor, jornalista e fundador do Projeto Draft. É autor de onze livros, entre eles O dia em que Eva decidiu morrer — Uma reflexão sobre autodeterminação e direitos de fim de vida, a série O Executivo Sincero, Treze Meses Dentro da TV, A República dos Editores e Por Conta Própria: do desemprego ao empreendedorismo.
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