Dá para melhorar o mundo fabricando cerveja? A Praya acha que sim, e acaba de virar a primeira cerveja carbono neutro do país

Bruno Leuzinger - 2 mar 2021
Os sócios fundadores da Praya (a partir da esq.): Tunico Almeida, Duda Gaspar, Paulo de Castro (ou Zeh Pretim) e Marcos Sifu.
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De Paraty, onde passa a quarentena, Paulo de Castro pede desculpas pelo atraso na entrevista via Google Meets. O motivo? Ele estava ocupado fazendo um vídeo em stop-motion e perdeu a noção do tempo.

“Vamos fazer uma ação em março com o Makro: para cada unidade vendida, nós vamos plantar uma árvore e o Makro, outra. Como eu também sou designer, estou fazendo um filme de animação que vai ao ar amanhã. Está ficando legal, mas o processo é chatinho, tem que pintar quadro a quadro, então quase perdi a hora…”

Também conhecido como Zeh Pretim, seu nome artístico (com o qual ataca de DJ), Paulo, 40, é um dos sócios fundadores da Praya, que acaba de se anunciar como a primeira cerveja carbono neutro do Brasil. 

A neutralização da pegada de carbono veio durante a busca pela certificação do Sistema B, que atesta empresas que desempenham sua atividade respeitando a comunidade (do time aos fornecedores) e o meio ambiente.

A RECEITA ORIGINAL DA CERVEJA ESCAPOU POR UM TRIZ DE SER JOGADA FORA

À frente da Praya está um quarteto de amigos. Paulo (ou Zeh), Tunico Almeida, Duda Gaspar e Marcos Sifu, o surfista que criou a fórmula.

A história é engraçada. Depois de uma viagem à Califórnia, em 2013, Sifu se encantou pelas cervejas artesanais. Resolveu aprender a produzir a sua. “E quando a galera experimentou… A cerveja estava horrorosa, intragável!”, ri Paulo. 

Por um acaso, Sifu não jogou a cerveja fora. Dali a 15 dias, outro amigo se aventurou a provar. 

“O cara bebeu e falou: pô, a cerveja está boa pra caceta! E aí o Sifu se tocou que tinha esquecido um processo básico: a maturação. Ele tinha dado a cerveja para todo mundo beber sem esperar ela maturar…”

O surfista foi testando outras receitas, mas o pessoal sempre falava que aquela primeira era melhor… Foi assim, aprimorando a fórmula original, que chegou à receita da Praya. 

Hoje, o único rótulo da marca é uma witbier, estilo de origem belga, à base de trigo (em vez de cevada), que costuma levar laranja e sementes de coentro na receita.

ATRÁS DE UMA CERVEJA PARA OS EVENTOS, ELE DECIDIU TURBINAR A DOS AMIGOS

Paulo, aka DJ Zeh Pretim, é o ponto de ligação entre os fundadores.

No começo dos anos 2000, produzia vídeos de surfe, foi assim que conheceu Sifu. Depois, no meio daquela década, montou uma agência de design, que teve Duda como estagiário e mais tarde, sócio. Foi Duda que criou o rótulo e a logomarca da Praya.

Tunico, por sua vez, foi sócio de Paulo em outros negócios, bar, restaurante, até barraca de praia, além da produção de eventos.

“Ele sempre colocava uma pulga atrás da minha orelha: por mais que a gente tenha patrocínio de outras cervejas, a gente precisa ter a nossa própria…. Daí eu lembrei do Sifu e do Duda, e falei: vamos turbinar o negócio dos caras, que estava bem [num esquema de] fundo de quintal”

Foi assim que os quatro se uniram e lançaram a Praya oficialmente em janeiro de 2016, em pleno verão.

A DISTRIBUIÇÃO E O BOCA A BOCA AJUDARAM A ALAVANCAR A CERVEJA

Naquela época, lembra Paulo, o hype das cervejas artesanais parecia estar no auge. 

“Todo bar e restaurante queria ter uma cerveja artesanal [no cardápio]… Mas era difícil você ter uma com constância de entrega…”

Essa logística foi resolvida com o apoio do dono de uma distribuidora no Rio, que já era parceiro de Paulo e Tunico nos eventos produzidos pela dupla e topou distribuir a nova cerveja.

“Isso fez com que a gente já largasse com uma distribuição bem profissional. O cara do restaurante ligava e no dia seguinte, até as 17 horas, a cerveja estava lá no restaurante dele… Assim, com o boca a boca, fomos crescendo muito rápido: era uma cerveja independente, com qualidade e entrega garantida”

Sobre a qualidade, mesmo usando estrutura de outra empresa (no modelo de cervejaria cigana, em que a marca aluga o espaço e o serviço de uma indústria), eles resolveram investir em um tanque próprio, para ter controle total da produção.

“COLOCAR A NOSSA LOGO NUM COPO DE PLÁSTICO ERA DE DOER O CORAÇÃO…”

A Praya foi ganhando corpo. Um cuidado foi trabalhar a comunicação (a cargo de Zeh Pretim) para criar uma marca que nada tivesse a ver com estereótipos apelativos que volta e meia ainda davam as caras na publicidade de cerveja.

“Fizemos uma parceria com a Farm [um rótulo comemorativo dos 20 anos da marca de moda feminina] para quebrar esse mito de que cerveja artesanal era ‘cerveja de homem’, para paladares fortes…”, diz Paulo. “Nossa cerveja é leve e refrescante. Hoje, as mulheres são 45% do nosso público nas mídias sociais.”

Em paralelo, os sócios traçavam mudanças de olho na sustentabilidade. No primeiro ano, os copos de plástico usados para degustação em eventos foram substituídos.

“Cada vez que a gente colocava a nossa logo num copo plástico, era de doer o coração… Decidimos fazer os copos de papel biodegradável. Foi [uma decisão] difícil: a diferença entre um copo de plástico e um de papel biodegradável é de pelo menos 30 vezes o valor…”

O plástico também deu lugar ao papel nos rótulos da marca. Enquanto isso, medidas internas ajudavam a consolidar uma cultura corporativa mais arejada.

“Desenvolvemos um manual de boas práticas, um guia de conduta…”, diz Paulo. “Criamos uma intranet para deixar nosso quadro de colaboradores mais transparente quanto à distribuição de gênero e raça.”

PRODUZIDA NO PARANÁ, A CERVEJA PASSA POR 12 TESTES LABORATORIAIS

Com o crescimento ao longo dos anos, a Praya foi migrando para fábricas maiores. Há dois anos, a cerveja de DNA carioca é produzida no interior do Paraná, na INAB, em Toledo, que fabrica também rótulos próprios.

Foi preciso, diz Paulo, desfazer a ideia de que, ao ser produzida em uma indústria maior, a cerveja poderia perder sua autenticidade — e qualidade.

“Esse é outro mito que a gente luta para quebrar: ‘ah, a cerveja cresceu, não é mais a mesma coisa…’ Pelo contrário: em uma fábrica maior — principalmente uma como a INAB, que tem laboratórios para certificar os parâmetros de como a cerveja foi pensada lá atrás — você garante a qualidade do produto…”

Segundo o sócio, cada lote de Praya é submetido a 12 testes laboratoriais para atestar que a cerveja está sendo produzida conforme a fórmula original, sem aditivos químicos.

NA PRIMEIRA TENTATIVA, ELES NÃO CONSEGUIRAM A CERTIFICAÇÃO

Há coisa de uns três anos, Paulo ouviu falar pela primeira vez no Sistema B.

A Praya já vinha numa pegada de abrir os olhos para a sustentabilidade. E decidiu então buscar a certificação, notoriamente difícil. 

Era preciso comprovar um alto padrão de governança e respeito nas relações com a comunidade (incluindo clientes, colaboradores e fornecedores) e o meio ambiente. Na primeira tentativa de virar empresa B, a Praya… “morreu na praia”:

“Lá em 2019, quando fizemos a primeira aplicação [inscrição], fizemos um cálculo de emissão de carbono meio que ‘na galega’ [no improviso], vendo quanto cada um gastava de condução para chegar no trabalho”, diz Paulo.

Os sócios entenderam que precisavam de apoio profissional. Assim, acionaram a WayCarbon, que mapeia as emissões de gases do efeito estufa em toda cadeia produtiva e traz possibilidades de compensação da pegada de carbono. 

A CERVEJARIA MAPEOU E NEUTRALIZOU SUA PEGADA DE CARBONO

Em 2020, segundo as contas da WayCarbon, a Praya emitiu 1 366 tCO2e (gases de efeito estufa). O cálculo considera desde a fabricação e o transporte até a reciclagem (ou não) das latas e garrafas e a energia consumida pelos clientes para gelar a cerveja. Segundo Paulo:

“Fizemos a mensuração de tudo que consumimos em 2020 e espelhamos isso para 2021 com um aumento de 30%, o que a gente espera crescer este ano. E firmamos o compromisso público de, nos próximos cinco anos, fazer anualmente essa compensação de carbono”

Em 2021, a perspectiva é emitir 1 650 tCO2e. A Praya, porém, já compensou a emissão deste e do ano passado, apoiando um projeto junto ao Aterro Bandeirantes (um dos maiores aterros sanitários do país, ao norte da capital paulista) de reversão dos gases em energia elétrica gerada por meio de combustíveis fósseis.

HOJE, A PRAYA DESENVOLVE AÇÕES COM ONGS PARCEIRAS

A compensação da pegada de carbono se somou ajustes na relação com os colaboradores — como, por exemplo, a equiparação da licença-paternidade ao mesmo tempo de afastamento previsto para as mães.

Alguns desafios persistiam no caminho da sustentabilidade.

“Nosso fardo de lata ainda é feito com filme plástico, porque nossa fábrica não tem a máquina para encaixotar em papelão… Então, pensamos: putz, como podemos fazer para compensar isso? Daí, procuramos o pessoal do Eureciclo, uma alternativa de política reversa para pequenas empresas” 

O selo da Eureciclo certifica empresas que destinam recursos para o desenvolvimento e a operação das cooperativas de reciclagem. E, na segunda tentativa, a Praya conquistou também a sonhada certificação do Sistema B.

Todo esse processo, diz Paulo, despertou os sócios para  a importância de se aproximarem de ONGs. Uma delas é a Sea Shepherd. “Doamos parte do nosso orçamento para ajudar a viabilizar o projeto Ondas Limpas, que visa erradicar o lixo nos oceanos.”

Outra parceria se dá com o Instituto Vida Livre, de reabilitação de animais silvestres. Fizemos a doação de 50% da venda da nossa latinha por meio da nossa loja virtual… E, em 2021, teremos novidades!”

NA PANDEMIA, A CERVEJA AMPLIOU SUA PRESENÇA NOS SUPERMERCADOS

Desde a chegada da Covid-19, o time da Praya trabalha em home office (antes, a equipe ocupava um escritório na Gávea, Zona Sul do Rio).

Logo de cara, claro, foi um baque. “Em março, quando [a pandemia] começou, as vendas derreteram, aquele caos…”, diz Paulo. A gente só tinha uma certeza: não podemos demitir ninguém, está todo mundo junto, vamos sobreviver a isso.”

Além de segurar a equipe, a Praya se dedicou a abrir novos canais, lançando uma loja virtual e ampliando a presença nos supermercados. 

“Muitos bares e restaurantes são patrocinados, têm exclusividade com outras marcas… Com o fechamento deles, as pessoas foram para o supermercado, onde podem escolher o que querem. E a resposta foi muito boa: vimos que quando o consumidor pode escolher, ele escolhe a nossa marca”

A Praya tem distribuição própria nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná, mas já chega a praticamente todo o país, levada por redes de varejo e atacado como GPA, Americanas, Big, Oba, Makro e Zona Sul.

O FOCO AGORA É AMPLIAR A EQUIPE DE OLHO NA DIVERSIDADE

Com esse movimento, a cerveja conseguiu superar os desafios pandêmicos e alavancar os resultados. Paulo diz que a Praya cresceu 52% em 2020.

“Fechamos o ano quase batendo a mesma meta que tínhamos traçado para o mesmo período sem Covid”, diz Paulo. “E em fevereiro [de 2021], já dobramos o faturamento frente a fevereiro [do ano] passado.”

Outra meta, agora, é ampliar o time de olho na diversidade: a Praya estabeleceu que pelo menos 50% dos novos contratados devem ser mulheres e/ou negros. Uma herança de toda a jornada de certificação junto ao Sistema B.

“Essa jornada fez a nossa empresa crescer dez anos em dois, no que se refere à transparência, aos processos, à relação com parceiros e fornecedores… E a pandemia acabou mostrando que tudo que a gente construiu fez muito sentido”

Quando miram o horizonte, os amigos “prayanos” sonham em ser reconhecidos, um dia, como a “cerveja local” do Brasil: 

“Se você for à Jamaica, vai querer beber uma Red Stripe. Se for à Indonésia, vai querer tomar uma Bintang…”, diz Paulo. “No Brasil, tem esse espaço, falta [uma marca com] esse reconhecimento. Essa é uma das nossas lutas.”

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Praya
  • O que faz: Cervejaria certificada pelo Sistema B
  • Sócio(s): Marcos Sifu, Tunico Almeida, Duda Gaspar e Paulo de Castro (Zeh Pretim)
  • Funcionários: 27
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2016
  • Investimento inicial: NI
  • Faturamento: NI
  • Contato: [email protected]
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