Como você responderia ao tratamento com cannabis? A Proprium quer ler os seus genes e tornar a prescrição muito mais assertiva

Bruno Leuzinger - 8 dez 2020
Fabrício Pamplona, CEO Brasil e diretor científico da Proprium (foto: Bruno Ropelato).
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Um teste genético que oferece mais assertividade na hora de prescrever cannabis medicinal: este é o produto mais inovador da Proprium, startup de medicina diagnóstica.

A ideia é trazer informação e conveniência a médicos e pacientes em tratamento de câncer, epilepsia, HIV e dores crônicas, que muitas vezes encontram dificuldade na hora de ajustar a dose certa do canabinoide.

“Isso se confunde com meu propósito pessoal: tirar a ciência de ser aquela coisa inacessível, complexa, às vezes desconectada do nosso dia a dia, e torná-la tangível para as pessoas”, diz Fabrício Pamplona, 38, sócio, CEO Brasil e diretor científico da healthtech.

O catarinense Fabrício conta que na hora do vestibular balançou “até os 45 minutos do segundo tempo” entre os cursos de jornalismo e farmácia. Acabou escolhendo a segunda opção.

“Meu tema específico de pesquisa na carreira [acadêmica] foi a farmacologia dos canabinoides. Comecei nessa área em 2003, 2004… Nos congressos, naquela época, a maioria das pessoas só olhava pelo viés negativo, do risco de dependência, prejuízo cognitivo… E eu explicava: olha, isso faz parte da fisiologia da pessoa, a gente pode ajustar de maneira terapêutica…

Durante o doutorado em farmacologia (pela Universidade Federal de Santa Catarina), ele passou um tempo como pesquisador visitante no Instituto Max Planck de Psiquiatria, na Alemanha, onde começou a despertar para a possibilidade do empreendedorismo.

Em 2014, Fabrício empreendeu a Mind the Graph, que combina design e divulgação científica (e já apareceu aqui no Draft). Em paralelo, entre 2015 e 2018, atuou como diretor da Entourage Phytolab, que desenvolve fármacos à base de cannabis.

“Ajudei o fundador a levantar dinheiro, a fazer as primeiras parcerias internacionais, a sensibilizar a Anvisa”, diz. “Levei técnicos da agência para o Canadá para entender o que era uma plantação [de cannabis] profissional, o que era a extração, como se prescrevem esses produtos [medicinais]”.

Sua nova startup, a Proprium, investe no desenvolvimento de testes genéticos para saúde e nutrição. A seguir, ele fala sobre o potencial de mercado e o desenvolvimento do teste My Cannabis Code, os próximos passos da empresa e a evolução do ecossistema de cannabis no Brasil.

 

Como funciona o teste My Cannabis Code? E por que fazer um teste como esse antes de iniciar um tratamento à base de cannabis medicinal?
O kit de coleta tem um swab, um “cotonetão” que você passa na gengiva, no lado interno da bochecha, bota num tubinho que já tem líquido conservante, fecha, e a gente coleta na casa da pessoa. O resultado é um laudo personalizado, em PDF, com as informações genéticas do paciente. 

A gente transforma uma tabela genética supercomplexa em um texto com os índices de como a cannabis afeta a sua vida nos principais pontos de atenção para efeitos adversos, que são o aspecto cognitivo, o aspecto de risco de ansiedade e psicose, o aspecto de dependência e impacto na funcionalidade diária, no caso de paciente com uso crônico. 

Avaliamos também o metabolismo do THC [Tetrahidrocanabinol] e do CBD [Canabidiol] de forma a orientar aquele paciente quais são as doses que ele deve tomar baseado no seu próprio metabolismo. Pacientes que metabolizam muito devagar o THC e o CBD precisam de doses menores ou estão sob risco de ter uma sobredose. 

Pacientes que metabolizam muito rápido o THC e o CBD com frequência se deparam com uma experiência frustrante com o CBD. Esse é um caso típico, o médico acha que o CBD não funcionou e na verdade é só uma questão de ajuste de dose. Para pacientes com metabolismo acelerado, as doses são de três a cinco vezes superiores 

Num tratamento convencional, os médicos vão aumentando a dose até atingir o efeito esperado. Como o CBD é tão pouco acessível e tão caro, fazer esse ajuste, tentativa e erro, por várias semanas, às vezes meses, é muito custoso. Daí o custo-benefício do teste. 

O My Cannabis Code custa 1 668 reais. No Brasil, esse é um valor é relativamente caro, o que a gente faz é vender em 12 vezes. Olhando do ponto de vista mensal, dentro da realidade de uma pessoa que faz tratamento com canabidiol, que frequentemente sai por mais de 1 000 reais por mês, ela adiciona aí uma parcela de 10% desse valor.

A questão é: você prefere ser cobaia por quatro meses até achar uma dose apropriada? Ou fazer um investimento nesse teste, receber o resultado e já começar o tratamento certo? Essa é a proposta de valor da Proprium.

Qual é o potencial de mercado desse teste para prescrição de canabinoides?
Temos de 3 milhões a 5 milhões de pacientes de cannabis medicinal no Brasil. São pacientes que fazem outros tratamentos — contra epilepsia, dores crônicas, tratamento oncológico –, e a cannabis vem como medicamento paliativo para efeitos colaterais desses medicamentos, por exemplo a quimioterapia. Ou para reduzir dores [da doença], mesmo.

Hoje, médicos têm utilizado o My Cannabis Code [apenas] nos casos mais complexos. Querendo ou não, com a prática você consegue reduzir riscos do tratamento de cannabis, começando com doses baixas… Mas o ajuste individual de verdade só vem com um teste como o nosso. 

Literalmente todos os pacientes de cannabis medicinal poderiam se beneficiar de ter um teste genético antes de iniciar o tratamento. Principalmente os que nunca tiveram contato com cannabis antes 

A primeira onda dos pacientes que já usaram e são mais afeitos a esse tipo de tratamento, já conhecem os efeitos da substância no seu organismo e agora buscam legitimar esse uso terapêutico mesmo. Mas esses são só a superfície do mercado. 

A imensa maioria dos pacientes que podem se beneficiar desse tratamento [com canabinoides] não tiveram contato prévio. Por isso, um teste genético como esse, que ajuda a definir a dose ideal e a identificar pacientes com risco de desenvolver algum efeito adversos mais grave, é essencial. 

Como e onde o My Cannabis Code foi desenvolvido?
Foi desenvolvido em Portugal, durante oito meses [em 2019]. Temos um contrato de desenvolvimento com um parceiro, ao mesmo tempo em que a gente comercializa alguns produtos deles. É a Heart Genetics, uma empresa de P&D de uma professora da área de genética e bioinformática da Universidade Tecnológica de Lisboa.

O teste poderia ter sido desenvolvido no Brasil? Sem dúvida. Foi desenvolvido lá primeiro pela conveniência de termos o parceiro certo, é uma empresa arrojada, inovadora. E é muito mais fácil fazer ciência na Europa: os reagentes [químicos] estão mais disponíveis, é tudo mais rápido, a gente paga mais barato pelos reagentes… 

Vivi isso na pós-graduação: experimentos que no Brasil demorei três meses só para receber o reagente, na Europa chegava no mesmo dia, porque tem muito mais fornecedor. Então, apesar do custo em euro, é mais conveniente desenvolver produtos de diagnóstico, de life science em geral, na Europa. E Portugal está bem posicionado nessa área.

Quais foram os desafios desse desenvolvimento?
A primeira pergunta a fazer é: já existe evidência científica para considerar a farmacogenética de canabinoides algo consistente? Sou doutor em Farmacologia, então precisei da ajuda de mais dois doutores da empresa parceira, um em Bioinformática e o outro doutor em Genética. 

Começamos a vasculhar a literatura científica e concluímos que sim, existe muita consistência em farmacogenética de canabinoides, há mais de 100 artigos concluídos. E aí você entende por que [o desenvolvimento do teste] demorou oito meses. Três pessoas precisaram ler mais de 100 artigos, extrair informações e gerar um banco de dados consistente. 

Cada estudo clínico é feito de uma maneira diferente, então tivemos que criar uma metodologia de meta-análise que compara tudo da mesma maneira. Um estudo feito em 100 pessoas não pode ter a mesma relevância de outro feito com 50 mil, por exemplo. Criamos um algoritmo para mapear tudo isso e dar peso de acordo com o nível de evidência

A gente avalia polimorfismos genéticos: variações naturais que acontecem nos genes, que já existem em uma população heterogênea. E aí você pega isso e valida numa população já existente. A Proprium não teria feito isso sem uma empresa já acostumada a desenvolver painéis genéticos e com uma base de dados grandes para a gente validar clinicamente.

Fazemos esse trajeto todo para, no fim, contar ao paciente se ele tem tal função inibida ou tal função aumentada. A gente quer que seja tão simples quanto isso: trazer a genética de um ambiente complexo, inacessível, e produzir informação que permita gerar uma ação imediatamente.

Quando foi o lançamento? E quantas unidades do teste a empresa já vendeu até aqui?
Estava pronto para ser lançado em março, tínhamos planejado um grande lançamento em Portugal. Sabemos que produtos que vêm de fora geralmente têm um apelo interessante aqui no Brasil… Mas aí aconteceu um “detalhezinho” [a pandemia] no mundo. 

A estratégia acabou se invertendo. Agora estamos operando no Brasil como principal unidade, e o My Cannabis Code foi lançado primeiro aqui, há dois meses. Até agora, vendemos mais de 100 unidades. Hoje a gente fatura [mensalmente] 100 mil reais exclusivamente com esse produto. Fomos de zero a 100 [mil] em dois meses

Obviamente, a pretensão para 2021 é muito maior. Já vimos o potencial, os médicos e pacientes estão pedindo… É difícil precisar, mas tenho certeza que ano que vem a gente atinge 1 milhão [de reais] mensal em algum momento. Esse crescimento de dez vezes vai acontecer muito rápido.

Por que o resultado do teste leva 30 dias?
Hoje, a análise ainda é feita em Portugal, a Heart Genetics processa para a gente. Por isso, o laudo sai em 30 dias. Isso é comum no mercado de genética, pacientes e médicos estão acostumados a fazer teste genético no exterior.

Tudo em genética depende do volume de amostras que você consegue juntar. Cada análise é muito cara. Acredito que no primeiro semestre de 2021 a gente ganhe volume de amostras que justifique a operação no Brasil, e aí o tempo [entre o teste e o laudo] deve cair para 15 ou 10 dias

Mas isso envolve, por exemplo, investimento em um sequenciador genético, que custa 160 mil dólares. São 1 milhão de reais. Não é uma operação para peixe pequeno. 

Quais são os próximos passos da Proprium? Em termos de internacionalização, inclusive, já que vocês mantêm essa parceria em Portugal?
O Fernando [Gabas, sócio] ficou um ano montando a operação em Portugal, hoje a comercialização lá é exclusiva com um grupo de análises clínicas bem grande, o Germano de Sousa. Seria o equivalente a um Dasa, um Fleury, aqui no Brasil. 

Agora ele voltou para os Estados Unidos [onde vive, na Flórida], estamos em início de montagem de operação lá, ainda não comercializamos nos EUA. Obviamente é [um mercado] muito mais competitivo do que o Brasil, mais competitivo do que Europa também, porque já tem concorrentes, o desafio vai ser maior…

Mas vamos expandir rápido para América Latina, já temos pacientes e médicos pedindo [o kit] no Uruguai e na Argentina. E também na Inglaterra, Alemanha, Espanha, Israel… Sem falsa modéstia, em palestras minhas já tive gente fazendo fila para pedir informações. Se eu tivesse uma maquininha [de cartão], poderia vender na hora

O interesse é grande. Os médicos que estão prescrevendo cannabis precisam desse tipo de apoio, porque a maioria não tem experiência. E a prescrição de cannabis não é tão simples quanto à de medicamento convencional, que já tem bula e já funciona do mesmo jeito para todo mundo.

Como você vê a evolução e as perspectivas do mercado de cannabis no Brasil?
Acho que a gente evoluiu bastante. Bem ou mal, existem os mecanismos regulatórios para que as pessoas tenham acesso e as empresas possam existir…  Mas falta verticalizar a cadeia produtiva de cannabis no Brasil. Seja no âmbito do desenvolvimento farmacêutico, associativo ou qualquer outro. 

Não podemos engargalar a produção de medicamentos no Brasil e ficar dependendo de insumos externos. Isso é um erro — e um erro baseado no medo. Não podemos tomar decisões importantes como essa baseados no medo

Estou há 17 anos nessa área, os últimos cinco envolvido diretamente com negócios de cannabis. E percebo uma mudança de perfil. Os primeiros empreendedores [de cannabis] olhavam para os EUA e achavam que podiam fazer igual no Brasil. O que é uma visão equivocada, o ambiente regulatório é completamente diferente.

Agora, as pessoas estão entendendo que desenvolver medicamento é um big business, precisa de um investimento enorme. O número de empresas que vão existir no Brasil com esse perfil é muito limitado, não vai passar de meia-dúzia… Isso é briga de cachorro grande, de indústria farmacêutica.

Por outro lado, existem inúmeras outras oportunidades em torno dessa principal vertical de plantar, colher, extrair e produzir medicamento. Uma delas é a área diagnóstica, de apoio ao médico nas diversas decisões que ele tem que tomar. Desde exames de fato, como a gente está oferecendo, até logística, aplicativos, educação… 

Esse mercado está amadurecendo. As pessoas estão parando de falar besteira, os investidores estão parando de quebrar a cabeça… E negócios mais interessantes, mais criativos e de alto impacto estão surgindo, em torno da vertical principal de mercado.

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