A revolução (secreta, tardia e bem-vinda) dos lubrificantes íntimos

Adriano Silva - 30 abr 2024
Foto de Maria Talks na Unsplash.
Adriano Silva - 30 abr 2024
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Gente, como vivíamos sem os lubrificantes íntimos?

Ora, bolas! Como era árida a nossa vida sexual sem gel, cremes e óleos… 

Bem, falo do ponto de vista de um homem hétero, cisgênero, que estreou na vida sexual na segunda metade dos anos 80. 

Naquela época, e por décadas, lubrificante era um item envergonhado, que ficava escondido num cantinho obscuro das prateleiras mais afastadas das farmácias.

O gel para “lubrificação íntima, solúvel em água, seguro, discreto e transparente” carregava um tabu tão grande quanto o fim único a que ele parceria servir – o sexo anal

Não se usava, de modo geral, na transa hétero, lubrificante para a penetração vaginal. Como se isso fosse uma obrigação das mulheres. E como se a lubrificação tivesse que ser 100% fornecida pelo corpo feminino, em 100% das ocasiões, de modo 100% natural e espontâneo, sem qualquer auxílio externo – inclusive como uma prova de amor e de desejo pelo gajo em questão.

A única obrigação dos homens era comparecer com uma ereção capaz de durar até o seu próprio orgasmo – o orgasmo da mulher também era problema dela. E se seu gozo não acontecesse até a ejaculação do macho, ela que fosse procurar ajuda. E se ela não estivesse sempre “pronta” para o mancebo, ela tinha um “problema”.

Era fácil rotular a mulher como “frígida” – e tirar o corpo fora. E apontar o dedo. E deixá-la na mão.

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A exemplo de todas as outras questões tidas como exclusivamente femininas, as mulheres, diante do eventual desprazer que pudessem sentir no sexo, se viam preteridas por todo mundo, da medicina às religiões, dos seus companheiros às suas próprias mães. Tinham de encontrar, sozinhas, soluções para as suas questões – ainda que elas não fossem questões exclusivamente suas. 

Pense na dificuldade, ainda hoje, para a maior parte das mulheres, na maioria dos países, de escolher o tipo de parto que desejam realizar, de ter assegurada a plenitude dos seus direitos reprodutivos, de não ter de enfrentar a conivência capciosa da sociedade quando sofrem violência sexual ou doméstica, de poder contar com instrumentos efetivos que coíbam o assédio sexual e moral (e todas as demais formas de discriminação) no ambiente de trabalho – ao invés de serem revitimizadas ao procurar ajuda.

Enfim, a lista de questões que, se fossem prioritariamente masculinas, já teriam sido resolvidas há séculos pela humanidade é enorme 

O descaso com o bem-estar feminino durante e após o coito é só mais uma face dessa ideia silenciosa – e ensurdecedora – que parece convidar as mulheres a se resignar com o sofrimento, em todos os campos da vida. Como se aí residisse o seu destino manifesto. Como se daí adviesse a sua verdadeira virtude – a capacidade de se submeter ao jugo masculino e de sofrer martírios em nome de… bem, em nome de que mesmo?

Perceba: o aceite do sacrifício está na base da ideia da mulher virtuosa, que entronizamos como santa, como mãe, como esposa. Assim como o desejo de sentir prazer – e, portanto, de acessar um privilégio que sempre foi exclusivo dos homens – é o que define a imoralidade da puta, da devassa, da mulher “que não se dá o respeito”.

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A popularização tardia da lubrificação íntima (hábito que, na verdade, recém está tomando corpo entre casais heterossexuais, e que, portanto, ainda está longe de ser universal) revela um outro aspecto, bastante sombrio, da cultura sexual machista que nos envolve: a associação perniciosa do prazer dos homens com a dor das mulheres. 

Como se sexo bom, para os homens, incluísse machucar um pouco a parceira. Como se sexo bom, para as mulheres, implicasse sair um pouco lanhada da cama

E a mulher que aprenda a se divertir com as invasões bárbaras. E a mulher que aprenda a extrair prazer de um bate-estacas. A semi-agressão, em suas várias versões (puxão de cabelo, tapa, simulação de estrangulamento, prensa), ganha com frequência a nominação positiva de “pegada”.

Vem daí também o mito de que o homem tem que ter a coisa grande e de que a mulher tem que ter a coisa pequena – ou apertada. Porque para esgarçar é preciso não caber.

Assim como deriva dessa mesma ideia a obsessão com o rompimento do hímen – o arrombamento como uma prerrogativa dos homens, e como mais uma aflição física imposta às mulheres, que esperamos que elas absorvam de modo lhano, em troca do nosso reconhecimento por sua retidão. O valor de uma mulher, e sua respeitabilidade social, nessa perspectiva heterossexual conservadora, finalmente reduzidos a uma membrana.

Outra ideia hedionda, impressa com nitidez nesse pano de fundo, e contida na própria valorização da virgindade, é a da supremacia sexual de homens mais velhos, adultos, sobre mulheres mais novas, impúberes

A ode à “novinha”, à petite femme, à mulher com ares de criança, está intimamente ligada à cultura do estupro de menores – um escândalo nacional. (O Brasil é vice-campeão mundial nesse ranking asqueroso, com meio milhão de casos registrados por ano, perdendo apenas para a Tailândia.)

Esse arcabouço quer nos levar a crer que o sexo que arranha, que rompe, que faz brotar o sangue – e que, por extensão, humilha e subjuga –, é bom. Não é. Nem para os homens (com exceção dos maridos perversos, dos pais de família doentes, dos cidadãos de bem psicopatas) – e muito menos, evidentemente, para as mulheres.

Em termos físicos: a glande é mucosa e também sofre com a aspereza, mas o resto do pênis é envolto em pele mais resistente. Com as mulheres, a proporção é inversa: os grandes lábios são constituídos de pele, mas tudo a partir dali é mucosa. Pense num jogo de futebol americano em que um dos times estivesse usando todos os equipamentos de segurança, menos o capacete. E em que a outra equipe entrasse em campo sem proteção alguma, apenas com o capacete.

De novo: se a mucosa mais lastimada fosse a dos homens, esses tormentos e provações já teriam sido exorcizados há muito tempo do nosso imaginário. Produziriam repulsa, e não tesão

Se quem saísse assado do sexo fosse o homem, lubrificantes íntimos estariam entre os primeiros produtos a serem cuspidos das máquinas, ainda no início da primeira revolução industrial, junto com os motores a vapor e os fios elétricos. Porque, pode crer, o bem-estar sexual e a saúde genital é mais importante para os homens do que locomotivas e telégrafos. Então por que não seria assim também para as mulheres?

(A exceção, claro, fica por conta das mulheres que estão no pleno comando de si mesmas numa relação e têm condições de negociar, com o parceiro, a parceira ou os parceiros, o nível de dor que estão dispostas a sofrer ou a infligir, em nome de sentir e de proporcionar mais prazer – porque isso é algo que lhes agrada, não como uma anulação de si mesmas em nome de agradar o outro.)

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A verdade é que há até bem pouco tempo contávamos, no mundo hétero, com quase nenhum auxílio para as atividades de alcova. Não era só o lubrificante íntimo que ficava de fora dos folguedos – a gente não levava nada para a cama. (Com algum juízo, preservativos – e só.)

O sexo raiz não admitia apetrechos. Não investíamos nisso. Fazíamos tudo de modo meio apressado e reto. Talvez por culpa ou vergonha. Ou então por preguiça e falta de criatividade. Enfim: não sabíamos brincar direito.

Quero crer que isso está mudando.

De um lado, o sexo não é mais um fantasma para boa parte das pessoas, em boa parte das famílias que habitam o mundo civilizado. De outro, a própria noção do que é o sexo, e do que se pode entre quatro paredes, na relação consensual entre duas ou mais pessoas maiores de idade, parece estar se expandindo

Talvez haja aqui, de minha parte, um pouco de wishful thinking. Afinal, sou alguém que sonha com um mundo mais liberal, democrático, inclusivo e diverso. É fato que, na contramão dos avanços nessa direção, vivemos um momento histórico de recrudescimento do conservadorismo, do reacionarismo, de valores mais medievais do que iluministas, mais autoritários do que libertários, mais religiosos e dogmáticos do que racionais e humanistas.

Mesmo assim, e talvez ainda mais por conta disso, vejo com muita alegria uma nova geração de meninas e meninos para quem o sexo deixou de ser sinônimo de intercurso heterossexual entre uma mulher e um homem cisgêneros. Para quem o sexo deixou de ser sinônimo de penetração. Afinal, o prazer a dois (ou mais) começa muito antes de chegarmos ao distrito de Fuque-Fuque, e termina muito depois dele, numa viagem sensorial que sequer precisa passar por aquela estação específica para fazer sentido.

E aqui a galera hétero tem muito a agradecer à turma do arco-íris – boa parte desses avanços que tornaram o sexo mais gostoso para todo mundo vem de boas práticas cultivadas por homens e mulheres gays.

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Aqui no Draft temos acompanhado com alegria o surgimento e a atuação de várias femtechs e sextechs brasileiras, fundadas e lideradas por mulheres, que têm se ocupado de normalizar o uso de brinquedos sexuais, como dildos, plugues e vibradores disponíveis nos mais variados formatos, tamanhos, cores, texturas e funções.

Essas empreendedoras têm estimulado as mulheres brasileiras a conhecer seu corpo, a respeitar seus desejos, a explorar sua sexualidade – e, munidas de um rabbit, de um bullet ou de uma varinha mágica, a não depender de ninguém (em especial, de homem nenhum) para eletrizar seu corpo com um orgasmo na hora em que bem entenderem, da mesma forma que os homens sempre fizeram

Elas têm retirado o próprio sexo anal do território masculino em que ele sempre esteve enfiado, no qual a mulher era apenas um objeto a ser cultuado ou conquistado ou consumido, e têm fincado nele uma bandeira feminina, de expansão dos limites do seu próprio prazer. E assim têm contribuído para resgatar essa modalidade do vale escuro em que ela passou tanto tempo enterrada, sem ver a luz do sol.

Essas mulheres têm advogado a favor do uso irrestrito de lubrificantes íntimos. Desde opções sofisticadas, com variações de sabor e temperatura, até a simples companhia de um prosaico pote de óleo de coco. 

Eu, egresso de uma geração que se considerava vanguardista, mas que no fundo era bem convencional (e careta!), estou fechado com elas. Não há o menor motivo para que não nos lambuzemos, com gosto, em todas as novidades e possibilidades dessa nova era.

Não importa sua orientação, nem suas preferências. Sexo tem que ser bom para todos os envolvidos. Sexo é deslizar junto, em dia quente de verão, com umidade escorrendo pelas paredes. 

Portanto: óleo no sexo tântrico e na rapidinha. Gel na penetração e também na esfregação, na operação profunda e também na atividade superficial. Esteja você sozinho, em dupla, a três ou cercado por uma multidão. Creme na ida e na vinda, na coisa que vai mão e na mão que pega na coisa, pela frente, por trás ou de ladinho, vindo de cima ou de baixo. 

Eis, enfim, o que eu gostaria de dizer: viva o sexo em que todo mundo se diverte e sai ileso – pronto para outra

Viva o sexo escorregadio e tudo que ele simboliza em termos de libertação, de prazer e de bem-estar – principalmente para quem, ao longo dos anos, serviu o banquete sem ter o direito de saboreá-lo como deveria e merecia.

 

Adriano Silva, 53, é jornalista e fundador da The Factory e do Projeto Draft. É autor de dez livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TVA República dos Editores e Por Conta Própria: do desemprego ao empreendedorismo – os bastidores da jornada que me salvou de morrer profissionalmente aos 40.

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