Humor de preconceito – a piada que aplaude (e reforça) a humilhação. Você acha engraçado?

Adriano Silva - 8 fev 2023
Jô Soares como o Capitão Gay, personagem do programa "Viva o Gordo", exibido originalmente entre 1981 e 1987 (Reprodução/Rede Globo).
Adriano Silva - 8 fev 2023
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Lendo Stanislaw Ponte Preta. Seu famoso Febeapá – O Festival de Besteiras que Assola o País. Na edição de 2015, da Cia. das Letras, que reúne os três volumes originalmente lançados nos anos 60 pela Editora do Autor, empresa de Rubem Braga e Fernando Sabino.

Humorista com atuação na imprensa carioca nos anos 50 e 60, Sergio Porto, o homem por trás do pseudônimo, nasceu em 1923 e morreu precocemente, de ataque cardíaco, aos 45 anos, em 1968. 

Tenho a maior simpatia por aquele Rio boêmio. E pelos cronistas de Ipanema, movidos a uísque contrabandeado e chope gelado. Sergio Porto teria completado 100 anos no último 11 de janeiro – um homem da geração do meu avô.

O texto de Stanislaw Ponte Preta, no entanto, é de difícil leitura em 2023. Não pelo estilo, cuja coloquialidade carioca segue sendo uma delícia. Mas pela visão de mundo que sustenta aquelas linhas. 

O humor de Stanislaw Ponte Preta é sexista e misógino. Objetifica e diminui as mulheres em vários aspectos. Ele também ridiculariza homossexuais – homens gays, de modo geral; a homossexualidade feminina sequer é considerada

É ofensivo na forma como se dirige aos negros. Ri dos pobres, dos analfabetos e do que se poderia chamar de “classe trabalhadora” – em oposição aos “intelectuais de classe média”, estrato social a que Sergio Porto pertencia.

Stanislaw Ponte Preta também fazia humor com os poderosos – gostava de azucrinar políticos, grã-finos e generais. Mas batia mais nos “bêbados” – na época, ainda mais do que hoje, o alcoolismo era tido como uma fraqueza de caráter, e não uma doença. (O bom bebedor, o sujeito que tomava todas sem se embriagar, era um herói; já o “bebum”, era um pária, o bobo da corte.)

Da mesma forma, os portadores de doenças mentais – “loucos”, “doidinhos” – eram, com frequência, motivo de piada.

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É claro que não se pode ler um texto escrito 60 ou 70 anos atrás com os olhos de hoje. Mas se pode, sim, compreender melhor aquela época. E perceber o quanto aqueles valores definem ainda hoje a alma nacional. 

Sergio Porto era um democrata, um sujeito liberal, inspirador d’O Pasquim – alguém que, no espectro político, no mínimo, poderia ser localizado na centro-esquerda.

Portanto, é alguém com quem mulheres, negros e homossexuais deveriam poder contar. Um cara cujo olhar, cuja formação, cuja voz deveria adotar como atitude óbvia o acolhimento de seres humanos em situação de exclusão ou sofrimento. 

Minorias são isso: pessoas que deveriam ser tratadas com o mesmo respeito e gozar dos mesmos direitos de qualquer um de nós, e que estão alijadas disso tudo. Trata-se de uma injustiça evidente

Para quem goza de privilégios (especialmente homens brancos, heterossexuais, cisgênero, de classe média, como eu e como Stanislaw Ponte Preta), a única coisa decente a fazer é acolher essas pessoas, incluí-las – e não espezinhá-las ainda mais. Em qualquer época.

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Sergio Porto não está sozinho em sua insensibilidade. Quando li Memórias do Cárcere, que Graciliano Ramos escreveu no comecinho dos anos 50, e que não viveu para ver publicadas, me chamou a atenção o modo como ele, um comunista, um humanista, um intelectual com pensamento antifeudal e anticapitalista, se refere aos negros – como seres brutos, toscos, algo animalescos, sub-humanos. 

Graciliano não se via como racista. Apenas não reconhecia os negros como iguais. Como se a “inferioridade” dos negros não fosse a sua opinião torta e injuriosa – mas, sim, um fato indiscutível

Graciliano não declara isso de maneira agressiva. Mas, o que é ainda mais assustador, de modo natural, com a tranquilidade de quem estivesse simplesmente apontando uma verdade universal, uma característica autoevidente. 

O velho Graça nasceu em 1892, é da geração do meu bisavô. (E também não gostava de gays.) Monteiro Lobato, nascido dez anos antes, também grafou passagens racistas em sua obra dedicada às crianças. 

Perceba como, até bem pouco tempo atrás, ninguém deixava de ser considerado legal, moderno e condoreiro só por considerar os negros uma sub-raça, as mulheres um subgênero e a homossexualidade uma aberração. 

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Corta para os anos 70. E 80. E 90. E 2000.

Essa matriz continuou operacional ao longo de todo o século 20 – e segue viva. Gerações e gerações de humoristas construíram sua carreira ofendendo mulheres, negros e homossexuais. Como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

Jô Soares e Chico Anysio, dois dos nossos artistas mais brilhantes, homens cultos e inteligentes, moldaram o humor de bordão na TV brasileira em cima dessa atitude pusilânime – a ridicularização de minorias que já tomavam porrada todo dia na vida real

Eles também batiam para cima, nos ricos e poderosos. Mas ajudaram, ao longo de décadas, a sociedade brasileira a desfazer, sem culpa, de um bocado de gente em situação de vulnerabilidade, que não tinha condição de se defender. Assim nos acostumamos a rir em uníssono dos gays, a estigmatizar as mulheres, a fazer troça dos velhos. 

(Tome a série Friends, produzida entre 1994 e 2004. Seis amigos brancos, heterossexuais. Não há um negro. Em compensação, há várias piadas homofóbicas. Como se vê, havia um passe-livre para esse tipo de escárnio – e não apenas em âmbito nacional.)

No Brasil, ao longo de gerações, essa espécie de pacto de exclusão de uns por todos os outros podia ser visto nas páginas dos jornais e das revistas (O Pasquim, ícone da contracultura, inclusive), e nas telas de televisão – nós estávamos autorizados a debochar daquelas pessoas; a enxergá-las daquele jeito e a tratá-las mal. 

Quem não se lembra de como Os Trapalhões se referiam aos negros, aos gays, aos nordestinos, aos pobres, ou do papel que dedicavam às mulheres?  

Talvez esse tipo de humor de preconceito tenha perdido força nos últimos anos – graças, quero crer, à emergência do movimento woke, do feminismo e de outras iniciativas ligadas à diversidade, aos direitos civis e às liberdades individuais. Já não era sem tempo

Mas muitos de nós continuam achando graça no humor de discriminação. Como se uma opção sexual ou o gênero de alguém fossem coisas risíveis. Como se a condição social ou a compleição física ou a idade fossem motivo de piada. Vide Sai de Baixo, Zorra Total, Vai Que Cola.

Somam-se aí outras três décadas adorando a piada que aplaude a humilhação. O humor que ri do sofrimento alheio – e o normaliza.

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Eu fico pensando no que passava na cabeça do garoto negro, que tinha a minha idade, ao ver Tião Macalé (“feio”, “pouco inteligente”) ou Mussum (“vadio”, “bêbado”) na tela. No menino homossexual ao assistir Painho, de Chico Anysio, ou Capitão Gay, de Jô Soares. Na menina ao ver as mulheres sempre retratadas como “boazudas”, ou incompetentes, ou subalternas dos homens – ou as três coisas juntas.

O que fazer quando você é um adolescente negro e até os campeões da solidariedade, gente que sonhava com uma sociedade mais justa e fraterna, como Graciliano Ramos, te excluem e te tratam com rejeição e desprezo?

Para onde correr quando você é uma criança negra e não consegue passar pela literatura infantil de Monteiro Lobato sem se sentir ofendido?

E quando você é uma menina gay e não encontra qualquer tipo de referência ou representação para entender quem você é ou quem você pode ser?

É como se você não existisse, nem pudesse existir. Como se nenhum espelho fosse jamais refletir sua imagem.

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No Brasil, ao que parece, há três grandes grupos.

Conservadores são aqueles que odeiam um bocado de condições e comportamentos alheios – do alto de suas prerrogativas, que consideram inegociáveis, e de suas crenças, que consideram superiores. Mas não falam disso. Seu jeito de segregar é fingindo que nada daquilo existe ou importa, e condenando aquelas pessoas à imobilidade e à invisibilidade.

Liberais são aqueles que se dão a liberalidade de debochar de pessoas e comportamentos. Não questionam os preconceitos – mas os reforçam por meio do humor. Seu jeito de segregar é fazendo piada, transformando escolhas e condições humanas em matéria de riso.

Poderiam rir de quem discrimina, mas preferem rir de quem é discriminado. Ao não confrontar os opressores, e ao encorpar o linchamento moral dos oprimidos, agem de modo covarde. O riso que provocam não questiona as injustiças – mas as amplia. 

E há agora um grupo novo, que estabeleceu sua presença e sua voz no país nos últimos anos de modo assustador: os ultraconservadores, a extrema direita, que ataca os hábitos e preferências que desaprovam. Seu jeito de segregar é ameaçando de morte, agredindo fisicamente quem lhes for diferente, perseguindo quem ousar lhes questionar o dogma

Me filio a um quarto time – de gente que deseja viver e deixar viver, que busca aceitar os outros como eles são, que entende que as pessoas não são iguais, que cada um tem o direito de ser aquilo que desejar, que todos têm os mesmos direitos, e que só há um objetivo em nossa aventura sobre a Terra – a geração e o compartilhamento de bem-estar. 

Quantos somos? Não sei. Espero te encontrar lá.

 

Adriano Silva, 52, é jornalista, fundador da The Factory e publisher do Projeto Draft, do Future Health e de Net Zero. É autor de dez livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TVA República dos Editores e Por Conta Própria: do desemprego ao empreendedorismo – os bastidores da jornada que me salvou de morrer profissionalmente aos 40.

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