A Sotran digitalizou-se e lançou uma plataforma para resolver problemas históricos no transporte de cargas

Leonardo Maran Neiva - 7 nov 2019
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Vida de caminhoneiro não é fácil. Longas jornadas longe da família, rodovias ruins, pedágios, risco permanente de assalto… Sem falar na constante ameaça de aumento dos preços do diesel. A categoria ainda sofre com incertezas em relação às cargas, uma média alta de tempo ocioso e formas de pagamento ineficazes.

Em relação a este último ponto, ainda é comum inclusive a utilização da carta-frete, forma de pagamento proibida desde 2010, na qual o trabalhador é obrigado a abastecer um determinado valor em combustível para receber seu dinheiro.

Com alguns desses problemas em foco, a Sotran — empresa de Londrina (PR) que atua desde 1985 no mercado de transporte de cargas, hoje com 600 funcionários e clientes como Cargill, Coamo e Copersucar — recorreu ao intraempreendedorismo para desenvolver a plataforma TMOV.

Lançado no início de 2019, o aplicativo traz duas funcionalidades principais: um sistema que permite aos motoristas selecionar e reservar cargas, de jeito parecido com o que já fazem aplicativos de transporte de passageiros, e um modelo de pagamento digital, criado com a intenção de acabar com o uso das cartas-frete e cheques.

A EMPRESA RECRUTOU PROFISSIONAIS DO ECOSSISTEMA DE INOVAÇÃO

Radicado há seis anos no Brasil, o norte-americano Charlie Conner, 42, é co-CEO da companhia. Ele conta:

“Hoje já nos diferenciamos das outras empresas, que geralmente oferecem ao motorista um painel, em que você precisa ligar por telefone para saber se a carga ainda existe e descobrir se o preço indicado se mantém. Na nossa plataforma isso é 100% garantido. Você entra, escolhe e já vai direto ao ponto de embarque, igual ao Uber”

A plataforma foi criada a partir de recursos aportados em 2016 pela Arlon, gestora de private equity especializada no investimento em empresas de agronegócio e alimentação. O foco era expandir a área de atuação da Sotran no território brasileiro e aplicar parte desse dinheiro no desenvolvimento tecnológico da companhia.

O time da TMOV tem cerca de 50 pessoas. Para colocar o projeto de pé, a Sotran foi ao mercado e recrutou profissionais do ecossistema de inovação. Phillip Klien, advisor da TMOV, já foi gerente-geral da Uber São Paulo e diretor de crescimento do Twitter Brasil; Alexandre Nigri, head de produto, tem no currículo passagens por 99 e iFood.

UM CARTÃO DE DÉBITO DA TMOV EVITA TAXAS EXTRAS NA COMPRA DO DIESEL

O aplicativo, diz Charlie, foi desenvolvido para atender às duas principais demandas dos caminhoneiros hoje no Brasil. Além de digitalizar o processo de disponibilização, recebimento e entrega de cargas, a TMOV também busca resolver o problema do pagamento, que enlouquece a categoria há algum tempo. Hoje, segundo ele, o pagamento no setor é um “desastre”:

“Os motoristas ainda preferem receber em carta-frete ou cheque porque a alternativa são cartões, que têm taxas muito altas. Com eles, os caminhoneiros são cobrados até dez centavos a mais pelo litro do diesel. Como o combustível representa quase 50% do custo do motorista, preferem não usar”

A alternativa oferecida pela TMOV é um cartão de débito — físico e digital — que garante aos caminhoneiros pagar o preço à vista na compra do diesel, sem taxas adicionais. Além do cartão, o aplicativo disponibiliza uma carteira digital, um sistema de gestão financeira que permite realizar operações simples, como transferências e saques. Uma “mão na roda” para os motoristas que trabalham com a Sotran, já que mais da metade deles não tem conta em banco.

A PRIMEIRA VERSÃO DA PLATAFORMA FOI REPROVADA NO TESTE DE CAMPO

Nem tudo correu às mil maravilhas. A primeira versão do aplicativo, lançada em 2018, não atendeu às expectativas. Havia um problema de foco, funcionalidades demais que não solucionavam as principais demandas dos motoristas e da indústria.

Para resolver as dificuldades geradas pela plataforma, não teve outro jeito: foi preciso mandar o aplicativo de volta para o setor de tecnologia e desenvolver um novo. O resultado foi a versão que está hoje em funcionamento e que por enquanto pode ser baixada apenas para celulares Android.

“Aprendemos muito sobre o uso da plataforma indo a campo. O mais importante foi entender que, por mais que tivéssemos várias funcionalidades legais, elas não eram relevantes para os nossos motoristas”

As antigas funcionalidades foram deixadas de lado; a versão atual tem foco apenas em carga e pagamento. A inscrição na plataforma é gratuita tanto para as empresas quanto para os caminhoneiros. Assim como acontece com os apps de transporte, o lucro da Sotran vem de uma porcentagem recebida de todas as operações de frete realizadas por meio da TMOV.

O BOCA A BOCA E O WHATSAPP TÊM AJUDADO A DISSEMINAR A PLATAFORMA

A empresa atende 180 mil caminhoneiros a serviço do agronegócio — ou seja, 40% dos cerca de 500 mil que atuam no país, segundo Charlie. Hoje, 75% das cargas transportadas por esses motoristas já são realizadas com uso da plataforma. A intenção é que até o fim de 2019, esse número suba para 100%.

A Sotran tem feito a divulgação do aplicativo principalmente pelo WhatsApp, que Charlie diz ser o principal meio de comunicação entre os motoristas. Além disso, a TMOV chegou a oferecer um programa de 3% de cashback para atrair novos usuários. Mas é a solidariedade da categoria que tem sido o principal ponto positivo na hora de disseminar a plataforma. Charlie conta:

“Em uma viagem, fui parando em postos e conversando com caminhoneiros. Ensinei a um deles como funcionava o aplicativo e, 30 minutos depois, ele apareceu do meu lado mostrando a plataforma para outro. Existe um sentimento de comunidade muito forte no setor”

Para alavancar o compartilhamento, a empresa pretende lançar ainda em novembro uma nova funcionalidade. Ela permitirá aos usuários recomendar a plataforma e até cargas específicas para outras pessoas, remunerando-os por isso.

O APP VEM AUMENTANDO A FIDELIDADE DOS CAMINHONEIROS À EMPRESA

Segundo Charlie, o novo sistema hoje diferencia a empresa da concorrência ao oferecer uma experiência digital mais completa e ágil, que acompanha o motorista ao longo de toda a jornada e possibilita que ele aumente sua receita.

Além disso, os veículos circulam com menos tempo ocioso, já que os motoristas podem programar com antecedência as próximas viagens de acordo com o local onde as anteriores serão concluídas. O executivo ainda citou outros benefícios aos quais os caminhoneiros têm acesso, como microsseguros de viagem e de saúde.

O novo serviço oferecido pela empresa também está começando a modificar outra característica do setor: a falta de fidelidade com as empresas do setor.

“Nossa indústria ainda é muito pulverizada. Um motorista que trabalha para a Sotran hoje pode estar com outra empresa amanhã. E a frequência  com que os motoristas carregam para a gente tem subido bastante nos últimos meses”

Segundo Charlie, a frequência subiu 60% com o uso da TMOV. “Não preciso crescer a base. Preciso aumentar a fidelidade, via uma experiência fantástica para o motorista”, diz. Essa fidelidade é hoje um dos diferenciais oferecidos pela Sotran às companhias de alimentação e agronegócio, pois ela aumenta o acesso aos caminhoneiros. Ao mesmo tempo, o uso da tecnologia torna as cargas mais visíveis e rastreáveis ao longo de todo o processo.

A EXPECTATIVA DA SOTRAN É CRESCER O FATURAMENTO EM 30% EM 2019

A partir de agora, além de melhorar a acessibilidade da plataforma, o projeto é desenvolver ainda mais ferramentas para a parte financeira. Entre elas, deverão estar um programa de pagamento de contas dentro do aplicativo e até  um sistema de poupança, em que o motorista passará a receber uma porcentagem adicional sobre o valor que deixa em sua conta.

A Sotran não revela quanto gastou para desenvolver a plataforma. Em termos de faturamento, porém, a companhia estima que o valor deva chegar a R$ 1,3 bilhão até o final de 2019, cerca de 30% a mais em relação ao ano anterior.

“Foi um crescimento razoável num ano em que o foco não foi crescer, mas sim trazer toda a nossa base para uma jornada digital. Agora que estamos concluindo isso, esperamos um aumento ainda maior para o ano que vem.”

 

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