Conheça a Toti, que ensina programação para que refugiados possam sonhar com mais do que um subemprego

Dani Rosolen - 30 jul 2020
Na parte de cima, Caio (esq.) e Eduardo. Na parte de baixo (a partir da esq.): Giulia, Lucas, Beatriz, Bruna e Diogo.
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Há quase 80 milhões de refugiados no mundo. À procura de um lar (ainda que temporário), 345 mil deles vieram parar no Brasil, segundo a Agência da ONU para Refugiados, a Acnur.

Em 2016, esses números eram menores (65 milhões e 170 mil, respectivamente), mas suficientemente impactantes para mobilizar Caio Rodrigues, que então cursava o segundo ano de Engenharia Mecânica no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ), no Maracanã, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Caio, 25, é o CEO e um dos cofundadores da Toti, uma plataforma que ensina programação gratuitamente para refugiados e imigrantes em situação de vulnerabilidade social. 

O objetivo é capacitar essas pessoas e integrá-las no mercado de trabalho. Os alunos não precisam ter conhecimento prévio de tecnologia — basta saber português. 

O nome é inspirado em Thot, deus egípcio da sabedoria e do conhecimento. “Além disso, ele é criador dos hieróglifos, que a gente encara como se fossem os códigos de programação de antigamente”, brinca Caio.

A Toti tem hoje duas turmas em andamento e deve fechar 2020 com 65 alunos formados. Em dois anos, já passaram pelo curso alunos de países como Angola, Congo, Colômbia, Cuba, Guiné, Índia, Síria e Venezuela. 

PARA EMPREENDER, ELES SE EQUILIBRAM ENTRE OS ESTUDOS E O NEGÓCIO

O negócio social nasceu de uma ação entre amigos, engajados por uma iniciativa do Enactus, organização internacional sem fins lucrativos dedicada a inspirar universitários para empreender por um mundo melhor. Segundo Caio:

“Nem sempre os projetos da Enactus se transformam em negócios sociais. A maioria cria algo com impacto pontual e depois, certa forma, abandonada a iniciativa. Mas a gente encarou a Toti de uma forma diferente”

Os fundadores trilhavam cursos diferentes. Quase todos, aliás, seguem estudando, inclusive Caio (ele deveria concluir o curso neste ano, mas a pandemia adiou a formatura).

Daquele grupo faziam parte Bruna Amaral (hoje formada em Relações Internacionais); Diogo Nogueira e Eduardo Caldeira, ambos estudantes de Engenharia de Produção; Giulia Torres, aluna de Administração; e Beatriz Gonçalves, do curso de Engenharia Ambiental. 

EM BUSCA DE UM FOCO, RESOLVERAM AJUDAR NA CONQUISTA DO EMPREGO

A ideia de atuar com refugiados ficou clara desde cedo. Inicialmente, porém, eles ainda não sabiam muito bem qual era o caminho.

Era preciso entender melhor os problemas enfrentados por quem se vê forçado a buscar a sorte em um novo país. Caio conta:

“Depois de muito estudo e pesquisa de campo em organizações sociais, entendemos que os refugiados passam por três grandes desafios: encontrar moradia, conseguir documentação e, por fim, um emprego”

Os jovens decidiram atuar nesse terceiro desafio — ou seja, ajudar na conquista de um emprego. No início de 2017, o grupo começou a oferecer cursos para ajudar refugiados que tinham pequenos negócios, como venda de roupas e comida, a melhorarem a operação.

O impacto na vida dessas pessoas, no entanto, não estava ocorrendo da maneira como Caio e os cofundadores esperavam. 

“A gente queria aumentar drasticamente a renda dessa população — e isso não estava acontecendo.”

UM AMIGO DEU A IDEIA DE OFERECEREM CURSOS DE PROGRAMAÇÃO

Nesse momento, um colega de Caio sugeriu que eles ensinassem programação aos refugiados. 

A sugestão soava bem distante da realidade do grupo — nenhum dos fundadores era da área de tecnologia. Mesmo assim, a ideia foi bem-recebida. Afinal, o objetivo era ir além do imediatismo de uma fonte de renda pontual e impactar de verdade a vida dos refugiados.

“A gente não queria que os refugiados tivessem uma profissão que em dois ou cinco anos não existisse mais. A ideia era inseri-los num mercado em expansão — e a área de tecnologia veio muito a esse encontro”

Para levantar grana e colocar o negócio de pé, os jovens recorreram a algumas táticas. Criaram um crowdfunding e, paralelamente, começaram a oferecer, na própria faculdade, cursos sobre temas que dominavam, como Excel e Photoshop. 

Além disso, conseguiram “emprestada” a cozinha de um restaurante, arregaçaram as mangas e começaram a cozinhar e a vender refeições.

Com isso, o grupo levantou 8 mil reais. Pouco, mas o suficiente para colocar o negócio para rodar no início de 2018.

NÃO BASTA SÓ FORMAR ALUNOS: É PRECISO CONECTÁ-LOS COM O MERCADO

A primeira versão do curso da Toti foi modelada com o apoio de uma empresa de programação de São Paulo. 

Daí para frente, os sócios foram adaptando as aulas até chegarem ao formato atual, com ensino de desenvolvimento web voltado às demandas do mercado, como front-end, back-end, metodologias ágeis e soft skills.

Um salário inicial na área de programação, diz Caio, está na faixa de 3 500 reais; o aumento na renda dos refugiados empregados é, em média, de 155%. 

Para garantir que os alunos consigam um emprego, a Toti trabalha com dois modelos.

No primeiro, após a formação, a empresa faz prospecções individuais junto a negócios que precisem de colaboradores na área de programação — e tenham preocupação com o tema da diversidade.

No segundo modelo, a Toti vende a empresas a possibilidade de acompanhar a formação dos alunos desde o primeiro dia de aula, com envio de relatórios quinzenais de desempenho.  

A gente acredita que pode oferecer para os alunos algo muito melhor do que um subemprego. Dessa forma, as empresas conseguem conhecer melhor o perfil dos alunos e fazer a contratação de forma muito mais assertiva”

Neste formato, a Toti já firmou parcerias com três clientes: a Electric Dream Company e a MXM Sistemas, ambas do Rio, e a Tecnologia Única, da capital paulista, que financiou a formação de dez alunos na turma hoje em andamento. 

Uma vez efetivada a contratação, a Toti recebe da empresa o valor correspondente do primeiro salário do novo funcionário.

COMO FUNCIONA, NA PRÁTICA, O IMPACTO DA TOTI NA VIDA DAS PESSOAS

Caio menciona a história de um sírio que migrou para a Índia fugindo da guerra em seu país. Lá, conseguiu terminar seus estudos na área de Administração. 

Quando voltou para seu país natal, ele estava devastado e o jovem decidiu vir para o Brasil, onde conheceu a Toti. 

“Antes do curso, ele ganhava entre 1 500 e 2 000 reais em feiras de gastronomia. Hoje, trabalha como desenvolvedor, recebe em torno de 6 300 reais e tem uma vida completamente diferente”

Os alunos ficam sabendo do curso da empresa pelas redes sociais e pela divulgação feita por organizações parceiras especializadas em atender refugiados, como a Caritás

Segundo Caio, 63% dos alunos são bilíngues. Uma pesquisa interna mostra que 45% dos alunos já têm uma graduação, 28% têm pós-graduação e 36% já trabalharam na área de tecnologia.” 

“Já formamos psicólogos e dentistas em programação. É bom que eles trazem outra bagagem para a nova profissão”, diz. 

A PANDEMIA FEZ AS AULAS SEREM REESTRUTURADAS PARA O ONLINE

Quando a pandemia estourou, a Toti estava estreando sua atuação fora do Rio, com uma turma de oito alunos em São Paulo (o curso vai até agosto). 

Em menos de duas semanas, as aulas, que sempre foram presenciais, precisaram ser transferidas para o ambiente online.

Os sócios viram que não bastava adaptar o conteúdo: era preciso pensar o curso para o mundo virtual. Assim, abriram, em junho, um novo grupo com aulas já planejadas para o EaD (Ensino à Distância).

“No online, dividimos o curso em aulas gravadas e aulas ao vivo. Toda segunda, os alunos recebem blocos de conteúdo gravados com seis horas. Eles vão consumindo esses vídeos ao longo da semana. E nas terças e sextas-feiras, temos aulas ao vivo com os professores — e a possibilidade de tirar dúvidas” 

A empresa atraiu a atenção da Acnur, que se tornou parceira na divulgação, e captou 22 alunos do Rio de Janeiro e de Roraima — na fronteira com a Venezuela, o estado tem grande fluxo de imigrantes.

O FATURAMENTO AINDA É PEQUENO; OS EMPREENDEDORES PRIORIZAM O IMPACTO

A Toti já passou por algumas acelerações. Em 2018, fez parte do Shell Iniciativa Jovem. Em 2019, participou da Fábrica de Startups e do Pró-Lider. E este ano, os sócios estão imersos em outros dois programas: o Labora +Sebrae (da Oi Futuro) e o InovAtiva de Impacto.

Atualmente, a empresa conta com sete professores: três de São Paulo e quatro do Rio. O primeiro deles, Lucas Fernandes, estudante de Engenharia Eletrônica, hoje também é sócio da empresa.

O faturamento ainda é pequeno: em 2019, ficou em 150 mil reais. Por ora, porém, os empreendedores se dizem mais preocupados com o impacto. 

Caio lembra o caso de outra aluna, uma venezuelana de cerca de 20 anos que chegou ao Brasil com ensino médio completo — e a esperança de fazer uma especialização. Após passar pela Toti, em 2019, ela conseguiu um emprego em São Paulo.

“Em seis meses, o tempo do curso, conseguimos impactar e promover uma mudança na vida dela. Para nós, um caso como esse é muito significativo.”

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  • Projeto: Toti
  • O que faz: Plataforma de ensino de programação para refugiados e imigrantes
  • Sócio(s): Beatriz Gonçalves, Bruna Amaral, Caio Rodrigues, Diogo Nogueira, Eduardo Caldeira, Giulia Torres e Lucas Fernandes
  • Funcionários: 9 (com os sócios), mais 7 professores
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2016 (como projeto de faculdade) e 2018 (com modelo de negócio)
  • Investimento inicial: R$ 8 mil
  • Faturamento: R$ 150 mil (em 2019)
  • Contato: [email protected]
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