Eles perderam as mães para o câncer. Agora, querem salvar a vida de outros pacientes com um aplicativo de monitoramento remoto

Dani Rosolen - 12 ago 2020
César (à esq.) e Lorenzo , cofundadores da Wecancer, que hoje está sediada no Eretz.bio, hub de inovação do Hospital Albert Einstein.
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Só em 2020, mais de 620 mil pessoas devem receber o diagnóstico de câncer no Brasil, segundo estimativas do Inca (Instituto Nacional de Câncer). E o mais trágico: por receio da Covid-19, muitas pessoas só saberão que têm câncer quando for tarde demais.

Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica e da Sociedade Brasileira de Patologia aponta que, apenas nos dois primeiros meses da pandemia, entre 50 mil e 90 mil pessoas deixaram de ser diagnosticadas no país, por evitarem ir a hospitais devido ao coronavírus.

Preservar o contato próximo entre a equipe médica e a pessoa enferma é parte essencial da missão da WeCancer. A startup ajuda a monitorar, de forma remota, pacientes oncológicos a partir de dados que eles inserem na plataforma. Assim, contribui para melhorar os cuidados, evitar hospitalizações desnecessárias e reduzir custos de tratamento.

O uso da ferramenta é gratuito para os pacientes. Mais de 6 mil pessoas já baixaram o aplicativo, que conta hoje com cerca de 350 usuários ativos. Ao longo desses quatro anos de operação, 3 mil pacientes foram atendidos.

A IDEIA E A MOTIVAÇÃO POR TRÁS DO NEGÓCIO NASCERAM DE UMA PERDA

Em 2014, o então biólogo César Filho, CEO da WeCancer, acompanhou de perto o tratamento de sua mãe, diagnosticada com um tumor no ovário.

“Ela foi tratada pelo SUS. Como os quartos nos hospitais e a sala de quimioterapia são compartilhados, percebi que aquela história não era só nossa… Minha mãe se chamava Maria, então costumo dizer que essa é a história de muitas Marias, Joãos, mães, pais, filhos…”

César e a mãe, Cida, que inspirou a jornada da WeCancer.

A mãe de César não resistiu à doença. Sua morte fez com que ele buscasse um caminho para ajudar outras pessoas que passam pela mesma situação. Um dos desafios que César identificou na jornada de tratamento foi em relação ao contato entre a equipe médica e o paciente quando ele ou ela não está hospitalizado(a).

No caso de César e sua mãe, havia um complicador adicional: o tratamento era realizado em outra cidade. Muitas vezes, diz, ele não sabia o que deveria fazer se a mãe, em casa, apresentasse alguma reação adversa. E esse problema da distância é comum para muitos pacientes:

“Poucas cidades têm hospital de câncer. Um dia, conversando com uma médica da Paraíba, ouvi que no município dela uma pessoa teria de viajar 400 quilômetros se precisasse de tratamento oncológico. Comecei a agradecer que no caso da minha mãe eram ‘apenas’ 80 km.”

MUDANÇA DE MINDSET: AJUDANDO PACIENTES COM BASE EM SEUS RELATOS

Como encurtar essa distância entre médicos e pacientes? Pesquisando, César se deparou com o conceito de Electronic Patient-Reported Outcomes. Ele explica:

“A medicina é muito baseada na percepção dos médicos. E o Patient Reported Outcomes é a percepção do paciente, o que ele está relatando. Isso pode parecer simples, mas não era muito praticado. O ‘electronics’ entra nesse modelo quando o relato é feito de forma eletrônica”

A partir dessa visão, César formulou a ideia do WeCancer. O aplicativo, então recém-lançado, ganhou um impulso em 2017, com a publicação de um estudo apresentado em um congresso organizado pela Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco). 

“Essa pesquisa comprovou que pacientes acompanhados remotamente — no caso, por e-mail — viviam, em média, cinco meses a mais [do que aqueles sem acompanhamento remoto], tinham aumento de 26% na qualidade de vida e redução de visitas ao PS em 20%.”

Trata-se de uma mudança da lógica assistencial, enfatiza o empreendedor. “Hoje, o sistema de saúde é muito focado no hospital, mas muita coisa pode ser feita de casa.”

Outro detalhe que chamou atenção nesse modelo foi a questão de redução de custos. 

“Quando se fala de saúde, novas tecnologias não necessariamente barateiam o tratamento. Ao contrário, elas encarecem pelo custo envolvido em pesquisas. Já no acompanhamento remoto, a tecnologia ajuda, de fato, a baratear o tratamento”, afirma.

A CHEGADA DE UM SÓCIO COM KNOW-HOW DE NEGÓCIOS — E A MESMA DOR

Criado em Muriaé, Minas Gerais, filho de uma funcionária pública e um caminhoneiro, César penou um pouco para dar o start no projeto.

“Fui morar no Rio de Janeiro para empreender e tirava 500 reais de salário, numa época em que meus amigos já estavam ganhando dinheiro. O desafio é começar: acreditar num sonho e lutar por ele.”

No começo de 2017, César conheceu Lorenzo Cartolano, que se tornaria sócio do negócio. 

“Eu tinha uma vontade grande de resolver o problema e criar um negócio, entendia o conceito e o projeto… Mas não sabia como abrir a empresa e nem o que era ‘startup’. Vim de uma família humilde, meus pais esperavam que eu fosse funcionário público, para ter uma vida estável”

Formado em administração, Lorenzo sabia como montar um negócio. E além disso, tinha perdido a mãe para um câncer no pâncreas.

César chegou a ele por meio de conhecidos da Fundação Estudar, que despertara seu interesse para a resolução de problemas através do empreendedorismo. 

Com um aporte de 80 mil reais, Lorenzo se tornou o primeiro investidor da startup.

Hoje, a WeCancer tem 12 colaboradores, incluindo um diretor médico oncologista e três profissionais — um enfermeiro, uma nutricionista e uma psicóloga — com especialização oncológica.

POR DENTRO DO WECANCER: COMO FUNCIONA O APLICATIVO, NA PRÁTICA

A plataforma da WeCancer destinada aos pacientes conta com quatro funcionalidades principais.

Na função “gerenciador de sintomas”, o usuário informa se tem febre, falta de ar ou algum efeito adverso da medicação, por exemplo. A “organização da jornada” traz lembretes sobre horários de remédios e consultas. 

Há ainda o “Cancerpedia”, uma área de conteúdos sobre a doença alimentada em parceria com o Instituto Vencer o Câncer, e um chat para interagir com enfermeiros da equipe médica responsável pelo tratamento (quando o hospital é cliente da startup e portanto paga por esse serviço).  

O paciente pode fazer o download por conta própria, mesmo em tratamento na rede pública. Nesse caso, quem interage no chat é a equipe de saúde da WeCancer.

“Oferecemos essa possibilidade para gerar impacto social. Um paciente do SUS de Caruaru, por exemplo, pode ter acesso à plataforma e tirar suas dúvidas gratuitamente”

César enfatiza: o chat não funciona como uma consulta, são apenas orientações. Os médicos só acessam o dashboard no momento do atendimento presencial (e contam com um app próprio da WeCancer para acompanhar o histórico inserido pelo paciente e receber alertas em casos mais graves). 

“O chat e essa troca de informações são muito mais eficientes do que uma conversa no WhatsApp, que alguns médicos usam hoje em dia, pois geram inteligência de dados para melhorar o atendimento”, diz César.

DE HOSPITAIS A INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS: OS CLIENTES DA WECANCER

A startup tem dois modelos de negócio, um para hospitais e outro para a indústria farmacêutica, que compra a solução para oferecer a seus clientes. Neste modelo, César cita dois clientes grandes: Roche e AstraZeneca.

“Essas empresas não querem mais ser vistas apenas como fornecedoras de medicamento, mas uma parceira no sucesso do tratamento do paciente”, diz. 

No modelo Saas, hospitais pagam uma mensalidade para disponibilizar a ferramenta da WeCancer a seu corpo médico e pacientes. Instituições menores, sem uma área multidisciplinar bem estruturada, podem contratar a startup para prestar assistência mediante um valor por paciente ativo.

Desbravar o setor não foi fácil, diz César:

“A área da saúde não é das mais abertas à tecnologia. A telemedicina foi aprovada neste ano e [só] por causa da Covid-19. Empreender na saúde é muito difícil, pois é um setor bem conservador”

A startup atende hoje seis hospitais em quatro estados: Ceará, Minas Gerais, Paraná e São Paulo. Entre eles, o Hospital Israelita Albert Einstein, que ajudou a alavancar o crescimento. Em 2019, a WeCancer foi selecionada para fazer parte do hub de inovação do hospital, o Eretz.bio, teve contato com mentores e recebeu do Einstein seu primeiro aporte institucional. 

Agora, afirma César, a startup está em uma negociação de uma rodada seed com um fundo de investimento (por ora, nomes e valores permanecem em sigilo).

NA PANDEMIA, É PRECISO CUIDAR TAMBÉM DA SAÚDE MENTAL DOS PACIENTES

A pandemia da Covid-19 traz, obviamente, impactos para a saúde mental, e esse é um risco a mais para os pacientes com câncer (além do perigo do diagnóstico tardio). 

“A quantidade de pacientes que sofrem com a ansiedade aumentou muito”, diz César. “Eles já tinham medo da morte — e passaram a ter ainda mais medo por causa do coronavírus.” 

Para ajudar, a WeCancer disponibilizou na plataforma, temporariamente, consultas psicológicas e nutricionais gratuitas para os pacientes oncológicos. “É uma forma de contribuir para o Brasil nesse momento de luta.”

Em relação à demanda, o empreendedor conta que a pandemia trouxe uma situação ambígua: 

“Ao mesmo tempo em que as equipes de saúde buscaram digitalizar a jornada do paciente e pensar no atendimento à distância, os principais hospitais estavam focados na Covid-19.  Criamos muito lead, mas o ciclo de fechamento de vendas se tornou maior”

Para o futuro, o objetivo é entender melhor o impacto da WeCancer na vida dos pacientes (por meio de pesquisas) e chegar às regiões Norte e Centro-Oeste.

“Além disso, queremos criar uma modelagem preventiva em relação às hospitalizações, com uso de inteligência artificial, e impactar mais o SUS. Afinal, mais de 81% de nossos usuários são do sistema público.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: WeCancer
  • O que faz: Plataforma de monitoramento remoto de pacientes oncológicos
  • Sócio(s): César Filho e Lorenzo Cartolano
  • Funcionários: 12
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2016
  • Investimento inicial: R$ 80 mil
  • Contato: [email protected]
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