Dez anos de Benfeitoria. Ou: como é largar o emprego para apostar no sonho de mudar o país através do financiamento coletivo

Dani Rosolen - 29 jun 2021
Murilo e Tati, o casal de fundadores da Benfeitoria.
Dani Rosolen - 29 jun 2021
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Em dez anos, a principal mudança foi a barba branca, brinca Murilo Farah, 41, CEO da Benfeitoria.

É brincadeira mesmo. Na verdade, ele e Tati Leite, 38, passaram por várias transformações desde que deixaram a Coca-Cola, em 2011, para fundar a plataforma, a primeira de crowdfunding com comissão livre do Brasil.

A maior mudança, claro, foi o nascimento dos filhos, Téo, hoje com 7 anos, e Lui, 4. Além disso, o casal conquistou a tão sonhada sustentabilidade do negócio, abriu a sociedade para novos integrantes e acumulou um bocado de conhecimento empreendendo a dois.

As inovações tecnológicas alavancaram outras mudanças nessa década. Segundo o CEO:

“Quando a gente começou, o e-commerce estava engatinhando, as pessoas tinham medo de passar o cartão online e a Benfeitoria estava falando de crowdfunding. As pessoas questionavam: “Crowd o quê?”

Hoje, mesmo que 50% dos colaboradores de campanhas estejam ouvindo falar de financiamento coletivo pela primeira vez, a evolução foi grande. Em uma década, a Benfeitoria já mobilizou mais de 135 milhões de reais de cerca de 500 mil benfeitores em aproximadamente 8 mil projetos.

Na pandemia, esse ritmo se acelerou, com mais causas precisando de recursos. A dupla se pôs a serviço dessa demanda, trabalhando muito mais (e dormindo muito menos) para dar conta de tudo.

COMO DIVIDIR O COMANDO, OU A LIDERANÇA CIRCULAR DOS GANSOS

Quando entrou na Coca-Cola, Murilo já sabia que um dia sairia para empreender. Tati diz que seu sonho era outro, mas foi mudando com o tempo:

“O Murilo tinha a clareza de que um dia teria um negócio, já eu queria ser presidente da Coca- Cola. Aquilo me realizava plenamente, até eu virar uma chave e mudar, mas empreender para mim foi muito difícil”

O casal foi achando seu caminho na jornada empreendedora, mas precisou aprender a dividir a liderança, missão que Tati compara a um conceito que conheceram na formação Gaia Education, o de liderança circular dos gansos: “Eles voam em V, com um na frente quebrando a resistência do ar e os outros atrás fazendo quen quen para incentivar o primeiro, mas aí o da frente cansa, vai para trás e outro assume”.

Foi essa coreografia, ou melhor, esse modo de liderar que eles escolheram quando, em 2016, Tati ficou grávida do segundo filho e decidiu tirar licença maternidade, o que não pôde fazer na primeira gravidez.

A ideia dela era sair da Benfeitoria na sequência, mas acabou ficando responsável por tocar uma versão corporativa do Reboot (já falamos sobre o festival de economia colaborativa e os primeiros anos da Benfeitoria aqui).

Depois de quase dois anos, quando Murilo já estava exausto, na véspera de uma reunião de fim de ano com a equipe, foi a vez de Tati assumir as rédeas e ele ficar nos bastidores, cuidando de um projeto paralelo.

Hoje, os dois conseguiram acertar os passos de forma perfeita e enquanto Murilo cuida do crowdfunding, Tati é responsável pelo LAB, as parcerias especiais da Benfeitoria com marcas.

NO CASO DELES, NÃO HÁ COMO RECLAMAR DE CHEFE OU DO PAR NO TRABALHO

Mesmo sintonizados, não é fácil empreender em casal, diz Tati:

“Brinco que quando leem sobre a nossa história, saindo da Coca para criar a Benfeitoria, consigo visualizar os pôneis alados em volta do imaginário das pessoas, mas não é assim. [Mesmo] com todos os privilégios que a gente tem, foi muito intenso, uma montanha-russa”

Ainda mais quando o escritório passou a ser a própria casa, durante a pandemia, e foi preciso conciliar tarefas domésticas, filhos, homeschooling e muito mais.

Parte da solução é uma agenda bem divididinha, com o horário da família, do casal, do trabalho — e a outra parte reside no diálogo, conta Murilo:

“É importante perguntar como foi o dia do outro, pois apesar de a gente trabalhar no mesmo lugar, acaba quase não se vendo.”

Falar sobre trabalho em casa, mesmo num fim de semana, não é nenhum tabu para eles:

“Desde o momento em que criamos a Benfeitoria, o trabalho passou a ser algo mais integrado à nossa vida, porque a gente está fazendo o que ama”, diz Murilo. “Obviamente, às vezes a gente brinca que a sócia é muito chata, terceiriza essa persona para aliviar.”

ABRIR MÃO DE ABRAÇAR MIL PROJETOS PARA FORTALECER O PRINCIPAL

Originalmente, o negócio se chamava Mirabolatório. Combinava bem com a tendência dos dois de pirar em ideias “mirabolantes” para tangibilizar projetos por meio da força do coletivo. “Nosso tesão é criar conceitos e inventar”, diz Tati. “É onde a gente entra em flow, gosta de brincar de trabalhar.”

A Benfeitoria, afirma o casal, nunca foi “apenas” uma plataforma de crowdfunding — mas sim um laboratório de inovação social. Eles sempre estavam em busca de mais. Em 2013, por exemplo, promoveram o Rio+ (plataforma de inovação urbana) e, no ano seguinte, o Reboot.

No entanto, teve um momento em que os empreendedores perceberam que não conseguiriam construir uma espinha dorsal resistente e sustentável tocando tantos projetos ao mesmo tempo. Em 2015, decidiram concentrar as energias no que estava começando a gerar escala e tração, o crowdfunding.

“Eu diria que essa foi a decisão em termos de negócio mais acertada e mais difícil que a gente tomou”, diz Tati.

Segundo eles, a estratégia deu resultado. “Assim, a gente conseguiu aumentar o impacto e inovar dentro desse modelo, criando a primeira plataforma com campanha recorrente, além de trazer para o Brasil o matchfunding”, afirma Murilo.

ELES DESISTIRAM DE TER UM INVESTIDOR, MAS CRESCERAM MESMO ASSIM

Com mais atenção na plataforma de crowdfunding, os empreendedores conseguiram tornar o negócio sustentável depois de dez anos. Antes, apelavam a uma “santa” diferente para manter as contas em dia:

“A gente viveu aqui muito tempo sem saber como ia ser o próximo mês”, diz Murilo. “Então, criamos a ‘Nossa Senhora dos Fluxos’, a padroeira dos empreendedores.”

Tati complementa:

“Quantas vezes a gente achou que não teria como pagar o salário da equipe — e de repente acontecia algo e ganhávamos mais três meses de respiro. Temos por trás essa confiança no fluxo, de que alguma hora a consistência do que estamos fazendo é retribuída”

O casal cogitou abrir uma rodada de investimentos, mas achou esse processo muito “cruel”.

“Chegamos a assinar um acordo de investimento, mas voltamos atrás porque percebemos que aquilo colocaria o negócio em risco. Há muitas pegadinhas envolvidas nesse processo que podem acabar com uma empresa”, diz Murilo.

No final das contas, a Benfeitoria acabou crescendo sem o aporte. Demorou mais tempo do que os empreendedores imaginavam, mas aconteceu.

“A gente não tem nem de longe uma história de ‘startup de garagem’ que cresce exponencialmente”, diz Murilo. “A Benfeitoria é tijolinho a tijolinho.”

DA “PATOTA DO BEM” PARA UM NEGÓCIO MAIS ESTRUTURADO E DIVERSO

Outra mudança notável na Benfeitoria é a estruturação do time. O casal decidiu trazer para o quadro societário colaboradores que acompanharam e apoiaram sua trajetória desde o começo. E hoje a empresa tem mais seis sócios.

O time ganhou mais diversidade, ou como diz Tati, “deixou de ser uma patota do bem”.

“Lá em 2014, a Benfeitoria era composta por pessoas brancas, da Zona Sul do Rio, formadas em universidades top e que falavam inglês fluente. [Hoje] ganhamos consciência de classe e de raça. Sempre falamos de um mundo melhor, mas algumas coisas antes eram invisíveis para nós”

A Benfeitoria se organizou para mudar isso, definindo que todas as vagas abertas — não importa a área ou perfil — vão ser destinadas a pessoas negras até que esse grupo represente 50% da equipe. Atualmente, segundo Tati, esse índice é de 30% no time de 23 pessoas.

NA PANDEMIA, ELES TRABALHARAM MUITO MAIS

No começo de 2020, a Benfeitoria estava com muitos projetos no ar de cunho cultural e social, mas em março daquele ano, com a pandemia, todos foram interrompidos.

“Não havia como postar algo nas redes sociais que não fosse sobre pandemia”, diz Murilo. “Ao mesmo tempo, veio uma demanda enorme, porque não estamos passando por uma crise econômica, mas humanitária. Então, nos colocamos a serviço de um projeto emergencial de transferência de recursos rápida.”

A Benfeitoria começou a atacar diferentes frentes, com campanhas que iam desde arrecadação para a compra de EPIs para médicos a auxílio para a população na base da pirâmide. A colaboração impressionou, comenta Murilo:

“Nos primeiros três meses de pandemia, vimos pessoas fazendo muitas contribuições, gente assinando chegue de 1 milhão de reais para ajudar projetos, quando o ticket médio da plataforma é de 150 reais”

Só em 2020, foram mais de 4 360 campanhas, com apoio de cerca de 220 mil benfeitores, que mobilizaram 81 milhões de reais.

AS DOAÇÕES AUMENTAREM NO COMEÇO, MAS DEPOIS A SOCIEDADE SE “ANESTESIOU”

Com mais de um ano e meio de pandemia, no entanto, o ritmo de doações mudou.

“Essa mobilização foi anestesiada por um processo quase que de sobrevivência. É uma defesa do corpo mesmo, a gente não consegue ficar em modelo de emergência por muito tempo”, diz o CEO.

Tati gosta de citar a seguinte frase dita por Kiko Afonso, da Ação da Cidadania, na festa online de dez anos da Benfeitoria, que aconteceu em abril, com duração de dez horas: “As pessoas se mobilizam na tragédia, não no drama”.

“Eu ficava pensando por que o Brasil precisa de uma pandemia para as pessoas se mobilizarem quando temos índices tão graves em relação a saneamento, educação etc.”

Por outro lado, os dois enxergam como positivo o fato de mais pessoas estarem se engajando, o que também ajudou a plataforma a se manter, mesmo com seu sistema de comissão livre.

“Isso prova a beleza desse nosso modelo, pois antes da pandemia 95% das pessoas deixavam uma comissão, mas com a crise isso diminuiu muito. Porém, como houve aumento do número de campanhas, conseguimos fazer um ano bom”, afirma Murilo.

A PROMESSA É DE MAIS TRANSFORMAÇÕES NOS PRÓXIMOS ANOS

Se em uma década tudo pode mudar, pode ser difícil fazer planos olhando tão à frente, para os próximos dez anos. Mas o casal mantém aceso o desejo de transformações. Segundo Murilo:

“Queremos utilizar essa inteligência do financiamento coletivo para promover uma mudança cultural e comportamental de forma coletiva e massiva em outros setores, como por exemplo o de inovação e tecnologia, que poderia se beneficiar muito para lançar produtos, como já acontece nos Estados Unidos”

Tati, por sua vez, brinca com o título original do clássico De Volta Para o Futuro:

“Tem aquela frase ‘back to the future’; a gente brinca que vive o ‘forward to the past’, pois muito do que sonhamos lá atrás ainda é muito relevante e novo, mas na época a gente não tinha estrutura, rede de apoio, equipe e grana para fazer… Agora, estamos do tamanho que dá para realizar aqueles sonhos mais antigos — e planejar novos.”

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