O futebol de botão ainda tem vez na era do videogame? Ainda mais como negócio? A Botões Clássicos aposta que sim

Bruno Leuzinger - 4 fev 2021
Luciano Araújo, fundador da Botões Clássicos.
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Em 2014, na ressaca pós-Copa (7 x 1, lembra?), o designer Luciano Araújo estranhou quando alguém sugeriu, num grupo de amigos: que tal um churrasco com campeonato de futebol de botão?

“Pô, botão? Eu nem levei muito a sério na hora.”

O convite despretensioso foi o pontapé inicial de uma nova trajetória. Luciano, 45, hoje está à frente da Botões Clássicos. A empresa cria times de futebol de botão sob encomenda, reproduzindo os uniformes (antigos ou atuais) dos clubes nos mínimos detalhes.

Em média, a Botões Clássicos vende de 300 a 400 times por mês. Entre os clientes há desde gente grande que leva muito a sério a brincadeira até pais nostálgicos à procura de uma diversão analógica para compartilhar com os filhos. 

O site tem mais de 2 mil times — um mesmo clube pode estar presente com vários times, de épocas diferentes.

“E há muitos outros times que não estão no site, porque são pedidos customizados”, diz Luciano. “Muita gente encomenda [botões reproduzindo] o time de várzea em que a pessoa joga, o time da escola ou da universidade em que ele jogou…”

ELE COMEÇOU SUA CARREIRA COMO DESIGNER NA REVISTA DA QUAL ERA FÃ

O futebol de botão fez parte da infância de muitos brasileiros, pelo menos até os anos 1980. Houve um tempo em que a molecada fabricava seus botões com casca de coco, osso, vidro de relógio… Uma caixa de fósforos com chumbo dentro dava um bom goleiro.

Depois, vieram botões industrializados, de plástico, acrílico… Alguns mais caros, outros baratinhos, vendidos em banca de jornal. 

“É algo antigo na minha vida, que vem do meu avô e do meu pai, que tinha seus botões guardados… Nas férias, a gente fazia campeonatos com os primos, o pessoal da rua, jogava na garagem com o Estrelão [mesa da fabricante Estrela]….”

Na adolescência, ele se desligou dos botões (“provavelmente por causa do videogame”), mas não do futebol. São-paulino, continuou fissurado no esporte enquanto se iniciava como designer:

“A primeira revista em que trabalhei foi a Placar. Entrei em 1996, e já era assinante. Ou seja, comecei a carreira na revista da qual eu era fã, colecionava. Celso Unzelte e PVC eram repórteres na época… A gente falava de futebol 48 horas por dia”

Ele passou por outras revistas da Editora Abril, mas sempre pegando trabalhos pontuais para a Placar. “Continuei fazendo frilas, principalmente aquelas edições especiais, pôsters.”

O MERCADO EDITORIAL VINHA DERRETENDO. A SAÍDA? EMPREENDER

A última vivência de Luciano em redação foi naquele ano, 2014, em um projeto publieditorial produzindo conteúdo para várias revistas da Abril, com entregas pré-Copa e pós-Copa.  

Foi nesse contexto, na redação da Placar, que pintou aquela ideia de churrasco + futebol de botão. Depois de estranhar, ele topou. “Falei, beleza, tô dentro… E aí, não achei os meus botões. Fui na casa da minha mãe, revirei tudo e não achei nenhum…” 

Fuçando, Luciano descobriu que tinha gente que vendia kits para quem quisesse fazer os próprios botões. Decidiu criar seu time (pelo sorteio, ele jogaria com a Alemanha) — e também o do seu irmão, que participaria do campeonato com a Holanda.

“Fiz o meu time e o do meu irmão, e levamos no dia do campeonato. E o pessoal: ‘nossa, que legal, como ficou bonito…! Você faz o do Corinthians, o do Palmeiras?’ Foi aí que me deu o estalo: vou fazer um site e vender times de botão…” 

Àquela altura, já era clara a urgência de uma guinada profissional. O mercado de revistas vinha derretendo, e a própria Abril, fechando título atrás de título. A saída era empreender.

DIVIDIDA EM DUAS ETAPAS, A PRODUÇÃO PERMANECE ARTESANAL

Os botões de Luciano são do tipo chamado vidrilha, ou tampa de relógio. Lentes de resina termoplástica ganham adesivo e acabamento que compõem a identidade visual do time.

Nesses sete anos, ele refinou a técnica, mas o passo-a-passo segue o mesmo. 

Primeiro, pesquisa referências e monta a arte no computador. Leva em média uma hora; o grau de dificuldade varia com o nível de detalhes (nos anos 1990, por exemplo, as camisas dos times abusavam dos grafismos). 

“O escudo, a tipologia, o número, tudo muda… O escudo do Flamengo é de um jeito na camisa do título de 1981, é de outro jeito em 1992… Qual a diferença desse São Paulo para o outro? Ah, esse daqui o patrocínio era Nugget, o outro era LG…”

A arte então é impressa em alta definição para ser colada em seguida nas lentes.

“É um trabalho bem artesanal, tem que colar um por um, grudar bem esses adesivos para não deixar bolha”, diz Luciano. “Depois finaliza com a pintura da borda, no pincel, daí deixa secar, dá mais uma demão, lixa para tirar as rebarbinhas de tinta, limpa com pano úmido…”

Esse processo toma mais uma hora e hoje é gerenciado por Marcelo, irmão de Luciano, à frente de colaboradores que ganham comissão em cima do que produzem.

ELE COMEÇOU A ORGANIZAR CAMPEONATOS, E ACABOU INAUGURANDO UM BAR

Desde o comecinho da Botões Clássicos, Luciano ouviu uma cobrança recorrente: puxa, comprei esse time, é muito legal, mas não tem onde jogar…

Os botões reproduzem detalhes do uniforme de times atuais e antigos, como este Botafogo campeão brasileiro de 1995.

Sabe a CBF? O futebol de botão tem a sua própria confederação (o nome oficial do esporte, aliás, é futebol de mesa).

Porém, o empreendedor sentia que seu público queria jogar em um contexto mais despojado.

Por meio de parcerias com bares (inclusive um junto ao Museu do Futebol, no Pacaembu), ele começou a organizar campeonatos.

“Eu usava esses eventos para divulgar o trabalho, montava uma barraquinha com os times que eu fazia.”

A demanda crescia, os campeonatos inchavam, e conseguir toda semana um teto para jogar botão foi ficando difícil. Assim, em 2018, ele inaugurou seu bar, o Arquibancada

“Sempre me preocupei com a cultura de arquibancada, até por entender que o futebol está ficando chato: hoje não pode mais entrar com bandeira, os clássicos são de uma torcida só… O espaço do bar conecta o futebol de botão na lembrança das pessoas — e também a lembrança de um futebol legal, de Maracanã lotado, Morumbi lotado…”

O projeto do bar, diz, foi meio “na raça, [estilo] volantão mesmo, camisa 5”, sem grandes investimentos. E os botões, claro, estão à venda no espaço, localizado na Pompeia, Zona Oeste de São Paulo.

UM ÁLBUM DE FIGURINHAS CUSTOMIZADO CATIVOU O PÚBLICO PARTICIPANTE

A expertise como designer entra em campo na hora de engajar o público com conteúdos em vídeo nas redes — e com produtos físicos voltados aos participantes dos campeonatos.

Para divulgar um torneio de botão inspirado na Premier League inglesa, Luciano lançou uma cerveja com uma ilustração do ex-craque Eric Cantona, ídolo do Manchester United, no rótulo. 

O burburinho de iniciativas assim atraía mais gente para os campeonatos — e clientes para o bar. Se os primeiros torneios tinham 16 participantes, o mais recente, com o tema futebol italiano, contava nada menos que 98 inscritos. 

Nessa última edição, no primeiro semestre de 2020. Luciano resolveu criar um mimo especial para os participantes.

“Tivemos a ideia de fazer um álbum de figurinhas autocolantes, com uma qualidade bacana, no nível daqueles da Panini… Buscamos uma gráfica que fizesse esse álbum customizado. Foi um sucesso, todo mundo entrou na onda e começou a colecionar e a trocar figurinhas… Tem tudo a ver com essa pegada nostálgica do futebol de botão”

Entre as figurinhas havia inclusive retratos dos participantes, cada um deles defendendo um time: Juventus, Milan, Internazionale… O pessoal comprou a ideia; a venda dos pacotinhos com os “cromos autocolantes” bancou o custo de gráfica.

PARA O EMPREENDEDOR, A BOTÕES CLÁSSICOS AJUDA A REAQUECER O MERCADO

O futebol de botão nunca morreu. Basta uma busca no Google para perceber que há toda uma comunidade de botonistas trocando informações, comprando e vendendo times inteiros ou botões avulsos…

Luciano, porém, diz que a criação do Botões Clássicos ajudou a reaquecer esse mercado, incentivando outros fabricantes e estimulando a cadeia de fornecedores em torno. 

“O produtor de mesa, por exemplo, tem uma marcenaria bem grande, mas fazia [mesas de botão] por hobby, era bem pontual. Agora, ele fala que o que vende de mesas num mês era o que ele produzia praticamente ao longo do ano inteiro… Virou uma produção bem maior por causa dessa volta do futebol de botão”

O empreendedor também destaca o retorno de uma das fabricantes de sua infância, a Brianezi.  

“A marca estava paradinha lá, e agora, em 2020, anunciou a volta. Então, a gente deu uma mexida no negócio deles.”

DOIS DESAFIOS: CUSTO DE MATÉRIA-PRIMA E EXIGÊNCIAS DE LICENCIAMENTO

Um time da Botões Clássicos custa 70 reais. Barato na comparação com um Lego, diz Luciano. Fazer caber aí o custo da matéria-prima nem sempre é fácil.

“O goleiro é de acrílico, que varia muito o preço: se o dólar está alto, as empresas todas exportam… O preço das lentes também sofre com variação de mercado. O desafio é controlar [o custo] para a conta se pagar.”

Outro é driblar a exigência de licenciamento. Já aconteceu de clube aparecer exigindo uma porcentagem sobre os botões que levam a sua marca. Notificado, Luciano precisou retirar os times do site. 

Na visão dele, o formato engessado de licenciamento não funciona para produtos artesanais como o seu.

“Os clubes têm um valor mínimo [de licenciamento], seja para a produção de um milhão de cadernos, seja para vender vinte times de botão o ano todo.  Ou você paga o mesmo valor mínimo que a Tilibra para vender um produto licenciado, ou você está fora… Não dá nem para começar uma conversa” 

O licenciamento inviabilizaria o negócio. Não só financeiramente: 

“Outra coisa chata é que você não pode usar o nome do jogador, não pode usar um detalhe da camisa — porque é de responsabilidade da fornecedora de material esportivo… Só pode usar o escudo e as cores do clube.”

QUE TAL UM TIME DE BOTÃO DOS ROLLING STONES OU DO PINK FLOYD?

Fã de rock, o empreendedor e designer curte inventar times imaginários inspirados em grupos como ACDC, Beatles, Pink Floyd…

Adaptar a identidade visual de bandas famosas para o formato futebol de botão gerou matérias na imprensa e deu um gás lá atrás, no começo do negócio. 

“Me divirto muito fazendo os times de bandas. Surpreende as pessoas, elas não esperam ver um time de botão dos Rolling Stones, por exemplo. Acho legal esse desafio de colocar a linguagem deles: como seria uma camisa [de futebol] dos Rolling Stones…?

Por outro lado, nem todo uniforme de futebol é viável em formato botão.

O time de botão do Pink Floyd custa 70 reais.

 “Tem camisa que você acha que vai ficar legal e não fica, porque os detalhes acabam tão pequenos que não aparecem… E tem outros que o uniforme é feio, mas a galera fala: pô, o botão ficou legal!

Luciano cita a camisa da seleção mexicana da Copa de 1998. Estampado com um grande sol asteca, o uniforme levou muita gente a torcer o nariz, diz o empreendedor. “Mas como o botão é redondo, aquele desenho fica perfeito.”

Ele destaca ainda o modelo atual do Borussia Dortmund, da Alemanha, com raios pretos sobre o fundo amarelo, que em breve vai virar botão. “Ainda não terminamos, mas vai ficar muito bonito.”

A PANDEMIA TROUXE IMPACTOS NEGATIVOS, MAS NEM TUDO FOI GOL CONTRA

A Covid, claro, fechou o bar por um tempo; quando reabriu, a Arquibancada teve de se adaptar às restrições impostas ao comércio em geral. 

Luciano diz que as vendas costumam ser um “trabalho de formiguinha”: é preciso convencer o pai de que o filho vai largar o videogame (ao menos temporariamente) para jogar botão. Com a pandemia, o interesse cresceu.

“O que aconteceu foi que muitos pais chegaram pela primeira vez [ao site], vieram nos procurar em busca de jogos para jogar em casa. Tivemos um aumento de vendas online e pelas redes sociais, gente encomendando times, mesa, traves… O kit completo. Isso nos ajudou a segurar a onda do bar fechado”

Conectar pais e filhos em torno do universo lúdico do futebol de botão é talvez o grande barato.

“Costumo dizer que a Arquibancada é o espaço onde eu gostaria de ir. E a Botões Clássicos é a empresa que faz os produtos que eu gostaria de comprar.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Botões Clássicos
  • O que faz: Brinquedos artesanais de futebol de botão e bar
  • Sócio(s): Luciano Araújo
  • Funcionários: 4
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 3.000
  • Faturamento: R$ 500.000 (nos últimos 12 meses)
  • Contato: [email protected]
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