Campus Party Brasil – O melhor do dia #3

Kaluan Bernardo - 7 fev 2015
OVNI, a central responsável por fornecer a internet ultra rápida da Campus Party
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Esse ano a Campus Party tem apenas quatro dias de programação, um a menos que no ano passado. Então, a sexta-feira começou já com um ar de “está acabando” para muita gente, que ia chegando ao final de suas hackathons, projetos, campeonatos de videogames etc.

Para aproveitar ao máximo o tempo lá, alguns dormem cada vez menos. Entre os sofás e corredores, já é mais comum ver pessoas andando descalças, com roupas mais largadas. É quase como uma festa do pijama.

Mas, ainda tem muito pela frente. Na verdade estava apenas começando a segunda metade do evento e muita coisa grande ainda aconteceria nesse terceiro dia de Campus Party Brasil.

Mural

Campuseiros escrevem no mural. No terceiro dia, já há um clima de “festa do pijama” entre aqueles que estão acampando no evento.

Talvez um dos momentos mais importantes da sexta-feira tenha rolado à tarde, no palco das Startups, onde foi lançado o documento do movimento Brasil + Empreendedor, que visa pressionar os órgãos públicos e a sociedade a levarem o empreendedorismo nacional a outro nível. Já falamos sobre ele aqui.

A apresentação, capitaneada por Paola Tucunduva, trouxe vários importantes agentes do ecossistema, que ajudaram tanto a elaborar o documento quanto apresentá-lo oficialmente na Campus Party.

Eles definiram sete pilares de inovação, que são os mesmos usados pela Endeavor para eleger as cidades mais inovadoras do país. E é com esses conceitos e objetivos que querem alavancar o empreendedorismo no país:

Ambiente regulatório:
– Abertura e fechamento de empresas
– Legislação trabalhista
– Importação e exportação
– Sistema tributário
– Consciência ambiental

Acesso a capital:
– Reduzir burocracia e facilitar acesso ao BNDES, FINEP e outros
– Critérios claros e simples para investimentos públicos
– Atrair investimento de capital empreendedor estrangeiro
– Desenvolver fundos de investimento cooperando público e privado

Mercado:
– Criar diretórios e mesas de negociação
– Aumentar as oportunidades de interação entre empreendedores
– Disseminar capital intelectual
– Estimular parcerias
– Suporte para produtos com uma “marca Brasil”

Inovação:
– Integração do poder público com universidades e empresas
– Incentivar registro de novas patentes
– Fortalecer parques tecnológicos
– Incentivo ao investimento em ciências, tecnologia e inovação

Infraestrutura:
– Gestão de recursos naturais, reutilizáveis e recicláveis
– Incentivo a geração e uso de energias renováveis e eficiência energética
– Desenvolvimento de tecnologias de comunicação e informação
– Desenvolvimento de Infraestrutura inovadora para o empreendedorismo
– Melhorias de logística e mobilidade urbana

Capital humano:
– Oferecer educação empreendedora desde a base
– Oferecer educação empreendedora em universidades e escolas técnicas
– Criar um movimento “Empreendedor sem fronteiras”, para internacionalizar os empreendedores
– Dar incentivo às empresas e startups que investem em capacitação

Cultura empreendedora:
– Priorizar Visão de longo prazo, não imediatismo
– Abraçar risco, mais do que jogar seguro
– Incentivar ambição, não contentamento
– Apresentar empreendedorismo como opção de vida
– Incentivar o empreendedor a pensar globalmente, não localmente
– Incentivar a investir na próxima geração

Com esse documento oficialmente lançado, agora os 118 participantes do movimento Brasil + Empreendedor, junto com o Sebrae, irão trabalhar para levar tais ideias e pedidos a todos os órgãos públicos – desde a esfera municipal até a federal.

Case Modding na Campus Party

Área do Case Modding (ou a brincadeira de montar carcaças personalizadas de computador) na Campus Party.

Também em busca de incentivar o empreendedorismo e alavancar a inovação brasileira, professores e empreendedores se encontraram no Palco Lua para o debate “Além de aula, cerveja e dominó, o que mais eu posso fazer na Universidade?”.

Lá estavam Sergio Risola, diretor e CEO do Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec); Genésio Gomes, fundador do programa Células Empreendedoras, que atua na disseminação do empreendedorismo entre jovens e professores; Lindália Sofia Junqueira, diretora de inovação da Estácio; Juliana Caminha Noronha, professora de Empreendedorismo e Marketing na Universidade Federal de Itajubá; e Miguel Andorffy, fundador da startup de educação Me Salva, mediando o debate. Genésio abriu o debate falando da diferença entre estudar e aprender:

“Estudar é muito chato e serve para muito pouco, enquanto aprender é algo que você quer fazer e vai dar utilidade ao conhecimento. No empreendedorismo, você precisa aprender, não estudar. E isso motiva os alunos”

Para ele, o segredo em incentivar os professores a levar o empreendedorismo para dentro das universidades está na extensão universitária, uma área transdisciplinar interessante aos profissionais e que é pouco explorada.

Juliana, que se apresentou como “alguém que carrega cadeiras”, disse que seu hobby favorito é desmontar salas de aula e quebrar os layouts tradicionais. “Eu explico aos estudantes que a mudança na educação virá por um conjunto de microrrevoluções e que a demanda deve ser deles. Sempre pergunto o que meus alunos o que eles gostariam que fosse diferente na universidade e então nós mesmos vamos e fazemos esse algo diferente.”

Risola, que está no Cietec desde 1997, diz que o país começou a acordar agora para o empreendedorismo. “Por mais de uma década as pessoas mal sabiam da existência do Cietec. Hoje, um terço dos projetos lá nasceram da USP. O importante é transformar os professores em empreendedores, e é esse processo de evangelização que eu realizo”, conta.

Para levar essa educação empreendedora para dentro da sala de aula, é necessário lidar com problemas reais, defende Lidália, que estudou na Singularity University:

“Quem inova não é a tecnologia, são as pessoas. A tecnologia é só um meio eficiente. Lá na Singularity nós trabalhávamos três conceitos essenciais para a educação empreendedora: hibridismo de conhecimentos, a necessidade de solucionar problemas reais, e aprender fazendo”

A conversa foi tão produtiva que, mesmo depois de acabar, plateia e debatedores pegaram uma mesa vazia ao lado do palco e sentaram-se lá para continuar a conversa, discutindo o que seria o empreendedorismo e trazendo mais aplicações reais para a discussão.

Algo que foi muito discutido nessa mesa foi o que de fato é o empreendedorismo. Chegamos a um consenso de que empreender não necessariamente significa criar uma empresa, mesmo porque o mundo precisa de funcionários intra-empreendedores. “É possível empreender organizando um churrasco, cuidando da família ou vestindo a camisa da empresa. O estado de espírito disposto a resolver problemas é o que importa”, dizia Juliana.

jose-papo

José Papo foi à Campus Party mostrar a metodologia enxuta do Google.

É assim que o Google, por exemplo, também trabalha para tornar a maioria dos seus funcionários empreendedores. A empresa, mesmo com seu porte gigantesco, utiliza metodologias de startups em busca de eficiência.

José Papo, program manager do Google Brasil, na equipe de relações com desenvolvedores e startups de tecnologia, apresentou como a empresa utiliza a metodologia de OKRs (objective and key results) em busca de inovação.

O sistema, basicamente, consiste em funcionários, times, departamentos e a empresa como um todo, definirem seus objetivos e resultados constantemente. No entanto, tem algumas características específicas:

– Ele é o mais enxuto e simples possível
– Apesar de simples, é extremamente disciplinado
– Ajuda muito na comunicação entre as pessoas, sabendo que até o estagiário do Google saiba o que o CEO planeja
– Parte da premissa de que, quanto mais aberta a informação, melhor
– Se organiza em reuniões semanais, nas quais os principais executivos do Google internacional apresentam seus objetivos;
– É extremamente focado em métricas;
– Nas reuniões, não há hierarquia. Qualquer um, desde que tenha base, pode e deve discordar nas discussões;
– Priorizam o foco acima de tudo

Um aspecto interessante dos OKRs é que eles funcionam tanto de cima para baixo quanto o contrário. O Orkut, por exemplo, foi um projeto de um funcionário, que criou no nível individual, mas logo foi parar no topo da cadeia, virando um OKR da empresa.

Além disso, é sempre o indivíduo que se avalia, com base em métricas objetivas. Essa avaliação é conversada semanalmente com seus líderes, mas não tem caráter de julgamento. E, ainda, OKRs não podem ser utilizados como análise de performance – as falhas são completamente perdoadas e utilizadas como meio de aperfeiçoamento.

José Papo finalizou a apresentação mostrando como a metodologia tenta, de forma objetiva, introduzir a máxima do Google: “Imagine o impossível, mas execute suas ideias”.

Impossível mesmo era ver um campuseiro desconectado. Se a pessoa não estiver olhando para o celular, é porque está no computador.

No entanto, durante 15 minutos, houve um momento de pânico para muitos deles, que ficaram sem internet. Foram os 15 minutos mais longos de suas vidas, e eles resolveram se encontrar em volta do OVNI (o aquário onde ficam as máquinas que distribuem a internet ao evento. A velocidade é de 50 Gbps, alegadamente o suficiente para alimentar uma cidade inteira). Lá, começaram, em forma de brincadeira, a protestar. Em pouco tempo a bagunça era generalizada, com gritos de “INTERNET, INTERNET” misturados a “NÃO, VAI TER COPAAA”.

Adam Howard

Adam Howard tem um dos currículos mais invejáveis na indústria dos efeitos especiais.

O problema é que isso aconteceu justamente quando Adam Howard, um dos últimos magistrais da noite, iria entrar no palco. A bagunça atrasou a apresentação e colocou os organizadores em uma saia justa. Felizmente, o problema foi rapidamente resolvido. Segundo um dos técnicos da Telefónica, tudo aconteceu porque vândalos quebraram os cabos de fibra ótica da empresa.

A palestra de Howard foi inspiradora para qualquer um interessado em artes visuais e gráficas. O cara já trabalhou em centenas de produções hollywoodianas, supervisionando os efeitos visuais – desde Star Wars até o mais recente Birdman, concorrente ao Oscar deste ano.

Apesar de inspiradora, a palestra foi um pouco monótona, com Howard basicamente apresentando seu currículo o tempo todo. De forma simples, as lições que ele deixou foram as clichês e verdadeiras: “acredite sempre nos seus sonhos e lute por eles” e “lembre-se de sempre agradecer a seus mestres e mentores”.

Com uma dose a mais de inspiração e a internet de volta, os campuseiros voltaram a seus computadores e atividades, se preparando para o último dia de evento, que começa agora.

Na segunda-feira, além de contar o que aconteceu no sábado, vou fazer também uma análise geral dessa Campus Party.

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