Cansada das lives no começo da pandemia, Neivia Justa deu a elas um novo propósito: democratizar o acesso a líderes de empresas

Neivia Justa - 6 ago 2021
Neivia Justa, jornalista, mentora, palestrante, professora e fundadora da #JustaCausa.
Neivia Justa - 6 ago 2021
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Comecei minha vida profissional aos 22 anos, como apresentadora em dois programas da TV Ceará. No Cidadania no dia a dia, um sábado por mês, eu mediava duas horas de conversa ao vivo. Minha estreia foi com ninguém menos que Dom Helder Câmara.

No Espaço Aberto, eu entrevistava dois convidados por programa, de segunda a sexta, na hora do almoço. Nossa pauta era diversa. Vivi um ano de intenso aprendizado com inúmeras histórias inspiradoras, até que decidi mudar para São Paulo, estudar marketing e construir uma carreira executiva em grandes empresas nacionais e globais.

Minha alma de jornalista ficou adormecida por mais de duas décadas. Mas a paixão e o interesse pelas pessoas e suas histórias nunca deixaram de fazer parte da minha vida

Sempre investi meu tempo na construção de relações de confiança, em que eu possa ouvir, aprender e ser útil. Gosto de conectar pessoas e de manter minha rede viva. 

DE CAFÉS DESPRETENSIOSOS A UM ESPAÇO PARA VÍDEOS NO LINKEDIN

Em 2015, criei um projeto chamado #AmigoDoDia em que durante todos os dias daquele ano eu encontrei, presencialmente, pelo menos uma pessoa para conversar num café ou num almoço.

Em 365 dias eu ouvi 515 histórias únicas. Um aprendizado imensurável

Em 2019, o LinkedIn me deu acesso para fazer conversas ao vivo na plataforma. Todo mundo queria ter esse privilégio de fazer lives, mas eu não sabia exatamente o que fazer com aquilo.

Cheguei a criar um projeto piloto com conversas semanais temáticas sobre paternidade e carreira, em agosto, e saúde mental, em setembro.

Todavia, a tecnologia ainda era limitada: era preciso ir até as pessoas, dispor de um wi-fi de qualidade… E, francamente, eu não tinha um propósito claro para fazer o melhor uso daquele acesso. Passados dois meses, resolvi dar um tempo.

COM A PANDEMIA, DESCOBRI UM PROPÓSITO PARA AS LIVES: INSPIRAR AS PESSOAS

Até que, em 2020, veio a pandemia. As conversas virtuais, ao vivo, se tornaram a nossa realidade e a tecnologia evoluiu à velocidade da luz.

Da noite para o dia formos assolados por um surto de lives sobre todas as coisas, do amanhecer ao anoitecer, sem pausas: uma infodemia frenética e desenfreada que logo virou mais do mesmo. 

No começo de junho do ano passado, vi um vídeo do Cassio Pantaleoni, meu amigo filósofo, na época diretor geral do SAS no Brasil, falando sobre a necessidade de termos empatia, respeito, inclusão e diversidade em tempos tão sombrios como esses que estamos vivendo.

Num ímpeto, escrevi para ele e o convidei para conversar comigo ao vivo no LinkedIn sobre aqueles temas. Ele aceitou de imediato e já agendamos para 12 de junho, na semana seguinte. 

Naquele momento, intuitivamente, descobri meu propósito com as lives: democratizar o acesso a essas pessoas líderes que fazem parte da minha ampla rede. Mostrar para quem me segue que, por trás dos cargos, títulos e posições de poder, existe gente como a gente. E que o infinito particular de cada líder pode ser uma grande fonte de inspiração e aprendizado para nós

Propósito claro, decidi que seria um programa com duas edições semanais para assegurar que haveria igualdade de gênero. Criei o nome, estabeleci os dias e o horário – terças e sextas, às 16 horas — e corri para garantir que eu teria pelos menos os quatro primeiros convidados confirmados.

Quando estreei com o Cassio, não só os participantes de junho, mas também os de julho já estavam definidos. E, no começo de agosto, eu já tinha toda a agenda confirmada até dezembro. Em 2020 foram 55 conversas. 

COMO FAZER UM PROGRAMA DE QUALIDADE SEM VERBA?

O #LíderComNeivia acabou de completar um ano; a primeira conversa desse mês de julho foi a edição número 100 do programa. A agenda já está totalmente confirmada até o dia 17 de dezembro. 

Como eu consegui fazer isso sozinha, sem investir um centavo? Juntei minha alma jornalista com meu acesso à alta liderança e interesse genuíno pelas pessoas, trazendo para a rede aquelas conversas informais, descontraídas, divertidas, humanas e verdadeiras, que eu tinha com meus #AmigosDoDia lá em 2015

Fiz algumas escolhas que se provaram muito acertadas.

O nome: “líder” é uma palavra sem gênero. Os dias: na terça, a semana já começou; sexta é final do expediente.

O horário: 16 horas não concorre com as inúmeras lives que ocorrem a partir das 18h e tampouco com os eventos que costumam ser no período da manhã. Isso tornou fácil conseguir encaixar o programa na agenda de mulheres e homens líderes.

Os temas: criei um roteiro básico de temas relevantes e necessários à alta liderança, que eu compartilho com quem aceita meu convite.

A música: eu sempre começo o programa tocando a música favorita de quem vai conversar comigo. O esquenta: eu começo o bate papo no estúdio 15 minutos antes do horário e isso gera um ambiente de confiança e descontração

Comecei convidando meus ex-líderes, amigos, clientes e parceiros de projetos, gente que me conhecia pessoalmente ou que já havia trabalhado comigo.

AOS POUCOS, COMECEI A RECEBER INDICAÇÕES DE CONVIDADOS

Com um time poderoso e consistente de convidados toda semana, rapidamente as agências de comunicação perceberam o valor das conversas e começaram a me sugerir participantes, assim como também passei a receber indicações cada vez mais frequentes da minha própria rede.

O que aprendi nesse primeiro ano? Que líderes não costumam falar sobre si mesmos e se surpreendem — muitas vezes se emocionam — quando são vistos e tratados como pessoas comuns.

Alguns me disseram que ninguém nunca havia perguntado qual era a música favorita deles. Além disso, quando tratados com empatia, interesse genuíno e respeito, a conversa flui e eles até se esquecem que estão ao vivo

Muitos se sentiram tão confiantes e à vontade que me contaram histórias nunca anteriormente reveladas em público. 

DIVERSIDADE AGORA É UM DOS MEUS PILARES NA HORA DE CONVIDAR UM LÍDER

Nessas 100 edições do programa, ficou ainda mais evidente para mim a total falta de diversidade na alta liderança das empresas, nos conselhos e no perfil de empreendedores brasileiros.

Dos meus primeiros 89 convidados, tive apenas uma mulher com deficiência, duas mulheres negras, três homens negros, uma mulher lésbica e três homens gays.

Isso me levou a convidar, intencionalmente, 10 líderes LGBTQIAP+ – cinco mulheres e cinco homens – para participar do programa em junho, quando também tive meu primeiro convidado global, o Orkut Büyükkökten, fundador das redes sociais hello.com e orkut.com.

Em outubro, todos os meus convidados serão mulheres e homens negros que atualmente ocupam posições de alta liderança. Porque eles existem e precisam ser vistos e ouvidos sempre — e não apenas no mês da consciência negra

Além de consolidar a marca profissional recém-criada para o aniversário do programa, meus planos futuros para o #LíderComNeivia incluem encontrar os patrocinadores ideais para conseguir ter uma equipe, transformar todos os episódios existentes em podcasts e migrar as primeiras 89 conversas para o YouTube.

Penso ainda em desenvolver formatos e plataformas diversas. Com um só objetivo: compartilhar esse conteúdo inspirador, inédito e exclusivo que eu gero toda semana — há 53 semanas. 

 

Neivia Justa é jornalista, mãe da Luiza e da Julia, empreendedora, palestrante, mentora e professora. É fundadora e líder da #JustaCausa, e tem 30 anos de experiência como executiva de Comunicação, Cultura, Diversidade, Equidade e Inclusão, em empresas como Timex, Natura, Schincariol, GE, Goodyear e J&J. Criadora do programa #lídercomneivia e dos movimentos #ondeestãoasmulheres e #aquiestãoasmulheres, foi vencedora do Troféu Mulher Imprensa e do Prêmio Aberje 2017 e, em 2018, eleita uma das Top Voices do LinkedIn Brasil. Dela, o Draft já publicou outro Lifehackers, aqui.

 

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