“São Paulo é uma cidade aberta para receber – mas não necessariamente para incluir”

Neivia Justa - 23 dez 2015Neivia Justa é cearense e fez a vida em São Paulo. Sua trajetória expõe os percalços dos migrantes e revela aspectos sobre o modo como São Paulo acolhe quem vem de fora (foto: Monica Zanon).
Neivia Justa é cearense e fez a vida em São Paulo. Sua trajetória expõe os percalços dos migrantes e revela aspectos sobre o modo como São Paulo acolhe quem vem de fora (foto: Monica Zanon).
Neivia Justa - 23 dez 2015
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Por Neivia Justa

 

Nasci em Fortaleza, capital do Ceará, numa família de classe média que sempre valorizou o estudo como alicerce da vida e do futuro.

Passei minha infância e início da adolescência em João Pessoa, capital da Paraíba, onde estudei em colégio de freiras, só para meninas. Foi lá que comecei a aprender francês e inglês, aos 7 anos. Foi lá também que aprendi a nadar, a dançar ballet, a jogar tênis e a competir.

Desde pequena, eu sempre quis expandir meus horizontes, desvendar novos lugares, viver outras experiências, provar novos sabores, conhecer outras culturas e realidades.

Descobri na adolescência que São Paulo era o meu lugar no mundo. Era 1984 e eu passava férias na cidade quando vivi a efervescência do comício das Diretas Já, na Praça da Sé. Estar onde “as coisas aconteciam” passou a ser o meu sonho de consumo desde então.

Três anos depois, em 1987, tentei vir fazer faculdade em solo paulistano mas não consegui o devido “paitrocínio” em função do irrefutável argumento da minha “menoridade”. Passei no vestibular para Comunicação Social e Psicologia, em Fortaleza. Tranquei a matrícula em ambas as universidades e fui fazer um intercâmbio em Cambridge, na Inglaterra.

Seis anos mais tarde, em 1993, jornalista formada, com um início de carreira promissor no Ceará, apresentando dois programas ao vivo na TV Educativa e assinando a “Saia Justa”, coluna mais lida do jornal O Povo na época, convenci meu pai de que meu destino era ser “marqueteira”. Vim fazer a prova da pós-graduação na ESPM e não voltei mais.

Abria-se para mim um admirável mundo novo. A selva de pedra brasileira passou a ser meu infinito particular, que eu desvendaria, que eu queria conquistar. Aqui tudo era possível. Nada me intimidava, apesar de eu ser mulher, jovem, solteira, “sem parentes importantes” e vinda do Ceará.

Encontrei uma São Paulo receptiva – mas não inclusiva. Quem não nasceu, cresceu, estudou ou fez faculdade aqui, sabe bem do que estou falando. Você dificilmente fará parte da “turma”. Salvo raras exceções, seus melhores amigos serão “estrangeiros”, estranhos no ninho, como você. No meu caso, fui acolhida por uma gaúcha, uma baiana e uma mineira. Todas “estrangeiras” como eu.

Como boa nordestina, acostumada a um contexto de escassez, e olhando por anos a metrópole de fora, com admiração, eu achava que os paulistanos eram muito mais preparados cultural e intelectualmente do que a média nacional. Afinal de contas, eles tinham tudo mais à mão. Descobri que não era bem assim. Nem tudo que era daqui era melhor. Nem tudo que não era daqui era pior.

São Paulo se mostrou para mim como uma imensa cidade do interior. Era provinciana, em muitos aspectos. E nutria também seus preconceitos. Perdi a conta das vezes em que ouvi alguém dizer que eu “não tinha cara de cearense”. Isso me tira do sério até hoje. Como é um cearense para um paulistano?

Apesar de ser a maior cidade do Brasil, construída por toda sorte de imigrantes e emigrantes, São Paulo às vezes desconhece o Brasil. Já se vão mais de 22 anos e ainda me incomodo quando ouço a frase “da Bahia para cima é tudo igual”. Não, não é. E, a propósito, não somos do Norte. Somos do Nordeste, uma região do país que tem nove estados absolutamente diferentes entre si, em tudo – belezas, fealdades, alegrias, tristezas, comidas, sotaques.

Nós, cearenses, somos um povo sofrido, historicamente calejado pelas secas do sertão. Talvez por isso, agarramos cada oportunidade e valorizamos cada conquista que obtemos. De modo geral, acolhemos o novo, somos inclusivos, curiosos e queremos sempre aprender e crescer. Não desperdiçamos nenhuma chance que a vida nos oferece.

Foi assim, com esse espírito cearense, que eu consegui “virar gente” em Sampa, apesar de ser tão diferente do padrão cultural e estético reinante. Já em 1993, eu tinha o cabelo curto, usava batom vermelho, unhas vermelhas e minha indumentária combinava cores improváveis como pink e laranja, numa cidade onde as mulheres tinham os cabelos compridos, artificialmente loiros e lisos, usavam batom cor de boca, esmalte “misturinha” e se vestiam de preto, cinza e azul marinho…

Eu era um exagero. E continuei sendo – quem eu era. Optei por preservar a minha autenticidade, a minha curiosidade, o meu otimismo. Se minha alegria era às vezes tida por “irritante”, decidi continuar sorrindo largo em todas as situações em que um sorriso brotava em meu rosto. Acho que, com os anos, transformei isso numa vantagem competitiva.

Teria sido mais fácil mudar a paleta de cores, deixar o cabelo crescer e me mimetizar com a cidade? Não para mim! Defendi minhas diferenças. Que sentido faz abrir mão daquilo que lhe torna único em nome de ser mais um?

Minha fluência em inglês era assustadoramente rara na maior cidade do Brasil, duas décadas atrás. Isso me abriu muitas portas. Meu inglês e minha paixão por novos desafios foram os pilares da minha carreira aqui. Eu acreditava que São Paulo permitiria que eu me tornasse tudo o que eu quisesse ser, profissionalmente. As oportunidades estavam aqui. E as possibilidades também. Cabia a mim escolher e trilhar o meu caminho. E ignorar eventuais preconceitos ao longo da estrada. Eu era a CEO da minha vida!

Com a carreira em ascensão, dona do meu nariz e exercendo prazerosamente meu livre arbítrio, eu não me encaixava no padrão da “esposa ideal”, dos bons partidos paulistanos. Eu era independente demais. Avulsa demais. Anônima demais. Exótica demais. Indomável demais.

Consequência? Passados oito anos de vida paulistana, me descobri apaixonada, casando com um carioca, antigo amigo da minha família, que eu conhecia desde 1989… Olhando para trás, revendo minha trajetória nesses mais de 22 anos, com uma carreira e uma família construídas aqui, incluindo duas filhas “paulistanas da gema”, ainda me sinto um pouco forasteira. E ainda sou capaz de contar nos dedos os amigos paulistanos que nos convidam para suas casas.

Sou e sempre serei apaixonada por São Paulo, apesar da segurança e da qualidade de vida terem piorado muito desde que cheguei. Mas isso não me faz perder meu senso crítico nem deixar de enxergar as fragilidades dessa cidade que eu chamo de lar, onde eu me sinto em casa mais do que em Fortaleza. Porém, acho que sempre serei uma cearense, cidadã do mundo, que adotou São Paulo como matriz.

Acredito estar criando filhas paulistanas, com garra cearense e ginga carioca, sem preconceitos nem estereótipos, capazes de se tornarem o que elas quiserem, em qualquer lugar do mundo. Espero que elas sejam felizes pessoal e profissionalmente. E que carreguem consigo o orgulho de serem brasileiras, nascidas na minha São Paulo do coração, a maior cidade do país – e que, tomara, com a contribuição delas, possa também se tornar uma cidade mais diversa e inclusiva.

 

Neivia Justa, 46, é jornalista, marqueteira, apaixonada por gente, grandes desafios e boas histórias a constuir.

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