Cansada de ouvir que “gestão financeira não é coisa de mulher”? A HerMoney usa tecnologia para você assumir as rédeas do seu negócio

Dani Rosolen - 14 fev 2022
Andrezza Rodrigues (à esq.) e Beatriz Furtado, fundadoras da HerMoney.
Dani Rosolen - 14 fev 2022
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Gestão financeira é uma barreira para grande parte dos empreendedores. Mas para as mulheres é um empecilho a mais por conta do machismo nosso de cada dia, que historicamente limitou o acesso desse público à educação e ao interesse pelo dinheiro, adiando o protagonismo financeiro feminino.

Quer um exemplo? Existia um artigo no Código Civil de 1916 (artigo 6º, inciso II), revogado apenas em 1962, que definia a mulher casada como relativamente incapaz e exigia aval do marido para que ela pudesse, por exemplo, manter um comércio ou exercer outros tipos de atividade… É o que lembra Andrezza Rodrigues, fundadora da HerMoney.

“Para se ter uma ideia, a minha avó era enfermeira e já estava ‘quebrando’ essas regras, gerando renda, mas era ‘incapaz’ de gerenciar isso, então no seu primeiro ano de trabalho meu avô que tinha que buscar o cheque pago pelo hospital contratante”

De olho nesses perrengues (históricos) enfrentados pelas mulheres no ecossistema empreendedor, Andrezza resolveu criar uma plataforma de gestão financeira para microempreendedoras. Foi uma “decisão” entre aspas, já que nada foi planejado: o negócio, ela diz, “simplesmente aconteceu”.

Com formação e quase dez anos de atuação na área de contabilidade (sim, finanças para ela não é um problema), a cearense se viu obrigada a ajudar outras mulheres a mudar essa realidade. Hoje, sua plataforma conta atualmente com quase 2 500 usuárias em todos os estados do país — e a expectativa é escalar rapidamente esse número, a partir de novas parcerias com empresas e organizações, como Losango e Sebrae.

Atualmente, 90% da base de usuárias é de microempreendedoras; o restante são pequenos negócios ou startups. Uma curiosidade: 3% dos clientes são homens. De acordo com Andrezza, eles foram atraídos pela facilidade da solução, mesmo com toda a comunicação voltada para o público feminino.

“Sempre, em 100% das vezes, fomos questionadas em nosso pitch sobre por que o produto é para mulheres, mas nunca abrimos mão disso e aprendemos a jogar o jogo do ecossistema.”

ANTES MESMO DE TER UM PRODUTO, AS PESSOAS QUERIAM COMPRAR A SOLUÇÃO DE ANDREZZA

No segundo semestre de 2019, Andrezza tinha acabado de pedir demissão da startup Agenda Edu e planejava fazer um sabático. Seu plano, para depois, era buscar um emprego em uma fintech de impacto social.

Pesquisando sobre o que existia, ela se deparou com alguns números que a incomodaram. “Era só estatística ruim sobre empreendedorismo feminino”, lembra.

As informações vinham do Sebrae, que estava divulgando pela primeira vez um compilado sobre o Sebrae Delas, um programa de apoio ao empreendedorismo feminino criado em 2018.

Neste levantamento, Andrezza descobriu que a “taxa de mortalidade” do empreendedorismo feminino era de um ano — ou seja, muitos desses negócios não chegavam ao fim dos primeiros 12 meses (no caso de empresas lideradas por homens, a média ficava entre três e quatro anos). Além disso, em 66% dos casos de falência dos negócios pilotados por empreendedoras, o principal motivo era a falta de controle financeiro.

Ela começou a se aprofundar, conversando com mais de 100 fundadoras. Decidiu também validar se aquilo era um problema postando um vídeo em um perfil criado no Instagram em que afirmava que todas suas pesquisas até ali indicavam que as mulheres empreendedoras não sabiam fazer controle financeiro e provavelmente gostariam de ter alguém que fizesse isso por elas.

“Eu tinha cerca de 300 seguidoras neste perfil e 11 pessoas pedindo para comprar aquilo que eu estava vendendo como solução financeira, mas não tinha [ainda] nenhum produto, estava apenas validando minha hipótese”

E foi assim que a HerMoney nasceu (e o plano de sabático de Andrezza foi para o espaço…).

ATÉ DESENVOLVER UMA TECNOLOGIA, O NEGÓCIO FUNCIONAVA MANUALMENTE, COM UMA PLANILHA

Andrezza criou uma planilha e passou a vender o acesso a esse documento por 297 reais. As clientes mandavam as informações financeiras delas por WhatsApp e a empreendedora organizava as informações de receitas e despesas, fluxo de caixa e extratos bancários num prazo de 12 horas

Depois de dois meses nesta toada, ela já tinha 15 clientes, mas sentia que precisava estruturar aquilo como um produto de tecnologia. Na mesma época, foi dar uma mentoria para um grupo de Startup Weekend e conheceu a participante e advogada Beatriz Furtado.

“Achei o perfil dela bem interessante e em menos de uma semana marquei um café para pedir ajuda com a HerMoney e ela entrou no negócio”, diz Andrezza.

Com o tempo, a dupla já tinha 100 pessoa interessadas no produto e chegou a contratar uma estagiária para ajudá-las a dar conta do trabalho manual com as planilhas, mas as sócias entenderam que não dava para continuar assim. Andrezza afirma:

“São 30 milhões de CNPJs de mulheres no Brasil. Com meu conhecimento, não queria ajudar uma mulher, mas todas essas empreendedoras, só que não dava mais para fazer isso ‘no braço’”

As sócias decidiram usar tudo o que faturavam para juntar 70 mil reais, valor orçado para transformar a solução em uma tecnologia. “Naquela época, eu e a Bia não recebíamos nada de pró-labore e nos sustentávamos com nossa reserva de emergência.”

QUANDO DESPESAS E LUCRO SE TORNAM VISÍVEIS PARA AS MICROEMPREENDEDORAS

A software house que ficou responsável por desenvolver o produto atrasou em seis meses a entrega. Enquanto isso, a dupla passou no processo de aceleração da B2Mamy, em agosto de 2020.

A proposta da HerMoney chamou a atenção da Wishe e o negócio foi a primeira startup a captar um aporte na aceleração da B2Mamy (somando este e outros aportes que vieram depois, como a da FEA Angels e da Sororitê, a empresa já captou quase 1,4 milhão de reais).

“Quando estávamos concluindo a captação de 600 mil reais, em dezembro de 2020, a software house entregou algo horroroso… Então, usamos o aporte para internalizar o time de tecnologia e desenvolver o produto”

Dessa forma nasceu o que é hoje a plataforma web da HerMoney, uma tecnologia que transforma documentos e prints enviados pelas usuárias em gráficos e tabelas de controle financeiro.

Funciona assim: a mulher entra na plataforma, preenche um formulário simples, conecta suas contas bancárias ao sistema ou envia as imagens e documentos que deseja, com despesas e recebimentos. Assim, a assistente financeira virtual da startup consegue ler as imagens ou resgatar as informações das contas, disponibilizando um raio-x financeiro detalhado e de fácil entendimento.

“Quando comecei a estudar o mercado, entendi que as mulheres estavam quebrando porque não conseguiam ver o que acontecia com o dinheiro delas. A mulher é muito visual e por isso a importância de ver os números na plataforma.”

NÃO BASTA APENAS TER ACESSO AOS DADOS. É PRECISO EDUCAÇÃO FINANCEIRA

As fundadoras notaram, no entanto, que apenas entregar o panorama de gestão financeira das empreendedoras não era o suficiente.

“A gente recebia muitas mensagens das usuárias dizendo que estavam felizes de entender pela primeira vez que o que acontecia com as finanças de suas empresas antes do mês fechar, mas não sabiam o que fazer com esses dados”

Daí veio a ideia de criar um braço educacional, a Escola do Sucesso, que fica dentro da plataforma e conta com uma série de vídeos, podcasts e e-books com dicas de marketing, vendas, comportamento, emoções etc. Muitos dos conteúdo, inclusive, vem da parceria com o Sebrae-SP.

Outra forma de apoiar essas mulheres é oferecendo micro dicas personalizadas pelo WhatsApp. “A gente criou uma inteligência artificial que analisa os dados delas na plataforma, cruza com os objetivos e jornada de sucesso e envia mensagens com insights”, diz Andrezza.

Hoje, a plataforma opera no modelo freemium (acesso geral gratuito, com pagamento para obter mais recursos). A assinatura mensal, com ferramentas premium, custa 47 reais. O valor anterior, de 297 reais, sofreu alteração no último trimestre, devido à Covid-19.

“A pandemia mudou muito a realidade e o comportamento dessas microempreendedoras. Elas entenderam a importância de se profissionalizar, mas tiveram o faturamento reduzido, então vimos que era preciso tornar a HerMoney mais acessível”, explica a fundadora.

QUAL O IMPACTO, NA PRÁTICA, DA HERMONEY NA VIDA DESSAS MICROEMPREENDEDORAS?

Andrezza conta que existem várias histórias inspiradoras de clientes, entre elas a de Malu, fundadora da Verano, do Ceará, que tinha uma loja online, mas limitava o que ia vender porque não se sentia segura para expandir.

“Ela conta que depois que começou a usar a HerMoney, teve coragem de abrir uma loja física, alugou um galpão para expandir o e-commerce e contratou dez vendedoras. Seu faturamento aumentou em mais de dez vezes! A Malu diz que tudo isso foi possível graças à HerMoney — mas eu digo que é pelo fato de ela agora enxergar a capacidade que tem”

Tem também o caso da Claudia, psicóloga do Espírito Santo e uma das primeiras clientes da HerMoney, de quando a startup ainda operava de forma manual.

No auge da pandemia, diz Andrezza, Claudia começou a perder muitos clientes e configurou na plataforma HerMoney, na funcionalidade de metas, sua necessidade de fazer capital de giro. A partir daí, passou a receber dicas para bater esta meta. Em três meses, segundo Andrezza, conseguiu juntar 16 mil reais.

“Eu colocava o vídeo dela em todos os meus pitches contando sobre a transformação social que a a nossa empresa causou na vida dela. Ela afirma que na sua família nunca houve alguém que não fosse endividado, que dirá ter uma reserva de emergência… Ela era a primeira pessoa!”

A CONEXÃO FEZ FALTA NO COMEÇO, MAS HOJE PARCEIROS AJUDAM A STARTUP (E AS MICROEMPREENDEDORAS) A CRESCER

Andrezza conta que a principal dificuldade enfrentada ao longo dessa jornada foi a falta de planeamento e networking no início do negócio.

“Somos duas mulheres de classe média do Ceará, de um ecossistema muito diferente da bolha de startup… Para conseguir investimento foi bem difícil. Eu não morava em São Paulo, mas me mudei para cá em novembro de 2020 para vir atrás do dinheiro.”

Hoje, essas conexões foram construídas e Andrezza acredita que é graças a essa rede de apoio que a HerMoney conquistou tanto no último ano:

“Fomos eleitas entre as 100 melhores fintechs do Brasil pela revista britânica Daily Finance, ´ganhamos como Startup Revelação pelo Startup Awards e aprovadas em uma aceleração do BID, em parceria com o Cubo Itaú”

Entre os planos está ampliar o escopo do negócio por meio da conexão com 12 parceiros, como Finsol, Americanas.com e os já citados Sebrae e Losango:

“A ideia é que até o fim do ano a HerMoney se transforme em um hub financeiro e nossa inteligência artificial passe a indicar, de forma personalizada, produtos e serviços desses parceiros às nossas usuárias para que seus negócios não apenas sobrevivam, mas cresçam.”

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  • Projeto: HerMoney
  • O que faz: Plataforma de gestão financeira para microempreendedoras
  • Sócio(s): Andrezza Rodrigues e Beatriz Furtado
  • Funcionários: 24
  • Sede: Fortaleza
  • Início das atividades: 2019
  • Investimento inicial: R$ 70 mil
  • Faturamento: Não informado
  • Contato: [email protected]
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