O que as startups têm feito para furar a “bolha da contratação” e construir empresas mais diversas

Maisa Infante - 19 nov 2020
Cássia Monteiro, Head de Comunicação e Pessoas da Bynd.
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Cássia Monteiro, 38, é mulher, negra e Head de Comunicação e Pessoas na Bynd, startup de caronas empresariais. Ela entrou na empresa em 2019, quando viu a divulgação de uma vaga com preferência declarada por mulheres. Hoje, ajuda a desenvolver as políticas de diversidade interna da empresa.

Recentemente, o tema diversidade nas empresas e as políticas de contratação repercutiram com mais força, por conta da polêmica suscitada pelo programa de trainee exclusivo para pessoas negras do Magazine Luiza — e também na esteira de uma declaração da fundadora do Nubank sobre a dificuldade de contratar pessoas negras e o risco de “nivelar [o time] por baixo” (ela se retratou depois).

Para Cássia, da Bynd, é sim crucial que as empresas tenham esse tipo de ação afirmativa:

“Nossa sociedade acha que ‘não falar’ é uma forma de não ofender. Assim, fingimos que está tudo bem. Mas precisamos de mais do que discurso ou posts em redes sociais. Precisamos de ações concretas de empresas em relação ao racismo e à presença de mulheres no mercado de trabalho”

E uma das formas de fazer isso é com as vagas dedicadas e preferência declarada por mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência. Contratar dessa forma pode ser mais demorado ou custoso num primeiro momento. Mas é o jeito de furar a bolha da contratação e evitar atrair os mesmos perfis de sempre.

Além disso, há um ponto importante: segundo pesquisa da consultoria McKinsey, há um vínculo claro entre diversidade e performance financeira. 

Na América Latina, de acordo com a pesquisa, empresas com equipes executivas diversificadas em termos de gênero têm 14% mais probabilidade de superar a performance de seus pares. E nas empresas em que se percebe maior diversidade de orientação sexual na liderança, essa probabilidade sobe para 25%.

Para colher resultados, é preciso trabalhar a diversidade de forma consistente. E na busca e retenção desses profissionais, players que fomentam esse ecossistema podem ser de grande ajuda, sejam empresas, ONGs ou consultorias. É nessas portas que a maioria das startups bate em busca de talentos diversos.

Há empresas que oferecem suporte específico para o surgimento e a expansão de negócios que tenham compromisso com a diversidade. É o caso da Wishe, um hub de investimento focado em startups lideradas por mulheres. Segundo a fundadora, Rafaela Bassetti:

“Existem muitos players de capacitação e mentoria para mulheres, mas poucas iniciativas focadas no dinheiro, que acaba sendo a principal dor e gargalo para essas empresas. Quero investir em mulheres para que elas sejam de fato as grandes lideranças das companhias que lideram os seus setores daqui a 10 anos”

A Wishe tem plataformas que atendem desde o momento de ideação até a expansão do negócio. O mais recente investimento viabilizado foi no valor de 1 milhão de reais, para a Amyi, startup de perfumaria.

NA PIPO, UMA PALESTRA PREPAROU A ACOLHIDA À PRIMEIRA PESSOA TRANS

Com uma CEO e cofundadora mulher, Manoela Mitchell, a Pipo Saúde sempre teve a diversidade na pauta. 

A empresa, uma plataforma para ajudar as empresas a contratar e gerir benefícios de saúde, foi fundada em 2018, mas começou a operar de fato em meados de 2019. E no final daquele ano, eles perceberam que havia ¾ de homens e nenhuma diversidade racial entre os funcionários.

Manoela Mitchell, fundadora da Pipo Saúde (foto: Marcella Ferrucci).

Foi aí que começaram a pensar nas políticas afirmativas para melhorar essa diversidade. 

Hoje, a atuação da Pipo se dá em três frentes: na busca por talentos onde mulheres, negros e pessoas trans costumam procurar trabalho (por exemplo, o projeto TransEmpregos); na abertura de vagas dedicadas; e na remoção do viés no processo de contratação, incluindo um questionário com perguntas como: Por que você se candidatou? Como você aprende sobre o seu campo de trabalho? Como você se atualiza? Que tipo de diversidade vai trazer pra Pipo? 

O resultado é uma empresa de 59 funcionários, com 58% mulheres, 42% de homens, 27% negros e pardos e 5% trans. Segundo Manoela:

“A diversidade ajuda a trazer a representatividade do público consumidor para dentro da empresa. E aí, quanto mais diverso você for dentro de casa, mais capacidade de agradar a esse público você terá”

Além da atração de talentos, existe o desafio de retenção destes talentos. Para Manoela, isso começa no comprometimento genuíno das lideranças com a diversidade e na criação de um ambiente seguro para essa diversidade acontecer.

Hoje, diz a empreendedora, a Pipo tem o cuidado em ser honesta com os funcionários que estão sendo contratados — revelando que ela se trata da primeira mulher negra ou da primeira pessoa trans na empresa, por exemplo. 

Em paralelo, a startup busca criar um ambiente seguro e confortável. Quando a primeira mulher trans foi contratada, a Pipo ofereceu uma palestra sobre o que significa ter um funcionário trans no quadro, os direitos e a luta trans — tudo para desmistificar eventuais preconceitos.

“Como CEO, vou garantir que os funcionários sempre sejam ouvidos e que não vamos tolerar postura preconceituosa”, diz Manoela. “É preciso ter paciência — mas não podemos aceitar reincidência de comportamento.”

A SEMENTE MUDOU SEU PROCESSO DE CONTRATAÇÃO E GOVERNANÇA

Fundada em 2010, a Semente Negócios trabalha com educação e desenvolvimento de territórios, oferecendo capacidade de inovação social, corporativa e empreendedora.

Há dois anos, em 2018, a equipe tinha dez pessoas, sendo três mulheres e nenhuma pessoa negra. 

Foi quando a empresa começou a criar um caminho de diversidade dentro da empresa.

“Diversidade não é uma política, nem uma vontade individual”, diz Alline Goulart, sócia e diretora de operações. “É uma forma como a gente distribui capacidade de inovação.”

Alline Goulart, sócia da Semente Negócios.

O plano para mudar esse retrato começou com a equalização de homens e mulheres. Agora, o trabalho está sendo o de equalizar a questão racial. 

Até o momento, são dez pessoas negras na equipe, num total de 33 colaboradores. Segundo a empresa, os próximos passos serão olhar para os profissionais LGBTQIA+ e PcD.

Para fazer esse movimento e criar um ambiente de inclusão, foi preciso mudar o processo de contratação e governança.

Isso incluiu transformar um processo que levava 15 dias em um processo de até quatro meses; não fazer contratações para projetos imediatos, mas sim reservar um período para o funcionário se ambientar na empresa. 

Os contratados nestes últimos dois meses de 2020, por exemplo, só vão atuar em projetos em 2021, quando a Semente espera estar com 50 funcionários.

“Hoje contratamos mais por skill social do que por skill prática. Busco pessoas empreendedoras, que venham com o drive de resolução de problemas. A metodologia em si, ela vai aprender dentro da Semente — o que eu estou buscando é o conhecimento e a experiência pelos skills sociais”

Alline considera essas contratações um investimento de médio prazo, que já mostrou ter ótimos resultados.

“Depois de passar por este processo, o profissional tem uma entrega e uma visão de como alcançar o potencial de cada cliente que é incrível — e vale cada minuto gasto.”

Leia também: Você é mulher e está à frente de uma startup inovadora? O fundo WE Ventures está de olho em empresas como a sua

A Semente atribui à diversidade interna a conquista de novos caminhos e clientes. “Eu não tinha como ser parceiro do Vai Tec, programa de aceleração de negócios de impacto da periferia de São Paulo, sem ter consultores capacitados que viessem da periferia”, diz Alline. 

Trazer diversidade para dentro aumentou a capacidade de entrega do time, afirma. 

“Até podíamos estar entregando sem essas pessoas — mas seria outro resultado. E como a gente olha inovação para valorizar a vida, não seria genuíno se não fosse dessa forma.” 

MESMO EM TIMES PEQUENOS, A DIVERSIDADE MOSTRA O SEU VALOR

Com clientes parrudos como Bradesco, Sanofi, Schneider Electric, Caixa Seguradora e Camargo Correia, a Bynd ainda tem um time relativamente pequeno — hoje, são 10 funcionários.

A startup de caronas corporativas foi fundada em 2015. Entre janeiro de 2019 e janeiro de 2020, ganhou corpo, num crescimento já pautado pela preocupação com a diversidade. Nesse período, foram sete vagas abertas, em áreas diversas; entre os contratados, foram quatro mulheres e três pessoas negras. 

“Eu mesma me enquadro nesses dados, como profissional negra e mulher em um cargo de liderança na companhia”, diz Cássia Monteiro, a Head de Comunicação e Pessoas.

Hoje, a Bynd tem três vagas abertas para o time de tecnologia, com preferência declarada pela candidatura de mulheres, LGBTQIA+, pessoas negras e PcD.

“Uma vaga é um cartão de visitas”, afirma Cássia. “E com essa declaração, estamos mostrando acolhimento desde a primeira porta de entrada.” 

Para encontrar esses talentos, a startup criou uma rede de conexão alternativa, como ONGs, grupos específicos e consultorias que ajudam a encontrar os profissionais. O trabalho com a diversidade, porém, não se encerra na contratação. 

“Realizamos rodas de conversa e treinamento para esclarecer dúvidas e para que todos entendam a importância desse tipo de ação afirmativa. Como somos um time relativamente pequeno, o que funciona é o face a face

Para Cássia, o olhar para a diversidade se reflete também na reputação do negócio, junto às empresas clientes e ao consumidor ou usuário final.

“As empresas do futuro não vão sobreviver sem esse olhar. Estamos trilhando um caminho de transformação. Hoje, é uma discussão. Amanhã, será uma realidade.”

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