Cinco lições que aprendi em quatro edições do Burning Man, um dos maiores festivais de contracultura autossustentável do planeta

Felipe Anghinoni - 28 ago 2020
Mad Max? Não: é só Felipe preparado para uma tempestade de areia durante o Burning Man, no deserto de Nevada.
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Há quem invista em especializações. Eu invisto no Burning Man. Para quem não conhece, o evento nasceu em 1986 em Baker Beach, em San Francisco (EUA), mas em 1990 se mudou definitivamente para o deserto de Black Rock, em Nevada.

Considerado um dos maiores eventos de contracultura autossustentável do planeta, ele reúne anualmente 70 mil pessoas que ajudam a construir e desmontar toda a estrutura do festival, além de promover interações inesquecíveis.

Mais do que a curtição de estar entre os maiores artistas do mundo, ser um burner – o que me aconteceu quatro vezes – trouxe valiosas lições de vida, inclusive de liderança

A primeira vez que ouvi falar do Burning Man foi em 2007, quando um antigo chefe, recém-chegado dos EUA, me mostrou fotos e partilhou sua experiência. Tive a sensação de que aquilo era uma espécie de Woodstock: um espaço de cultura e experimentalismo, onde era possível viver sem dinheiro.

Pensei, assim que o ouvi, que mesmo parecendo impossível, enfim, alguém havia conseguido criar um universo paralelo – e tudo o que eu desejava, a partir de então, era fazer parte daquilo. Isso aconteceu apenas em 2013.

Há que se deixar claro: há dez princípios que as pessoas devem seguir para interagir umas com as outras enquanto estiverem na cidade e que são grandes ensinamentos, entre eles a liberdade de ser você mesmo (radical self expression) e não deixar qualquer rastro, além de ser responsável mental e fisicamente por si, confiando nos próprios recursos internos; e substituir o consumo por experiências participativas.

Ser um burner é decidir por um estilo de vida mais livre e colaborativo e muitos participantes já adotaram isso para a vida. Mas, até então, tudo isso ainda era uma grande novidade para mim.

Entre 2013 e 2017, frequentei o evento apenas como um observador. Minha relação com a cidade era como a de um turista, não a de um cidadão.

Em 2018, entendi que a qualidade das relações que se constroem nos burns (cada edição do evento) é o que quero como o padrão para a minha vida e não algo para se viver por apenas sete dias.

Por isso, minha contribuição à comunidade burner não poderia ficar restrita ao pouco tempo que “sobrava” entre minhas atividades da Perestroika.

Foi quando tive a visão: eu preciso encarar o Burning Man como um curso, como um MBA, como uma especialização

É fundamental reservar um tempo na agenda, estudar, fazer os trabalhos em grupo. E investir dinheiro nessa educação alternativa, na qual eu mesmo guiaria minha jornada de aprendizagem.

A partir de 2018, passei a liderar a operação de um acampamento (nas vizinhanças de Black Rock City) que todos os anos recebe cerca de 120 pessoas. O Camp Amazone existe desde 2015 e foi iniciado por meu grande amigo Daniel Strickland, que é o artista responsável pelas três primeiras instalações de arte brasileira por lá.

Felipe ao lado de Tom Cochran, CEO da Conferência dos Prefeitos dos Estados Unidos. Eles foram ao evento para encontrar práticas de administração pública replicáveis em suas cidades.

Só posso dizer que articular 120 pessoas, de nove países, e cuidar da montagem de duas obras de arte, mais toda a estrutura de cozinha, chuveiro, iluminação e alimentação para todas essas pessoas no meio de um dos lugares mais inóspitos do mundo (com tempestades de areia, temperaturas que variam dos 40º aos -5º em apenas um dia), sem estrada, sem internet, sem celular, sem wifi, sem eletricidade e sem dinheiro (trocas comerciais não acontecem dentro da cidade) me trouxe muitos aprendizados que catapultaram a minha performance como líder. E ainda dizem que nada floresce no deserto.

Se não fosse pela pandemia, o Burning Man 2020 estaria acontecendo essa semana. E eu estaria por lá, preenchendo cadernos e mais cadernos metafóricos das lições mais empoeiradas, sonhadoras e psicodélicas. Esta edição, no entanto, acontecerá no ambiente virtual, entre 30 de agosto e 7 de setembro.

Em reverência a tudo que a cultura burner me proporcionou, divido alguns dos meus aprendizados com exclusividade aqui no Draft. Confesso que estou louco pela “volta às aulas”.

1) CRIAR EXPECTATIVAS É LIDAR COM FRUSTRAÇÕES

Saí frustrado da minha primeira ida ao Burning Man. Fui com uma galera de artistas, que sabia dormir amontoado e se virar com absolutamente tudo – e eu nunca tinha feito nada parecido, muito menos ir para um lugar em que é preciso levar água até para tomar banho… e trazê-la de volta!

Além disso, tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que a sensação recorrente é a de que se está perdendo algo importante, o que é muito angustiante.

Claro que foi uma experiência incrível, mas eu estava tão focado nas expectativas criadas que não curti. Como consequência, notei que a insatisfação era um padrão e precisei levar isso para a terapia.

2) O MOVIMENTO GERA ENGAJAMENTO

Em 2017, além de já ter uma noção de localização e dos cuidados necessários para sobreviver no deserto, tive a oportunidade de ir ao evento com um grupo muito mais estruturado, o que fez toda a diferença. Um “conforto” que precisaria ser compensado por pelo menos um turno na cozinha e ajuda a desmontar o evento.

Por incrível que pareça, essa experiência de ficar na cozinha, descascando abacaxis e cebolas, num espaço em que todo mundo se respeitava e se divertia, foi tão incrível que acabei trabalhando em três períodos, ao invés de um só

No final do evento, a conexão com o grupo ficou tão forte que, mesmo com o trabalho braçal, o sentimento geral era de pertencimento.

3) IMPREVISTOS VÃO ACONTECER E VOCÊ SABERÁ COMO DAR CONTA DELES

Encarei uma nova ida para o Burning Man em 2018, mas desta vez fiz parte do grupo de organização.

O episódio mais marcante foi perceber que o número de bicicletas alugadas pelos membros do meu acampamento foi maior que a quantidade disponível e me senti responsável por essa confusão, embora o meu papel fosse apenas o de checar quem estava ou não inscrito.

Para resolver a questão, decidi ir com uma amiga até outra cidade, que ficava a uma hora e meia do evento, para alugar 14 bicicletas. Essa Jornada do Herói, que teria durado, no máximo, três horas, acabou levando 16 horas para ser resolvida

E foi bem sucedida porque mantive a calma para lidar com uma série de imprevistos envolvendo quatro viaturas da polícia, dois guinchos, uma pick-up inteiramente arranhada e um caminhão trancado numa vala.

Imagina o boost nas minhas skills de negociação.

4) SEJA VOCÊ UMA INSPIRAÇÃO PARA AS PESSOAS

Em 2019, fui ao evento como organizador do acampamento. O maior desafio que enfrentei foi engajar as pessoas a colaborarem com os inúmeros serviços necessários para que tudo ficasse bem dentro do acampamento.

Não tive escolha a não ser decidir que se algo tinha de ser feito, eu o faria — mesmo sozinho. Quem chegou para ajudar admitiu que o fez inspirados por me ver trabalhando.

5) O FUTURO É AUTOSSUFICIENTE

Também no evento do ano passado, fui uma das 35 pessoas que participaram de uma reunião com 20 prefeitos norte-americanos interessados em aprender as melhores práticas do Burning Man, entre elas zero produção de lixo em eventos e alta eficiência na regulamentação, fiscalização e segurança.

No futuro, a ideia é que essas condutas que já são muito bem estabelecidas no Burning Man sejam multiplicadas pelo mundo.

BÔNUS: TALENTO NÃO É MOEDA, É UM PRESENTE!

No Burning Man, aprendi que se eu tenho um talento posso oferecê-lo como presente, e não como troca por algo que me interesse. E esse é um grande aprendizado: propósito é algo que você faz de graça, sem pensar na recompensa.

Palavras como empreendedorismo, cultura maker, pensamento beta, propósito e colaboração — termos cada vez mais apontados como tendências — são vividos na essência durante todo o evento porque diz respeito à sobrevivência dos participantes

Sem alguém disponível para desenvolver uma sombra 3D para 40 pessoas, a chance de que elas não resistam ao calor do deserto é real. O seu talento, que seja descascar cebolas, faz toda a diferença para que tudo aconteça da melhor forma. E é exatamente o que acontece com a vida.

 

 

Felipe Anghinoni é professor, sócio-fundador da Perestroika e burner (para saber mais ou trocar ideias sobre o Burning Man, caminhões na vala e um monte de outras coisas, me add no insta: @fanghinoni).

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