Como a inteligência artificial vai transformar digitalmente o RH das empresas? A Gupy indica o caminho

Bruno Leuzinger - 17 ago 2020
Mariana Dias, CEO da Gupy (foto: Guilherme Henrique).
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Em março, além de colocar todos os 180 colaboradores em home office, Mariana Dias, CEO da Gupy — startup de recrutamento e seleção online — precisou comunicar ao mercado o cancelamento o Gupy Conecta, agendado para maio.

A medida acabou sendo menos drástica: o que era presencial virou digital. “Reorganizamos o evento e ele aconteceu em agosto. No final, atingimos 25 mil pessoas.”

Depois de um susto inicial devido ao congelamento das contratações, a Gupy vem crescendo durante a pandemia, que contribui para acelerar a transformação digital do setor de Recursos Humanos.

A carteira de clientes — entre eles, marcas como Ambev, Grupo Pão de Açúcar e Vivo — cresceu 150% no primeiro semestre de 2020 na comparação com mesmo período em 2019. E a média de contratações pela plataforma foi multiplicada por cinco (só em junho, foram 20 mil).

“Temos um dos maiores NPS do mercado”, celebra a CEO. “Hoje, a média de satisfação da Gupy é 95%.” 

Para manter esses clientes satisfeitos e encontrar os melhores candidatos para cada vaga, a startup lança mão da Gaia, uma ferramenta de inteligência artificial que conta, até aqui, mais de 15 milhões de currículos analisados e um total de 200 mil vagas preenchidas.

O passo mais recente, lançado em agosto, é uma nova solução para digitalizar a etapa de admissão dos colaboradores (até aqui, o foco estava apenas em recrutamento e seleção).

A seguir, Mariana fala sobre esta ferramenta, a reação da empresa à pandemia e as perspectivas para o setor de RH.

 

Como a Gupy vem sendo impactada pela pandemia?
O início da pandemia foi muito difícil porque a primeira reação das empresas foi congelar contratação. Não literalmente cancelar, mas congelar. E a gente sentiu isso muito rápido. 

Um diferencial foi ter agido de forma muito ágil. Sabíamos que, naquele momento em que não estavam mais contratando, os clientes estavam preocupados com outras questões de RH, por exemplo, como fazer a gestão remota de todo mundo, como garantir bem estar e saúde mental dos funcionários…

Então, no comecinho de abril, lançamos uma nova plataforma para os clientes com diversos temas que entendemos que estavam preocupantes para o RH, e com especialistas para dar mentoria, conteúdo, tirar dúvida… Isso fez com que os clientes ficassem muito próximos e nos ajudou a ter menos de 1% de churning [saída de clientes].

A partir do fim de abril, quando o mercado começou a entender melhor o que estava acontecendo, percebemos o movimento de reabertura de vagas. 

O recrutamento online, que antes era uma opção, passou a ser a única. Aumentou muito a procura pela nossa solução, que garante um processo 100% online do começo ao fim. Isso permitiu que em junho tivéssemos recorte de contratação dentro da Gupy. Hoje, estamos crescendo até mais do que antes [da pandemia]

Também fizemos algo muito legal, de impacto social. Vimos que em hospitais a maior dor naquele momento era contratar [gente para a] linha de frente. Assim, oferecemos de graça [o serviço] para todos os hospitais. Foram mais de mil contratações naquele momento: médicos, enfermeiros, fisioterapeutas…

Especificamente em relação ao time, quais foram as providências?
Saímos com todo mundo em home office numa sexta-feira, 13 de março. Acho que fomos uma das primeiras startups a colocar todo mundo em casa.

Desde o início, nos preocupamos se o pessoal estaria bem — não só protegidos contra a Covid, mas bem mentalmente. Então liberamos terapia de graça para todos e agora também Gympass para fazerem academia dentro de casa. E quando vimos que poderia haver outras ondas [epidêmicas], decidimos deixar todo mundo em casa até dezembro. Entregamos o escritório e decretamos trabalho 100% remoto.

Muitas pessoas não tinham uma boa mesa, uma boa cadeira, então demos um auxílio de 1 200 reais para cada um mobiliar seu home office… Isso até deu um superboom nas mídias sociais, a galera começou a divulgar… Não adianta só deixar o funcionário em casa

Essas ações fizeram que, em junho, tivéssemos recorde de satisfação interna. Sempre tivemos entre 85% e 90%, um índice bom… Em junho, tivemos 98%, mesmo com a pandemia, em que o pessoal fica mais ansioso, e os desafios são maiores, todo mundo trabalhando intensamente.

A Gupy recebeu recentemente um investimento de 40 milhões de reais. De que forma mais concreta vocês pretendem aplicar esse recurso?
Em todas as captações até hoje, a maior parte do investimento da empresa foi para tecnologia — e continuará sendo. Nossa tese é que, para conseguir fazer algo muito transformacional, é preciso um produto muito bom para RH.

O RH é uma área superestratégica, com diversos dados que podem ser trabalhados aí, e que cuida do maior ativo da empresa, que são pessoas… Mas sempre esteve “de lado”, e as tecnologias ofertadas para essa área eram muito complexas, engessadas, sem preocupação com usabilidade, uso de People Analytics… 

Então essa foi a nossa tese desde o começo da Gupy: fazer um produto muito bom para essa área aumentar seu escopo e seu potencial. 

Além disso, vamos reforçar e aumentar o times para o produto inicial da Gupy, que é o core, o Gupy Recrutamento e Seleção. Aumentamos três times, estamos aumentando agora mais um, reforçando o time de inteligência artificial…  Colocamos também uma parte desse recurso para o novo produto, o Gupy Admissão.

E outra parte vai para crescimento: Somos líderes em recrutamento e seleção online no Brasil, mas ainda tem muito mercado, o país ainda é muito carente em tecnologia para essa área. Temos alguns clientes fora, mas nosso foco ainda é 100% Brasil, para depois buscarmos uma exposição mais ativa para fora.

Uma vez que o investimento é sobretudo em tecnologia, em que sentido a plataforma de vocês ainda precisa melhorar? Quais são os gargalos?
A gente é muito insatisfeito, somos loucos por cliente, feedback… Temos ainda um roadmap bem grande, mesmo no produto Recrutamento e Seleção. Por exemplo, como a gente melhora o uso para o gestor ter mais agilidade e flexibilidade na condução do recrutamento e seleção… Tem também algumas alguma coisa [melhorias em vista] para os candidatos, que vamos lançar este ano. 

Neste momento de aumento do desemprego, aumentou muito a proporção de candidatos inscritos por vaga; com isso, o número de candidatos aprovados é  proporcionalmente menor. Nossa preocupação é garantir a melhor experiência possível para os 99,9% que não são aprovados — para que tenham um bom feedback do que precisam melhor, para que a inscrição seja mais fluida… 

Hoje estamos muito focados em grandes empresas, sabemos que elas precisam de robustez em recrutamento e seleção. Estamos investindo também em frentes para recrutamento interno, porque nesse momento de pandemia as empresas tendem a ter muita realocação dentro do próprio quadro de funcionários. 

Um desafio para grandes empresas é como construir uma cultura corporativa à distância. A Gupy também ajuda nessa frente?
A Gaia, inteligência artificial da Gupy, garante que mais de 70% dos contratados estejam nos top 10 do nosso ranking de afinidade para a empresa. Como a gente faz? Olhando a cultura de todas as empresas que viram clientes. Mapeamos quem são os top performancers, o estilo de trabalho deles relacionado a essa cultura, para aí sim o algoritmo começar a fazer as melhores recomendações possíveis.

A cultura das empresas tem se modificado muito rápido. Existe uma adaptação nesse momento [de pandemia] para o online, mas há também algumas mudanças. E a inteligência artificial vem com um suporte para detectar essas mudanças e fazer ajustes já no processo seletivo 

Ainda nessa frente de cultura, e aí tem um investimento para ajudarmos ainda mais: como a empresa consegue criar processos cada vez mais transparentes para que o candidato vá conhecendo, durante o processo seletivo, a cultura dessa empresa. 

Estamos fazendo ajustes no produto hoje para que o candidato tenha maior transparência em relação a isso — para buscarmos os talentos certos no recrutamento.

O que motivou o lançamento da Gupy Admissão, a nova solução da empresa?
Vários clientes que já tinha reduzido em pelo menos 50% o tempo de contratação com a nossa solução [de recrutamento e seleção] começaram a pedir ajuda com a etapa de admissão. Os clientes grandes foram os que mais ‘levantaram a mão”: ajudem a gente com essa etapa.

Na etapa de admissão, você precisa pedir diversas documentos, carteira de trabalho, FGTS, colocar tudo no [sistema] eSocial do governo… E o candidato tem que ir numa casa de xerox escanear esses documentos e mandar por email ou ir na empresa entregar pessoalmente. É um trabalho operacional muito grande. 

As empresas estavam perdendo, na etapa de admissão, candidatos já aprovados que ou não davam mais retorno ou não conseguiam escanear os documentos ou então ir até o escritório…. Não adianta ganhar agilidade com o recrutamento se a admissão continuava sendo burocrática

Esse desenvolvimento [da solução] vem desde o ano passado, quando decidimos abrir um time pra começar o Gupy Admissão. Com a pandemia, ficou claro que a gente precisava acelerar para ajudar. Intensificamos esse trabalho e fizemos mais reforços no time para antecipar o lançamento. 

O grande propósito deste produto é desburocratizar um processo que é muito burocrático, de sistema de governo, de checagem de documentos… E soluções de fora não conseguiam aportar, porque são questões muito específicas do Brasil.

O segundo propósito é centralizar dados: pôxa, já perguntei no processo seletivo vária informações para o candidato… Por que vou perguntar de novo no processo de admissão? 

Com o produto 100% integrado e fluido, a empresa só aperta alguns botões e o pré-colaborador já sabe quais são os documentos que ele pode tirar uma foto, já dá ok pelo celular mesmo, é tudo responsivo, e manda para a empresa, que já um check e envia para eSocial. 

A Gaia também fica potencializada, a inteligência artificial pode ter uma robustez maior, aprender com [dados de] quem de fato é admitido.

Que competências vêm sendo mais exigidas dos candidatos?
A gente pode negligenciar o fato de que estamos num momento de desemprego [alto]. Mas eu gosto muito de dar esperança. Porque temos muitas vagas, só em junho foram mais de 20 mil contratações feitas via Gupy, e já vimos que isso vai aumentar pra caramba com os números de julho.

Temos visto que algumas competências estão sendo muito valorizadas pela empresas. Adaptabilidade, por exemplo: nesse momento, ser flexível, se adaptar a cenários, é supererelevante. Agilidade sempre foi importante e agora mais do que nunca… 

E resiliência, também. Algumas semanas atrás, um relatório do Gardner afirmou que as empresas estão trocando um modelo de “design para eficiência” por outro de “design para resiliência”. 

Todo mundo está recebendo muito mais “não” do que “sim”, tanto empresas quanto candidatos. Então, essas são algumas competências que no processo seletivo estão sendo muito vistas.

Todas as posições vão ser muito reinventadas. As habilidades que as empresas vão buscar nos próximos anos tendem a mudar muito rapidamente com a pandemia, isso faz com que as faculdades, as universidades tenham uma defasagem ainda maior para entregar essas novas competências

Isso abre para os candidatos uma oportunidade de ser flexível e autodidata, se conectar a essas novas habilidades e competências, e ganhar diferencial.

E pensando no contexto difícil que muitos setores estão vivendo, como as empresas podem incrementar o RH para atrair mais e melhores candidatos?
Ainda temos escassez de mão de obra qualificada. E aquele bom candidato que se inscreve e encontra um processo seletivo todo “travado”, sem uma descrição boa da vaga, sem feedback… Esse bom candidato sai do processo. 

Então, a preocupação com a experiência do candidato — a gente fala em “employee experience”, “candidate experience” — é ainda mais relevante neste momento. As empresas precisam contar com processos seletivos bons, fluidos, com tecnologia. 

O RH tem ganho destaque ainda maior desde o início dessa crise. O recurso mais importante [das empresas] sempre foi “gente”, e isso agora está escancarado! O CEO está pensando: “O que devo fazer para manter esse time bem em casa, engajado e produtivo?” E essa resposta não está fácil 

Plataformas como a Gupy vêm para ajudar. Para que o RH deixe com a gente o trabalho mais operacional e possa se dedicar mais à parte estratégica de ajudar as organizações a fazer essa readequação de relações de trabalho.

O mundo vai mudar muito rápido. E o RH é uma das áreas mais afetadas agora, então a transformação digital chegou numa velocidade gigantesca.

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