Com realidade virtual, a Inteceleri torna o ensino da matemática mais cativante para alunos no Norte do Brasil

Cristine Gentil - 26 fev 2020 Walter Oliveira (no centro), CEO da Inteceleri.
Walter Oliveira (no centro), CEO da Inteceleri.
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Imagine enxergar a Torre Eiffel de pertinho, mas sem pisar em Paris — aliás, sem sequer sair da sala de aula, numa escola pública no Pará. Logo, os alunos veem uma pirâmide se deslocar pela torre, e começam a aprender sobre a figura geométrica. A aula, afinal, não é de geografia — mas de matemática.

A experiência de realidade virtual faz parte do portfólio da Inteceleri. Fundada em 2014, a startup desenvolve projetos de educação com apoio da tecnologia e foco na matemática que, somados, impactam 300 mil alunos e 15 mil professores em escolas do Norte e Nordeste.

“Queremos chegar a 500 mil alunos até o fim de 2020”, afirma Walter dos Santos Oliveira Júnior, 45, engenheiro, mestre em computação aplicada e CEO da Inteceleri. “Mas meu sonho mesmo é chegar a 5,5 milhões de alunos do ensino básico e fundamental.”

O APLICATIVO GAMIFICA O APRENDIZADO DAS FORMAS GEOMÉTRICAS

Feitos com fibra de buriti (palmeira também conhecida como miriti), os óculos da Inteceleri são chamados de MiritiBoard VR e funcionam com um celular acoplado, no qual roda um aplicativo chamado Geometricando, voltado ao aprendizado de geometria plana e espacial. Segundo Walter:

“O Geometricando possibilita identificar as formas geométricas, fazer o link entre teoria e prática. O aluno experimenta tudo isso num ambiente gamificado. Se acertar a forma, ele acumula pontos, por exemplo”

A ideia surgiu a partir de experiências em salas de aula no Pará usando o Google Expedition [plataforma de tours virtuais do Google]. Walter percebeu que a ferramenta “conquistava, além da atenção, o coração dos alunos”.

Não havia, porém, muito conteúdo de matemática. A resposta? Desenvolver seus próprios conteúdos imersivos.

“Apesar da ausência de estrutura na maioria das escolas públicas onde atuamos, havia alguns smartphones dos próprios alunos, havia internet, mas faltavam os óculos de realidade virtual”, diz Walter. “Sentimos a necessidade de criar uma solução que possibilitasse a imersão dos alunos no mundo da realidade virtual.”

COMUNIDADES DE ARTESÃOS PRODUZEM OS ÓCULOS A PARTIR DA FIBRA

A inspiração dos óculos em si é o Google Cardboard, acessório de papelão que ajuda a democratizar a realidade virtual. Nessa mesma pegada, os moldes do MiritiBoard VR têm acesso gratuito online, para que cada escola possa fabricar o seu.

Nesse caso, a matéria-prima é de livre escolha. A startup, porém, prioriza a fibra amazônica nas suas encomendas:

“Achamos legal desenvolver os óculos usando uma árvore local, já conhecida da comunidade. Foi uma forma de aliar a sustentabilidade com uma série de tecnologias avançadas”

A Inteceleri se conectou a três comunidades de artesãos, que já faziam trabalhos manuais com fibra de buriti. Uma delas — em Abaetetuba, a pouco mais de 100 km de Belém — produz atualmente entre 100 e 200 óculos por mês.

“Nas outras [comunidades, localizadas na Ilha do Combu, em Belém, e na Ilha de Marajó], estamos transferindo a tecnologia de confecção e testando formas de reduzir um pouco do processo artesanal para conseguir uma produção em escala maior.”

CHEGOU QUEM FALTAVA: A SITAWI AJUDOU A VIABILIZAR O PROJETO

O app e os óculos foram viabilizados graças ao financiamento conseguido via Sitawi Finanças do Bem, que desenvolve soluções financeiras para projetos de impacto social e socioambiental.

Com a primeira rodada de investimentos, de 200 mil reais, no fim de 2017, a Inteceleri começou a executar o projeto de realidade virtual. Um segundo aporte, de 215 mil reais, recebido no ano passado, deve agora alavancar a expansão da startup. Segundo Walter:

“Estamos aperfeiçoando a estrutura, investindo em governança, ajustando fluxo de caixa para ir desenvolvendo os projetos”

A empresa ainda não revela resultados isolados do Geometricando, que permanece em fase experimental. A versão pós-teste do app, o Geometricando 2.0, será lançada neste ano, em conjunto com um livro paradidático com orientações para alunos e professores.

Também está nos planos para 2020 a versão 3.0 (com desafios maiores para alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental) de outro aplicativo: o Matematicando – o primeiro e mais importante projeto da Inteceleri. Sabe aquele que paga as contas? Pois é. Vamos entender como essa história começou.

O LIVRO DE UM AMIGO INSPIROU O PRIMEIRO APLICATIVO

A empresa foi formalizada em 2014. Walter era (e é) professor da Universidade Federal do Pará (UFPA). Há mais de uma década vinha dando aula na área de gestão de tecnologia para educação na pós e trabalhava como gerente de TI de um instituto de pesquisa, engajando-se em projetos ligados ao tema.

“Éramos um grupo de pais e professores que discutíamos muito sobre as dificuldades das crianças no ensino da matemática”, diz Walter.

“Um amigo meu, o Dilmar Batista da Cunha, escritor de Belém, escreveu o livro Aprendendo e Brincando com a Tabuada Colorida, inspirado na dificuldade da filha… E decidimos criar uma metodologia de ensino a partir do livro dele”

Essa metodologia daria origem ao Matematicando. O aplicativo funciona como um jogo da memória. Cores e atividades neurolinguísticas são associadas às operações básicas (soma, subtração, multiplicação e divisão), apresentadas em cinco níveis de dificuldade para estimular o desenvolvimento dos alunos.

VENDIDO PARA ESCOLAS DE ANANINDEUA, O APP ATRAIU O GOOGLE

Para tirar o app do papel, Walter investiu 10 mil reais do bolso. Caio Matos, seu cunhado, embarcou como sócio — com 20 anos de experiência em engenharia de software, desenvolvimento de jogos, inovação e marketing digital, ele é o CTO da Inteceleri e fica baseado em São Paulo, tocando também a prospecção de novos negócios.

Dilmar, o autor do livro que inspirou o app (e a empresa), é o curador de conteúdo da Inteceleri. Além dele, há um time de colaboradores na área de gestão, pedagogia, tecnologia da informação, comunicação e administração.

Desenvolvido com “interface multitouch” para Android e IOS, em versão compatível com qualquer navegador, o app funciona on e offline. Walter lembra da primeira venda:

“Conseguimos vender o Matematicando para as escolas de Ananindeua [na região metropolitana de Belém] e foi tendo uma boa aceitação, chegamos rapidamente a 140 mil alunos”

O projeto chamou atenção do Google. Em 2015, Walter foi certificado como Google Educator e a Inteceleri tornou-se formadora oficial de professores na implantação da plataforma Google for Education.

Foi a partir daí que Walter passou a se dedicar em tempo (quase) integral à Inteceleri — ele ainda dá três aulas por mês na pós da UFPA.

SEGUNDO O EMPREENDEDOR, O MATEMATICANDO IMPACTA NO IDEB

A principal forma de monetização da startup é a venda para as escolas. Há três pacotes: o primeiro, de 155 reais por aluno, é um kit com livro e a licença do app (online e offline), oficina de capacitação em matemática de 20 horas para os professores e execução de torneio de matemática promovido pela startup.

O segundo pacote (220 reais) inclui ainda a implantação do Google for Education na escola e formação do professor na plataforma, enquanto o terceiro (290 reais) acrescenta oficinas de cultura maker e kit com 50 óculos de realidade virtual por colégio.

O Matematicando foca o desenvolvimento do cálculo mental, pensamento computacional e raciocínio lógico — e os benefícios, diz Walter, são mensuráveis:

“O resultado tem sido um aumento médio de 12% na nota escolar e 22% no Índice de Educação Básica (IDEB) das escolas onde o Matematicando foi implantado. E o melhor: o professor, que sempre será insubstituível, ganha a tecnologia como aliada. Trata-se de aprender brincando”

Em 2019, a Inteceleri faturou 2,1 milhões de reais. O amor do CEO pelos números, porém, transcende as planilhas financeiras.

“Sempre fui apaixonado pela matemática. Minha mãe era educadora, venho de uma família carente. Essa é minha paixão, a minha causa, o meu chamado: mudar a realidade das pessoas pela educação.”

 

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Inteceleri
  • O que faz: Cria projetos de inovação tecnológica para educação
  • Sócio(s): Walter Oliveira e Caio Matos
  • Funcionários: 12 colaboradores (freelancers)
  • Sede: Belém
  • Início das atividades: 2014
  • Investimento inicial: R$ 10 mil
  • Faturamento: R$ 2,1 milhões (ano)
  • Contato: [email protected]
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