Como a Buser vem diversificando suas frentes de negócio para reduzir, cada vez mais, o custo de se viajar de ônibus pelo Brasil

Marina Audi - 13 out 2021
Marcelo Abritta, CEO e fundador da Buser (crédito: divulgação).
Marina Audi - 13 out 2021
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Concorrência acirrada das viações tradicionais. Batalhas jurídicas contra regulações restritivas da Agência Nacional de Transportes Terrestres. E o baque da pandemia, que durante meses fez despencar o turismo e os deslocamentos rodoviários….

Mesmo em meio a esses desafios, a Buser – plataforma de intermediação de viagens de ônibus – vem evoluindo sua forma de atuar.

A Buser nasceu em 2017 para conectar pessoas e empresas de transporte rodoviário. A Buser fechava um valor fixo para fretar um ônibus ocioso, anunciava a viagem, os passageiros dividiam a conta final e a startup ficava com 20% de comissão. Quanto mais gente ocupasse o veículo, mais barato o trajeto.

Essa modalidade de fretamento permite que as viagens sejam até 60% mais baratas que as realizadas de forma convencional pelas grandes viações de ônibus. 

A startup hoje já está presente em 24 estados, conectando 480 cidades e 4 162 trechos (contados separadamente, ida e volta). Mesmo tendo ficado três meses sem viagens em 2020 por conta da quarentena, triplicou de tamanho em relação a 2019.

Os números mais recentes indicam nova aceleração. A plataforma já tem 4 milhões de pessoas cadastradas, fechou agosto transportando 358 mil passageiros no fretamento colaborativo — e traçou como objetivo crescer cinco vezes em 2021.

EQUACIONAR A VIABILIDADE FINANCEIRA “NUNCA FOI DIFÍCIL”

Marcelo Abritta, 36, é o CEO e cofundador da startup. Desde o começo, ele bate na tecla de que é possível baixar o preço do transporte usando tecnologia para otimizar rotas, gerenciar a demanda dos passageiros, intermediar a compra das passagens e usar a força de trabalho, experiência e veículos das empresas (de pequeno e médio porte) parceiras para dar melhor acesso a quem quer circular pelo país.

“Equacionar o financeiro nunca foi difícil. Falando de forma xucra, o nosso preço não é a metade; o deles [grandes viações do modelo convencional] é que é o dobro… Para nós, não é um sacrifício cobrar os nossos preços”

Após quatro anos, a Buser já tem previsibilidade da demanda de cada trajeto operado por um de seus 290 parceiros. Hoje, então, as ofertas de preço para o consumidor são fixas (evitando, assim, “desconfiança e ruído na comunicação”).

A comissão para as pequenas viações na média ainda fica em 20%, mas agora varia conforme a lotação. Quando o veículo sai com poucos passageiros, a viação parceira recebe um valor de frete combinado e não sobra nada para a startup. Por outro lado, se o ônibus está lotado, a comissão pode chegar a 40%.

A TECNOLOGIA GARANTE A SEGURANÇA DOS PASSAGEIROS

Essa operação de fretamento colaborativo conta hoje com cerca de 700 ônibus em circulação. Todos têm tecnologia embarcada para a startup se comunicar com o veículo e sistema de telemetria – ferramenta que permite o controle em tempo real da velocidade.

Veículo parceiro, identificado com comunicação visual da Buser (crédito: divulgação).

Abritta explica que, caso o motorista ultrapasse a velocidade de 90 km/h, é ativado um aviso sonoro no veículo a fim de alertá-lo e a Buser aplica uma multa à empresa dona do ônibus. Isso ajuda a evitar acidentes e a identificar se um veículo quebrou, se chegou ou se saiu com atraso. Além disso, os motoristas têm um aplicativo para fazer check-in com os passageiros.

Em 250 ônibus já foram instaladas também câmeras antifadiga, capazes de detectar níveis de cansaço dos motoristas. Gradualmente, elas estarão em todos os veículos, bem como a identificação visual da companhia, que está atualmente em 10% dos ônibus. 

UMA FESTA DE  CASAMENTO NA BAHIA INSPIROU A CRIAÇÃO DO NEGÓCIO

A ideia que deu origem à Buser começou a germinar em novembro de 2016. Com casamento prestes a ser realizado em Arraial d’Ajuda, na Bahia, o mineiro Abritta se mobilizou para ajudar parentes de BH que tinham deixado para comprar as passagens na última hora e não conseguiram. Assim, descobriu que fretar um ônibus deixaria a viagem 70% mais barata.

No fim, os convidados preferiram ir de carro, para ter liberdade de locomoção na Bahia. Mas o conceito de um negócio de fretamento colaborativo de viagens “colou” na cabeça de Abritta. Um mês depois do casamento, ele dividiu o insight com o xará e amigo Marcelo Vasconcellos, que se empolgou.

Abritta estava reticente devido ao fracasso de uma experiência empreendedora anterior. Vasconcellos levou seis meses até convencer o amigo a embarcar em sua própria ideia… 

Uma vez convencido, Abritta registrou a marca e o domínio da Buser, criou um e-mail profissional, um site simples e as redes sociais. Tudo no mesmo dia. Assim, o projeto repercutiu rapidamente:

“O assunto do monopólio do ônibus reverberou muito no começo. As pessoas que gostaram mais do projeto no começo eram as que pediam ‘pelo amor de Deus me liberta da viação tal’…”

Essa repercussão inicial se traduz em números: Abritta conta que, em apenas 24 horas, a Buser já tinha mil fãs no Facebook. Após uma semana, 5 mil. E em 15 dias, 15 mil.

LOGO NA PRIMEIRA VIAGEM, ELES TIVERAM UM PREJUÍZO DE 40 MIL REAIS

Era julho de 2017, hora de colocar “os ônibus na rua”. Os sócios marcaram duas viagens, ambas saindo de Belo Horizonte: uma para Ipatinga e outra para Varginha. Esta micou, atraiu pouquíssima gente, mas a de Ipatinga lotou. 

E aí começaram os problemas… Os Marcelos haviam combinado de investir 10 mil reais cada um do próprio bolso. Logo de cara, perderam 40 mil reais, porque o ônibus foi parado na rodovia sob a acusação de ferir a regra de “circuito fechado”, que determina que a ida e volta devem ser no mesmo veículo. 

Para não deixar ninguém na mão, os sócios arcaram não só com o fretamento, mas com a compra de passagens comuns para os passageiros. 

Dessa experiência frustrada, tiraram duas conclusões. A primeira é que a Buser precisaria levantar capital para engrenar de vez (o investimento veio da Canary, em janeiro de 2018; o valor permanece sob sigilo).

A outra conclusão: os empreendedores teriam de contratar advogados para defender o direito de realizarem as viagens. 

As batalhas jurídicas seguem em andamento. A Buser obteve resultados positivos na Justiça dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro (a empresa está construindo um terminal de ônibus na capital fluminense). Perdeu, porém, nos estados do Sul, onde hoje não opera. 

O BAGAGEIRO DOS ÔNIBUS FRETADOS VIROU UM RECURSO DE LOGÍSTICA

Em paralelo, a Buser vem se dedicando a otimizar recursos diversificar suas fontes de receita. A ampliação de frentes de negócio, afirma Abritta, ajuda a beneficiar quem viaja. 

Se eu ganhei mais dinheiro naquela viagem, o que eu faço? Abaixo o preço dos passageiros. É sempre assim: achamos onde tem jeito de economizar, ou faturar mais, e abaixamos mais o preço da passagem”

Um exemplo é a Buser Encomendas. Recém-criada, a operação usa o bagageiro dos veículos fretados para fazer a logística de transporte de e-commerces e varejistas.

Os bagageiros dos ônibus são enormes, explica o CEO, então utilizá-los era algo “óbvio”. Ele conta que as viagens da Buser às terças e quartas-feiras têm pouco fluxo de passageiros, mas alto fluxo de carga. “Complementando uma coisa com a outra, fica mais fácil fechar a conta.”

A precificação das viagens equacionada junto ao operador de ônibus leva em conta apenas o número de passageiros. Assim, é a Buser quem define o valor a ser cobrado pelo Buser Encomendas, como se fosse uma transportadora comum. Segundo Abritta, o transporte de um pallet, que custaria 1 mil reais se fosse feito de caminhão, sai por 200 reais com a Buser. 

A Buser Encomendas é uma nova área da empresa, com 10 pessoas alocadas. Em um mês, segundo a startup, o volume de encomendas já triplicou. A expectativa para 2022 é transportar — diariamente — 1 500 toneladas de encomendas.

UM NOVO MARKETPLACE PARA VENDA DE PASSAGENS TRADICIONAIS

Uma das novas frentes é o Buser Passagens, um sistema de marketplace (lançado em janeiro) que oferece passagens tradicionais, as mesmas vendidas no guichê das rodoviárias pelas companhias convencionais e por agências de viagens online.

Neste modelo, a startup cobra 15% de comissão (sendo 5% para taxa do cartão de crédito) da empresa parceira. O passageiro não arca com nenhum custo extra e pode recorrer diretamente à Buser caso surja algum problema durante a viagem.

Sessenta viações já aderiram ao marketplace; a Buser exige o cumprimento de uma série de itens operacionais. 

“Se elas não cumprirem, eu as multo, pego o dinheiro e faço ressarcimento para o passageiro. A gente faz aquele meio de campo que privilegia muito mais o passageiro do que a empresa”

Buser Passagens vem transportando 20 mil passageiros por mês. A meta para dezembro, ambiciosa, é bater a marca de 70 mil viajantes. E até o fim deste ano, a empresa prevê vender bilhetes para 100 companhias de todos os estados do Brasil.

A BUSER AGORA OFERECE FINANCIAMENTO DE ÔNIBUS ÀS VIAÇÕES PARCEIRAS

Outra trilha de negócios que começou a ser desbravada pela Buser é o financiamento de ônibus para as viações parceiras. 

A ideia é conseguir redução de custo da viagem para o consumidor ao possibilitar que os operadores tenham melhores taxas para renovarem ou ampliarem suas frotas. 

Segundo o fundador, cada ônibus de dois andares, zero quilômetro custa 1 milhão de reais. O plano é a startup investir 30 milhões de reais e captar mais 170 milhões de reais no mercado.

“É uma operação de crédito segura. O ônibus fica como garantia, a Buser trabalha como intermediadora, então, não tem como o cara não pagar a parcela do ônibus!”

Até agora, a Buser já financiou sete veículos para testar o modelo. “Ainda tem muitas coisas para validar. O que é melhor: emprestar dinheiro ou alugar o ônibus? Até quantos ônibus o cara pode ter emprestado com a gente e quantos ele tem que se virar de outro jeito?” 

Se esse negócio crescer, a empresa imagina transformá-lo em uma spin-off, seguindo o exemplo do que o Uber faz com a Localiza e Unidas (que compram inúmeros veículos a juros baixos e alugam para os motoristas que querem trabalhar com o aplicativo de mobilidade urbana).   

A PRÓXIMA FRONTEIRA: A OPERAÇÃO DE ROTAS URBANAS

A mais recente aposta da Buser está sendo gestada com muito cuidado: a entrada na operação de ônibus urbanos. A ideia é usar a tecnologia desenvolvida pela Buser, que hoje possibilita que 350 empresas (entre as de fretamento e as viações convencionais) funcionem como se fossem uma só rede.

O projeto prevê começar em cidades médias, em parceria com operadores locais para integrar vários modais. A plataforma da Buser será usada para analisar e mudar o planejamento das rotas, indicar o uso de ônibus ou a substituição por veículos menores – vans ou micro-ônibus escolares, por exemplo – em certas linhas ou em determinados horários de baixa demanda no sistema. 

“As prefeituras exigem, corretamente, que se atenda a cidade inteira. Mas o que acontece é que mandam um ônibus gigante muito longe que volta só com uma pessoa dentro. Nós, nesse caso, vamos mandar um automóvel para buscar ela. Fica muito mais barato e sustentável, porque o consumo de óleo diesel num veículo desse é obsceno!” 

Outra oportunidade que a startup pretende aproveitar é na substituição do sistema de pagamento. Em caso de adesão do município, o cidadão usará o aplicativo da Buser para usar o transporte público. “Isso traz para nós uma penetração muito grande na cidade”, diz Abritta. “Vamos oferecer produtos financeiros para essas pessoas, gerar receita e remunerar o operador também.” 

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Buser
  • O que faz: Plataforma de intermediação de viagens de ônibus
  • Sócio(s): Marcelo Abritta, Marcelo Coelho Vasconcellos e os fundos Globo Ventures, Lightrock, Monashees, Softbank e Valor Capital Group
  • Funcionários: 250
  • Sede: São José dos Campos (SP)
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 20 mil
  • Faturamento: NI
  • Contato: buser.com.br/ajuda
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