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Como a IA pode nos ajudar a enfrentar desafios socioambientais complexos? Dezenas de lideranças se reuniram em busca de respostas

Dani Rosolen - 30 jun 2026 Parte do grupo da Jornada IA para Impacto em um dos encontros presenciais.
Parte do grupo da Jornada de IA para Impacto em um dos encontros presenciais.
Dani Rosolen - 30 jun 2026
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“Quem deveria desenvolver e definir o que é uma inteligência artificial para impacto não é a ONU, não são as big techs, mas o terceiro setor e os negócios de impacto.”

A frase acima é de Célia Cruz, fundadora da Philantropics especialista em filantropia, investimento de impacto e mudança sistêmica, com passagens por organizações como o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE), Ashoka, Instituto Beja e IDIS.

Ela se define como uma “catalisadora de ecossistemas”. E foi justamente esse seu papel ao idealizar a Jornada IA para Impacto.

DE UMA VIAGEM À ÍNDIA À PERCEPÇÃO DE QUE O SETOR DE IMPACTO NÃO ESTAVA NA MESA NA HORA DE DEBATER IA

A ideia da iniciativa surgiu da soma de vários fatores. Um deles foi uma viagem à Índia, organizada pelo ICE, em março de 2024, quando Célia ainda atuava como diretora-executiva da organização. O instituto levou parceiros associados para conectar a rede brasileira de investidores e filantropos ao ecossistema indiano, referência mundial no uso de inteligência artificial e dados para resolver desafios sociais.

“A gente começou a ver projetos de escala e fundações indianas financiando tecnologias para acesso a serviços públicos, como por exemplo a Agami, empresa que criou soluções de acesso à justiça usando IA”

Após retornar de viagem, Célia encerrou seu ciclo no ICE e assumiu a direção do Instituto Beja, que havia incubado o Centre for Exponential Change (C4EC), sediado na Índia, e ajudado a trazer a organização para cá com o nome de Centro para Mudanças Exponenciais Brasil (CMe). Por meio dessa iniciativa, ela começou a se conectar com entidades brasileiras que vinham usando IA e outras tecnologias para potencializar o impacto.

“Nesse período que eu estava no Beja, a gente patrocinou uma pesquisa para saber se as fundações do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) estavam financiando inteligência artificial para impacto. E o resultado foi meio desanimador: de 70, só 12 — sendo que a maioria apostava em aplicativos e não em usar a tecnologia para repensar as organizações.”

Célia Cruz, facilitadora da Jornada IA para Impacto.

Depois de concluir sua atuação no Beja, Célia tirou um sabático para estudar na Universidade de Oxford. Circulando em conferências internacionais, notou algo incômodo:

“Na maioria dos eventos, mesmo nos grandes, não tinha nenhuma ONG ou negócio de impacto nos painéis sobre IA”

Célia estava estudando mapeamento sistêmico e resolveu usar o tema como gancho para seu trabalho em Oxford, analisando barreiras para a adoção de IA no setor de impacto e possíveis alavancas para destravá-las.

De volta ao Brasil, junto com o Sense-Lab, transformou essa ideia na Jornada IA para Impacto, com o apoio de parceiros estratégicos (Instituto Alana, ICE, Instituto Sabin, Fundação FEAC e Fundação Grupo Boticário) e institucionais (Ashoka, Instituto Ethos, GIFE e ICE).

AFINAL, O QUE É A JORNADA IA PARA IMPACTO?

Em resumo, a iniciativa é uma comunidade colaborativa com foco em democratizar o acesso à inteligência artificial no setor de impacto e potencializar sua adoção sistêmica, ética e inclusiva para enfrentar desafios socioambientais complexos.

Essa comunidade, formada por 70 líderes de organizações da sociedade civil, negócios de impacto, especialistas, investidores e outros atores desse ecossistema, com diversidade regional e de repertório, se reuniu por cerca de oito meses em encontros online e presenciais, que terminaram no dia 19 de junho.

Neste período, o grupo estudou o problema e mapeou mais de 40 barreiras para a adoção da IA. A partir daí, os integrantes da Jornada passaram a identificar seis alavancas prioritárias, ou seja, formas de desbloquear esses empecilhos, apostando em governança/regulação; financiamento; narrativas; conexão; infraestrutura/soberania; letramento e formação.

Foram então formados grupos por afinidade temática e coerência organizacional para, a partir dessas alavancas, pensar em recomendações — ao todo, 16.

AS ENTREGAS: PROTÓTIPOS E O “CÉREBRO”

Da combinação entre as recomendações, o grupo chegou a múltiplos protótipos de ações e os valores necessários para executá-las.

Na alavanca de financiamento, por exemplo, uma das recomendações é de que as fundações destinem ao menos 5% de seus orçamentos para a adoção estratégica de IA. A partir dela, sete organizações criaram o protótipo do “Pote Colaborativo de Recursos”.

Trata-se de um mecanismo de cofinanciamento de soluções que garantam o uso ético da inteligência artificial no campo do impacto. Para concretizá-lo, estão previstas fases como a criação de um grupo de trabalho e a mobilização e sensibilização de organizações do GIFE.

Já o protótipo de narrativas se propõe a disseminar narrativas críticas que problematizem a questão da IA, mas que combatam uma visão polarizada, a partir da curadoria de histórias e cases, produção de guias práticos de bolso para ONGs sobre o tema etc.

Outra entrega da Jornada é o Cérebro, o assistente de IA da iniciativa, que é alimentado continuamente e conta com mais de 220 artigos e 109 cases brasileiros. Célia afirma:

“Contratamos a Sul Inteligência para desenvolver o Cérebro, que funciona como se fosse a base de dados da OpenAI para o ChatGPT, só que a gente fez uma só para a Jornada. E ele não alucina porque não vai buscar na internet, mas apenas em materiais que foram alimentados por nós”

Célia explica que, se uma fundação quiser financiar educação, ela consegue descobrir no Cérebro qual o melhor jeito de apoiar o setor com apoio da tecnologia. O mesmo vale para quem quiser criar um código de ética para o uso de IA: os insumos também estão lá (por enquanto, o recurso é de utilização exclusiva dos integrantes da Jornada).

Dentre os cases brasileiros de uso da IA que ajudam a construir uma visão mais positiva sobre o tema, Célia cita o Letrus, edtech fundada por Luís Junqueira e Thiago Rached que utiliza a inteligência artificial para corrigir redações de alunos de escolas públicas com base nos critérios do Enem e de vestibulares.

“Precisamos começar a trazer essa narrativa, disseminar histórias assim. Quando falo que sou uma otimista cautelosa — ou, parafraseando Ariano Suassuna, uma realista esperançosa –, é porque acredito que a gente não pode focar só nos riscos e medos relacionados à IA”

Otimismo à parte, Célia ressalta que há desafios que não podem ser ignorados. Entre eles estão a desigualdade de infraestrutura, as questões de governança de dados, a urgência de uma regulação e o financiamento dessas iniciativas.

O FIM DA JORNADA É APENAS O INÍCIO

A Jornada IA para Impacto encerrou seu primeiro ciclo, mas está longe de terminar. Agora, o projeto entra em uma fase de divulgação (há um relatório final disponível no site) e captação.

Ao longo dos próximos meses, segundo Célia, a prioridade será estruturar uma secretaria executiva — uma espécie de backbone organization do movimento — responsável por desenhar um plano de prospecção de recursos, articular a governança e financiar as pesquisas que vão atualizar a base de evidências do campo.

No curto prazo, a agenda de mobilização já está em movimento, com encontros previstos com organizações do GIFE e propostas de projetos de formação; uma ideia é firmar parcerias com universidades para criar programas voltados a desenvolvedores de impacto.

A intenção daqui para frente, diz Célia, não é “institucionalizar” a Jornada:

“A gente conversou muito e entendeu que é mais legal continuar como um movimento”

Um movimento que aposta no poder da IA e das tecnologias, quando bem empregadas, de ajudar o setor a reinventar soluções para problemas complexos — e aumentar seu impacto: “O Muhammad Yunus [economista bengali fundador do Grameen Bank e Prêmio Nobel da Paz de 2006] fala assim: ‘Small is beautiful, scale is needed.” Ou seja, o pequeno é bonito, mas a gente precisa de escala.”

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