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Ajudar financeiramente uma ONG sem tirar dinheiro do bolso parece impossível? Pois essa é a proposta da Doe Tempo, que promete transformar nossos minutos de atenção assistindo a anúncios em doações automáticas para organizações sociais.
Fundada por Henrique Smetana, junto com os sócios Filipe Lúcio e Guilherme Strazza (também investidor), a startup testa um modelo de marketing social em que empresas pagam 1 real por visualização completa desses vídeos e o valor é repassado integralmente aos projetos beneficentes.
O negócio, que estimula a cultura de doação, ainda está em fase de testes, mas a longo prazo, deseja ajudar a criar um novo canal de financiamento recorrente para ONGs enquanto oferece ao mundo corporativo uma forma simples de se alinhar às práticas ESG e ainda gerar retorno financeiro.
Henrique, 32, conta que empreende desde os 14, quando passou a trabalhar com o pai. Ligado à área de tecnologia, ele chegou a começar a faculdade de engenharia elétrica, mas desistiu para criar uma software house.
Depois, veio o restaurante Tokyo, um delivery de comida japonesa que opera desde 2020, em Alphaville, na Grande São Paulo. Com o negócio rodando de forma mais autônoma, ele decidiu investir tempo em algo que gerasse impacto.
Naquela época, em 2024, o país estava lidando com a tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul e o debate sobre cultura de doação ganhava força. Enquanto baixava um aplicativo que, teoricamente, seria gratuito, mas exigia que os usuários assistissem a uma propaganda para liberar determinadas funções, Henrique teve um insight:
“Comecei a pensar que deveria existir uma maneira de transformar o tempo que a pessoa passa assistindo a esses anúncios em doação. Se ela já gasta duas a três horas na rede social, o que custaria usar dois minutos com um vídeo que gera retorno para uma ONG?”
A ideia virou projeto. Henrique chamou os amigos Guilherme, da área de investimentos, e Filipe, do marketing, para estruturarem juntos a plataforma de marketing social, lançada no início de 2026 ainda num modelo de experimentação.
Na plataforma da Doe Tempo, o usuário escolhe a campanha de uma ONG de seu interesse, faz um cadastro com nome, CPF, e-mail e telefone e, em seguida, assiste a um vídeo publicitário de cerca de um minuto, sem pausar ou pular.
“Como coletamos informações pessoais e sensíveis, a gente fez toda uma camada de criptografia, mas deixa claro para as pessoas que as empresas anunciantes terão acesso a esses dados”
Depois de consumir o vídeo, a pessoa responde a um quiz de três a cinco perguntas criado pela empresa anunciante. As respostas ajudam a traçar o perfil do usuário e podem direcionar ofertas por meio de um link ou ainda servir para contatos futuros, como email marketing.
A cada visualização concluída, a empresa que financia a ação doa 1 real para a ONG escolhida pelo usuário. Quem assiste não paga nada. Mesmo assim, segundo Henrique, engajar o público ainda é um desafio:
“Tudo o que é novo gera desconfiança, as pessoas se questionam se o processo é realmente autêntico…”
O empreendedor, porém, se diz disposto a explicar a proposta quantas vezes for preciso para que público entenda, confie no modelo.
A Doe Tempo não cobra nada das organizações sociais pelo cadastro nem pelo repasse da doação.
“Pelo contrário, a gente ainda ajuda a criar materiais de divulgação e apoia também a prestação de contas”
Por enquanto, a operação é enxuta e experimental. A única campanha ativa é do Projeto Gaia, com uma iniciativa que busca arrecadar 3 mil reais para promover um dia de atividades recreativas e entrega de presentes para 180 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social atendidos pela ONG.
A própria Doe Tempo está bancando essa ação para testar o sistema e corrigir eventuais falhas. Em cerca de dois meses, a campanha atingiu aproximadamente 3% da meta – um indicativo de que o modelo ainda precisa ganhar escala e confiança do público.
Apesar dos desafios, o empreendedor quer ampliar o número de organizações cadastradas por meio de um processo de curadoria. “Temos contratos assinados com o Instituto Atos e Amor, a Associação Amigos dos Animais de Nova Odessa (AAANO) e a Associação Brasileira de Apoio à Terceira Idade (ABRATI).”
Além do valor da doação destinada integralmente às ONGs, as empresas anunciantes precisam pagar uma taxa de serviço para a Doe Tempo, que varia entre 40% a 60% sobre o valor doado (a porcentagem diminui quanto maior o volume do aporte financeiro).
Em relação ao serviço, são três planos: no básico, a empresa pode criar um quiz com três perguntas para o usuário responder no fim do vídeo; no intermediário, o questionário inclui cinco questões; e no premium, além das cinco perguntas, a marca pode incluir um link de conversão.
O investimento das empresas, diz Henrique, é compensado pela criação de um vínculo emocional com possíveis clientes que acreditam nas causas apoiadas. E a ação pode até se reverter em lucro para a marca doadora, uma vez que o quiz ajuda a gerar leads e vendas. Segundo o fundador da Doe Tempo, a plataforma calcula o potencial de retorno financeiro de cada campanha. Ele dá um exemplo:
“Imagina que uma empresa doou 100 mil reais e, no final da campanha, está vendendo um produto que custa 120. Se ela tiver uma taxa de conversão de apenas 2%, já terá conseguido 240 mil reais em vendas”
Caso o prazo da campanha acabe e a meta não seja atingida, Henrique diz que a empresa pode optar por renovar por mais três meses ou criar um novo anúncio com o valor restante.
No futuro, a ideia da Doe Tempo é atuar também com leis de incentivo fiscal. Enquanto isso, a startup busca seus primeiros clientes pagantes. E para chamar a atenção do mercado, negocia testes gratuitos com marcas como Amokarité, Mahogany e Petland, numa estratégia para validar o modelo e ganhar tração.
“Estamos dispostos, neste primeiro momento, a subsidiar o serviço para essas empresas que trazem relevância e credibilidade à plataforma, criando um ecossistema que é bom para elas, para as ONGs e para todas as pessoas que vão doar seu tempo.”
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