• LOGO_DRAFTERS_NEGATIVO
  • VBT_LOGO_NEGATIVO
  • Logo

Como ajudar financeiramente uma ONG sem gastar dinheiro, doando apenas um pouco de atenção? A Doe Tempo aposta no marketing social

Dani Rosolen - 26 fev 2026 Os cofundadores da Doe Tempo: Filipe Lúcio, Henrique Smetana e Guilherme Strazza (a partir da esq.).
Os cofundadores da Doe Tempo: Filipe Lúcio, Henrique Smetana e Guilherme Strazza (a partir da esq.).
Dani Rosolen - 26 fev 2026
COMPARTILHAR

Ajudar financeiramente uma ONG sem tirar dinheiro do bolso parece impossível? Pois essa é a proposta da Doe Tempo, que promete transformar nossos minutos de atenção assistindo a anúncios em doações automáticas para organizações sociais. 

Fundada por Henrique Smetana, junto com os sócios Filipe Lúcio e Guilherme Strazza (também investidor), a startup testa um modelo de marketing social em que empresas pagam 1 real por visualização completa desses vídeos e o valor é repassado integralmente aos projetos beneficentes.

O negócio, que estimula a cultura de doação, ainda está em fase de testes, mas a longo prazo, deseja ajudar a criar um novo canal de financiamento recorrente para ONGs enquanto oferece ao mundo corporativo uma forma simples de se alinhar às práticas ESG e ainda gerar retorno financeiro.

NADA É DE GRAÇA, MAS O SEU TEMPO VALE MUITO

Henrique, 32, conta que empreende desde os 14, quando passou a trabalhar com o pai. Ligado à área de tecnologia, ele chegou a começar a faculdade de engenharia elétrica, mas desistiu para criar uma software house. 

Depois, veio o restaurante Tokyo, um delivery de comida japonesa que opera desde 2020, em Alphaville, na Grande São Paulo. Com o negócio rodando de forma mais autônoma, ele decidiu investir tempo em algo que gerasse impacto.

Naquela época, em 2024, o país estava lidando com a tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul e o debate sobre cultura de doação ganhava força. Enquanto baixava um aplicativo que, teoricamente, seria gratuito, mas exigia que os usuários assistissem a uma propaganda para liberar determinadas funções, Henrique teve um insight:

“Comecei a pensar que deveria existir uma maneira de transformar o tempo que a pessoa passa assistindo a esses anúncios em doação. Se ela já gasta duas a três horas na rede social, o que custaria usar dois minutos com um vídeo que gera retorno para uma ONG?”

A ideia virou projeto. Henrique chamou os amigos Guilherme, da área de investimentos, e Filipe, do marketing, para estruturarem juntos a plataforma de marketing social, lançada no início de 2026 ainda num modelo de experimentação.

COMO FUNCIONA A DOE TEMPO NA PRÁTICA

Na plataforma da Doe Tempo, o usuário escolhe a campanha de uma ONG de seu interesse, faz um cadastro com nome, CPF, e-mail e telefone e, em seguida, assiste a um vídeo publicitário de cerca de um minuto, sem pausar ou pular.

“Como coletamos informações pessoais e sensíveis, a gente fez toda uma camada de criptografia, mas deixa claro para as pessoas que as empresas anunciantes terão acesso a esses dados”

Depois de consumir o vídeo, a pessoa responde a um quiz de três a cinco perguntas criado pela empresa anunciante. As respostas ajudam a traçar o perfil do usuário e podem direcionar ofertas por meio de um link ou ainda servir para contatos futuros, como email marketing.

A cada visualização concluída, a empresa que financia a ação doa 1 real para a ONG escolhida pelo usuário. Quem assiste não paga nada. Mesmo assim, segundo Henrique, engajar o público ainda é um desafio:

“Tudo o que é novo gera desconfiança, as pessoas se questionam se o processo é realmente autêntico…”

O empreendedor, porém, se diz disposto a explicar a proposta quantas vezes for preciso para que público entenda, confie no modelo.

ASSIM COMO O PÚBLICO, AS ONGS NÃO GASTAM NADA PARA USAR A PLATAFORMA

A Doe Tempo não cobra nada das organizações sociais pelo cadastro nem pelo repasse da doação. 

“Pelo contrário, a gente ainda ajuda a criar materiais de divulgação e apoia também a prestação de contas”

Por enquanto, a operação é enxuta e experimental. A única campanha ativa é do Projeto Gaia, com uma iniciativa que busca arrecadar 3 mil reais para promover um dia de atividades recreativas e entrega de presentes para 180 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social atendidos pela ONG.

A própria Doe Tempo está bancando essa ação para testar o sistema e corrigir eventuais falhas. Em cerca de dois meses, a campanha atingiu aproximadamente 3% da meta – um indicativo de que o modelo ainda precisa ganhar escala e confiança do público.

Apesar dos desafios, o empreendedor quer ampliar o número de organizações cadastradas por meio de um processo de curadoria. “Temos contratos assinados com o Instituto Atos e Amor, a Associação Amigos dos Animais de Nova Odessa (AAANO) e a Associação Brasileira de Apoio à Terceira Idade (ABRATI).”

QUEM PAGA AS CONTAS NESSA OPERAÇÃO SÃO AS EMPRESAS

Além do valor da doação destinada integralmente às ONGs, as empresas anunciantes precisam pagar uma taxa de serviço para a Doe Tempo, que varia entre 40% a 60% sobre o valor doado (a porcentagem diminui quanto maior o volume do aporte financeiro). 

Em relação ao serviço, são três planos: no básico, a empresa pode criar um quiz com três perguntas para o usuário responder no fim do vídeo; no intermediário, o questionário inclui cinco questões; e no premium, além das cinco perguntas, a marca pode incluir um link de conversão. 

O investimento das empresas, diz Henrique, é compensado pela criação de um vínculo emocional com possíveis clientes que acreditam nas causas apoiadas. E a ação pode até se reverter em lucro para a marca doadora, uma vez que o quiz ajuda a gerar leads e vendas. Segundo o fundador da Doe Tempo, a plataforma calcula o potencial de retorno financeiro de cada campanha. Ele dá um exemplo:

“Imagina que uma empresa doou 100 mil reais e, no final da campanha, está vendendo um produto que custa 120. Se ela tiver uma taxa de conversão de apenas 2%, já terá conseguido 240 mil reais em vendas” 

Caso o prazo da campanha acabe e a meta não seja atingida, Henrique diz que a empresa pode optar por renovar por mais três meses ou criar um novo anúncio com o valor restante. 

No futuro, a ideia da Doe Tempo é atuar também com leis de incentivo fiscal. Enquanto isso, a startup busca seus primeiros clientes pagantes. E para chamar a atenção do mercado,  negocia testes gratuitos com marcas como Amokarité, Mahogany e Petland, numa estratégia para validar o modelo e ganhar tração.

“Estamos dispostos, neste primeiro momento, a subsidiar o serviço para essas empresas que trazem relevância e credibilidade à plataforma, criando um ecossistema que é bom para elas, para as ONGs e para todas as pessoas que vão doar seu tempo.”

COMPARTILHAR

Confira Também: