Como anda a sua saúde mental? E o que você pode fazer para cuidar melhor de si e das demais pessoas em sua empresa?

Tatiana Pimenta - 9 fev 2021
Tatiana Pimenta, fundadora e CEO da Vittude.
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O ano de 2020 foi complicado para a maioria das empresas. Muitas precisaram fechar as portas, demitir funcionários, reduzir salários ou mudar o seu serviço para dar conta das restrições impostas pela pandemia.

Em meio a isso, um assunto ganhou grande destaque no meio corporativo: a saúde mental dos trabalhadores. 

Ver essa relevância crescer foi incrível para mim e para a Vittude, pois reforçou o nosso propósito. Esse movimento por parte das organizações, inclusive, foi um dos fatores que direcionaram o nosso trabalho no último ano.

Diante das dificuldades enfrentadas por todos, decidi que era hora de trazermos ainda mais à tona o quanto a saúde mental pode interferir na vida dos colaboradores e das empresas em um momento como o atual. 

Conversei com a equipe de marketing da empresa e, em parceria com o Opinion Box, desenvolvemos uma pesquisa completa sobre como estavam os trabalhadores brasileiros nessa época de pandemia.

Os resultados foram surpreendentes. Enquanto alguns pontos nos chocaram por serem tão preocupantes, também tivemos uma dimensão do quanto o cuidado com a saúde mental — ou ao menos o olhar para o tema — aumentou. Para nós, é uma vitória: sempre lutamos para que essa pauta fosse prioridade no planejamento das empresas

Para expandir essas descobertas, trago a seguir alguns dos dados — e conclusões — mais importantes. Espero que sirvam como combustível para que mais organizações busquem aliar o cuidado com o fator emocional ao bem-estar geral de seus trabalhadores.

O IMPACTO DA PANDEMIA NA SAÚDE MENTAL

A influência da pandemia na saúde mental dos trabalhadores, claro, foi intensa. 

Muitos tiveram que mudar para o regime de home office, uma alteração brusca na rotina. Outros passaram a conviver com o receio ao exercitar funções presenciais, em contato com pessoas no caminho de ida e volta ao trabalho e também durante o expediente. Sem falar no medo generalizado causado por uma pandemia.

A pesquisa reforça essa percepção: 40% das pessoas entrevistadas perceberam um impacto negativo da pandemia na saúde mental; e 10% classificaram esse impacto como muito negativo

Houve também 10% que classificaram a influência da pandemia para a saúde mental como positiva (e 2% como muito positiva). Embora o contexto tenha trazido algo de bom para a rotina dessas pessoas, esse ponto não é exatamente claro — e está “distribuído” em aspectos de menor expressão em relação ao quadro geral.

O fato é que grande parte dos colaboradores sentiu as mudanças — e muitos podem estar precisando de ajuda para lidar com os conflitos emocionais.

O QUE AS PESSOAS SENTEM?

Quando falamos sobre sensações e experiências negativas, surgiram alguns aspectos que já esperávamos. Quase metade (41%) das pessoas relatou sentir muito medo de que alguém próximo ficasse doente ou falecesse. 

Outros pontos de destaque foram:

  • Insônia e crises de ansiedade (33% dos pesquisados);
  • Medo intenso de ficar doente ou morrer (29%);
  • Momentos de tristeza profunda (26%);
  • Sentir-se sozinho (25%);
  • Vontade de chorar sem motivo aparente (23%).

Essas são questões experimentadas por praticamente 1/4 ou mais dos participantes.

O ponto crítico é que grande parte dessas sensações pode estar relacionada a transtornos mentais mais graves, como a depressão, o estresse e a ansiedade crônica 

Além disso, 8% dos entrevistados alegaram que chegaram a não comparecer ao trabalho por razões psicológicas. Esse cenário de absenteísmo é preocupante. Faltar ao trabalho por problemas emocionais só costuma ocorrer em casos mais extremos.

É importante que as empresas se atentem ao absenteísmo e verifiquem as possíveis ausências não justificadas recorrentes de um ou mais trabalhadores, para garantir que estão bem (ou ao menos avaliar se  essas pessoas precisam de ajuda).

O acúmulo de funções (domésticas e profissionais) fez com que 33% dos entrevistados se sentissem sobrecarregados. Para 21%, essa rotina mais pesada afetou negativamente a produtividade. E 32% apontaram uma dificuldade geral em conciliar a vida pessoal e a profissional

Atentar-se a esse aspecto é crucial. A produtividade pode, sim, cair — e isso deve ser visto com cuidado. Evite críticas diretas: dialogar é a melhor escolha.

Vale dedicar um tempo para descobrir o que realmente está causando a perda de produtividade, principalmente no caso dos trabalhadores com filhos (13% dos respondentes) ou que precisam cuidar de outras pessoas (11%).

ALTERAÇÕES NO CUIDADO COM A SAÚDE MENTAL

Diante da rotina maluca que se tornou parte do dia a dia de muitos trabalhadores, aumentou o cuidado com a saúde mental (que passou a receber, ainda bem, mais atenção das pessoas).

O afastamento das notícias (35%); cursos, leituras e busca por novos aprendizados (28%); e atividades físicas (26%) constam entre os recursos mais utilizados, segundo a pesquisa.

A adesão à terapia ainda foi baixa, apontada apenas por 9% dos entrevistados. Provavelmente por conta dos tabus e objeções que ainda envolvem esse tipo de tratamento

Quebrar esses tabus é um dos maiores desafios atuais da Vittude — principalmente no meio corporativo, entre os colaboradores.

Percebemos que falta um interesse maior das próprias organizações em oferecer esse benefício. Segundo a pesquisa, 62% dos entrevistados passaram a entender melhor as razões pelas quais devem cuidar da saúde mental frequentemente.

TRABALHO EM MEIO À PANDEMIA

Quando a pandemia começou, acredito que muitos pensaram que a produtividade iria cair. 

Entretanto, algumas pessoas se tornaram mais eficientes, em grande parte por se adaptarem bem aos novos regimes de trabalho remoto. 

Elas não são a maioria, mas representam 26% dos entrevistados — contra 29% que pensam o contrário. Ou seja, o número é próximo.

Além disso, 29% acreditam que ficaram mais criativos nesse período, contra 22% que perceberam uma piora nesse sentido.

O que preocupa é a questão do ânimo e da disposição para o trabalho. Houve uma piora, segundo 44% dos respondentes (enquanto só 19% relataram uma melhora).

O QUE AS EMPRESAS ESTÃO FAZENDO?

Quando um trabalhador percebe que a empresa está cuidando de sua saúde mental, esse entendimento pode ser um bom impulso para que ele tenha mais engajamento, produtividade e alegria em executar sua função. 

Porém, de acordo com os respondentes, 47% acreditam que a organização onde trabalham não está preocupada com sua saúde mental. Apenas 14% dos que responderam à pesquisa acham que há sim uma grande preocupação

As ações mais comuns realizadas pelas empresas ainda são básicas: boletins e informativos sobre o assunto são a estratégia mais utilizada, com 23% de adesão segundo a pesquisa. Outros 18% indicam que a empresa aposta em uma equipe psicológica à disposição.

A questão aqui é que a pesquisa também aponta que somente 36% dos respondentes se sentem à vontade falando com um profissional de saúde mental interno na empresa.

E esse número é ainda menor quando falamos sobre gestores (33%) e o próprio RH (33%).

QUE CONCLUSÕES PODEMOS TIRAR?

A pandemia afetou, sim, a saúde mental de muitos trabalhadores brasileiros. São diversas mudanças. Nunca antes foi tão necessário conciliar a vida pessoal e a profissional. E, ainda por cima, viver dia após dia com o medo constante do coronavírus em si, e de perder familiares e amigos.

É necessário que as empresas tenham consciência e queiram mudar esse quadro, reverter o pensamento dos trabalhadores em relação ao cuidado que recebem e, principalmente, buscar compreendê-los e apoiá-los

Não é o momento para críticas, e sim para diálogos calmos e inspiradores. A hora de buscar o cuidado com a saúde mental dos trabalhadores é agora, aproveitando que a consciência a respeito está cada vez maior.

No futuro, esse cuidado se reverterá em engajamento, maior produtividade e em uma imagem melhor para a empresa. Que, assim, se mostra atenta ao momento que vivemos e preocupada com o trabalhador enquanto ser humano — e não apenas como um “número” nos resultados da operação.

 

Engenheira “que se apaixonou pela Psicologia, pelo estudo constante do comportamento humano e da felicidade”, Tatiana Pimenta é CEO e fundadora da Vittude, plataforma que conecta pacientes e psicólogos. Em 2019, foi finalista do Cartier Women’s Initiative Awards, que premia o empreendedorismo feminino.

 

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