Como dois americanos empreenderam no Brasil uma plataforma online de testes de idioma hoje presente em dez países

Marília Marasciulo - 12 jan 2021
Sean Kilachand (à esq.) e Adam Plotkin, os fundadores da EduSynch.
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“Hoje me sinto mais estrangeiro em Nova York do que no Brasil”, diz o nova-iorquino Sean Kilachand, 31, num português impecável. 

Seu sócio, Adam J. Plotkin, 30, nasceu e cresceu em Kansas City, na divisa do Missouri com o Kansas. Quis o destino que os dois fossem se conhecer num churrascão no Morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, no fim de 2014.

Sean e Adam estão à frente da EduSynch, uma plataforma online para testes de idioma. Fundada em 2015, a startup tem DNA norte-americano, sede em São Paulo e um time de desenvolvimento 100% alagoano — todos os oito desenvolvedores ficam baseados em Maceió.

“Mais do que a nossa sede, o Brasil é um lugar para crescer como ser humano”, diz Adam, com um leve sotaque paulistano.

Essa mistura curiosa parece estar dando certo. A EduSynch hoje tem clientes pela América Latina (Argentina, Colômbia, México, Peru) e até no Sudeste Asiático, incluindo Malásia e Vietnã. Em 2020, mais do que dobrou sua receita, ultrapassando 1 milhão de reais.

POR CAMINHOS DIFERENTES, OS DOIS CHEGARAM AO BRASIL

Mas como os dois vieram parar aqui?

“Sou muito nerd em relação ao Brasil, foi a cultura que me trouxe para cá”, ele afirma. Na faculdade de Letras pela University of Kansas, conheceu um professor pernambucano que o convidou a fazer uma pós aqui no Brasil.

Adam topou e por um ano estudou administração e empreendedorismo na Faculdade Europeia, que apesar do nome fica em Jaboatão dos Guararapes (PE). Depois, foi morar no Rio, onde pagava as contas dando aulas de inglês.

Sean, por sua vez, tem formação em Economia e Ciência de Computação pela Brandeis University. Assim como Adam, chegou ao Brasil em 2013, mas para trabalhar na empresa do seu pai, que vendia tablets de baixo custo para escolas brasileiras. 

Ele chegou a bolar um aplicativo focado em ciência e matemática que seria embutido nos aparelhos e fornecido às instituições. O projeto nunca saiu do papel: o dólar subia e inviabilizava a operação — os tablets eram importados da Índia e da China. 

A empresa paterna naufragou, mas a experiência atiçou em Sean a vontade de empreender. “Eu via a educação no Brasil como um grande potencial”, diz.

A EDUSYNCH NASCEU COMO UM APP DE SIMULADOS ONLINE

Aquele churrasco decisivo no Vidigal foi o início da parceria e da amizade. E na hora de empreender, falou mais alto o interesse em comum: educação.

Os dois sacaram que a preparação para o TOEFL — o exame que avalia o domínio do inglês e é pré-requisito para a admissão em universidades de países anglófonos — era um desafio para os brasileiros.

E cada vez mais brasileiros dependiam do TOEFL. Apenas entre 2012 e 2016, o programa Ciência sem Fronteiras financiou 93 mil bolsas para estudantes brasileiros no exterior. Mas ninguém queria pagar por um curso preparatório, segundo Sean: 

“O que os estudantes queriam era fazer simulados. Queriam ser avaliados por seres humanos tanto na parte escrita quanto na da fala [expressão oral], se familiarizar com a prova e ter uma nota projetada”

Para atender essa demanda, eles decidiram criar um app que simulasse o TOEFL. Em vez de pagar mil reais para realizar a prova e testar seu desempenho, os estudantes desembolsariam 10 dólares pelo teste online.

LIDAR COM A BUROCRACIA BRASILEIRA EXIGIU MUITA PACIÊNCIA

A EduSynch teve que ser criada primeiro nos Estados Unidos; levou um ano para que conseguissem trazer o negócio para o Brasil. 

Foi uma oportunidade para sentir o gostinho da burocracia brasileira. 

Além dos trâmites de abertura de empresa que infernizam a vida de todo empreendedor, Sean e Adam ainda tiveram de captar um investimento inicial para assegurar o visto de permanência no país (e lidar com um ex-sócio que, segundo eles, tentou surrupiar a grana). Adam lembra:

“Foi uma aventura… Acho que se você consegue fazer tudo isso, já está um passo à frente. A burocracia aqui é o normal: você pode ter uma ideia incrível, mas isso não significa nada. Já vi gente ir embora por não conseguir ficar [por causa da burocracia]”

Na paralela, eles iam se familiarizando com o ecossistema empreendedor — e montando a equipe que desenvolveria a plataforma.

“Conhecemos o Rodrigo [Lima] através da aceleradora Outsource Brazil e ele está conosco desde então, hoje é o nosso CTO”, diz Adam. 

Por meio do alagoano Rodrigo, Sean e Adam foram recrutando outros desenvolvedores, todos de Maceió.

O FIM DO CIÊNCIAS SEM FRONTEIRAS QUASE FOI O FIM DO NEGÓCIO

A EduSynch surgiu em agosto de 2017, com uma versão beta do simulado — naquele início, cinco freelancers corrigiam as provas.

Mais do que a burocracia, o que complicou a EduSynch naquele começo foi o timing.

Em abril, o Ministério da Educação anunciara o encerramento definitivo do CsF para a graduação, embora tenha mantido cinco mil bolsas para pós-graduação. 

Veio o primeiro aprendizado. Sean lembra: 

“Pensamos que o Ciência sem Fronteiras ia continuar para sempre… Isso reforça a importância de estar sempre olhando o que acontece no mercado e no mundo. Senão, o risco é colocar tudo a perder”

O segundo aprendizado veio três meses depois. 

“No modelo B2C, os simulados não funcionam”, afirma. “Assim que o estudante recebia a nota que queria alcançar, ele não voltava mais.” 

O formato não favorecia a recorrência de clientes. Depois de um pico de venda de 500 simulados, os sócios viram o número de usuários despencar em 90%.

“Assim que caiu, percebemos que precisávamos mudar o modelo de negócios”, diz Sean. “Simplesmente não podíamos ter que renovar os usuários a cada três meses.”

PARA SEGUIR EM FRENTE, ELES TROCARAM O B2C PELO B2B

A EduSynch começou 2018 quase sem clientes — e com muitas novidades. 

A primeira foi incluir outras provas, como o IELTS (usado principalmente em instituições britânicas) e o TOEIC, uma espécie de TOEFL voltado para ambientes de negócios. 

Outra mudança foi virar a chave no modelo de negócio, do B2C para o B2B. E abrir o escopo para entender que o Brasil era apenas o ponto de partida. Segundo Adam:

“Vimos surgir bastante demanda em outras regiões do mundo, especialmente no Sul da Ásia… E aí percebemos que nosso produto era global: o TOEFL é igual na Tailândia e no Brasil”

Novas parcerias deram tração para o negócio e, sem perceber, aos poucos foram entrando cada vez mais no mercado de testes. 

Algumas escolas de inglês, por exemplo, pediram opções de provas que não fossem tão complexas quanto o TOEFL, e assim a EduSynch criou sua própria prova de nivelamento de inglês. 

Houve também empresas que buscaram a ferramenta para usá-la na avaliação de candidatos.

TECNOLOGIA PARA DEIXAR A PLATAFORMA MAIS FLEXÍVEL E SEGURA

A EduSynch, então, investiu em tecnologia para tornar a plataforma mais abrangente, capaz de atender tanto pequenas escolas quanto grandes instituições. 

Segundo os sócios, foram dois anos desenvolvendo seu próprio sistema de gerenciamento de conteúdo (CMS, Content Management System). 

“Com isso, já temos mais de 40 tipos de perguntas na plataforma. Podemos até criar perguntas abertas — por exemplo, perguntas de gravação de voz ou perguntas escritas tipo redações. Além disso, podemos criar exames em qualquer idioma do mundo”

A plataforma também passou a contar com ferramentas de monitoramento remoto para a realização da prova (ela identifica, por exemplo, se o usuário é mesmo quem diz ser e se está abrindo outros sites ao mesmo tempo).

“Decidimos criar a nossa própria tecnologia de monitoramento online usando inteligência artificial”, diz Adam. “Com esse tipo de tecnologia embutida, podemos garantir resultados precisos e evitar fraude no dia do exame.”

A COVID ALAVANCOU A BUSCA POR SOLUÇÕES COMO A DA STARTUP

O novo sistema ficou pronto no fim de 2019. Desta vez, o timing acabou sendo favorável. Com a pandemia, a demanda por soluções de testes remotos disparou. 

Isso não significou abrir mão da versatilidade. “O modelo teve que ser flexível, porque muitas escolas de línguas acabaram fechando as portas, e ninguém entraria em um compromisso de garantir mil alunos, por exemplo”, explica Sean. “A ideia de um modelo bem específico para todos os clientes não funciona.” 

A EduSynch hoje promete entregar uma plataforma customizada para o cliente em até sete dias, com modelos de pagamento que podem ser pacotes de testes pré-pagos, por testes feitos, por alunos (mensal, semestral, anual) — vai do gosto do freguês. 

“Essa flexibilidade nos ajudou a entrar nos mercados diferentes. A possibilidade de fazer o upload de qualquer tipo de prova em qualquer língua aumenta muito o poder da plataforma”

Entre os clientes, ele cita Open English, Berlitz, Education First, Arizona State University (ASU), Guia do Estudante, PWC México, Insper, Fundação Estudar, Southern New Hampshire University (SNHU), Rochester Institute of Technology (RIT)… 

“Temos 55 clientes institucionais no setor educacional e corporativo”, diz Adam. “Já customizamos a plataforma para a maioria, com a logomarca e cores da instituição, mudanças na interface, instruções, língua etc.”

ELES REPRESENTAM O BRASIL NUM TORNEIO GLOBAL DE STARTUPS

Em novembro de 2020, a EduSynch foi selecionada para representar o Brasil na etapa regional da Seedstars World Competition

A startup concorre com outras 14 empresas da América Latina por uma vaga na final. O resultado da etapa regional será divulgado no fim deste mês (o vencedor levará meio milhão de dólares em investimentos). 

Com ou sem troféu do Seedstars, os sócios planejam fazer um primeiro round de captação de investimentos e seguir incrementando a plataforma por meio de tecnologia. 

“Chegou a hora e finalmente temos as condições certas para os investidores”, diz Sean. “Por causa da Covid, o jogo mudou. Estamos olhando para a EduSynch como se fosse uma nova empresa.”

 

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: EduSynch
  • O que faz: Plataforma de testes online
  • Sócio(s): Sean Kilachand e Adam J. Plotkin
  • Funcionários: 11 (inclusive os sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Investimento inicial: US$ 70 mil (aprox.)
  • Faturamento: acima de R$ 1 milhão (2020)
  • Contato: [email protected]
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