Intubação, pesadelos e até um transe psicótico: como é ser internado em estado gravíssimo e sobreviver à Covid-19

Daniel Trouche - 19 fev 2021
O jornalista Daniel Trouche, autor de um livro sobre sua experiência com a Covid-19.
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Esta história começa na segunda quinzena de julho de 2020. Lembram? Como muitos de vocês, nessa época eu vivia em isolamento social. 

Sou jornalista, nasci em 1981, em Curitiba (onde vivo), e produzia alguns textos como freelancer… E era maravilhoso ter tempo livre! Mas não durou muito. Logo meu pai ficou doente (não foi Covid), e tive que deixar a segurança do lar para acompanhá-lo durante sua internação hospitalar.

Muitas coisas se desenrolaram a partir daí. Desde publicar um livro até sofrer uma terrível perda. No final, estas lições compuseram a receita para um grande aprendizado

Como resido na mesma casa que minha mãe, que é idosa, após as visitas no hospital eu ia direto para o banho e trocava de roupa. Seguia todas as orientações de segurança. 

Por isso me irritava muito com quem negava a pandemia, com aquele papo de que “é só uma gripezinha”… 

MESMO SEM COMORBIDADES, PRECISEI SER INTERNADO COM URGÊNCIA

Eu tomava cuidado, mas não teve jeito. Em uma tarde bateu um cansaço estranho… No dia seguinte veio a febre alta, e também dor de cabeça, tosse, fraqueza.

Detalhe: eu estava com 39 anos e não tinha nenhuma comorbidade. Inclusive vinha correndo todos os dias.

Depois de seis dias isolado no quarto, tomando os medicamentos receitados e com a minha família vendo meu quadro piorar, retornei ao posto de saúde. 

Me sentia mal, mas me considerava um cara forte. Por isso, teria condições de melhorar em casa com os novos remédios – foi o que pensei. “Delirei” seria a palavra correta. Estava com a saturação de oxigênio no sangue em 88%, fraco e com a respiração curta. E já tinha testado positivo para a Covid-19

Com isso, posso dizer que comi o pão que “ele amassou”… Esse “causo” me levou a escrever um livro-relato sobre a Covid-19 — mas antes vou contar a vocês só mais um “cadinho” do que é uma internação por Covid. 

Em pouco tempo, uma ambulância me transferiu para a UPA mais próxima; em seguida, a radiografia constatou uma mancha em meu pulmão direito. E fui internado no Hospital do Trabalhador de Curitiba. 

Vou melhorar, disse no telefone para a minha mãe. O meu caso é moderado

Talvez eu quisesse acalmá-la (ou me acalmar). Eu era um cara zen, e logo me vi reduzido a um tipo “moribundo”.

O fato é que estava isolado no setor de Covid do hospital, cansado e mal podendo falar — a dispneia (falta de ar) e a tosse haviam aumentado.

Eu estava internado há menos de 48 horas quando tive uma segunda intercorrência na enfermaria, com o aumento de esforço para respirar junto à queda na saturação. 

A INTUBAÇÃO ERA A MINHA ÚNICA ESPERANÇA

É complicado dizer o que passou pela minha cabeça.

Se pudesse traduzir em imagens, mostraria “aquele filminho”… É, aquele que dizem que as pessoas veem quando chegam no final da vida. Acho que é assim que acontece. 

“Vai ser como um sonho”, respondeu a médica ante minha única pergunta antes de ser intubado. 

Durante os doze dias que permaneci dormindo com a sedação, tive medo, sucessivos pesadelos e senti um tremendo apego à vida. Somente quando “simbolicamente” aceitei a morte, o pavor se dissolveu em uma compreensão que apontava para a saída daquele pesadelo

Passei de caso grave a gravíssimo.

Apresentava roncos no tórax, permanecia acoplado à ventilação mecânica, e tiveram que me deitar em “prona”, a posição de bruços, por 16 horas seguidas.

Para piorar, minha função renal entrou em curva de agravamento. Consideraram fazer hemodiálise.

Enquanto os sonhos me torturavam, em casa minha família vivia dias de incerteza, com prognósticos médicos pouco animadores. A infecção seguia incontrolável.

TER O TUBO RETIRADO ERA APENAS O COMEÇO DE UMA LONGA RECUPERAÇÃO

“A partir daqui, ou seu filho vai melhorar — ou vai ficar muito difícil recuperá-lo.” Alertaram minha mãe com toda a honestidade necessária. Suspense (rufem os tambores)…

Para minha sorte, parece que santos e médicos entraram em acordo. No dia seguinte, as infecções que se alastravam por mais da metade dos meus pulmões cederam aos medicamentos.

Fui melhorando gradualmente, até que, na segunda tentativa, retiraram totalmente a sedação (a primeira vez, dizem que me agitei demais, assim tiveram que me sedar novamente).

Quando voltei à consciência, percebi uma enfermeira ao meu lado. Enquanto ela falava comigo, percebi sua expressão observadora; com olhos acesos, ela me indicou para respirar pelo nariz. E fui extubado! 

Se alguém disser que retirar o tubo acordado (como deve ser) é tranquilo… Isso é mentira! Acreditem, usar máscara é muito mais fácil. Usem a máscara, por favor!

A realidade não parecia diferente dos sonhos. Parecia pior! Acreditava estar há meses naquele estado. E assim fui diagnosticado com sintomas psicóticos de delírios persecutórios, provavelmente um efeito secundário à sedação, de acordo com o prontuário médico.

—Alô? Estou melhor, mas fui muito atormentado aqui. Tentaram me matar.

Terrível, mas foi o que disse à minha mãe, por telefone, quando me puseram na linha tentando me trazer de volta à realidade. O transe psicótico durou um dia inteiro, depois sumiu.

Quando dois enfermeiros me transferiram para o quarto, percebi que não tinha forças para ficar de pé. Percorri um custoso caminho na fase de reabilitação. Mas, com a alegria de estar vivo, tive grande força de vontade em superar os obstáculos.

E os obstáculos eram diversos. Eu necessitava de ajuda até para comer.

NO DIA DA MINHA ALTA DA UTI, TIVE UMA SURPRESA

Fui atendido pelo SUS, e contei com um incrível apoio de toda equipe médica. Quando chegou o dia da minha alta da UTI, médicos e enfermeiras me surpreenderam com uma festa…!

Eles trouxeram balões de ar, bateram palmas, tiraram fotos. E assim, me ajudaram a ressignificar o que havia me levado até ali: mesmo quando a vida está por um fio, somos capazes de lutar.

“Você recebeu uma nova vida, Daniel. A partir de agora quero que você cuide bem da sua saúde”,  me disse a médica.

Ir para casa foi um alívio… No início, só conseguia andar por 7 minutos, mas a constância fez com que pudesse aumentar o ritmo. Sempre sentia tontura ou simplesmente fraqueza; entretanto, para evoluir era necessário fazer sempre um pouco a mais

Possuímos uma capacidade extraordinária de recuperar o corpo e a mente. Mesmo quando existe dor — e me dirijo a todos que estão sofrendo –, podemos descobrir mecanismos que nos ajudam a superá-la.

NAS PRIMEIRAS NOITES EM CASA, EU ACORDAVA ENCHARCADO DE SUOR

Na primeira noite em casa, foi estranho não ser observado pelas enfermeiras. Senti medo de não acordar. Encontrar uma posição para dormir era sempre complicado.

Muitos pacientes desenvolvem ansiedade devido à intubação, e eu fui um deles. Nas primeiras noites, acordei de madrugada com a camiseta molhada de suor. As sensações corporais eram de uma mudança tão intensa que fui aprendendo a conviver com a incerteza, a não sentir medo, a vivenciar apenas o presente. 

Fisicamente, eu melhorava a cada dia. Emocionalmente, a forma que encontrei para superar o que sentia foi entrando em contato com outros contaminados. Interagi com um grande número deles pelas redes sociais

A superação nunca ocorre com o esquecimento, e sim com a aceitação e a transformação do medo em coragem.

DECIDI TRANSFORMAR A MINHA EXPERIÊNCIA EM UM LIVRO

Ler os relatos de tanta gente me fez pensar ainda mais em tudo o que tinha passado. Essas vozes me tocaram e despertaram a ideia de contar a minha experiência. 

Foi assim que escrevi e lancei, de forma independente, Covid-19: Uma história entre a vida e a morte

Escrever o livro não foi fácil. Primeiro, porque quando retornei para casa, tinha alguma dificuldade de memória e concentração, esquecia senhas, palavras… Além disso, para registrar o meu relato, eu teria de encarar os sonhos do período intubado. Eu lembrava de tudo — mas com a consciência ruidosa dos sonhos

Havia ainda um terceiro desafio: a insegurança diante da ideia de me abrir e mostrar minhas fragilidades.

A troca de relatos com outros contaminados me ajudou, pois acabei escancarando meus medos… E foi genial!

Eis um trecho do meu relato, no livro:

A cada dia surgiam insights e compreensões que apaziguavam os traumas e diziam que tudo bem, não haveria mais pesadelos, e sim a compreensão de suas causas. Essas reflexões talvez pudessem ajudar algumas pessoas, e pensei nos infectados por Covid-19 e de outras doenças. De alguma forma, toda esta gente acaba tendo um contato delicado que tange os momentos em que vida e morte estão próximas o suficiente para nos fazerem pensar em ambas.

Quando ainda estava debilitado por causa da infecção, me dei conta de que não devemos reclamar da vida. Todos temos um campo de ação — e, a menos que estejamos acorrentados, somos nós que fazemos as nossas próprias escolhas. 

A MAIOR DIFICULDADE É ESTA: NÓS QUEREMOS “TUDO”, MAS NÃO CONTROLAMOS NADA

Antes de lançar o livro, publiquei meu relato em episódios, em meu canal do Medium. E fui divulgando nos grupos de Covid-19 dos quais participava, em algumas redes.

Recebi muitas mensagens de apoio de outros contaminados, que contavam suas histórias sobre o tratamento e a recuperação. Outros tinham perdido alguém importante… Mas todos buscavam apoio e superação, já que a pandemia parecia longe de terminar…

Atualmente, acredito que devemos utilizar nossos desafios — como a convalescença e a impotência diante da pandemia — para dar origem à verdadeira recuperação, que vai além da saúde: é uma recuperação social, cultural e humana

Em fevereiro de 2021, chegamos a mais de 240 mil mortos por Covid-19 no Brasil. E a pandemia continua avassaladora.

CRIAR UMA NOVA ATITUDE EM RELAÇÃO À VIDA, EIS A GRANDE LIÇÃO

Assim como eu superei a Covid-19, milhões de pessoas também estão prevalecendo, mesmo diante do perigoso negacionismo que vemos em toda parte. 

O relato que escrevi me ajudou a superar a minha dor e a disseminar conhecimento para outras pessoas; superar o extermínio provocado pela Covid-19, para muitas famílias, será uma tarefa hercúlea.

Como eu contei lá em cima, o coronavírus me infectou enquanto eu acompanhava meu pai no hospital. Recentemente, ele faleceu, por conta de um câncer.

Eu e meu pai ficamos doentes na mesma época. Me despedir dele foi doloroso… Mas devemos honrar os nossos antepassados vivendo a vida da melhor forma que pudermos 

Creio que o momento traz uma oportunidade: abrir caminhos para transformar nossas carências e dores em uma jornada de respeito a todos os seres humanos.

Devemos desenvolver uma atitude de aceitação com responsabilidade diante da pandemia. E aproveitar esse esforço para nos empenhar em outros campos da nossa experiência. Assim, criaremos uma nova atitude em relação à vida.

No meu relato, escrevi: Precisamos nos tornar conscientes das tarefas que nos conduzem a um enorme SIM diante de nós mesmos.

Digo isso porque espero que todos nós possamos transformar o caos da pandemia — e de nossas próprias dores — em superação. 

Você já reparou como as escolhas surgem bem à nossa frente? 

HOJE é sempre o dia em que devemos empreender o caminho verdadeiro e digno de nossas vidas.

 

Daniel Trouche é jornalista, redator e analista de comunicação. É autor de Covid-19: uma história entre a vida e a morte. Seu relato busca conscientizar as pessoas sobre a gravidade da pandemia, assim como incentivar outros pacientes a transformarem o adoecimento em uma nova força. Siga o autor no Instagram: @danieltrouche.

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