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“Como criar uma situação pessoal em que você não quebre e ainda se beneficie a cada período de explosão de incertezas?”

Mathieu Le Roux - 17 abr 2020
Mathieu Le Roux, cofundador da Le Wagon América Latina, acredita que a aprendizagem continuada é a chave para a reinvenção de carreira.
Mathieu Le Roux - 17 abr 2020
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por Mathieu Le Roux

Nassim Taleb é um trader que fez fortuna nos mercados financeiros com uma estratégia em que perdia pouco em tempos normais e ganhava muito em tempos anormais. Em 1987,  ganhou o suficiente para se aposentar. Anos depois, ele se tornou o autor do livro A lógica do Cisne Negro, que descrevia como eventos caóticos e inesperados são impossíveis de se prever, porém impossíveis de descartar.

Buscando uma palavra para definir o melhor antônimo de “frágil”, ele não se satisfazia com “robustez” ou “solidez” – porque essas palavras não ilustravam a ideia de crescimento, só de ausência de destruição. A publicação Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos foi a sua tentativa — e o título de mais um best-seller — para capturar a capacidade de se beneficiar quando um “cisne negro” aparece.

O coronavírus é a última de uma longa série de ilustrações em que crises inesperadas acontecem sem ninguém saber dizer quando nem como. A única certeza é que, ao longo de uma vida, cada um passará por várias

O caos econômico que elas provocam destrói empregos e nos leva a questionar como desenhar uma carreira que possa antecipar um mundo de crises recorrentes. Como criar uma situação pessoal em que, primeiramente, você não vai quebrar e, idealmente, vai até se beneficiar a cada período de explosão de incerteza?

A crise sanitária e econômica atual da Covid-19 torna a questão de uma cruel relevância para quem perdeu o ganha-pão. O que seria um cenário profissional antifrágil? Primeiramente, uma situação que não seja falsamente sólida. Um salário regular sempre passa a sensação de tranquilidade, mas não deveria.

Ninguém mais acredita em uma carreira inteira em uma única empresa, tampouco em um só ramo ou função. A Peste Bubônica do século XIV, na Europa Medieval, provocou várias mudanças na sociedade. A principal e mais famosa foi a generalização do saneamento básico.

Mas uma outra questão mudou justamente as “relações trabalhistas” da época. Os servos, até então, tinham que morar e trabalhar na propriedade do seus senhores, mas a escassez de mão de obra provocou uma liberação generalizada. Camponeses ganharam autorização para ir trabalhar onde quisessem e também negociar condições e salários.

Arqueólogos identificaram que foi nessa época que as panelas de barro foram trocadas por utensílios em metal (prova do impacto positivo nas condições de vida). Obviamente, ninguém deseja passar pelo tamanho sofrimento e perda humana que a peste medieval representou.

Mas seria ingenuidade imaginar que tamanha crise não impacte a sociedade em setores que vão além da saúde e da atividade econômica a curto prazo. Como toda crise, ela funciona como um catalisador de mudanças preexistentes, acelerando a decadência do obsoleto e favorecendo o surgimento do novo

E uma das tendências fortes que, na minha opinião, o coronavírus faz bascular, é o fim do assalariado. Tanto o Grupo Hilton quanto o Airbnb estão sendo duramente impactados pelo lockdown de 3,5 bilhões de pessoas. Mas qual dos dois modelos é o mais antifrágil?

De um lado, há uma empresa com dívidas de ativos imobiliários ou alugueis, e 169 mil funcionários. De outro, uma empresa ainda muito leve em ativos e com 12 mil funcionários. Obviamente, as consequências sobre um host do Airbnb podem se revelar tão dramáticas quanto as de uma funcionária despedida de uma unidade do hotel Hilton.

No entanto, já que a maioria dos hosts faz isso como um “side business”, acredito que, mesmo incluindo os 650 mil hosts (dos quais somente 10% são considerados profissionais), a situação continua melhor para a comunidade Airbnb do que para o grupo Hilton.

Anos atrás, viajei para o Nepal e tive a chance de ter uma conversa com um especialista em desenvolvimento rural, que me contou uma estatística fascinante: em média, as camponesas da região tinham 17 fontes diferentes de renda

Estavam longe de serem ricas, mas eram, em média, donas de 17 mininegócios, que iam de criação de galinha à costura e cozinha ambulante. E isso me impressionou porque, além de ver uma estratégia extremamente racional de resiliência, me provou que o problema estava longe de ser a falta de talento.

Carreiras tradicionais podem gerar uma perigosa sensação de conforto — algo que a próxima crise fará estilhaçar em um instante. A busca de múltiplas fontes de renda, facilitada pelo surgimento de plataformas digitais, está se tornando uma estratégia de proteção para uma grande maioria da população ativa.

Aqui não estamos falando somente para os poucos qualificados, que vendem seu tempo como motoristas ou entregadores; mas também para quem tem condições de investir em ativos imobiliários para hospedar Airbnbs, fazer pequenos negócios de compra e venda no Mercado Livre ou se inscrever em uma plataforma de freelas para complementar a renda com projetos digitais elaborados.

A fórmula comprovada para tornar sua carreira antifrágil é não apostar 100% das fichas em uma única fonte de renda

Advogados podem dar aulas, consultores escrever livros ou criar aulas online, executivos podem empreender o tempo livre com um pequeno e-commerce de nicho… Possibilidades não faltam. Fora os perigos do “day trading” e das pirâmides, tudo vale a pena ser explorado.

E para deixar o meu ponto claro, buscar possibilidades de empreender, além do emprego principal, não quer dizer que acredito em um mundo onde 100% das pessoas virem CEOs de startups (O oba-oba “startupeiro” também já me cansou.).

Mas as pessoas não têm um único talento e sempre conseguem abrir novas portas que vão além da sua fonte de renda tradicional. Obviamente, quanto mais habilidades você possui, maior a chance de abrir portas que escondem tesouros.

É aí que entra a questão da educação contínua. O mundo que se abre vai olhar cada vez menos para o sobrenome ou onde fulano trabalha e, cada vez mais, para o que as pessoas são capazes de fazer de fato.

Na medida em que você avança na vida, o seu diploma perde relevância comparado ao seu portfólio, suas referências, credibilidade, reputação e o jeito que você se adaptou às mudanças do mundo.

Leia também o artigo do mesmo autor: O diploma morreu… Viva o portfólio. Esta e outras reflexões sobre o que nos prepara de fato para a vida.

Alvin Toffler falava que “o analfabeto do século XXI não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender”.

A capacidade de se reinventar e de alternar períodos criativos e períodos de aprendizagem é a melhor garantia da sua antifragilidade. Não somente você diminui as chances de quebrar, mas aumenta as chances de estourar no ramo que você for atacar.

Assim como a Peste Bubônica antecedeu a Renascença, tomara que o fim da crise atual dê lugar a uma nova era, tão criativa e próspera como a que já vivemos em outros momentos de incertezas.

 

Mathieu Le Roux trabalha com startups há 15 anos. Participou do lançamento da Amazon na França em 2000 e, após, seis anos de experiência como VC em Paris, voltou ao Brasil para lançar as operações do Deezer na América Latina. Por aqui, lançou também a startup de programação Le Wagon, um bootcamp intensivo que forma desenvolvedores full stack web em formato curto e presencial.

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