Como preservar os recursos hídricos quando a fabricação e o uso dos seus produtos consomem água? Eis o desafio da L’Oréal

Maisa Infante - 15 abr 2021
Maya Colombani, diretora de Sustentabilidade da L’Oréal no Brasil.
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Cuidar do impacto nos recursos hídricos gerado por sua empresa será cada vez mais urgente num contexto em que “a água vai se tornar o novo ouro da humanidade”.

É o que diz Maya Colombani, diretora de sustentabilidade da L’Oréal Brasil

Fabricante de xampus, condicionadores, sabonetes, maquiagens, cremes de tratamento e hidratantes, a companhia tem sob seu guarda-chuva marcas como Kérastase, Redken, Garnier e SkinCeuticals. 

Para a centenária L’Oréal (fundada na França, em 1909), esse desafio de reduzir a pegada hídrica passa não só pela cadeia de produção, mas também pelo uso de seus produtos — que muitas vezes se dá sob o chuveiro.

“Temos 1,5 bilhão de consumidores no mundo”, diz Maya, ela própria uma francesa radicada hoje no Brasil. “Se andarmos juntos, temos poder de agir na mudança.”

Presente em 150 países, a L’Oréal registrou quase 28 bilhões de euros em vendas no ano passado. No Brasil, atua desde 1959. São 3 600 colaboradores no país, uma fábrica em São Paulo e um Centro de Pesquisa e Inovação no Rio de Janeiro (inaugurado em 2017, é o único da empresa na América Latina). 

Em maio de 2020, a empresa lançou o programa “L’Oréal para o Futuro”, definindo metas de sustentabilidade a serem alcançadas até 2030. Entre elas: reutilizar 100% da água usada nos processos industriais; ter 95% dos ingredientes usados nas fórmulas de base biológica, derivada de minerais ou provenientes de economia circular; e usar 100% de plástico reciclado ou renovável nas embalagens. 

Será preciso, portanto, repensar e refazer fórmulas de modo que gerem menos emissão de CO2 na produção e no transporte, e demandem menos água no consumo (tornando mais fácil, por exemplo, a remoção do condicionador dos seus cabelos). 

A seguir, Maya fala um pouco sobre sua experiência e conta como a L’Oréal trabalha para tornar sua operação e seu portfólio cada vez mais sustentáveis.

 

Como você chegou à área de sustentabilidade?
Sou uma gringa apaixonada pelo Brasil. Estou na L’Oréal há 20 anos e comecei, na França, em marketing e desenvolvimento. Minha especialidade sempre foi criar produtos. Foram nove anos na França, dois anos na Índia e estou há dez anos no Brasil. E sempre coloquei o impacto social e ambiental no coração do que eu fazia. 

Há cinco anos, quando me convidaram para implementar a sustentabilidade aqui no Brasil, topei na hora. E tem sido muito bom porque, como venho da área de negócio, conheço toda a cadeia de valor — da formulação ao transporte. 

Isso me dá uma legitimidade interna muito forte. Consigo explicar que, se você não for sustentável, o consumidor não vai querer [o seu produto], o sistema financeiro e os fundos de investimento não vão te dar crédito. 

Como a L’Oréal lida hoje com a questão da sustentabilidade?
Para nós, sustentabilidade não é um atributo paralelo. Está no coração do jeito que a gente cria, produz, transporta, compra, usa e recicla. 

A L’Oréal  fez uma aceleração extremamente forte em 2013, com o lançamento do [programa interno] “Compartilhando a Beleza Com Todos”, onde aceleramos nossas metas e trabalhamos sobre a nossa cadeia de valor internamente. O “L’Oréal para o Futuro” é uma radicalização desse compromisso porque estamos utilizando o princípio de fronteira planetária para definir o que precisa ser feito. 

Nossas metas não foram estabelecidas com relação ao que sabemos fazer, mas ao que devemos fazer para manter o planeta sustentável para o ser humano. 

O que são fronteiras planetárias? E por que olhar para elas?
São os limites do ecossistema do planeta que, se ultrapassados, comprometem a capacidade da Terra como habitat para o desenvolvimento humano. 

Precisamos da biodiversidade para sobreviver. Mesmo com a boa vontade da empresa ou de algum governo, a temperatura continua a crescer — e a emergência climática é uma urgência vital para o ser humano 

Não tem empresa que salva o mundo; o que tem é ser humano que precisa do planeta. Então, vamos colocar no centro um futuro melhor para a humanidade. E esse futuro melhor só vai funcionar se cada um fizer sua parte, porque precisamos do planeta, e precisamos de uma sociedade mais justa. 

Na prática, o que a L’Oréal tem feito para respeitar esses limites planetários?
São muitas coisas ao mesmo tempo. Mas, hoje, temos uma ferramenta muito robusta e completa, o SPOT (Sustainable Product Optimisation Tool, ou Ferramenta de Otimização Sustentável para Produtos), que foi totalmente construída sobre esses limites planetários. 

O SPOT nos ajuda a ter uma visão mais holística do que fazemos, porque ajuda a medir a biodegradabilidade, a porcentagem de ingredientes naturais, o impacto social do uso desses ingredientes, o impacto no oceano e sobre a mudança climática. Hoje, 100% dos nossos produtos são avaliados através desta ferramenta 

Entre duas fórmulas que têm a mesma performance para o consumidor, vamos escolher a que tem melhor biodegradabilidade. Essa ferramenta é uma obra de arte porque nos ajuda a ver a responsabilidade integrada de toda a cadeia de valor. 

Uma das metas da L’Oréal para o futuro é ter, até 2030, 95% dos ingredientes usados nas fórmulas de base biológica, derivados de minerais ou provenientes de economia circular. Em que ponto dessa meta se encontra hoje a operação brasileira?
O Brasil está no mesmo patamar da L’Oréal no mundo. Nossa  fotografia da  L’Oréal no mundo é de 80% de matéria-prima biodegradável, 59% renovável, 34% natural, 28% de química verde. Estamos no bom caminho, mas temos  muito a fazer. Passar de 34% para 95% vai ser um grande trabalho.

Quais os principais desafios desse “grande trabalho”?
Meu laboratório e departamento de compras terão que mudar o jeito que fazem tudo. Vamos ter que mudar quase todas as formulações. É algo inspirador, mas bastante corajoso. 

Para chegar a 95% de ingredientes naturais, estamos mudando a forma de inovar para a “green science”. Hoje, já inovamos de maneira sustentável, mas a “green science” é outro patamar. 

“Green science” é promover a naturalidade das fórmulas, ser extremamente rígidos e inflexíveis sobre o fornecimento sustentável de nossas matérias-primas, ser ainda mais exigente sobre o respeito aos ecossistemas marítimos… 

Isso significa trabalhar com um nível de exigência muito maior do que antes sobre os nossos fornecedores. Significa mais certificação, e mais auditoria sobre o aspecto ambiental e social.

Mais do que ter uma fórmula natural, precisamos pensar na estrutura de produção. Utilizar menos energia, ter uma pegada hídrica mais eficiente, evitar a geração de resíduos, não desperdiçar nenhum recurso… Se você tem uma fórmula toda natural, mas para produzir gasta água e emite um monte de CO2, não é legal. 

Qual é o grande impacto negativo que a L’Oréal causa no meio ambiente?
Se olharmos para o ciclo de vida do nosso produto, 52% do meu impacto está sobre a água. Quando colocamos isso em um contexto em que água vai se tornar o novo ouro da humanidade, eu te diria que temos, mais do que nunca, que cuidar do nosso impacto sobre o recurso hídrico.

Esse impacto acontece na produção ou no consumo?
Tudo tem impacto. Temos bastante responsabilidade sobre poluição, mas também sobre o consumo de água e energia, porque nosso produto é usado debaixo do chuveiro.

E o que está sendo feito para mitigar esse impacto sobre o consumo de água e a poluição?
Nosso maior trabalho vai ser o de empoderar o nosso consumidor da importância de ter uma rotina de beleza mais sustentável e um consumo mais consciente. 

Temos 1,5 bilhão de consumidores no mundo. Queremos agir como catalisadores de mudança no nosso ecossistema e também agregar contribuição para a sociedade.

Dois pontos que estamos trabalhando são a biodegradabilidade e a rinsabilidade [a facilidade de enxágue do produto] das nossas fórmulas. Porque o que faz a pessoa ficar muito tempo embaixo do chuveiro é para rinsar. Então, a gente quer que ela tenha uma experiência melhor nisso — e não desperdice água para sentir o cabelo limpo

Também estamos investindo em startups de tecnologia. Compramos a startup suíça Gjosa e desenvolvemos um dispositivo que quebra a água em micropartículas e reduz o uso em 80%. 

É um projeto [apresentado na CES 2021, em janeiro] que está sendo testado em fase piloto e será usado em salões de beleza e também em casa.

E o que está sendo feito para reduzir o uso de água dentro da empresa, nos processos produtivos?
A nossa responsabilidade começa lá com os redutores de vazão de água nas torneiras da empresa. E passa também por ambições que já estão se tornando realidade. 

O nosso Centro de Pesquisa e Inovação no Rio de Janeiro recebeu o prêmio internacional Green Solution Awards durante a Conferência Mundial do Clima em 2020 pelo projeto dos Jardins Filtrantes, uma biotecnologia com plantas da biodiversidade que filtra naturalmente as águas cinzas utilizadas no laboratório e também as águas pluviais, que são reutilizadas na irrigação e nos banheiros

Nossa grande ambição para 2023 é ter um sistema de circuito fechado de água na fábrica de São Paulo, o que significa não desperdiçar uma gota na produção. Vamos cumprir essa meta em 2023 no Brasil, ainda que a meta do grupo seja de ser circuito fechado em 2030. 

Onde está o maior gargalo da operação L’Oréal no quesito sustentabilidade?
Para mim, o maior gargalo é a nossa ilusão de sermos independentes de todo o ecossistema. Estamos nadando em uma ilusão de desconexão com tudo, como se minha empresa só vendesse xampu… Claro que não! 

O que a minha empresa faz influi sobre outros negócios, porque tenho muitos fornecedores, preciso transportar o que produzo. Ainda assim, continuamos a pensar que tudo está isolado. Só que tudo é conectado. 

Se utilizo muito recurso natural, chega uma hora em que não vou ter mais planeta nem matéria-prima para fazer meus produtos. 

Pensar separado é um pouco ingênuo. Para resolver isso é preciso um trabalho de mudança de cultura interna, de colocar a sustentabilidade no centro do nosso dia a dia, de fazer a equipe vivenciar essa experiência 

Ano passado, levamos um grupo de funcionários para fazer um dia de limpeza na Baía de Guanabara [no Rio de Janeiro]. Tiramos 1 tonelada de lixo e isso contribuiu para eles mudarem a relação com a natureza e com as embalagens.

Em termos de governança, o que vem sendo feito para que as iniciativas também partam das lideranças da empresa?
A L’Oréal tem uma estratégia com cinco prioridades de negócio e a sustentabilidade é uma delas. Hoje, temos comitê, relatório de sustentabilidade e até um sistema de premiação do próprio presidente que é baseado na sustentabilidade. Precisa ser assim. A sustentabilidade precisa ser tratada com seriedade e na estrutura do negócio. Senão não funciona. 

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