Como reerguer uma empresa associada a um material cancerígeno? A Eternit quer escrever seu futuro com energia solar

Aline Scherer - 9 maio 2024
Paulo Roberto de Oliveira Andrade, presidente da Eternit.
Aline Scherer - 9 maio 2024
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Fundada em 1940, a Eternit ao longo dos anos se tornou sinônimo de telhas de amianto.

No século 20, essa fibra mineral foi usada de forma intensiva na indústria pesada, sobretudo de construção civil, por sua abundância, baixo custo de exploração, resistência, durabilidade e capacidade de isolamento.

O problema é que, além de possuir esses atributos, o amianto é cancerígeno. “Não foram identificados níveis seguros para a exposição às suas fibras”, afirma o Instituto Nacional de Câncer.

Em 2017, o Brasil baniu o uso de amianto. No ano seguinte, a Eternit entrou em recuperação judicial. Faltou dinheiro para pagar salários e arcar com os processos por conta de funcionários que adoeceram e morreram por doenças em decorrência da manipulação do material (proibido na Europa desde 2005). 

Em paralelo, outra marca da companhia, a Tégula, fabrica um tipo de telhas estilo colonial mais caro, que vinha caindo em desuso com a arquitetura moderna, que preconiza fachadas horizontais que escondem os telhados, em vez de casas de telhados diagonais aparentes. 

A Eternit então se viu obrigada a inovar. Além de buscar novos materiais (a crisotila, o tipo de amianto que era usado pela empresa, foi substituída por polipropileno, à base de petróleo), deu uma guinada para o ESG e começou a vender, em 2023, telhas fotovoltaicas. Além disso, vem testando outro produto, placas fotovoltaicas finas e maleáveis que podem ser instaladas em diferentes superfícies. 

Com oito fábricas no país (incluindo uma adquirida recentemente no interior de São Paulo e outra recém-inaugurada no Ceará), a empresa parece viver um novo momento. “Se comparar as duas Eternits – a que eu entrei como conselheiro e a que estou hoje –, são duas companhias completamente diferentes”, diz o presidente Paulo Roberto de Oliveira Andrade, 59, no cargo há quase um ano.

(O amianto, porém, ainda faz parte do negócio: a mina continua ativa para exportação — a Índia, por exemplo, segue vendendo produtos com o material — e representa 30% do faturamento; embora tenha 30 anos de capacidade de exploração pela frente, pode se tornar obsoleta se mais países proibirem o produto, ou o Brasil vetar sua exportação.)

Engenheiro químico, Andrade tem passagens como executivo por Nestlé, Unilever e Amanco, e atuou em oito conselhos de administração, com sequências de reestruturação de companhias investidas de fundos de Private Equity como Pátria, Tarpon e Advent. Na Eternit, foi indicado pelo D+1, principal acionista com 26,71% de participação.

Sua prioridade para 2024 é lançar produtos para sistemas de construção sem tijolos e cimento, com blocos de encaixar, montar e colar — uma tendência do setor que promete reduzir, nos próximos anos, o tempo de obra e o número de trabalhadores envolvidos. 

Leia a seguir a entrevista com o presidente da Eternit:

 

Como a Eternit está hoje, comparada a quatro anos atrás, quando você entrou como conselheiro?
Hoje temos uma empresa superavitária, que gera caixa, tem uma dívida super controlada. Construímos uma fábrica de quase 190 milhões de reais no Ceará. Voltamos a pagar dividendos em 2021, pagamos em 22, em 23, e agora em 24 também. É uma empresa que fez investimentos muito importantes de 2020 pra cá. 

Colocamos 500 milhões de reais em investimentos em duas plantas novas: a aquisição de uma concorrente no interior de São Paulo, e a construção e inauguração de uma fábrica no Ceará, uma cidade próxima do porto do Pecém 

Então, se comparar as duas Eternits – a que eu entrei como conselheiro e a que eu estou hoje –, são duas companhias completamente diferentes. 

Uma [empresa] que estava no meio de uma reestruturação com o antigo CEO, que fez um trabalho notável, de realmente reduzir custos dentro da companhia e mudar a estratégia comercial.

Hoje, é uma empresa super saudável, não tem nenhum tipo de atraso nos seus pagamentos, e a gente se mantém na RJ [recuperação judicial] por motivos mais técnicos do que financeiros.

Qual o material substituto do amianto?
O Fibrocimento sempre foi a nossa telha, a gente sempre chamou de fibrocimento. Porque o principal componente da telha é o cimento e depois tem outros componentes, um deles é uma fibra. 

Essa fibra, no passado, era o amianto. A crisotila é o tipo de amianto que a gente usava como fibra e tem efeitos muito mais leves para a saúde do que o asbesto, que é o tipo de amianto mais complicado para a saúde e que a gente nunca produziu. 

Por motivos de legislação, a gente teve que abandonar o uso de crisotila [nos produtos vendidos no Brasil] há sete anos. Colocamos no lugar dela uma fibra que vem do petróleo, que se chama polipropileno. Para facilitar, a gente fala PP. 

Mesmo assim, a crisotila é um tipo de amianto que pode provocar um tipo de enrijecimento dos brônquios e do pulmão, sendo respirada em grande quantidade, durante um tempo muito prolongado, de meses e anos, causando um tipo de câncer, que muita gente chama até de asbestose, porque o asbesto é o que mais provoca isso 

Aconteceu muito frequentemente na Europa, especialmente nos anos 1900, com a pintura de paredes para aquecimento das casas, com uma tinta à base de amianto. Mas, hoje em dia – na Índia, por exemplo –, se faz telha com amianto. Se usar máscara, e realmente colocar o saco do amianto num circuito fechado, o risco de propagar doenças é praticamente zero. 

(observação: pequeno ou não, o risco existe, conforme alerta o Instituto Nacional de Câncer.)

Quais os objetivos da aquisição da concorrente no interior de São Paulo? E quais as expectativas com o Minha Casa Minha Vida?
Adquirimos a Confibra, uma empresa de menor porte, com capacidade de fabricar cerca de 14 mil toneladas, o que dá uns 15% da nossa capacidade total instalada. 

O principal objetivo é ter um pé dentro de São Paulo. Temos a nossa sede aqui, temos uma fábrica de telha de concreto, a Tégula, em Atibaia, mas nós não tínhamos uma fábrica de fibrocimento, que é a antiga telha de amianto, como o pessoal falava no passado, que já não existe mais. 

Faz sete ou oito anos que não se fabrica a telha de amianto. Mas a telha de fibrocimento, a gente tem fábricas no Paraná, Rio de Janeiro, Goiás – mas não tínhamos uma fábrica em São Paulo. 

A telha é um material que não viaja, por motivos de custo logístico: é um material muito barato. Uma telha tem como preço de venda cerca de R$ 1,20 por quilo. Uma carreta de caminhão cheia de telha não dá 30 mil reais. Não conseguimos deslocar a telha por mais de 500 quilômetros 

Então, São Paulo é um mercado onde não éramos competitivos. Com a Confibra, que fica em Hortolândia, na região metropolitana de Campinas, a gente ficou muito mais competitivo dentro do estado. 

Sobre o Minha Casa Minha Vida, a Eternit tem produtos homologados dentro do programa do governo, mas quem decide o que vai colocar é a construtora. A gente vai na MRV, na Pacaembu, grandes construtoras que fazem Minha Casa Minha Vida, e tenta vender a nossa telha como sendo uma alternativa para cobrir o telhado – e a telha fotovoltaica eles estão gostando muito. 

Para eles, é um extra: agora que o governo aumentou um pouquinho o ticket de financiamento do Minha Casa Minha Vida, a gente tem a possibilidade de colocar [a telha fotovoltaica]. Porque pode chegar a ser de 10% a 15% do valor da casa; dependendo do número de telhas que você queira colocar, pode sair 4 a 5 mil reais. 

Então, uma casa de 50 mil, [a instalação das telhas fotovoltaicas] pode sair quase 10% do valor da casa. Mas, depois, em termos de custo de manutenção, a pessoa basicamente não vai mais precisar pagar a conta de luz, porque nessas casas dá para ter entre 70% e 100% do consumo gerado pelo próprio telhado.

Em termos de inovação, o que a empresa fez desde a recuperação judicial para melhorar a receita, recuperar o lucro e voltar a pagar dividendos?
Primeiro, uma reestruturação comercial, tirando intermediários e fazendo venda direto para as pequenas lojas. 

Começamos a fazer apostas em inovações e tem duas que a gente está apostando firme: a fotovoltaica, que é associar  energia solar às nossas telhas, e a construção de casas a seco, uma tendência mundial que o Brasil talvez atrase um pouquinho

Há quase seis anos a gente tem um projeto sendo desenvolvido para colocar células fotovoltaicas nas telhas, na [marca] Tégula, que é a telha de concreto de telhado aparente, e na de fibrocimento, da Eternit. Um é Eternit solar, o outro é Tégula Solar. 

Já temos essas duas telhas testadas, já estamos vendendo, só que nós temos uma fábrica pequena ainda, uma fábrica piloto no interior de São Paulo. A nossa ideia é ter uma fábrica grande para fazer esse tipo de telha – a gente não sabe onde, ainda. 

Além dessa telha, temos outros projetos. Não de painéis, como é hoje, mas placas ou módulos solares [finos e maleáveis], que podem ser colados em qualquer superfície: um telhado que já existe. Está praticamente desenvolvido, para o segundo semestre a gente deve começar a vender. Estamos apostando em usar os telhados – tanto com a nossa telha ou sem a nossa telha – para poder gerar energia solar. 

Esse é um grande projeto da companhia, a gente já investiu uns 50 milhões de reais e acredita que no médio prazo, pode ser um gerador de faturamento muito relevante, porque hoje painéis solares é um mercado bem competitivo 

Temos uma unidade de negócios, a solar, que cuida desses produtos, uma estrutura pequena. A ideia é escalar essa estrutura à medida que for gerando faturamento. 

Como é o negócio de construção de casas a seco? E como funciona a estrutura de inovação na Eternit?
Estamos apostando muito forte no que a gente chama de sistemas construtivos. É uma prioridade para a gestão da companhia esse ano, um indicador relevante para o pagamento de bônus. 

A ideia é não ter tijolo, trazer a parede praticamente montada, muitas vezes a casa já montada; ou então trazer pedaços da casa e colar, montar, encaixar. Não tem aquele negócio de jogar água no cimento. 

Tem vários componentes desse tipo de construção: pisos, paredes e divisórias que podem ser feitos de fibrocimento na mesma máquina da telha. Em vez de fazer aquela ondulação da telha, se faz uma placa – que pode ser usada tanto para dividir ambientes como para paredes externas, pisos, forros 

Achamos que esse vai ser o futuro. Talvez não seja para o ano que vem, porque a mão de obra ainda aqui é bem mais barata que Europa e Estados Unidos, mas a gente acha que daqui a dez anos [essa frente] começa a se tornar muito relevante. 

A obra fica muito mais rápida – se faz uma construção entre um terço e metade do tempo – e [o custo] fica muito mais barato. 

Se você vai para a Europa hoje, entre 80% e 90% das construções são de montagem. Tem muito poucos canteiros de obra como os que se vê hoje em Pinheiros, bairro de São Paulo, com 200 a 500 pessoas. 

Daqui a dez anos a tendência é vir um caminhão com tudo pronto, encaixar, ter meia dúzia de pessoas e entregar a obra em metade do tempo 

Estamos vendo como fazer um isolamento acústico interessante, isolamento térmico também, solucionar os desafios de peso, opções de acabamento. Mas temos uma feira no meio do ano, de sistemas construtivos em São Paulo, e queremos ter o máximo de protótipos de produtos para lançar, mostrar pro mercado a direção que a gente está indo. Não só para o consumidor final, mas especialmente para os parceiros: construtoras, startups.

Sobre a estrutura de inovação, temos o nosso cientista-chefe, que trouxemos do mercado, e ele tem uma equipe de engenheiros que fica na região de Curitiba, na fábrica de Colombo, com foco no desenvolvimento de novos materiais e novos produtos. 

Os testes são feitos com a Universidade Federal de Santa Catarina, onde tem um dos maiores centros de tecnologia solar do Brasil, com a Universidade de São Paulo e com o IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas

Também trabalhamos com universidades particulares, e temos contato com startups que estão revendo o modelo de construção. Existe uma vontade do acionista de, de repente neste ano ou ano que vem, montar um hub de startups aqui dentro, para envolver pessoas com ideias novas.

E nossa área de marketing faz muita inovação, busca novos materiais, fornecedores novos, tecnologias novas, visitam feiras no Brasil e fora para buscar alternativas. Tem pessoas que ficam 100% focadas em novos processos inovadores.

O preço da energia solar vem caindo muito nos últimos anos. As placas ou módulos solares flexíveis estão sendo aplicadas em cercas, muros e sacadas. Por que a energia solar está tão barata? Quais os desafios tecnológicos que vocês estão encontrando e como pretendem crescer a partir dela?
Comparado com hoje, uma placa solar custa menos da metade do que custava quatro anos atrás, quando começamos o projeto. 

Então, está caindo muito mesmo, parece que a China quer dominar o mundo inteiro, baixam o preço ao mínimo possível para só eles serem os fabricantes. Mas a dúvida nossa é qual [tecnologia vai prosperar]: a telha solar de concreto ou os módulos. Depende do mercado, dos arquitetos, engenheiros, governo, incentivo fiscal, cliente. 

O módulo, a gente está testando. O grande ponto de inovação é como colar uma célula em uma superfície e ela funcionar com um rendimento alto de produção de energia. Porque quando o módulo fotovoltaico esquenta muito, ele não funciona – com altas temperaturas, o rendimento de geração de energia cai muito. 

Desenvolvemos uma tecnologia, uma resina para um revestimento embaixo dessa célula fotovoltaica – um segredo industrial nosso –, que permite que ela fique colada numa superfície, e mesmo que chegue a temperaturas muito altas, continue produzindo com um rendimento muito alto, fora da realidade dos nossos concorrentes 

Funcionou muito bem na telha, mas no módulo a gente está tentando achar ainda o polímero ideal. Mas estamos acertando o produto, vendendo muito pouco ainda, para então começar uma venda mais intensa.

As telhas solares, a gente consegue fazer hoje entre 40% e 50% mais caro do que um painel convencional. É uma telha bonitona, para a estética de telhas aparentes.  

O módulo é uma solução mais barata se comparada com a alternativa padrão do mercado, que é a estrutura de metal com as placas fotovoltaicas em cima. Estamos fazendo umas contas, não fechamos ainda o projeto inteiro, mas não vai ser nem o mais barato do mercado, nem o mais caro. 

Achamos que vai ter uma aceitação muito grande. Se for assim, chegaremos em julho, agosto, no que a gente acha que é a solução tecnológica que está faltando, e [nesse caso] o ideal seria construir uma fábrica em Manaus, por exemplo, ou em outra região com incentivos interessantes

Agora, se for o modelo na telha solar a tecnologia que prosperar, aí talvez tenha que ser um lugar mais central. Mas, em princípio, a gente gostaria de ter um faturamento relevante, lotar a fábrica-piloto, que não está lotada, para talvez 2026, ter uma fábrica de um tamanho interessante.

A Eternit inaugurou uma fábrica no Ceará em março, idealizada para ser modelo em sustentabilidade e o investimento para ter menor impacto ambiental custou 8% a mais do que um projeto tradicional. Ainda existe um paradigma no mercado financeiro de que considerar os indicadores ESG custa mais caro. O que você conclui desse processo da Eternit de se tornar mais sustentável, a conta se paga? E quais os próximos passos?
O preço saiu mais caro, mas muito menos do que a gente imaginava. E realmente vale a pena, por várias razões. 

Tem o lado social, que a empresa não pode ser vista simplesmente para gerar lucro e dividendos – isso é importante, afinal as pessoas compram as nossas ações, a gente trabalha para os acionistas, mas não é só isso. 

Cada dia mais, empresas socialmente e ambientalmente responsáveis têm um valor maior na Bolsa. E a própria CVM, nosso regulador dentro da Bolsa, está cada dia mais exigente, especialmente com as empresas do Novo Mercado, como nós, estejam realmente seguindo normativas de sustentabilidade.

Eu mencionei o bônus da diretoria vinculado à inovação dos sistemas construtivos, mas tem também para a área de fotovoltaica, e para trabalhar de maneira responsável, com itens ligados a ESG, como segurança do trabalho. E não só para os executivos, mas para toda a parte comercial, marketing, e inovação. Além disso, temos vários programas sociais com ONGs, doando material. 

Fazemos isso especialmente pelo lado social da companhia, o principal, mas também é um instrumento de marketing – sair na mídia [notícias de] que a gente está participando de maneira solidária –, além de fomentar o nosso produto em comunidades que têm dificuldade de compra

E tenho certeza que o acionista vê com bons olhos, porque todo mundo quer para as suas famílias uma sociedade mais justa, menos violenta, e que as pessoas tenham condições de vida melhor. 

Sobre os próximos passos: como investimos muito nas nossas fábricas nos últimos anos, estamos tentando ter ideias, para que a gente use as 100 mil toneladas de capacidade instalada – e que não precisa ser para fabricar telhas, mas alguma coisa: placas, divisórias… Novos produtos. 

E a construção a seco, ou steel frame, ou sistemas construtivos, nos parece o mais adequado [para essa finalidade]. Também para aproveitar os nossos canais de distribuição e venda.

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