Como você adapta a empresa ao distanciamento social quando seu negócio é vender experiências?

Dani Rosolen - 28 abr 2020
As sócias do Ateliê no Escuro (a partir da esq.): Maria Lyra, Elis Feldman, Janaína Audi e Gabriela Pistelli.
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Sem poder realizar encontros em grupo e que estimulem as sensações, o Ateliê no Escuro poderia ter fechado as portas nessa quarentena. As sócias, porém, adaptaram a metodologia para continuar em ação durante o distanciamento social.

Fundada por Elis Feldman, Gabriela Pistelli, Maria Lyra e Janaína Audi (as três primeiras são psicólogas e a quarta, terapeuta corporal), a empresa projeta experiências que, por meio do uso de vendas nos olhos, aguçam os demais sentidos dos participantes para explorar relações de confiança e vulnerabilidade, e estimular a criatividade e o enfrentamento de desafios.

Tudo começou há 12 anos, de forma caseira, com jantares vendados na casa de uma das sócias. Aos poucos, a ideia foi ganhando corpo e elas se profissionalizaram. Desde 2008, elas já atenderam mais de 250 empresas. Em 2019, o faturamento foi de 536 mil reais.

“Éramos apaixonadas por gastronomia. Com o tempo, o jantar ficou pequeno para a potência que o escuro traz”, diz Maria. “Assim, foi nascendo o workshop que, independente de menu, mesas e cadeiras, deixa um espaço aberto para danças, rodas, percursos sensoriais, paisagens sonoras…”, diz Maria.

DE JANTARES A WORKSHOPS: TUDO DE OLHOS VENDADOS

Nos jantares, destinados a pessoas físicas e empresa, a proposta é fazer com que os participantes se percebam e interajam a partir de uma nova perspectiva. “Poder dividir o silêncio e atravessá-lo juntos é sempre algo forte para uma equipe, por exemplo”, diz Maria. “Além disso, o encontro permite ativar memórias e a imaginação.”

A empreendedora complementa:

“Os jantares no escuro são verdadeiros playgrounds de paladar, audição e olfato, em que cada participante vai se dando conta de como está em relação a sua percepção nesses sentidos. A música, os aromas, os toques e os sabores são pensados para deliciar e instigar”

Os workshops são experiências personalizadas de acordo com a demanda da empresa contratante. Entre os clientes, o Ateliê no Escuro conta a Natura, a Johnson & Johnson, o Congresso de Nutrição Comportamental e a Costa Cruzeiro. “Independente da interação proposta, sentimos que todos saem tocados, profundamente impactados e gratos. São experiências de desacelerar e conectar”, afirma a empreendedora.

Nas experiências do Ateliê no Escuro, a proposta é se descobrir e se conhecer de olhos vendados.

Ela detalha melhor como costuma funcionar o trabalho citando como exemplo o caso da Costa Cruzeiro.

“Fomos à empresa observar um grupo de televendas atuando e criamos um workshop de um dia com alguns momentos que incluíam vivência sensorial, uma pequena degustação e um trabalho de conversa e escuta, além da parte técnica, com um treinamento e uma parte de elaboração por parte deles. Houve uma roda de conversa e trocas sobre o que cada um viveu e sentiu.”

O Ateliê no Escuro também atendeu a Mustela (empresa de dermocosméticos para mães e bebês), oferecendo um workshop com as características sensoriais e filosofia de seus produtos para dermatologistas convidadas conhecerem e se apropriarem da linha da empresa.

Os grupos de trabalho normalmente são compostos por 20 a 30 pessoas, no máximo. Há exceções. Maria conta que o Ateliê já realizou uma intervenção sensorial para a TIM com 500 participantes. “Não sabíamos se seria possível fazer todos estarem em silêncio, e aconteceu. Foi muito potente e abriu as nossas possibilidades de trabalho.”

Um pouco antes do distanciamento social entrar em vigor, a empresa estava desenvolvendo um projeto, o No Escuro Lab, em parceria com o Lab Criativo, de Lucas Foster, para atender demandas de inovação, resolução de problemas e trabalho com líderes. A proposta junta os desafios trazidos pela pitada de escuro da empresa com a metodologia fluxo de criação, desenvolvida pela escola holandesa de liderança criativa Thnk, da qual Lucas foi um dos membros associados em sua operação brasileira.

Com a quarentena, esse projeto mais recente, assim como os jantares, tiveram que ficar “de molho”.  As sócias, no entanto, pensaram em novas abordagens para continuar ajudando os clientes. “Fomos lançados em um grande escuro, um momento de grande incerteza e que isso já faz muito parte do trabalho que temos feito. Percebemos que podemos ajudar.”

COMO TRABALHAR OS SENTIDOS NO ONLINE?

No momento, o Ateliê no Escuro está com dois projetos online. O primeiro se chama “Roda de Conversa” e começou a acontecer presencialmente no fim do ano passado. Por se tratar de um formato que já tinha mais espaço para a fala, a adaptação para o mundo virtual não foi tão difícil.”

O piloto online foi realizado com a equipe. A primeira sessão aberta ao público aconteceu no dia 14 de abril, pelo Zoom, com o tema “Estamos no escuro: como caminhar?”. Agora a roda é realizada toda terça-feira, com contribuições voluntárias, e os interessados precisam se inscrever por email ou WhatsApp para participar. O objetivo das empreendedoras com essa iniciativa é abrir um espaço de cura, aconchego e troca, em especial neste momento de tantas incertezas, com as pessoas confinadas em suas casas.

“Entendemos que estar no escuro pode ser uma experiência que acalma e acolhe a ansiedade, que ativa nossos recursos de adaptação e que nos mostra como existem outras maneiras de perceber as coisas. É abrir um espaço para escutar o que vem, para olhar o novo e deixar desconstruir o que vinha sendo feito”

As sócias tiveram que se adaptar ao home office e aos encontros online com o público.

Para aguçar os sentidos no virtual, as sócias incentivam as pessoas a criarem as condições e os ingredientes para ambiente de “ritual”.

“Pode ser uma vela, um óleo para as mãos. O desafio ainda tem sido a música, que é difícil de transmitir para todos com qualidade.”

O segundo projeto ainda não foi lançado, mas trata-se do “Ciclo Terapêutico”, uma proposta de cuidado com os trabalhadores de empresas e seus gestores nessa fase de transformação, de travessia em um tipo de escuro.

“A ideia é criar um espaço online de acolhimento, escuta e mapeamento das dificuldades e possíveis ferramentas, através de elementos sensoriais: venda nos olhos, condução de imaginação ativa e de movimentos, além de automassagem.”

Com os gestores a ideia é ir um pouco além para que reflitam o que muda com o home office. “Essa relação atual exige mais cuidado, confiança e autonomia.”

“Tem acontecido um excesso de controle ou insensibilidade dos gestores com o processo de adaptação dos seus funcionários. Temos visto pessoas trabalhando mais do que antes, porque agora as fronteiras de tempo estão menos determinadas ou porque os gestores estão ansiosos e transferindo isso para suas equipes”

Maria acredita que esse cenário de instabilidade, as possíveis demissões e diminuição de salários têm abalado a saúde mental de muitos colaboradores e a questão precisa ser cuidada. “Essa semana faremos as nossas primeiras aproximações com clientes para começar a praticar essa proposta.”

APOSTANDO NA TEORIA DO “MAIS SIMPLES”

No começo da pandemia, as sócias tiveram medo de perder o contato com seu público. Mas contam que perceberam que tudo o que cada um precisa para uma experiência sensorial está em si mesmo.

“Nosso trabalho sempre foi do ‘menos é mais’, do simples, do esvaziar para deixar emergir, então foi bom reafirmar isso e ver que podemos continuar atuando.”

As expectativas, no entanto, tiveram que mudar. As cofundadoras precisaram respeitar essa situação que pede mais calma e jogo de cintura para lidar com o trabalho atuando de casa (a sede física da empresa fica na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo) e com outros diversas funções, como o cuidado com os filhos fora da escola e as tarefas domésticas.

“Seria incoerente enlouquecermos, nos estressarmos e passarmos dos nossos limites. Estamos praticando esse alargamento do tempo, esse aprofundamento da relação com o nosso universo de escolha, como casa, família, trabalho.” Maria ainda diz:

“Uma resposta ansiosa e consumista surgiu nessa pandemia: consumam, leiam, façam cursos! Isso tudo pode nos distrair dessa oportunidade de cultivo da intimidade e da introspecção de que vínhamos falando”

Com os eventos presenciais adiados ou cancelados, as sócias mensuram uma queda de 40% no faturamento de 2020. Mas têm esperança de que quando a crise passar, os jantares e workshops serão frequentados sem restrição.

“Com o tempo as coisas vão se abrir, mas sabemos que grandes aglomerações não serão seguras, então esses encontros mais íntimos e arejados parecem ser o caminho que pode atender melhor ao atual cenário.”

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  • Projeto: Ateliê no Escuro
  • O que faz: Cria experiências sensoriais no escuro para pessoas físicas e empresas
  • Sócio(s): Elis Feldman, Gabriela Pistelli, Maria Lyra e Janaína Audi
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2008
  • Investimento inicial: Não teve
  • Faturamento: 536 mil reais (em 2019)
  • Contato: [email protected]
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