“Costumo dizer que a cannabis vai ser aceita de fato quando estiver na novela da Globo. Isso ainda vai acontecer”

Leonardo Maran Neiva - 8 jan 2020
Camila Teixeira, CEO da Indeov: tocada pelo filme Ilegal (2014), ela decidiu abraçar o tema da cannabis medicinal.
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Em maio de 2019, a Indeov foi selecionada como finalista da etapa nacional do Accelerate 2030, programa de aceleração da ONU que auxilia empreendimentos que têm impacto na sustentabilidade global. Entre as 35 empresas (duas das quais foram classificadas, em outubro, para a etapa global do programa), várias também eram voltadas para a área de saúde. Nenhuma outra, porém, com o mesmo nicho de atuação da Indeov: o mercado de cannabis medicinal.

Segundo Camila Teixeira, 34, fundadora e CEO da startup, trata-se do primeiro apoio oficial da ONU a uma empresa desse setor. O fato se torna talvez ainda mais significativo quando se sabe que as Nações Unidas mantêm a cannabis classificada como entorpecente — apesar de uma recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) em favor de uma classificação mais branda, que leve em conta suas propriedades terapêuticas.

Fundada em 2016, a Indeov surgiu como uma porta de entrada para empresas internacionais dispostas a vender medicamentos à base de cannabis no Brasil, oferecendo consultoria e auxílio a essas empresas para navegarem no complexo ambiente regulatório do país. Como o mercado ainda é muito jovem, porém, Camila entendeu que precisava atuar também na educação de médicos e pacientes, facilitando a jornada destes na obtenção dos fármacos de que precisam.

Por ora, devido a um acordo de confidencialidade, ela não revela investimento inicial e faturamento. Com sede em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, a Indeov tem 15 colaboradores fixos, um time multidisciplinar com profissionais de medicina, farmacêutica, psicologia, direito, economia e linguística, entre outros. A própria CEO é formada em relações internacionais e tem experiência com audiovisual.

A seguir, Camila fala sobre a importância da comunicação para mudar a percepção pública sobre a cannabis medicinal, o incipiente mercado brasileiro em torno do produto e a recente regulamentação da Anvisa, entre outros temas.

 

Você teve uma formação em relações internacionais e trabalhou com o mercado de audiovisual. Como acabou entrando para a área da cannabis medicinal?
Por causa da minha formação, trabalhei com a internacionalização de diferentes empresas e mercados, entre eles o audiovisual. Optei por esse mercado por considerá-lo uma ferramenta importante para a política externa, com impacto na economia brasileira.

Tive oportunidade de atuar com o Ministério da Cultura e o Ministério das Relações Exteriores, em diferentes países, com o objetivo de apoiar esse setor, que infelizmente agora está passando por grandes desafios. Eu ajudava a preparar executivos para o mercado internacional, tanto abrindo canais nos países em que atuávamos quanto capacitando-os em termos de quais produtos seriam melhor oferecidos nesses mercados.

Em 2014, fui tocada por um filme, Ilegal, do Tarso Araújo [com codireção de Raphael Erichsen], que me fez abandonar tudo para entrar no mercado da cannabis. Eu já estava vinculada a essa área, atuando com internacionalização e consultoria nos Estados Unidos

Ali [nos EUA] você também tinha uma história impactante, o documentário Weed [lançado em 2013], da CNN, que conta a história da menina Charlotte, que teve melhora num quadro de epilepsia graças ao uso de cannabis.

Aliás, na história da cannabis, o cinema fechou e abriu portas. Na década de 1930, a demonização da planta veio na política externa americana, com um filme que o próprio governo lançou, o Reefer Madness [de 1936]. Olha o poder de transformação e impacto que o cinema traz.

Onde você trabalhava naquela época?
Eu trabalhava num projeto [batizado de OHM Sweets] nos Estados Unidos de desenvolvimento de produtos nutracêuticos: chocolates com substâncias à base de cannabis.

Sempre entendi que o desafio da cannabis era a comunicação, então juntamos o útil ao agradável. Um produto com fins terapêuticos voltado para um público AAA teria uma perspectiva de comunicação muito mais impactante. Em 2014, quando ainda não tinha ninguém fazendo isso, [o projeto] ajudou a transformar a cannabis em algo muito mais sério

Isso até a Anvisa publicar a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 17, em 2015, estabelecendo normas para a importação de medicamentos à base de cannabis no Brasil. Eu já tinha algumas portas de consultoria abertas e outras em rota nesse mercado. Foi quando comecei efetivamente a junção da minha frente de internacionalização com consultoria, para trazer as empresas para o Brasil.

Como foi a criação da Indeov?
No início, eu não pretendia atuar no Brasil. Trabalhava inclusive com a ideia de me mudar para os Estados Unidos. Em 2015, comecei a mapear as dificuldades pela perspectiva dos pacientes e médicos, e a entender como poderíamos entrar em ação. Era uma área nova, com a Anvisa caminhando para um lado de produção farmacêutica, então tivemos que aceitar que havia um cenário muito complexo a ser regulado.

Na época, tive oportunidade de me aproximar de uma mãe que ia para a fronteira entre Brasil e Uruguai para importar o produto ilegalmente, que ela depois dividia com outras mães. Eu fui vivendo essa dor com elas, pensando em como desenvolver uma jornada de soluções nesse ambiente super complexo

Por outro lado, convivi com alguns médicos nesse momento de mudança de perspectiva, quebra de preconceito, acompanhando o que eles precisavam saber para abrir a mente e começar, afinal, a ajudar os pacientes. Foi com base nisso e na indisponibilidade de produtos na época, além dos diversos desafios de comunicação, de qualidade e da vinda das companhia para o Brasil, que decidi abrir a empresa no país.

Entramos com a solução de conectar o desafio de pacientes, médicos e da falta de produtos. Desde 2016, quando a Indeov começou a operar, viemos auxiliando a criação desse ecossistema. Na perspectiva de educação, trabalhamos em todas as frentes de forma que o acesso, embora ainda burocrático, se torne menos doloroso.

No começo, fazíamos uma “evangelização” das pessoas que passavam por nós, sempre tocando num ponto sensível: e se fosse o seu filho que precisasse de medicamento?

Sempre fiz questão de colocar todos os colaboradores da Indeov a par dessa missão, de que a gente tem nas mãos um caminho de transformação. E eles levam isso muito a sério. Tem uma pessoa que trabalha com a gente que vem de metrô de Perus [o bairro mais setentrional da capital paulista] até Pinheiros, onde fica o escritório, e só nesse caminho já deve ter convencido umas 500 pessoas.

O maior desafio, porém, continua sendo o médico. Dos 400 mil que existem no Brasil, só mil e poucos trabalham com cannabis. Segue sendo o maior gargalo hoje.

A Indeov tem a perspectiva de unir pacientes, médicos e fornecedores. Como funciona a empresa e qual é o modelo de negócios de vocês?
Fazemos essa conexão atendendo duas frentes. Primeiramente, pela consultoria de empresas, deixando-as aptas para atuar no Brasil. Em vez de precisarem começar do zero, oferecemos ou um canal para que a empresa possa atuar aqui sem precisar se instalar no país, ou ajudamos em sua estruturação para que ela venha para cá.

Fazemos toda a parte de consultoria estratégica, de negócios e regulatória. Depois que essas empresas estão prontas, entramos como serviço, uma representação comercial dentro delas, aplicando os programas de pacientes e médicos que desenvolvemos.

Meu sócio, o André Coutinho, que tem uma empresa de 30 anos de consultoria [a Symnetics], foi trazido estrategicamente, numa junção de forças: minha expertise em cannabis, com uma equipe espalhada pelo mundo, juntamente com o conhecimento do André em consultoria.

No Brasil existem somente 6 mil pacientes de cannabis, um número muito baixo. Há a necessidade de educar, por isso pegamos eles “pela mão”. Se o paciente precisa de um médico para prescrever, educamos o médico dele ou indicamos um que já foi visitado por nossa equipe e recebeu nossa consultoria técnica especializada

Após a prescrição, cuidamos desse paciente, ajudamos com a burocracia da Anvisa e fazemos o monitoramento terapêutico. Queremos que esse paciente seja muito bem acolhido, porque sabemos da dor pela qual ele passou para chegar até nós.

Portanto, nosso modelo de negócio é pautado em consultoria e representação comercial, ou comissão. Recebemos um repasse desse valor, como representantes da empresa. Estamos funcionando desde 2016 e temos crescido consideravelmente. Entre 2018 e 2019, nosso faturamento cresceu 180%.

Estamos atualmente com quatro trabalhos de consultoria, em quatro países: Canadá, Estados Unidos, Colômbia e Paraguai. Hoje temos uma equipe de 15 funcionários fixos, mais alguns colaboradores que não estão aqui todos os dias, mas que nos auxiliam quando necessário, além de parceiros pelo mundo.

Uma decisão recente da Anvisa regulamentou o registro e a venda de medicamentos à base de cannabis em farmácias, mas vetou o plantio no Brasil. Que impacto isso deve ter no mercado nacional?
Perdemos a oportunidade de gerar mais empregos em um mercado com alto potencial para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva completa, verticalizada. Não poderemos aproveitar o potencial agrícola brasileiro.

Enquanto países como Colômbia, Uruguai e Paraguai estão se transformando para se tornarem polos de exportação na América Latina, estamos aqui de braços cruzados. Além disso, os produtos que teremos em breve nas farmácias e drogarias não necessariamente estarão mais baratos que os importados, porque há muitas exigências sanitárias, com altos custos

E existem também restrições de acesso a fármacos com teor de THC (tetraidrocanabinol) superior a 0,2%, sendo que trabalhamos com importados com teor de 0,3%, com os quais os pacientes se dão bem.

Apesar de todos esses pontos, a regulamentação é muito necessária e esperada pelo mercado. Agora teremos que passar por uma série de adaptações para entrar na nova rota. Devemos seguir com nosso plano de ação, operando programas de pacientes e médicos, e transformar os produtos que oferecemos hoje em medicamentos aptos a serem comercializados em farmácias e drogarias.

É uma questão de muito pouco tempo para chegarmos a um lugar ideal. Eu acredito e sou otimista.

Você tem alguma esperança de que essa rota possa mudar com uma decisão do Congresso?
O Congresso é a única entidade que pode superar os desafios desse novo mercado. Venho participando de muitas audiências, consultas públicas e assistindo a muitas discussões sobre o tema.

São 25 mil produtos deixando de ser aproveitados hoje [a estimativa inclui também cosméticos, alimentos, roupas etc. que poderiam ser produzidos e vendidos no país], em uma cadeia produtiva que poderia ser muito benéfica para a economia. O Congresso é extremamente importante nessa frente, diria que o mais importante.

A porcentagem de médicos prescritores de cannabis ainda é baixa no Brasil. O que vocês têm feito para mudar esse quadro?
É preciso um processo de pelo menos seis meses para converter um médico. Você faz a primeira visita, compartilha artigos científicos, dá tempo para que ele leia. Depois há um retorno ao consultório, com a necessidade de deixá-lo seguro. É preciso dar tempo para que ele finalmente tome essa decisão.

Muitas vezes, até quando o médico tem uma resposta positiva, são os pacientes que ficam com um pé atrás. Então você pode imaginar o trabalho para de fato educar o médico — mas é a única forma de mudar a nossa realidade. Educação, comunicação e políticas públicas decentes para podermos operar.

Hoje é muito custosa e demorada essa conversão, mas vejo que está crescendo pouco a pouco. A Indeov sempre entendeu que a formação individualizada de médicos e pacientes é um dos principais gargalos

Além desse trabalho, fazemos eventos e apoiamos congressos e seminários. Ajuda o fato de nossa equipe ter boa formação técnica. Estimulamos que eles deem aulas e façam o possível para dar segurança aos médicos no apoio aos pacientes.

O interesse pelo tema tem aumentado de forma palpável?
Nossa, muito… Fomos a primeira equipe, quando começamos em 2016, a oficialmente fazer a educação de médicos. No nosso primeiro evento de educação em medicina canabinoide, no Hospital do Servidor Público de São Paulo, tivemos a presença de apenas 15 médicos.

Já em 2019, participei de um congresso oferecido pela Associação de Neurologia e Psiquiatria Infantil, em Vitória (ES), com um espaço inteiro dedicado à cannabis. Num ambiente tão conservador, eram três empresas de cannabis entre as dez que apoiavam o evento. Agora não precisamos mais ficar buscando os médicos, eles chegam naturalmente ao nosso estande.

A Indeov foi finalista do programa de aceleração Accelerate 2030, da ONU no Brasil. Como foi a participação de vocês nesse processo?
Foi muito importante. Chegamos a perguntar diretamente para o escritório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, e descobrimos que fomos a primeira empresa de cannabis a ter um apoio da organização no mundo.

Na época, a Organização Mundial da Saúde tinha recomendado à ONU que mudasse a classificação da cannabis como substância entorpecente. Essas convenções internacionais têm impacto direto em política externa, e vejo com bons olhos essa mudança

No programa, foram feitos workshops para que estruturássemos nosso plano de ação, com a ajuda de experts  em diversas frente. Focamos no planejamento e na disposição global da empresa, levando em conta nosso alto potencial de impacto.

Determinamos uma frente de tecnologia, realizando encontros com outros empreendedores, para finalmente entregar uma rota para uma futura expansão global. Com base nesse planejamento, desenhamos algumas parcerias estratégicas, ouvindo as perspectivas de quem nos apoiou durante essa imersão.

Graças ao programa, ganhamos legitimidade e descobrimos que estamos sendo vistos. Foi muito importante para dar validade à nossa rota de operação e mensurar nosso impacto

Inclusive fizemos, com o apoio da ONU, um estudo para medir o impacto que a Indeov teve na vida das pessoas (não apenas pacientes, mas também familiares, cuidadores, todo um entorno). Foram 10 mil pessoas alcançadas direta e indiretamente. E é só o começo dessa história.

Como você avalia o mercado brasileiro de cannabis medicinal e as tendências atuais?
A cadeia ainda não poderá ser verticalizada, infelizmente, mas vejo como uma tendência futura, embora mais restritiva do que em livres mercados como Estados Unidos e Canadá. Com a nova resolução da Anvisa, muitas empresas auxiliares, importadoras, distribuidoras e redes de farmácias devem passar por ajustes e se tornar mais especializadas em cannabis.

Com o tempo, surgirão empresas de comunicação e escritórios de advocacia com um braço focado em cannabis, tudo pelo que outros países mais avançados já passaram

Em paralelo, vejo que habeas corpus preventivos para o plantio de cannabis ainda vão ter espaço, tanto para indivíduos como para empresas. As pessoas vão encontrando oportunidades de abrir brechas na legislação, para que outros caminhos surjam no futuro.

O aumento da discussão sobre cannabis medicinal tem melhorado a percepção pública sobre o tema?
Vejo isso pelo meu pai. Ele foi a pessoa que mais resistiu no começo, e hoje é um dos maiores entusiastas. Fala para todo mundo de mim, da cannabis medicinal, é meu cliente hoje [o pai de Camila sofre com insônia e dor crônica] e traz até amigos para experimentarem. Enquanto antes os médicos nem respondiam, hoje muitos têm interesse em saber mais. Temos tido uma evolução bárbara, o que me deixa muito feliz.

Costumo dizer que a cannabis vai ser aceita de fato quando estiver na novela da Globo. Isso ainda vai acontecer, é só ver o número de pessoas famosas que fazem uso de remédios com cannabis. Se um rosto conhecido fala, naturalmente outras pessoas vão querer usar

O fato de veículos como a Folha de S.Paulo, a revista Época, a Veja, todas terem canais para discutir o assunto tem feito diferença. Sem a imprensa falando em cannabis, não haveria resolução da Anvisa. Educação, comunicação e políticas públicas vão determinar nossa rota.

 

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