Courrieros, a startup que decidiu pedalar — literalmente — para ganhar mercado

Rafael Nardini - 15 maio 2015
Equipe da Courrieros: cada cliente é um, cada ciclista também é um.
Rafael Nardini - 15 maio 2015
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“Então você tem OAB para pedalar?” André Biselli, 24, ouviu todo tipo de pergunta cabeluda quando decidiu abrir as portas da Courrieros há três anos. Na época ele estava terminando o curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) e os colegas pareciam desconfiados com a atitude de largar o escritório FreitasLeite para criar uma empresa de ecolivery — ou seja, “delivery ecológico”, mais especificamente, feito com o uso de bicicletas em vez de veículos motorizados.

André tinha passado pelos também tradicionais colégios Santo Américo e Dante Alighieri, mas não se sentiu atraído pela vida de terno, gravata, ar condicionado e horário fixo. “Me sentia enclausurado. Chovia e não percebia. Me irritava no trânsito, no trabalho”, conta ele. Os seis meses de intercâmbio em Santiago, no Chile, ainda durante a faculdade, tinham sido a primeira faísca de descontetamento mais clara. Lá, não tinha metrô lotado às 7h da manhã nem gente desesperada com o sinal vermelho no trânsito. Sobravam bicicletas pelas ruas, uma menor preocupação com o trabalho e um aparente apreço com a qualidade de vida no estilo “faço menos, ganho menos, vivo mais”.

Somada à vivência no exterior, havia a presença do amigo de todas as horas, Victor Castello Branco, que andava descontente com o trabalho no mercado financeiro e, assim como André, estava doido para arriscar e montar um negócio próprio. A primeira tentativa da dupla de empreender aconteceu em 2010. Os dois ajudaram a montar um site que tentava ligar voluntários aos projetos sociais que procuravam gente de confiança. Porém, apesar de 15 amigos terem iniciado juntos a plataforma, com o tempo, André e Victor perceberam que eram os únicos realmente empenhados em levar aquilo adiante. Voltaram à estaca zero.

Os sócios da Courrieros André, Victor e Lucas.

Os sócios da Courrieros: Lucas, Victor e André.

Em fevereiro de 2012, viria a salvação. Victor estava de volta de uma viagem a Nova York e almoçava com André. Entre uma garfada e outra, lançou a ideia: criar um sistema de entregas com bicicletas, serviço comum na Inglaterra e na França. “A gente pedala, gosta de esporte e podemos criar uma empresa com a nossa cultura”, sugeriu e, na volta do almoço, redigiu o primeiro e longo e-mail com a descrição do que viria a ser a Courrieros. “Li e pensei: é essa ideia mesmo. Eu comprei, ele comprou. Estamos juntos no barco”, conta André.

UMA IDEIA INOVADORA, UM CENÁRIO ADVERSO

Depois daquele almoço, a caixa de e-mails dos dois não pararia mais. E os finais de semana passaram a ser períodos de experiência para analisar o relevo da cidade de São Paulo, estudando trechos específicos, cronometrando o tempo de entregas imaginárias e calculando as possibilidades para áreas de atendimento do futuro negócio. Eles reuniram 40 mil reais de investimento inicial, essencialmente, vindos de economias dos dois. No caso específico do André, era o dinheiro que havia conseguido guardar durante os estágios em escritórios de advocacia. Os agora sócios também encomendaram pesquisas de mercado e decidiram colocar as bikes na rua. Mas, se ainda hoje há quem seja contra as faixas segregadas para bicicletas no asfalto, a coisa era ainda mais adversa aos ciclistas naquele período, como André lembra:

“Quando a gente começou não havia nem a ciclovia da Faria Lima. Estava em obras. O Haddad não havia nem sido eleito. Hoje a bicicleta está em pauta, é um meio legal. Há três anos, não era assim”

O turning point, quando a ideia começa a virar realidade, veio em agosto de 2012. Nessa fase, Victor começou segurando as pontas sozinho da operalização da Courrieros. As primeiras entregas seriam despachadas em 1º de outubro, oito meses após aquele almoço. O planejamento inicial previa que André só deixasse o escritório de advocacia, onde estagiava, somente em junho de 2013. Mas o cálculo furou. Com um mês de funcionamento, o número de entregas e de clientes já era suficiente para deixar Victor completamente maluco. Em um telefonema, André ouviu do sócio: “Erramos por oito meses nossa previsão. Você vai ter de pedir demissão agora”.

A decisão de deixar a advocacia e montar a Courrieros foi comunicada ao chefe, Raul de Paula Leite Filho, sócio do FreitasLeite, de imediato. Ele foi duro, direto, com o demissionário: “Você tem 21 anos. Tem diploma. O máximo que pode acontecer é quebrar, perder dinheiro e precisar recomeçar. Mas do chão você não passa”. Ouvir isso serviu como impulso para André, uma carta branca para seguir o que ele sentia, mesmo que poucos entendessem seu propósito:

“Ouvia coisas do tipo: Você é um motoboy de bicicleta? Isso dá uma desestabilizada. A gente não sabia quanto tempo ficaria sem dinheiro ou se a Courrieros daria certo”

Naqueles meses que antecederam o início das atividades,  André, então com 21, e Victor, com 23 anos, chegaram a ouvir durante reuniões que estavam “brincando de empreender”. A solução foi correr atrás de quem entendia a ideia do serviço de entregas sustentáveis. André usou a experiência e os contatos feitos no meio jurídico. Além do escritório FreitasLeite, passara um mês e meio trabalhando no Ministério Público e um ano e quatro meses no Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns, da PUC-SP. Os ex-colegas de trabalho da dupla eram, agora, todos clientes em potencial. Atualmente, os escritórios de advocacia Motta, Fernandes Rocha e Martens & Tognotti usam os serviços da Courrieros. Do mercado financeiro e das investidas de Victor, viriam clientes como o Itaú BBA e o Merrill Lynch. Com o tempo, outros ramos também pegariam carona nas magrelas da startup: Odebrecht, JHSF, Young & Rubicam, Santo Grão e Netshoes, para ficar em alguns exemplos.

Há três tipos de serviços feitos pela Courrieros: entregas avulsas, contratos fixos com empresas a partir da demanda específica e casos onde os ciclistas-mensageiros ficam alocados nas empresas contratantes (sete clientes que mantêm este regime). O custo das entregas avulsas varia de acordo com a distância. Uma entrega simples programada, solicitada com até 18 horas de antecedência, sai de 20 a 45 reais. As entregas rápidas (quando o cliente faz o pedido imediato), são um pouco mais caras, 23 a 52 reais. Os pagamentos podem ser feitos em dinheiro, cheque, depósito em conta, boletos ou via PagSeguro. 

Com as entregas funcionando a pleno vapor, Victor e André passaram tentar valorizar outros padrões dentro da Courrieros. Eles queriam criar uma cultura própria, menos engessada do que a vivida nas grandes corporações. “As pessoas vão endurecendo. Elas esquecem o que sentiam quando o problema era com elas. Tem aquilo de ‘foi comigo assim, vou reproduzir com o outro assim’”, diz André. Por isso, na Courrieros, se não tem entrega, os ciclistas podem ir para casa descansar mais cedo sem problemas. “Na maioria das empresas você é obrigado a cumprir um horário, mas tem dia que você não faz nada. Vira uma corrente de faz de conta que eu não vejo o porquê.”

PARA ELES, SE CADA CLIENTE É UM, CADA FUNCIONÁRIO TAMBÉM É UM

Clientes têm demandas específicas, e na Courrieros, cada um dos ciclistas também. O ideal é mediar tudo para que uma coisa encontre a outra e as duas pontas estejam contentes. Para André, entrega por entrega, há sempre outra opções — e o mercado já estava repleto delas. “A produtividade dos ciclistas depende muito do ânimo de cada um deles. Bem ou mal, eles são atletas, mas não têm aquilo de crescer na hora da decisão. É um trabalho constante e eles precisam estar bem”, conta.

A cultura mais verticalizada também foi ultrapassada. Duas vezes por mês, os quase 40 funcionários têm a chance de jogar para fora as angústias, apontar erros de direcionamento, dar sugestões ou apenas tecer críticas à empresa. Da cultura esportiva, que tanto agrada aos sócios, foi adquirida a preocupação com a totalidade, com o grupo, em fazer deles praticamente uma família.

Para que a estrutura funcione na ponta dos cascos, as missões foram divididas. André cuida de tudo que cairia nos departamentos Financeiro e Jurídico de uma corporação maior, por exemplo. Por sua vez, Victor é encarregado do Comercial e do Operacional, enquanto o mais novo sócio, Lucas Mello, cuida dos Recursos Humanos. Tudo parece um reflexo da própria opção pelas bicicletas. “A bike ajuda o contato na rua. Não tem proteção. Você parou no farol, se vierem te oferecer bala, existe o contato. O cara olha para você, você olhou para ele. No carro, as pessoas fecham o vidro com insulfilm e ficam lá com o som no último volume”, diz André.

"Courriero" em ação: Bigode, 42, é o "velocista" do grupo.

“Courriero” em ação: Bigode, 42, é o “velocista” do grupo.

Na empresa, os ciclistas são todos contratados com registro na carteira como ciclista-entregador, categoria que está dentro do Sindimoto, a mesma que representa os motoboys paulistanos. Mas quem decide enfrentar o trânsito de bicicleta profissionalmente? André conta que o único fio condutor entre os “courrieros” é o amor pela bicicleta. “Já tivemos ex-chefe de cozinha, gente que trabalha aqui só para guardar um dinheiro e até mãe e filho que trabalhavam juntos aqui. O Bigode tem 42 anos e pedala muito forte. É o nosso velocista”, brinca.

SER ECOLÓGICO, NA PRÁTICA, É UM DESAFIO

O propósito da Courrieros é fazer entregas de maneira ecológica, e os sócios contam que isso é uma decisão que exige adaptações e escolhas difíceis. Implica no rigor em abandonar completamente o uso de veículos motorizados. Trocar uma moto por uma bicicleta chega a retirar 170kg de gás carbônico da atmosfera em um mês. Mas a sustentabilidade exige um pouco de sacrifício. Com a Netshoes, por exemplo, os produtos são trazidos de Barueri (na Grande São Paulo) de moto para, só depois, serem distribuídos de bicicleta pela capital. Para se manter absolutamente verde, André simplifica: “Você precisa ser chato”.

Tal chatice, no entanto, já rendeu bons frutos. Em junho de 2013, os fundadores foram à Guatemala para levantar o Prêmio Eco-Challenge no Tic Americas, superando outros 3,7 mil projetos inscritos. Eles também faturaram o Best For The World, iniciativa que premia o desempenho das melhores empresas do chamado Sistema B.

Da jornada iniciada em outubro de 2013 até aqui, André traz na garupa um aprendizado que vai além do lado profissional: o de tentar ser ele mesmo. “Minha maior realização foi decidir abrir uma empresa, cuidar das bikes e deixar o Direito, uma profissão que trazia um certo status”, conta ele, que também aponta alguns erros:

“Meu maior erro foi ficar muito tempo preocupado com o que as pessoas iam achar. Vou errar sendo eu. É mais fácil de arrumar. Quando você erra não sendo você, as coisas ficam nebulosas”

André já planeja novos desdobramentos para a empresa.  São Paulo tem 220 mil motoboys, enquanto a Courrieros faz, em média, 350 entregas por dia na cidade. Os números, segundo André, mostram o quanto o serviço de entrega com bicicletas pode crescer nos próximos anos. Hoje as entregas são feitas num raio de 10 quilômetros que compreende os bairros de Pinheiros, Jardins, Santo Amaro e o Jabaquara. A sede da empresa fica na rua Lisboa, em Pinheiros, e divide um sobrado com a floricultura Jardineiro Fiel. Talvez seja a proximidade com as plantas, mas eles estão atentos a essa nova São Paulo que parece florescer.

E se, de repente, novas oportunidades surgirem, a Courrieros vai estar lá. No último mês de abril eles iniciaram uma fase de testes no Rio de Janeiro, seguindo em grande parte os moldes paulistanos da empresa. Tudo com calma. Uma pedalada de cada vez.

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Courrieros
  • O que faz: Entrega encomendas usando bicicletas
  • Sócio(s): André Monteiro de Barros Biselli, Victor Castello Branco e Lucas Mello
  • Funcionários: 30 (entregadores-ciclistas) e os sócios
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: outubro de 2012
  • Investimento inicial: R$ 40 mil
  • Faturamento: R$ 1 milhão
  • Contato: [email protected] e (11) 25387921
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