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Em 1637, o filósofo René Descartes publicou seu Discurso do Método, em que consta “embora haja muitos animais que demonstram mais habilidade do que nós em algumas de suas ações […] aquilo que fazem melhor do que nós não prova que possuam espírito”.
Esta visão está na base da herança cultural predominante no Ocidente, que vê os animais como desprovidos de consciência e linguagem, entre outros atributos.
Mais de três séculos depois da publicação do texto de Descartes (um dos pilares da criação do Método Científico), foi publicado na revista científica Nature o artigo que comunicava ao mundo a clonagem da ovelha Dolly.
Se a clonagem do primeiro mamífero e o advento da engenharia genética estão entre os eventos científicos mais importantes dos últimos séculos, ocorre hoje algo ainda mais curioso: a saída dessas tecnologias de dentro do laboratório para as mãos de qualquer interessado em brincar com elas.
BIOHACKERS: POR UMA CIÊNCIA MAIS DEMOCRÁTICA
Uma das pessoas que demonstram esse interesse é o estadunidense David Ishee. E seu maior foco são os cães. Ele tenta usar manipulação genética para curar doenças caninas e desenvolver métodos que permitam que outros criadores de cães façam o mesmo.
Diferente dos cientistas que clonaram Dolly, David não tem treinamento formal em biologia molecular ou engenharia genética. Ele conta em entrevista ao Atelier do Futuro que é autodidata e se interessou pelo melhoramento genético animal após se dar conta que muitas raças de cachorros geradas através de cruzamentos planejados (a chamada seleção artificial) apresentam sérios problemas de saúde.
Por exemplo, os cruzamentos que geraram o nariz achatado dos pugs levaram esta raça a ter problemas respiratórios sérios. E os dálmatas de raça pura apresentam hiperuricemia, uma condição que leva a graves complicações urinárias.
David integra a comunidade Biohacker, um movimento global que defende que o acesso a tecnologias de manipulação genética não deve ser restrito às instituições tradicionais, como universidades e empresas de biotecnologia, mas estar acessível à sociedade em geral
Biohacking é um termo guarda-chuva que se refere a um conjunto de práticas que vão desde a democratização da biotecnologia e o barateamento de equipamentos de laboratório até a autoexperimentação para melhorar a performance física e mental. De acordo com os anais da conferência Global Community Bio Summit, o propósito da comunidade é “transformar fundamentalmente as ciências da vida e democratizar a biotecnologia para inspirar a criatividade e melhorar vidas”.

David Ishee na série “Unnatural Selection”, da Netflix (ref.)
O movimento biohacker anda de mãos dadas com a filosofia do “faça você mesmo” em Biologia e é considerado a fronteira da “nova revolução industrial” iniciada com o movimento Maker, que democratizou ferramentas como a impressora 3D. A diferença é que cada protótipo é uma versão de um organismo vivo e a matéria-prima é o próprio DNA.
Para muitos é aí que reside o potencial de inovação: descentralizar o acesso ao laboratório para que membros da comunidade possam trabalhar independentemente em projetos que não seriam realizados nos laboratórios tradicionais
Foi assim que surgiram espaços como o Biocurious no Vale do Silício e o Genspace em Nova York, laboratórios tão bem equipados quanto um laboratório acadêmico, feitos para atingir uma audiência que vai de artistas e designers a entusiastas como David.
Apesar de tecnologias como o CRISPR estarem alterando a maneira e a precisão com que manipulamos o genoma dos organismos, a humanidade já faz isso há milênios, pela seleção e cruzamentos entre animais ou plantas com características desejáveis (por nós, claro). A melancia, o milho e as diversas raças de coelho e cachorro que conhecemos não existem normalmente na natureza.
O desenvolvimento da Biologia e das Ciências Biomédicas se deve em grande parte ao uso de organismos não humanos para a compreensão de fenômenos biológicos. Plantas como Arabidopsis thaliana e animais como a mosca das frutas (Drosophila melanogaster) e o conhecido rato de laboratório se tornaram o que os biólogos chamam de organismos-modelo, com os quais a maioria dos experimentos são conduzidos.
Estima-se que 84% dos ganhadores do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina utilizaram modelos animais em suas pesquisas, o que é encarado por muitos como socialmente aceitável já que estes projetos carregam o potencial de curar doenças e reduzir o sofrimento da nossa própria espécie
Mas nem sempre a fisiologia dos organismos-modelo recapitula com exatidão a fisiologia humana e, portanto, a experimentação em animais não é sempre justificada, mesmo quando o objetivo é desenvolver um tratamento para uma doença humana grave ou testar a segurança de produtos feitos para nosso uso. Um exemplo é o medicamento fialuridina, que se mostrou seguro quando testado em camundongos, ratos, cães e primatas, mas causa graves danos ao fígado em humanos.
“Na comunidade biohacker há um bom número de pessoas focadas em plantas e em humanos ou em um micro-organismo específico que eles estão interessados, mas os animais estão bem abaixo pois são complexos, moral e eticamente, e o processo de manter os animais de laboratório pode ser muito difícil num contexto ‘faça você mesmo’”. (David Ishee, cientista e membro da comunidade Biohacker)
David defende que muito sofrimento já foi gerado aos animais pela própria seleção artificial por humanos e que a engenharia genética é nossa chance de reparar os danos causados: “Acho que também devemos usar esse poder para prevenir o sofrimento de todas as espécies que estão vivas hoje, especialmente as que têm feito tanto por nós”, complementa.
O problema da alteração genética em animais não é novo. Mas o que não está claro é se o Biohacking vai ajudar a melhorar a qualidade de vida das outras espécies ou alavancar um futuro ainda mais antropocêntrico. É aí que se insere o campo da Bioética.
“Bioética é um campo que deveria ser trabalhado pensando na responsabilidade que nós temos em relação a todos os outros organismos do planeta.” (Frank Alarcón, Bioeticista)
Entre os marcos dessa área estão a Declaração de Helsinki e o Relatório Belmont, diretrizes que especificam o que é e o que não é aceitável fazer com humanos em prol da pesquisa científica. O paradigma sendo nossa espécie como digna de proteção, justificando o uso de outras espécies em seu favor. No Brasil, o marco regulatório é a Lei Arouca (Lei nº 11.794, de 8 de outubro de 2008), que estabelece os limites éticos para a utilização de animais vertebrados (com foco apenas neste subfilo).
Mas se a própria “ética da vida” é definida sob o prisma do humano (e deliberadamente exclui grupos específicos de seres), como garantir que a disseminação de tecnologias não opere em prol da opressão dos seres que não contam com o privilégio de consentir?
O consentimento surge aqui como um dos principais dilemas do uso científico de animais e, ainda que vejamos hoje um crescente reconhecimento da senciência dos outros seres, a ciência ainda não incorporou esta característica como premissa básica.
Mas se já estava difícil para as autoridades regulatórias entenderem como lidar com ações como a de Jo Zayner, que se injetou ao vivo com uma terapia gênica feita com CRISPR para alterar suas células musculares, o que dizer de casos como o da coelha Alba, criada pelo artista brasileiro Eduardo Kac para ser fluorescente quando iluminada com luz azul?
O caso de Alba foi ainda mais polêmico quando anunciado, em 2000, por se tratar de um organismo transgênico (ou seja, que expressa um gene de outra espécie) gerado para fins artísticos. Alba se tornou um manifesto de que a engenharia genética pode ser usada para fins que vão muito além de curar doenças humanas.
A Bioarte (Eduardo Kac foi um dos signatários do Manifesto da Bioarte) caminha próxima do Biohacking e vemos o surgimento de projetos especulativos na fronteira entre ciência, arte, design e sociedade.
É o caso do Pigeon D’Or, que tentou transformar as fezes de pombos de rua em sabão para limpeza urbana. E também do projeto Silk Pavilion, da designer e arquiteta Neri Oxman, que usou milhares de bichos-da-seda para gerar uma estrutura arquitetônica experimental que unia impressão 3D com processos biológicos
Para Kac, é importante desvincular a ideia de manipulação genética da geração de aberrações (Alba é tão fofa quanto um coelho selvagem). Para Oxman, o futuro da arquitetura depende necessariamente de uma relação mais íntima e saudável com outras espécies (no futuro insetos farão parte do processo de construção de edifícios).

A coelha Alba foi criada para a obra GFP Bunny, de Eduardo Kac (ref.)
Se por um lado pode ser assustador saber que cientistas estão tentando trazer de volta animais extintos como o dodô e o mamute, iniciativas como o Revive & Restore defendem que temos a obrigação de lançar mão da biotecnologia para restaurar ecossistemas degradados.
Esse propósito lembra a motivação de David em sua busca pela cura para os dálmatas, mas fica mais difícil entender onde situar projetos como o The Los Angeles Project (LAP), cofundado por Jo Zayner, que ambiciona criar “pets fantásticos” como coelhos fluorescentes (Alba ganhará as casas dos amantes de coelhos?) e até mesmo um unicórnio!
Diante de motivações tão diversas para modificar o DNA de outras espécies, é crucial questionar se o uso dessas tecnologias estará a serviço da inovação ou do puro espetáculo. O objetivo é reparar danos infligidos a espécies presentes e passadas ou ampliar as opções de pets disponíveis para entretenimento humano?
Será que estamos apenas lançando mão de um arsenal ainda mais sofisticado para provar o antigo ponto de que somos capazes de dominar todas as manifestações da vida no planeta?
Um campo tão recente, difuso e difícil de regular, como o Biohacking, se torna um sinal cada vez mais forte de que o futuro é multiespécie por definição. Resta garantir que este futuro não se mostre inovador apenas nas formas de dominar os seres não humanos.
Eduardo Padilha é um artista e cientista radicado em São Paulo, que explora a interseção entre ciências naturais e arte. Farmacêutico pela Universidade de São Paulo, foi convidado a palestrar sobre democratização da ciência, ciência cidadã e as interseções entre ciência, filosofia, design e arte no Brasil, Chile, China e Estados Unidos. É um dos organizadores da Conferência Bio Summit e trabalha como Cientista Clínico em ensaios clínicos que testam novos medicamentos em humanos em diferentes áreas terapêuticas. Já foi da equipe do Atelier do Futuro e agora é Conselheiro do Estudo Futuro Multiespécie.
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