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Do solo ao prato: a Raízs gera consciência alimentar aproximando produtores rurais e consumidores

Isabela Mena - 9 jul 2018
Adriano Silva, publisher do Draft, e Tomás Abrahão, criador da Raízs: papo franco sobre empreendedorismo com propósito
Isabela Mena - 9 jul 2018
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Ao ouvir Tomás Abrahão falar sobre a Raízs, é difícil resistir ao impulso de realizar na hora uma compra no seu e-commerce de produtos orgânicos. A paixão na voz do empreendedor (traduzida mais de uma vez pela palavra “tesão” durante a gravação do Sebraecast, em abril, num estúdio na Vila Mariana, em São Paulo) contagia os ouvintes e deixa evidente a fusão que existe entre a pessoa e o seu negócio.

A Raízs nasceu em 2016 com a missão de gerar não apenas lucro, mas um impacto positivo na sociedade. Mais do que uma plataforma online de venda de orgânicos (hortifrútis, lácteos, grãos, pães, cosméticos etc.), funciona como um elo de conexão entre agricultores e consumidores, fomentando o trabalho de pequenos produtores rurais e fortalecendo a consciência alimentar e social entre os clientes.

Cada item vendido pela Raízs traz na embalagem o nome e a foto da família que cultivou aquele alimento ou a matéria-prima do produto. É uma forma de aproximar as duas pontas da cadeia. E essa aproximação vai além do plano simbólico: um programa de visitas aos sítios fornecedores permite conhecer a plantação, participar da colheita e ajudar a preparar um almoço compartilhado (para acompanhar um dos passeios, com duração média de seis horas, basta entrar em contato com a Raízs).

No site, é possível conhecer um pouquinho da história de alguns dos agricultores familiares que fazem parte da cadeia de fornecedores da Raízs. A empresa mantém ainda o Fundo do Pequeno Produtor, ao qual destina 10% do seu lucro. “São os agricultores que definem o que querem fazer com o dinheiro”, diz Tomás.

Curiosidade: a ausência do “e” em Raízs tem uma explicação simples – a marca “Raízes” já estava tomada. O plural do nome reforça a ideia de origem enquanto construção coletiva – nossas raízes são muitas, nunca uma só. Tomás explica ainda que a logomarca reproduz em sua simplicidade a caligrafia dos produtores rurais.

Engenheiro de Gestão formado Universidade Federal do ABC, ele trabalhou por um ano na área de sustentabilidade de uma consultoria estratégica, em São Paulo. Na sequência, partiu para Bangladesh, onde conseguiu uma vaga no Grameen Bank, especializado em microcrédito, e conheceu brevemente seu fundador, Muhammad Yunus – autor de O Banqueiro dos Pobres e Prêmio Nobel da Paz em 2006.

Na jornada no pequeno país asiático, Tomás bebeu da fonte dos negócios sociais, em contato direto com o Yunus Social Business Center. E assim, três meses depois, ele voltou ao Brasil mudado, com sede de enveredar pelo empreendedorismo social.

O ano era 2014. Desde menino, graças à mãe, Tomás cultivou a consciência da importância de uma alimentação saudável. Decidiu, então, fazer dos alimentos orgânicos o centro do seu novo negócio.

Ele pediu mentoria a um ex-chefe, o engenheiro agrônomo e ambientalista Marco Antônio Fujihara – que resolveu investir R$ 21 mil e se tornou seu sócio (antes de deixar o negócio em 2017). Outros R$ 25 mil vieram de 204 doadores por meio de um financiamento coletivo, totalizando os R$ 46 mil de investimento inicial da Raízs.

Com o plano de negócio montado, Tomás rodou o interior de São Paulo, buscando conhecer pessoalmente os pequenos produtores rurais – naquele contato com uma dúzia de famílias, formou-se o embrião de sua rede de fornecedores (hoje, são 78). O trabalho de ampliar essa rede segue ativo; um fotógrafo profissional cuida hoje do registro das imagens das famílias, que antes cabia à irmã e a uma amiga de Tomás.

O empreendedor rodou o MVP (Minimum Viable Product) em janeiro de 2016. Em abril, outros sócios embarcaram na empreitada. Um deles, Bruno Rebouças (“amigo de um amigo” que trazia no currículo uma experiência no Google e um curso de Estratégia Global & Comunicação na Era Digital pelo Massachusetts Institute of Technology), tocou a operação com Tomás até julho de 2017; os demais, Antônia Teixeira e Pedro Navio, investiram R$ 150 mil cada.

Em maio de 2016, a Raízs estava oficialmente no ar. Os amigos foram os primeiros compradores. Nesses dois anos, isso mudou bastante, claro: a base hoje tem 2 mil clientes recorrentes, incluindo 11 restaurantes e três empresas (uma delas a Red Bull, que encomenda frutas para o consumo dos funcionários), todas baseadas em São Paulo – a área de entrega, por enquanto, restringe-se à capital paulista.

São quase mil produtos, incluindo hortifrúti, azeite, bolacha, café, vinho, laticínios, molhos, massas, geléias e produtos de higiene e limpeza – tudo orgânico. Ovos, tomate italiano, couve manteiga e pão estão entre os mais vendidos. A pedido dos consumidores, Tomás passou a comercializar cestas entregues semanalmente, mediante uma assinatura mensal (em vez de vender apenas produtos avulsos).

“Se não ouvir seu cliente você está ‘morto’ enquanto empresa”, diz Tomás. “Startups conseguem mudar processos rapidamente, então é importante aprender a ouvir.”

Com dez funcionários, a Raízs mantém um escritório no bairro da Vila Madalena. A maioria dos fornecedores encontra-se nas zonas rurais de localidades próximas da capital paulista, como Caucaia do Alto, Ibiúna e São Roque. A entrega aos clientes é terceirizada (feita de carro e, em alguns casos, bicicleta); pedidos realizados até 11h chegam no dia seguinte.

Essa agilidade é importante para garantir alimentos sempre fresquinhos. Quando falta algum produto para entrega, é bem capaz que a “culpa” seja da natureza.

“Muitas vezes, quando chove, não é possível colher as folhosas e a cesta vai chegar ao cliente sem elas. Também nunca vamos ter morango em outubro, porque não é época. Criar no cliente essa conscientização é um passo difícil mas a gente planta uma semente e vai fazendo isso aos poucos.”

O respeito à terra e à sazonalidade está no cerne da Raízs. Tomás diz que, nesse ponto, não há distinção entre o que pensam a pessoa física e a jurídica: o lucro e o impacto precisam caminhar de mãos dadas. Em outros aspectos, ele precisou fazer um exercício de desapego, aprendendo a separar o ego e o negócio.

“A empresa vai crescendo, ganhando funcionários, consumidores. E o empreendedor percebe que ela não é sua, é do mundo”, diz. “A Raízs vem para gerar consciência não só alimentar mas em relação ao outro, por isso propomos as visitas. E é essa troca entre as pessoas que me dá um tesão a mais para viver.”

***

O Sebraecast apresenta uma série de entrevistas com empreendedores sobre startups, negócios criativos, negócios sociais, inovação corporativa e lifehacking. Confira a websérie em youtube.com/sebrae e o podcast em soundcloud.com/sebrae!

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