Draft Ano 2 – A sorveteria Frida & Mina, 24 meses depois…

Phydia de Athayde - 1 set 2016 Thomas e Fernanda seguem à frente da Frida & Mina. A família aumentou, e o negócio deverá abrir uma filial em breve.
Thomas e Fernanda seguem à frente da Frida & Mina. A família aumentou, e o negócio deverá abrir uma filial em breve.
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Bem no início do Draft, em outubro de 2014, retratamos um negócio familiar que tinha acabado de nascer. Era inovador não por vender sorvete, mas pela maneira que fazia isso. O título dizia “Na Frida&Mina, um sorvete é mais que um sorvete: é uma escolha radical por uma vida mais feliz”. Fernanda Bastos e Thomas Zander continuam à frente do negócio e aceitaram o convite do Draft para revisitar a trajetória dos dois anos passados desde então.

O papo aconteceu na sala do apartamento em que eles vivem hoje (a primeira conversa tinha sido nas mesinhas da sorveteria), a poucos metros da esquina da Frida & Mina. Eles se mudaram para lá depois que a família cresceu: além de Leila, hoje com 5 anos, o pequeno Otto, de sete meses, chegou e a logística ficou mais fácil com a maior proximidade do trabalho. Os dois são os mesmos, com sutis diferenças: cabelos brancos nas têmporas dele, um leve cansaço nos olhos dela (das noites com Otto, que mama de madrugada).

Há dois anos, a sorveteria foi retratada no Draft (clique na foto para ler).

Há dois anos, a história da Frida & Mina apareceu no Draft (clique na foto para ler a reportagem).

Antes de responderem às perguntas — sobre mudanças na vida pessoal, no funcionamento da empresa e nos planos para o futuro —, pedi que relessem o texto publicado lá atrás.

Eles parecem ler devagar, como se viajassem no tempo. Fernanda termina pouco antes dele e percebo isso pela maneira amorosa, orgulhosa, com que olha para Thomas, que devolve o olhar e em seguida suspira: “É… Eu estava numa fase de transição na vida, de uma mudança muito intensa”. Até ali ele era um publicitário se aventurando na vida de empreendedor: “Hoje estou mais preparado, mas os perrengues ainda existem”. Ela também coloca a vida em perspectiva:

“Hoje é mais confortável me enxergar como empreendedora. Quando abrimos, era assustador”

Muitos novos negócios levam tempo para se firmar, encontrar seu mercado, começar a crescer. Na Frida & Mina foi diferente, pois logo nos primeiros meses da operação eles ganharam o prêmio de melhor sorvete da cidade (da revista Veja São Paulo), uma honraria que trouxe quantidades inesperadas de fama, clientes e problemas. “A gente teve que correr atrás por causa desse sucesso. Fomos meio que penalizados, porque a gente não tinha pensado naquilo tão cedo”, diz Fernanda. Os planos que eles haviam feito para o primeiro ano foram “atropelados” pela realidade. “Quando abrimos, nossa vontade era simplesmente estar vivendo aquilo. O plano era aquele”, conta Thomas.

O DOMINGO É DA FAMÍLIA. TRABALHAR OU NÃO?

Uma das curiosidades de se revisitar negócios é saber como o cotidiano confirma — ou põe em xeque — as premissas de seus fundadores. A Frida & Mina, por exemplo, não abria aos domingos: Thomas e Fernanda tinham por princípio que o dia deveria ser livre para curtirem a filha, Leila, e também queriam que seus funcionários tivessem esse tempo relaxado com suas famílias. Parece um detalhe bobo, mas se pensarmos que o negócio é uma sorveteria, portanto um lugar que lucra com o lazer, o domingo é um dia potencialmente importante para o faturamento. Pois bem: o domingo continua sagrado, mas…

“A gente não abria aos domingos porque tínhamos uma filha. Só que a família aumentou e agora precisamos abrir, justamente porque temos dois filhos”

Fernanda brinca com a situação mas, além do potencial de faturar mais, ela conta que os clientes sempre pediram isso. “Alguns nunca se conformaram da gente estar fechado aos domingos, como se tivéssemos obrigação”, diz.

Na parede da Frida & Mina, os princípios do negócio - e da vida - seguem firmes.

Na parede da Frida & Mina, um quadro lista os princípios do negócio – e da vida – que eles trabalham para ter.

Aqui também cabe um pequeno parênteses para falar de outro aspecto da passagem do tempo num negócio: o relacionamento com clientes e (no caso deles) também com os foodies, os amantes de gastronomia que podem ser um tanto cruéis em suas críticas. As críticas ainda machucam, mas eles aprenderam a separar o que é algum problema da sorveteria (instalações, funcionários, limpeza) e que eles têm obrigação de resolver do que é apenas… gosto. Se o sujeito não gostou taaanto assim do sabor Morango Balsâmico, que fazer? Nada. Segue o jogo.

Pois bem, para abrirem aos domingos eles tiveram de alterar o quadro de funcionários. Contrataram mais dois atendentes (de 8, hoje são 10 fixos) e passaram a usar frilas para preencher uma escala de horários montada para que todos tenham, sempre, uma folga no sábado ou domingo e mais um domingo livre no mês. Sai mais caro, mas é o preço que eles pagam, e vão pagar “enquanto o negócio permitir”, para que o sabor original não se perca. Thomas diz como se sente em relação a isso: “Me assustava, e ainda assusta, pensar que essa história paga não só as minhas contas, mas a de outras 10 pessoas que dependem da gente para viver.”

NEM TODA NOVIDADE FUNCIONOU COMO O PLANEJADO

Depois daquele primeiro semestre arrasador, em 2014, no verão de 2015 a Frida & Mina veio com uma novidade. Em março, colocou pra rodar uma bicicleta, customizada para caber um freezer, para vender sorvetes na rua. A ideia era aproveitar a onda dos food trucks. “Mas vimos que vender na rua não vale a pena”, conta Fernanda. A bike também esteve em eventos (como a Feira Plana, a Casa Tpm e a Virada Sustentável) nos quais o acordo é pagar para estar lá e ficar com a renda dos sorvetes vendidos.

Antônio pronto para levar a bike da Frida & Mina a eventos, como a Virada Sustentável, no último fim de semana.

Antônio pronto para levar a bike da Frida & Mina a eventos, como a Virada Sustentável, no último fim de semana.

“No nosso melhor evento vendemos 90 litros de sorvete, mas também aconteceu de vendermos apenas 10 bolas”, diz. Hoje, a bicicleta vai para a rua em média uma vez por mês, geralmente contratada para festas ou eventos fechados, num esquema em que o produto já sai dali vendido. “É legal ter a bike, ainda que o retorno não seja tão bom.”

No balcão, a Frida & Mina continua vendendo basicamente os mesmos sabores. Os ingredientes ainda são orgânicos, e os parceiros (como os chocolates Amma) seguem os mesmos. Os parceiros de avental também: tanto Antonio de Almeida (que é “a cara” do balcão) como Silvio Silva (o “braço direito” da cozinha) permanecem firmes na equipe e amadureceram junto com o negócio.

Na casquinha ou no copinho, o campeão de vendas ainda é o sabor Crocante de Macadâmia mas, ora ora, eles lançaram uma linha de sorbets (sorvetes mais leves, sem leite na receita) nos sabores Manga, Frutas Vermelhas, Goiaba e Cupuaçu. A oferta, porém, permanece suscetível à sazonalidade dos ingredientes, então não é todo dia que eles estarão na vitrine.  

Crocante de Macadâmia continua sendo o sabor mais vendido: agora também aos domingos.

Crocante de Macadâmia continua sendo o sabor mais vendido: agora também aos domingos.

Outra novidade foi um upgrade de maquinário. O “coração” da Frida & Mina é a máquina de fazer sorvete (que congela e incorpora ar na massa ao mesmo tempo). Eles trabalhavam com um modelo básico, de 40 mil reais. Recentemente, trocaram por outro, de 130 mil reais. “A máquina nova permite controlar o tempo de funcionamento e também as velocidades da batida. A anterior só ligava e desligava. Além disso, a nova permite fazer quantidades menores, 2 litros, enquanto a antiga só fazia acima de 6 litros por vez”, conta Thomas. A quantidade de freezers também aumentou: de 2 para 4. “Talvez precisemos de mais um.”

Difícil imaginar tudo isso cabendo no sobradinho de esquina onde a sorveteria funciona. E não caberia mesmo. Enquanto eles buscavam uma alternativa para o problema da falta de espaço — o escritório de Thomas era também depósito, e os funcionários não tinham um cantinho de descanso ou vestiário, por exemplo — o imóvel ao lado vagou. Eles, então, alugaram-no, derrubaram a parede que separava as casinhas e a área total da sorveteria pulou de 90 para 180 metros quadrados. Coube freezer, vestiário, depósito e até uma garagem folgada para bicicleta.

COMO LIDAR COM A PRESSÃO PARA CRESCER?

Thomas segue bem perto da operação, cuidando de tudo com a mesma obsessão do princípio. Mas, ele admite, teve de aprender algumas lições. Delegar tem sido a mais difícil. Fernanda conta que eles conseguiram, no último ano, tirar duas férias de 15 dias. “Foi a prova de fogo para o Thomas perceber que as coisas podiam andar sem a gente”, diz. Ele ri, entre tímido e orgulhoso, mas com cara de quem sabe que este é um desafio seu e que ainda requer atenção e um equilíbrio sutil.

Ao falar da performance, Thomas conta que o faturamento de 2015 foi de 1,2 milhão de reais. “É positivo. A gente mais ganhou do que perdeu dinheiro, mas fizemos investimentos em equipamento, imóvel, pessoal. Este é um negócio sazonal. Não é fácil”, diz. Pergunto que dicas ele gostaria de ter dado a si mesmo, lá atrás:

“Descanse. Almoce. Vai dar tudo certo. Aprenda a delegar e lembre que você precisa ter tempo de pensar no seu negócio, em vez de só trabalhar para ele”

E eles têm pensado. Uma questão já em pauta para o futuro próximo é expandir. Crescer ou não crescer? Crescer. Eles já pensam num segundo ponto. A fabricação continuaria ali, mas com os novos equipamentos dá para pensar em aumentar a produção. Otto está ali, Leila já tem 5 anos (adora ficar com o Thomas no escritório da sorveteria, brincando), e isso os obriga a planejar e pensar nos próximos passos.

Fernanda reflete sobre como viveu estes últimos dois anos. Ela diz que o Brasil tem uma coisa muito ruim, que é essa mania de reclamar sempre, um “ai, os impostos, ai, a burocracia, ai, aquilo”. Ela afirma que tudo isso é real, mas que não é impeditivo das coisas darem certo:

“O monstro não é tão grande. Hoje existe a possibilidade de negócios criativos darem certo. Não precisa ser megalomaníaco. Ser pequeno dá certo e vive-se”

Nos últimos meses, Fernanda esteve bem mais em casa, em licença maternidade para cuidar do pequeno. Ela conta que assim que o caçula nasceu Thomas conseguiu passar a almoçar em casa todos os dias — no início da Frida & Mina, perdeu 9 quilos por muitas vezes deixar de almoçar —, algo que faz também aos domingos: vem, almoça, dá banho no Otto, e volta para o batente. A ideia é que, em breve, ela passe a revezar mais com ele os períodos no balcão. O plano é conseguir que, nos dias de semana, Thomas busque a Leila na escola e encerre o expediente às 17h. Para não esquecer de manter a vida doce.

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