Draft Canada: a internacionalização do olhar do Draft sobre o mundo da inovação e do empreendedorismo

Adriano Silva - 9 dez 2019
Ao publicar em inglês, a partir do corredor Toronto/Waterloo, o Draft se torna global, com leitores nos EUA, na Índia, na China, em Israel, no Reino Unido.
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Em 2019 o Draft completou 5 anos de vida. Este é o último dos cinco posts em comemoração ao nosso aniversário.

Tenho um sentimento de realização com o Draft. Essa sensação vem, primeiro, por termos sobrevivido até aqui. Não é simples colocar uma empresa no mundo. Identificar uma demanda, um problema que você consiga resolver com seu talento, com aquilo que você sabe fazer. Criar algo que não existia antes, e ver essa proposta de valor germinar.

E então construir um negócio ao redor disso. Garimpar clientes, fornecedores, colaboradores. Achar um equilíbrio entre esses fluxos de expectativas e de dinheiros que entram e que saem da empresa. Estabelecer preços, custos, processos. Construir uma engrenagem, um sistema de trabalho que garanta as entregas dentro dos prazos e do padrão de qualidade combinados. E ver que aquilo faz sentido.

E depois encontrar seu lugar no mercado. Ver sua iniciativa ir aos poucos se tornando maior que você, dependendo cada vez menos de você para existir. Porque ela faz sentido para os outros, e assim passa a ser reconhecida e a construir a sua própria identidade e a sua própria voz.

Estabelecer uma operação eficiente é uma vitória para qualquer fundador. Poder sair da operação, e vê-la florescer com a visão e o trabalho e as contribuições de outras pessoas, é uma vitória muito maior.

O sentimento de realização nesse aniversário de 5 anos vem, também, de perceber o papel que o Draft tem desempenhado na vida de uma série de pessoas e empresas. Contribuímos para a disseminação de um bocado de ideias e de conceitos que fizeram diferença na trajetória de um tanto de gente.

Geramos negócios, exposição ao mercado, leads de venda, para várias startups. Geramos ganhos de imagem e de reputação para várias grandes empresas. Sempre dentro da nossa missão de dar visibilidade a quem está realizando – e assim inspirar outras pessoas a realizar também, de maneira igualmente inspiradora.

AINDA HÁ MUITO A FAZER. E A INQUIETUDE ACABA DE NOS LEVAR A DOBRAR A APOSTA

Esse é um sentimento de dever cumprido, de trabalho realizado? Acho que não. Ainda há muito a fazer. O trabalho está em curso. A gente aprende todo dia. E a gente aprende todo dia que ainda há muito a aprender.

O Draft é isso: eterno beta. Esse é o sentido do nosso nome. E o significado do R reverso em nosso logo é esse também: nunca está pronto, sempre dá para fazer melhor.

Penso que sempre que atingimos platôs de estabilidade em nossas trajetórias, é preciso provocar uma nova crise de crescimento. No entanto, quando a gente se coloca num território desconhecido, quando a gente se promove ao próximo estágio, é duro sair da zona do conforto, do lugar em que vivíamos com boa taxa de sossego, onde já conhecíamos no terreno.

E nessa nova realidade, cheia de novos desafios, em que é preciso lidar diariamente com a própria ignorância e com a própria incompetência relativas, em que estamos cheios de aprendizagens a realizar, a sensação, com frequência, não é agradável. Há muita ansiedade envolvida, a autoestima é pressionada, você vive a angústia de se ver de novo correndo atrás.

Parte dessa inquietude, que é saudável cultivar na vida e na carreira, apesar do desassossego que acarreta, é o que me levou a dobrar a aposta em 2019: internacionalizar o Draft. Em meados de agosto, precisamente o mês em que lançamos o Draft em 2014, fizemos o soft launch do Draft Canada.

A gente, no Brasil, costuma acreditar que nossos negócios não têm condição de viajar. Talvez pela barreira da língua, talvez pela extensão do país e do mercado brasileiro, a gente costuma projetar a nossa atuação apenas dentro das nossas próprias fronteiras, falando em português.

Isso acaba nos tornando menores do que poderíamos ser – o país como um todo e cada um de nós, no seu quintal. Somos bons em importar as marcas e as soluções dos outros, mas não em exportar as nossas. Isso acaba também se traduzindo num certo complexo de inferioridade, como se não tivéssemos capacidade de competir no exterior com produtos e serviços que extrapolem commodities como carne e soja.

Bem, decidi não só falar sobre isso – mas experimentar isso. Testar a hipótese de que talvez um negócio estabelecido no Brasil, independente do seu tamanho, possa estender sua proposta de valor para outros mercados.

SOBREVIVEMOS À GRANDE DEPRESSÃO BRASILEIRA. E GANHAMOS O DIREITO DE PENSAR: POR QUE NÃO EXPANDIR PARA OUTRO PAÍS?

O Draft surgiu com a crise. A economia começou a desacelerar no primeiro trimestre de 2014 e não parou mais. A partir do primeiro trimestre de 2015, quando ainda tínhamos poucos meses de vida, o país enfileirou 11 trimestres consecutivos de crescimento negativo. Trinta e três meses de vida abaixo de zero. Quase três anos de recessão braba, encolhendo mês após mês.

Somos contemporâneos, portanto, da Grande Depressão brasileira. O país só voltou a pôr a cabeça para fora d’água no fim de 2017 – e desde então temos crescido a taxas medíocres e insuficientes em torno de 1%.

Nesse período, ficamos todos mais pobres. O país produziu um número recorde de desempregados – nesse momento, são 12,4 milhões de brasileiros, sustentando uma taxa de desemprego de 11,6%. Some-se a isso uma crise política e institucional profunda, sem solução à vista, e o que temos é um dos períodos mais duros, sombrios e desesperançados da história brasileira. Sem confiança, as empresas investem pouco. A estagnação se impõe. E o que mais avança no país são os retrocessos.

Esses últimos cinco anos, que equivalem a uma nova década perdida na história brasileira, coincidem com a trajetória do Draft. Então, acho que ganhamos o direito de pensar: se conseguimos sobreviver num ambiente assim, por que não imaginar que seja possível também se estabelecer em outro país, apesar de todas as dificuldades que isso impõe?

“If I can make it there/I’ll make it anywhere” é um verso que vale para a cena ultracompetitiva de Nova York, mas que talvez valha também para a aspereza da cena brasileira.

Foi assim que nasceu e cresceu a ideia do Draft Canada. Embalado também pela única pergunta importante que um empreendedor deve se fazer antes de saltar: por que não? Se não houver bons motivos para não fazer, então é porque as indicações são para realizar.

O Canadá tem um ecossistema de empreendedorismo poderoso. De um lado, Vancouver, em British Columbia; de outro, o corredor Toronto-Waterloo, em Ontario, região com a maior concentração de startups do mundo. Os dois polos competem para ser o “Vale do Silício do Norte”.

E, para a nossa própria surpresa, descobrimos que o olhar do Draft sobre a mundo da inovação, e a compreensão do Draft acerca do universo do empreendedorismo, e a conceituação que o Draft faz da Nova Economia, tinham boas chances de fazer sentido no Canadá.

Da mesma forma que geramos uma narrativa para os negócios pós-industriais no Brasil, e ajudamos a organizar o olhar para os novos territórios do capitalismo que surgia por aqui, oferecendo uma taxonomia para isso (Economia Criativa, Negócios Sociais, Startups/Scale-ups e Inovação Corporativa), e geramos um espelho midiático que organizou e disseminou o who’s who nessas categorias, percebemos que havia demanda e oportunidade para fazermos o mesmo no Canadá.

Nos associamos a Luis Barrionuevo, consultor brasileiro radicado no Canadá há alguns anos, e estabelecemos duas sedes – uma em Toronto e outra em Waterloo, dois pilares do ecossistema de inovação e empreendedorismo do país. Além disso, a Draft Inc., empresa que incorporamos na América do Norte, está sendo acelerada pela Accelerator Centre, aceleradora ligada à Universidade de Waterloo.

Ao publicar em inglês, o Draft se torna global. Passamos a ser lidos nos Estados Unidos – que já respondem por 20% da audiência do Draft Canada –, na Índia, na China, em Israel, no Reino Unido.

Essa semana trouxe uma boa notícia, como um cartão postal que o Draft Canada enviasse ao Projeto Draft, com cumprimentos pelo aniversário de 5 anos: conquistamos o primeiro cliente no Canadá – a Zebu, startup de cybersecurity que acaba de receber um investimento de 4 milhões de dólares.

Epílogo.

Se tudo vai sair conforme planejamos? Claro que não. Nenhum plano de negócios sobrevive à primeira reunião de vendas com o primeiro prospect. (Eu adoro essa frase.)

Então vai ser tudo diferente de como imaginamos. E tudo bem. A transformação é a única constante. (E diferente muitas vezes significa melhor.)

Se tudo vai dar certo? Não sei.

Mas uma coisa eu sei, porque o Draft me ensinou e o Draft Canada me confirma: empreender não é atingir uma meta, é resolver bem o dia. Não se trata de chegar a algum lugar, mas de se manter em movimento.

Portanto, não existe “dar certo” – existe construir, melhorar, dividir.

Assim como não existe “dar errado” – existe aprender, adaptar, pivotar.

No fim, a única coisa que “dá errado” é aquilo que decidimos não fazer. O medo de errar é o único “erro” digno desse nome.

Para quem realiza, “dar certo” é, simplesmente, realizar. Continuar fazendo. Se entregar a um projeto com entusiasmo, investir nele o seu talento e as suas melhores energias. Enquanto isso fizer sentido para você e para os outros.

 

Adriano Silva é Fundador & CEO do Projeto Draft. Esse texto faz parte de uma série de artigos produzidos em comemoração ao aniversário de 5 anos do Projeto Draft, que teve seu primeiro post publicado em 29 de agosto de 2014.

 

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