E se abotoar a camisa consumisse 30 minutos do seu dia? Saiba como a Freeda cria moda para pessoas com mobilidade reduzida

Dani Rosolen - 11 maio 2021 A partir da esq.: Juliana e Santuza, sócias da Freeda.
Juliana Sevaybricker (à esq.) e Santuza Prado, as empreendedoras da Freeda.
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Imagine demorar 30 minutos para fechar os botões de uma camisa. Ou duas horas e meia para trocar de roupa. Ou, ainda, depender dos outros — um parente ou cuidador — para se vestir. 

Acredite: essa é a realidade de milhões de brasileiros com deficiências ou mobilidade reduzida. Foi para atender as demandas desse público que Santuza Prado, 47, e Juliana Sevaybricker, 45, empreenderam a Freeda, uma marca de moda inclusiva de Belo Horizonte. 

O nome da grife remete à pintora mexicana Frida Kahlo, que teve poliomielite na infância e, após um acidente aos 18 anos, sofreu várias fraturas e sequelas. Em seu e-commerce, a Freeda disponibiliza 14 criações. São blusas, camisas, calças, moletons e vestidos pensados para pessoas com restrições de mobilidade motivadas por doenças diversas, de artrite a Parkinson.

A HISTÓRIA DE EMPREENDEDORISMO COMEÇOU COM UM DRAMA FAMILIAR

Com 25 anos no mercado de moda, Santuza abriu os olhos para a moda inclusiva ao observar a dificuldade que o irmão e a esposa enfrentavam para trocar as roupas do filho, Gustavo

Diagnosticado na infância com uma doença degenerativa rara, ele tem hoje 23 anos e se encontra em estado vegetativo.

“Até os 7 anos, o Gu foi uma criança como outra qualquer. Ia à escola, fazia futebol e aula de violão. Até que o colégio chamou os pais e disse que ele estava tendo um atraso na coordenação motora. Descobriram que ele tem Lipofuscione

Foram diversas internações. E nelas, Santuza via como era sofrida a tarefa de vestir um jovem acamado, de quase 90 quilos. 

“Numa época, ele ficou três meses na UTI. Todo dia, quando a gente trocava a roupa, ele tinha 16 convulsões… Teve uma vez que foram 54…”

NO MEIO DA NOITE, SANTUZA TEVE A SACADA QUE DEU ORIGEM AO NEGÓCIO

Santuza decidiu fazer algo para ajudar. Ela conta que, numa madrugada, acordou e começou a rabiscar uma roupa. 

“Fui na minha costureira e levei o tecido. Contei que era para o Gu. Como ela já sabia da história e tem uma filha cadeirante, topou na hora.”

Ao vestir o sobrinho com o casaco e a blusa de moletom que havia criado, Santuza pôde ver como a praticidade das roupas maravilhou não apenas os pais, mas a cuidadora do jovem. 

“Ela me disse que eu não podia parar por ali, que eu ia salvar não só a minha família, mas cuidadores e enfermeiros. Aí, meu olhinho brilhou e vi que era isso eu tinha vindo fazer nesta vida”

A partir daquele estalo, Santuza convidou outra cunhada, a produtora cultural Juliana, para empreenderem juntas uma marca de roupas para pessoas com restrição de mobilidade.

“Sou uma pessoa totalmente desligada do mundo fashion, mas achei genial a proposta”, diz Juliana. “Assim, vemos a moda sair do lugar do ‘supérfluo’ e se tornar quase uma prescrição médica.”

NA HORA DE BATIZAR AS PEÇAS, ELA HOMENAGEOU O SOBRINHO QUERIDO

Os protótipos começaram a ser desenvolvidos em 2018. Na hora de batizar as criações (que começaram a ser vendidas em 2020), elas homenagearam o sobrinho de Santuza. 

Casaco e calça Gu Prado.

O casaco de moletom Gu Prado (359 reais) tem zíper nas duas mangas — com um aba que protege a pele — e alças nos punhos, tornando mais fácil a abertura da roupa e sua acomodação ao corpo. A gola em V facilita o caimento para pessoas com traqueostomia. 

“É uma peça que se abre 100%. Então se a pessoa tem problema de artrite e artrose, por exemplo, não precisa levantar o braço para se vestir”

A calça de moletom Gu Prado (298 reais) tem botões de pressão que permitem abertura total da peça; isso possibilita a troca sem a necessidade de movimentar o paciente e facilita os momentos de higiene.

“É possível, por exemplo, abrir apenas até um certo ponto para trocar fraldas ou sonda”, diz Santuza. “Um cinto impede a calça de cair.”

OUVIR ESPECIALISTAS E O PÚBLICO FOI ESSENCIAL PARA ENTENDER O PROBLEMA

Pensando em como incrementar a funcionalidades das roupas, elas ouviram geriatras, terapeutas ocupacionais e enfermeiras gerontólogas. Segundo Juliana:

“Fizemos uma pesquisa e descobrimos que mais de 60% dos cuidadores têm dores fortes na coluna, porque o movimento do corpo dos pacientes é o deles, e a troca de roupa e banho são os momentos que mais exigem esse esforço”

O trabalho de pesquisa também incluiu grupos de estudo com familiares de pacientes e pessoas com deficiência ou restrições de mobilidade em geral:

“Em um grupo de estudo com meninas cadeirantes, ouvimos que o sonho delas era ir numa festa e não ter de pedir ajuda na hora de ir ao banheiro. Também conversamos com pessoas com Parkinson, gente que muitas vezes poderia ter uma vida ativa no trabalho — mas acabava se afastando por não conseguir vestir uma roupa social.” 

ADAPTAÇÕES QUE TRAZEM AUTONOMIA, AUTOESTIMA E CONFORTO

As meninas cadeirantes queriam uma calça justa e moderna. Assim, as sócias desenvolveram a calça de neoprene Sudha (289 reais); o nome é uma referência à atriz e dançarina indiana Sudha Bharatanatyam, que teve a perna amputada após um acidente. 

Nessa mesma linha mais moderna, o jeans Bauby (298 reais) foi batizado em homenagem a Jean-Dominique Bauby, o autor de O Escafandro e a Borboleta. O jornalista francês escreveu o livro após sofrer um AVC que comprometeu sua fala e seus movimentos. 

Calça feminina Sudha.

As duas calças têm zíperes em toda a lateral com puxadores em argola, tornando mais fácil o uso para pessoas sem coordenação motora fina nas mãos.

Outros trunfos são um cinto interno; a costura reforçada nas alças do cós (para ajudar na acomodação do cadeirante); e imãs nas barras que permitem aumentar a abertura da boca da calça, para passagem de talas, próteses e outros materiais ortopédicos.

Do papo com pessoas portadoras de Parkinson nasceu a camisa social James (homenagem ao médico James Parkinson, o primeiro a descrever sistematicamente os sintomas da doença, em 1817); custa 289 reais e tem manga comprida, fechamento com imãs ocultos na carcela e punhos, facilitando o abotoamento.

A PROVA FINAL DOS PROTÓTIPOS OCORREU EM UM CONGRESSO DE GERONTOLOGIA

Desde os protótipos até a criação do e-commerce, as sócias desembolsaram 150 mil reais. Para otimizar os recursos, resolveram unir várias funcionalidades em uma única peça: 

“A ideia era que a mesma calça servisse tanto para um cadeirante como para um acamado, alguém que usa andador ou tem incontinência urinária”

Santuza e Juliana foram coletando feedbacks, fazendo ajustes nas peças e, em agosto de 2019, já com os 14 modelos prontos, resolveram expor a produção em um congresso de Geriatria e Gerontologia de Minas Gerais. 

“Fomos para um estande com os protótipos e um folder”, diz Santuza. A ideia era lançar o conceito, avaliar a repercussão — e a decisão de seguir em frente com o negócio. “Mostramos as roupas para especialistas e a proposta foi super bem validada.” 

Aí sim, após essa última aprovação, elas começaram a produção da primeira leva de roupas da marca, em janeiro de 2020, quando passaram a vender pelo e-commerce.

UM APRENDIZADO: PROXIMIDADE FÍSICA COM A PRODUÇÃO É ESSENCIAL

O primeiro lote foi encomendado a duas confecções de fora da capital mineira. A decisão se mostrou equivocada. Juliana explica:

“As roupas iam e vinham: quando chegavam nas nossas mãos, víamos que precisavam de ajustes. Isso aconteceu porque as costureiras não tinham muita consciência da funcionalidade das adaptações e especificidades que a pedíamos”

A distância era um problema. A partir da segunda remessa, elas decidiram firmar uma parceria com uma confecção de Belo Horizonte, para estarem mais perto da produção.

A escolha do material foi motivo de atenção. “Os tecidos usados para as roupas dos acamados ou idosos são feitos com fibra de bambu”, diz Santuza. “Usamos também 100% algodão, viscose e tricoline com elastano.” 

Ajustes de foco foram necessários ao longo da trajetória. No começo, as sócias queriam oferecer peças customizadas para as necessidades específicas de cada pessoa. Logo, viram que isso seria impossível nesse momento.  

“Tem pessoas com atrofia na perna direita, outras na esquerda, umas têm uma barriga protuberante, outras são fininhas…”, diz Juliana. “São corpos muito diferentes. Neste início da Freeda seria difícil customizar as roupas.”

“ROUPA PARA VELHO”? NÃO, DEIXA EU TE EXPLICAR MELHOR!

Em certo momento, as empreendedoras também descobriram que teriam de adaptar a sua comunicação para tornar o propósito mais claro. 

O estopim para essa mudança foi o retorno recebido no lançamento do Instagram da marca, que deixou Santuza frustrada:

“Depois que postamos as fotos das peças, passei dois dias chorando… Imaginava que viria uma chuva de elogios, mas várias idosas se sentiram ofendidas, dizendo que jamais iriam usar aquela ‘roupa de velho’…”

O marido de Santuza é publicitário e ponderou que ela deveria explicar, nas postagens, que a roupa era para idosos com mobilidade reduzida

“Depois que comecei a contar sobre as funcionalidades, essas mesmas pessoas que me ‘apedrejaram’ vieram pedir desculpas.”

As cores básicas — preto, branco, azul, cinza ou caqui (bege) — também foram motivos de críticas, segundo Juliana. Para as próximas criações, elas já pensam em ousar mais nas cores e adotar estampas.

A ACELERAÇÃO TROUXE CONEXÕES E INSIGHTS IMPORTANTES

A Freeda está em fase final de aceleração no Quintessa. Durante o programa, as sócias puderam repensar estratégias de divulgação para tornar o negócio sustentável (em 2020, o faturamento foi de 30 mil reais).

A aceleradora facilitou o networking com influenciadores e parceiros. Desses contatos surgiu uma colab com o movimento inFINITO, de Tom Almeida, com quem a marca vai lançar uma nova roupa no dia 20. Santuza conta um pouquinho sobre essa nova criação:

“Dá para adiantar que será uma peça básica com foco em cuidados paliativos e que tenta reunir todas as funcionalidades que temos nas outras roupas da Freeda”

A importância de divulgar melhor o seu conceito foi o principal insight da aceleração. Segundo Juliana, a maioria das pessoas nem sequer conhece os termos “moda adaptada” ou “moda inclusiva”.

“Precisamos fazer com que elas saibam que isso existe e a importância na vida dos pacientes e cuidadores para que as roupas adaptadas estejam na lista de necessidades — assim como a cama ortopédica ou a adaptação de assento para o banheiro.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Freeda
  • O que faz: Roupas adaptadas para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida
  • Sócio(s): Santuza Prado e Juliana Sevaybricker
  • Funcionários: Apenas as sócias
  • Sede: Belo Horizonte
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: R$ 150.000
  • Faturamento: R$ 30.000 (em 2020)
  • Contato: [email protected]
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