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Na reta final dos treinos para as Paralimpíadas de Paris, ele se divide entre o esporte e uma fintech com foco em pessoas com deficiência

Dani Rosolen - 13 maio 2024
Renato Leite, paratleta da seleção brasileira de vôlei sentado e cofundador do Parabank.
Dani Rosolen - 13 maio 2024
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“Eu saí do treino da seleção, subi para tomar banho, abri o computador e já tinha uma reunião marcada, por isso atrasei cinco minutos para a nossa entrevista”, diz Renato Leite, 41, ao abrir a conversa com o Draft.

A correria é compreensível. Na reta final de preparação para as Paralimpíadas de Paris, Renato — paratleta medalhista mundial e veterano da seleção brasileira de voleibol sentado — hoje se divide entre o esporte, a vida familiar e o empreendedorismo à frente do Parabank.

Cofundada em 2022 por Renato e outro paratleta — Gelson Júnior, 44, do basquete em cadeira de rodas —, a fintech se posiciona como o primeiro ecossistema financeiro do mundo com foco em pessoas com deficiência.

“Eu poderia ter me acomodado e aceitado a aposentadoria por invalidez, mas a gente quer mudar esse paradigma, incentivando as pessoas a voltar a produzir e usar suas habilidades intelectuais”

O Parabank disponibiliza um produto de crédito exclusivo para PcDs adquirirem próteses e financiarem tratamentos; um marketplace em que é possível orçar, com 15 fornecedores parceiros, itens como cadeira de rodas, sondas hospitalares e meias para coto; e acesso a bolsas de 50% em cursos rápidos de finanças na plataforma XP Educação.

“O nosso propósito também é capacitar PcDs para que voltem a produzir. Imagina se eu tivesse ficado em casa recebendo um salário mínimo…? Todas essas ideias aqui não teriam saído do papel.”

AOS 13, ELE FOI ATRÁS DE UM EMPREGO NUM SUPERMERCADO, ATÉ RECEBER UM CONVITE DO SÃO CAETANO

Nascido em 1982, em uma família humilde do Jabaquara, zona Sul de São Paulo, Renato cresceu acompanhando pela tevê, com o pai e o irmão, as façanhas de Ayrton Senna na Fórmula-1:

“Quando tocava o Hino Nacional, antes das corridas, eu e meu irmão ficávamos em pé e cantávamos juntos… A gente se emocionava com a coragem, disciplina e resiliência que o Senna passava. E eu pensava: um dia quero fazer representar nosso país no esporte”

O automobilismo, porém, era uma realidade distante, então Renato escolheu o futebol para seguir esse caminho. Pré-adolescente, ele chegou a participar de peneiras e torneios interescolares, como a Taça Jovem Pan.

Como a carreira no futebol também não parecia promissora, Renato deixou esse plano de lado por um tempo e arranjou, aos 13 anos, um emprego de empacotador em um supermercado, para ganhar seu próprio dinheiro

“Eu ganhava o salário mínimo de 97 reais e muita caixinha [gorjeta]… Meu pai sempre me deu uma educação financeira muito boa, então consegui começar a juntar dinheiro”

Mais tarde, aos 18, a possibilidade de ser jogador de futebol ressurgiu com um convite de um treinador que já conhecia Renato e havia assumido a categoria de base do São Caetano.

“Pedi então para sair do supermercado e comecei a treinar nesse projeto dois períodos por dia durante seis meses.”

Nessa época, ele havia concluído o ensino médio e, sem perspectiva de entrar numa faculdade, se sentia ocioso em casa, no intervalo dos treinos. Assim, raspou as economias e, em outubro de 2001, comprou uma moto.

UM ACIDENTE DE TRÂNSITO LEVOU À AMPUTAÇÃO DE UMA DAS PERNAS

Motorizado, Renato passou a aproveitar a janela entre os treinos para realizar entregas de documentos, como motoboy. À noite, fazia delivery de marmitas.

Ele diz que exerceu esse trabalho “com maestria” durante os últimos meses de 2001. O ano mudou, e junto com ele a vida virou de ponta-cabeça. “No primeiro dia útil de 2002, acabei me acidentando.”

O jovem sofreu uma fratura exposta na perna direita e teve uma artéria atingida. Acabou internado em um hospital de residência.

“Cada dia um médico vinha e desbridava uma parte do meu pé, que já estava necrosando… Meu medo era perder a perna, porque a referência que eu tinha de uma pessoa amputada — um senhor com diabetes que vivia no meu bairro — era aposentar e ficar no bar o dia todo”

Ele estava internado há mais de 20 dias quando ganhou de um fisioterapeuta do hospital uma fita VHS sobre os Jogos Paralímpicos de Atlanta (1996).

Ao ver o vídeo e pesquisar sobre reabilitação e próteses, Renato, então com 19 anos, mudou radicalmente de opinião:

“No dia 23 de janeiro, eu mesmo pedi para amputarem parte da minha perna, porque corria o risco de a infecção começar a subir” 

Os médicos concordaram que essa seria a melhor solução.

PARECIA O FIM DE SUA CARREIRA. NA VERDADE, ERA APENAS O COMEÇO

Durante a reabilitação, Renato decidiu retomar a vida de atleta.

Uns quatro meses depois de deixar o hospital, ele participou de sua primeira competição, jogando tênis de mesa na cadeira de rodas

No mês seguinte, conseguiu se protetizar e começou a disputar corridas de rua, como a de Santos Reis e a meia maratona do Pão de Açúcar.

“Mas eu não tinha um índice para um campeonato mundial, para o Pan-Americano… Também não tinha uma prótese adequada para competir”

A frustração logo deu lugar a um novo caminho. Em 2002, o voleibol paralímpico, em que se joga sentado, começou a ser praticado no Brasil:

“Era uma modalidade que não exigia materiais, só a minha capacidade técnica. E chegou no país já em ascensão, foi ganhando notoriedade e se tornou um dos únicos esportes paralímpicos com patrocínio.”

Atleta (desde 2017) do Sesi-SP, Renato começou sua carreira de jogador de vôlei sentado no Clube dos Paraplégicos de São Paulo. Seis anos depois do início no esporte, já estava participando, em 2008, de sua primeira Paralimpíada, em Pequim, na China.

Eleito o melhor líbero do mundo de vôlei sentado em 2014, Renato acumula conquistas. Foi três vezes medalhista mundial (prata na Polônia, em 2014, e bronze na Holanda, em 2018, e na Bósnia, em 2022) e pentacampeão pan-americano (2007, 2011, 2015, 2019 e 2023).

ELE FOI COORDENADOR DE ESPORTES EM UM COLÉGIO E DEPOIS MIGROU DE ÁREA PARA TRABALHAR NO ITAÚ

Formado em Educação Física, com pós em Educação Física Adaptada, Renato trabalhou por um tempo como coordenador da área de esportes do colégio Augusto Laranja, em Moema, na zona sul de São Paulo.

Ele começou no colégio como estagiário, em 2006; depois de se formar, foi contratado. Conta que chegaram a lhe oferecer a possibilidade de compor o corpo docente, desde que abrisse mão da carreira de atleta. Renato não topou.

Da esq. para a dir.: Renato Leite, Gelson Júnior e Marcos Spinetti, os sócios do Parabank.

Mais tarde, ele ficou sabendo de vagas para PcDs no Itaú, onde dois amigos trabalhavam no caixa. Renato resolveu participar de um processo seletivo — e foi aprovado.

Sua ideia inicial, diz, era criar uma boa relação com o banco para desenvolver projetos em escolas com foco em inclusão pelo esporte de alunos com deficiência. Renato, porém, acabou atuando no Itaú durante seis anos (mantendo em paralelo sua carreira esportiva).

Ele começou no departamento de negócios internacionais e conta que, em um mês e meio, virou gestor da área. Em mais um ano e meio, veio outra promoção. Renato gostou tanto do assunto que fez uma nova pós-graduação, desta vez em Comércio Exterior.

DEPOIS DE EMPREENDER, RENATO REENCONTROU GELSON JÚNIOR E OS DOIS PARATLETAS FUNDARAM O PARABANK

Depois de participar das Paralimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016, Renato passou a repensar sua trajetória.

Em 2017, ele pediu demissão com o plano de usar sua experiência para abrir uma consultoria de meios pagamentos internacionais, a Champions Assessoria.

“Comecei a atender várias clínicas importadoras e exportadores de próteses, entre elas o Instituto de Prótese e Órtese (IPO). E eles importam, porque no Brasil esse cenário de reabilitação é muito fechado”

Foi durante as negociações com o IPO que ele e Gelson Júnior se aproximaram (os dois já se conheciam desde 2008). Paratleta como Renato, o porto-alegrense Gelson era sócio do instituto, cuidando da parte de governança, uma de suas áreas de especialização, bem como a financeira — ele tem passagens pelos bancos Safra e Itaú.

Por conta de sequelas da poliomielite, contraída aos 6 meses, Gelson ficou com a perna direita encurtada e passou a usar cadeira de rodas. Descobriu o esporte aos 22 anos, quando morava em Anápolis e foi convidado para defender o time de basquete adaptado da Associação dos Deficientes Físicos de Goiás.

Depois, ele chamou a atenção da Associação Desportiva para Deficientes (ADD), sendo convidado a jogar pelo time ADD Magic Hands. Em 2007, foi convocado pela primeira vez para a seleção brasileira, servindo o time até 2019.

Nesse reencontro, agora no ambiente corporativo, Renato e Gelson estreitaram o laço ao perceberem que tinham o mesmo propósito.

“Na clínica, o Gelson começou a ver toda essa dificuldade de pacientes conseguirem comprar uma prótese. E fez estudos sobre o tema para tentar desburocratizar o acesso ao crédito, porque via que chegavam muitas pessoas com deficiência que não tinham nem conta aberta em banco”

Esta foi a semente para o Parabank. A fintech foi lançada em 2022, depois que a dupla já havia trabalhado junta com a comercialização de ativos judiciais e criado uma clínica de próteses, a H3.

A FINTECH FECHOU UM CONTRATO DE EXCLUSIVIDADE COM A VISA E INVESTE EM CAPACITAÇÃO COM APOIO DA XP

Em agosto de 2022, os cofundadores alugaram uma sala e, com o investimento de 1 milhão de reais da dupla e do sócio-investidor Marcos Spinetti, começaram a desenvolver a startup como “um ecossistema completo pensado por, com e para pessoas com deficiência”.

Na parte financeira, o Parabank disponibiliza uma conta digital gratuita, cartão de débito e crédito (recentemente, a startup assinou um contrato de exclusividade com a Visa) e um produto de crédito voltado ao seu público-alvo.

Há também a frente de capacitação em parceria com a XP e a proposta de turbinar a empregabilidade:

“Nossa ideia é direcionar PcDs para áreas que monetizam de maneira mais eficiente e melhor. Além da financeira, apostamos no mercado de tecnologia e, em maio, vamos lançar um curso próprio com a intenção de formar novos desenvolvedores de software e até exportar essa mão de obra”

A fintech fundou ainda o Instituto Parabank, para o qual vai destinar parte de sua receita e contará ainda com a doação de empresas interessadas em ajudar pessoas com deficiência em situação de vulnerabilidade social a ter acesso gratuitamente aos cursos ou mesmo às próteses.

O FOCO AGORA É APRIMORAR A TECNOLOGIA E ESCALAR A STARTUP — ALÉM DE BRILHAR NAS PARALIMPÍADAS DE PARIS

Hoje, o Parabank conta com 700 clientes, sendo 650 pessoas físicas e 50 corporativos.

No modelo B2B, a fintech oferece os mesmos serviços de um banco tradicional para empresas relacionadas ao público com deficiência e para negócios em geral. “Estamos traçando uma nova estratégia para atingir mais esse segmento, mostrando que as empresas que são nossas clientes estão contribuindo com a causa da capacitação de PcD.”

O empreendedor acredita que no futuro o Parabank servirá como um certificador desse mercado:

“Tem muitos negócios nesse setor que só veem o paciente como cifrão, não entregam uma boa reabilitação. Então, só serão parceiras do Parabank empresas em que a gente enxerga o mesmo propósito”

No momento, o foco é aprimorar a tecnologia para perseguir metas extremamente ousadas: chegar a 50 mil clientes, 20 mil cartões emitidos e um faturamento de 1,5 milhão de reais — ainda em 2024.

As metas e a rotina puxada aparentemente não assustam Renato. O paratleta-empreendedor diz que o segredo para dar conta de tudo é buscar ser uma pessoa de alta performance em todas as áreas da vida:

“Existem quatro pilares que me permitem ser alta performance, fazendo o ordinário bem feito para chegar ao extraordinário: a fé, a coragem, a persistência — junto com a disciplina — e a gratidão.”

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