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Ela cresceu em uma confecção que gerava toneladas de resíduos. Com o upcycling, converteu o desperdício em uma nova marca

Dani Rosolen - 30 jul 2026
Luanna Cicolo, fundadora da Rani (foto: Alex Pasqualle).
Dani Rosolen - 30 jul 2026
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A Rani nasceu do encontro entre herança familiar, conhecimento técnico e uma inquietação com os impactos da moda. 

Fundada por Luanna Cicolo, em 2022, a marca transforma retalhos e tecidos parados em peças de vestuário por meio do upcycling. A empreendedora costuma resumir a proposta do negócio com seu slogan:

“A moda esnoba, a gente transforma”

Transformação, aliás, faz parte do nome da marca. “Rani vem de Radharani, deusa hindu que personifica a potência suave e indomável do feminino, que tem a sensibilidade suficiente para recriar as coisas.”

Hoje, o negócio vende suas peças – de leggings a shorts, pantalonas, camisetas e jaquetas – em sua loja online, mas também em um espaço físico inaugurado no começo do ano na Zona Oeste de São Paulo.

ELA CRESCEU DENTRO DE UMA CONFECÇÃO, TENTOU TRABALHAR EM OUTRA ÁREA, MAS CONSTRUIU UMA CARREIRA DE 13 ANOS NO SETOR

Luanna nasceu em uma família empreendedora. Seus pais são primos e sua avó paterna criou, em 1979, uma confecção de uniformes em São Paulo. Nascia assim a T.Christina.

“Ela começou com umas três maquininhas. Quando meus pais, Claudia e Cláudio, que são primos, se casaram, ampliaram a empresa, abriram algumas lojas e depois passaram a vender para grandes magazines, especializando-se em tecidos elastizados para moda praia e fitness”, lembra. 

“Cresci brincando dentro da confecção, pois a minha casa era em cima e o espaço de trabalho no andar de baixo”

Aos 15 anos, Luanna já trabalhava durante as férias na empresa da família para complementar a mesada. Mas, quando entrou na faculdade de Administração, o pai disse que preferia que ela seguisse outro caminho.

A jovem começou a trabalhar em uma escola de inglês e, depois, em uma loja da Farm. “Aquilo me reconectou com a moda. Conversei com meu pai e o convenci a me deixar voltar para a confecção.”

Foram quase 13 anos na T.Christina, onde chegou à gerência de produção. Até que algo passou a incomodá-la: o lixo têxtil gerado pela fábrica, que chegava a 10 toneladas por mês.

Em busca de novos caminhos, na pandemia, Luanna resolveu deixar o negócio e passou a tocar uma marca de leggings para crianças que utilizava essas sobras. 

COMO A INOVAÇÃO AJUDOU A COMBATER O DESPERDÍCIO E RESSIGNIFICAR O LIXO

Apesar de ter se desligado da T.Christina, Claudia a acionou para ajudar a resolver o problema do desperdício.

“Minha mãe sempre foi essa pessoa inquieta e, em busca de uma solução, conheceu a designer têxtil Agustina Comas” 

Pioneira implementando upcycling industrial no Brasil, Agustina já havia desenvolvido um método para reaproveitamento, criando o tecido Oricla. Então, foi estudar o material elástico da fábrica e seu processo de produção. 

A solução foi aproveitar os espaços vazios entre os moldes dispostos na mesa de corte — justamente onde ocorre grande parte do desperdício, em pequenos módulos, costurados entre si até formar tiras que, unidas por costuras tecnológicas que não marcam a pele, dão origem a um novo rolo de tecido. 

OS MODOS PRODUTIVOS DA RANI E SEU LANÇAMENTO

Batizado de Oricla Elástico, o tecido desenvolvido pela designer e pela T.Christina, ao longo de dois anos, exige tecnologia e costureiras especializadas. “Para costurar os módulos é preciso uma máquina flat, que pode custar cerca de 40 mil dólares. E não é qualquer um que sabe manusear esse equipamento.”

Peças da Rani feitas como Oricla Elástico.

O custo envolvido é alto, mas Luanna decidiu levar o projeto adiante, pois pensou:

 “Se eu que sou filha dos donos não posso me dedicar a essa questão da sustentabilidade, quem vai?”

Esse foi um empurrão para que criasse a Rani. Além do Oricla Elástico, a marca trabalha com outras duas frentes de aproveitamento: finais de rolos que acabam esquecidos no estoque e pontas de rolo (até quatro metros), que geralmente são descartadas por confecções. 

Hoje, segundo Luanna, a Rani consegue reaproveitar entre 7% e 10% do resíduo gerado pela T.Christina. O restante é enviado à Momo Ambiental, que desfibra o material para transformá-lo, por exemplo, em enchimento para bancos de automóveis. E em outro fluxo, processa as sobras têxteis gerando novos polímeros usados na produção de utensílios plásticos.

O DESENVOLVIMENTO DA MARCA PASSOU POR FASES DE EXPERIMENTAÇÃO ATÉ GANHAR UMA IDENTIDADE

O lançamento da Rani aconteceu em um desfile do Brasil Eco Fashion Week, em 2022, num collab com Agustina Comas.

“Produzimos e apresentamos algumas peças com os tecidos que tínhamos. Depois começamos a vendê-las, criamos o perfil no Instagram e lançamos o site”

Mesmo com uma proposta inovadora, a empreendedora conta que sentiu dificuldade em divulgar e vender. Então, decidiu buscar investimento e contratou a consultoria de Renata Abranches, responsável pelo branding de marcas como Havaianas e Hering.

Jaka, modelo de jaqueta da Rani.

Depois de um trabalho de um ano, a empreendedora passou a desenvolver uma coleção com identidade própria. 

“Antes, estava só usando o que sobrava para mim, não tinha desenvolvimento de cor ou combinação. Mas com o tempo fomos entendendo o conceito de como criar nossos produtos e a própria matéria-prima”

A primeira coleção após a consultoria — a linha “Fervo” — foi lançada em fevereiro de 2026, com foco no carnaval. “A gente entendeu que o Oricla multicor funciona muito bem nessa época, porque as pessoas estão mais dispostas a usar uma mistura de cores.”

Hoje, a marca já está na terceira coleção e produz suas peças utilizando a estrutura da T.Christina. 

O ESPAÇO FÍSICO AJUDA A CATIVAR NOVOS CLIENTES, MAS EMPREENDER COM SUSTENTABILIDADE AINDA É DESAFIADOR

Também em fevereiro de 2026, a Rani abriu uma loja no Alto de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. O espaço físico ajudou a aproximar o público da proposta da marca:

“Quem toca nos produtos consegue entender melhor o processo por trás, vê que o tecido é confortável e reconhece melhor seu valor”

Ao mesmo tempo, a operação no varejo expôs novas dificuldades, como a necessidade de treinar equipe e fazer a operação física funcionar em um mercado que, segundo Luanna, ainda valoriza pouco escolhas sustentáveis.

“É duro concorrer com fast fashion ou com outras marcas premium que produzem de forma linear e convencional, por isso a Rani aposta em diálogo e informação para comunicar melhor seu impacto”

Apesar dos desafios — ou talvez justamente por causa deles —, a empreendedora já mira mercados fora do Brasil, onde acredita que o consumo mais sustentável esteja melhor consolidado. Enquanto isso não acontece, ela mantém o foco em sua missão, um dia de cada vez:

“É muito difícil equilibrar todos os pratinhos de empreender, sentir que está entregando, fechar as contas e fazer a diferença no mundo. Tem que ter um propósito muito grande e nem sempre a gente acorda assim, mas sei que estou no caminho certo.”

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