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A Rani nasceu do encontro entre herança familiar, conhecimento técnico e uma inquietação com os impactos da moda.
Fundada por Luanna Cicolo, em 2022, a marca transforma retalhos e tecidos parados em peças de vestuário por meio do upcycling. A empreendedora costuma resumir a proposta do negócio com seu slogan:
“A moda esnoba, a gente transforma”
Transformação, aliás, faz parte do nome da marca. “Rani vem de Radharani, deusa hindu que personifica a potência suave e indomável do feminino, que tem a sensibilidade suficiente para recriar as coisas.”
Hoje, o negócio vende suas peças – de leggings a shorts, pantalonas, camisetas e jaquetas – em sua loja online, mas também em um espaço físico inaugurado no começo do ano na Zona Oeste de São Paulo.
Luanna nasceu em uma família empreendedora. Seus pais são primos e sua avó paterna criou, em 1979, uma confecção de uniformes em São Paulo. Nascia assim a T.Christina.
“Ela começou com umas três maquininhas. Quando meus pais, Claudia e Cláudio, que são primos, se casaram, ampliaram a empresa, abriram algumas lojas e depois passaram a vender para grandes magazines, especializando-se em tecidos elastizados para moda praia e fitness”, lembra.
“Cresci brincando dentro da confecção, pois a minha casa era em cima e o espaço de trabalho no andar de baixo”
Aos 15 anos, Luanna já trabalhava durante as férias na empresa da família para complementar a mesada. Mas, quando entrou na faculdade de Administração, o pai disse que preferia que ela seguisse outro caminho.
A jovem começou a trabalhar em uma escola de inglês e, depois, em uma loja da Farm. “Aquilo me reconectou com a moda. Conversei com meu pai e o convenci a me deixar voltar para a confecção.”
Foram quase 13 anos na T.Christina, onde chegou à gerência de produção. Até que algo passou a incomodá-la: o lixo têxtil gerado pela fábrica, que chegava a 10 toneladas por mês.
Em busca de novos caminhos, na pandemia, Luanna resolveu deixar o negócio e passou a tocar uma marca de leggings para crianças que utilizava essas sobras.
Apesar de ter se desligado da T.Christina, Claudia a acionou para ajudar a resolver o problema do desperdício.
“Minha mãe sempre foi essa pessoa inquieta e, em busca de uma solução, conheceu a designer têxtil Agustina Comas”
Pioneira implementando upcycling industrial no Brasil, Agustina já havia desenvolvido um método para reaproveitamento, criando o tecido Oricla. Então, foi estudar o material elástico da fábrica e seu processo de produção.
A solução foi aproveitar os espaços vazios entre os moldes dispostos na mesa de corte — justamente onde ocorre grande parte do desperdício, em pequenos módulos, costurados entre si até formar tiras que, unidas por costuras tecnológicas que não marcam a pele, dão origem a um novo rolo de tecido.
Batizado de Oricla Elástico, o tecido desenvolvido pela designer e pela T.Christina, ao longo de dois anos, exige tecnologia e costureiras especializadas. “Para costurar os módulos é preciso uma máquina flat, que pode custar cerca de 40 mil dólares. E não é qualquer um que sabe manusear esse equipamento.”

Peças da Rani feitas como Oricla Elástico.
O custo envolvido é alto, mas Luanna decidiu levar o projeto adiante, pois pensou:
“Se eu que sou filha dos donos não posso me dedicar a essa questão da sustentabilidade, quem vai?”
Esse foi um empurrão para que criasse a Rani. Além do Oricla Elástico, a marca trabalha com outras duas frentes de aproveitamento: finais de rolos que acabam esquecidos no estoque e pontas de rolo (até quatro metros), que geralmente são descartadas por confecções.
Hoje, segundo Luanna, a Rani consegue reaproveitar entre 7% e 10% do resíduo gerado pela T.Christina. O restante é enviado à Momo Ambiental, que desfibra o material para transformá-lo, por exemplo, em enchimento para bancos de automóveis. E em outro fluxo, processa as sobras têxteis gerando novos polímeros usados na produção de utensílios plásticos.
O lançamento da Rani aconteceu em um desfile do Brasil Eco Fashion Week, em 2022, num collab com Agustina Comas.
“Produzimos e apresentamos algumas peças com os tecidos que tínhamos. Depois começamos a vendê-las, criamos o perfil no Instagram e lançamos o site”
Mesmo com uma proposta inovadora, a empreendedora conta que sentiu dificuldade em divulgar e vender. Então, decidiu buscar investimento e contratou a consultoria de Renata Abranches, responsável pelo branding de marcas como Havaianas e Hering.

Jaka, modelo de jaqueta da Rani.
Depois de um trabalho de um ano, a empreendedora passou a desenvolver uma coleção com identidade própria.
“Antes, estava só usando o que sobrava para mim, não tinha desenvolvimento de cor ou combinação. Mas com o tempo fomos entendendo o conceito de como criar nossos produtos e a própria matéria-prima”
A primeira coleção após a consultoria — a linha “Fervo” — foi lançada em fevereiro de 2026, com foco no carnaval. “A gente entendeu que o Oricla multicor funciona muito bem nessa época, porque as pessoas estão mais dispostas a usar uma mistura de cores.”
Hoje, a marca já está na terceira coleção e produz suas peças utilizando a estrutura da T.Christina.
Também em fevereiro de 2026, a Rani abriu uma loja no Alto de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. O espaço físico ajudou a aproximar o público da proposta da marca:
“Quem toca nos produtos consegue entender melhor o processo por trás, vê que o tecido é confortável e reconhece melhor seu valor”
Ao mesmo tempo, a operação no varejo expôs novas dificuldades, como a necessidade de treinar equipe e fazer a operação física funcionar em um mercado que, segundo Luanna, ainda valoriza pouco escolhas sustentáveis.
“É duro concorrer com fast fashion ou com outras marcas premium que produzem de forma linear e convencional, por isso a Rani aposta em diálogo e informação para comunicar melhor seu impacto”
Apesar dos desafios — ou talvez justamente por causa deles —, a empreendedora já mira mercados fora do Brasil, onde acredita que o consumo mais sustentável esteja melhor consolidado. Enquanto isso não acontece, ela mantém o foco em sua missão, um dia de cada vez:
“É muito difícil equilibrar todos os pratinhos de empreender, sentir que está entregando, fechar as contas e fazer a diferença no mundo. Tem que ter um propósito muito grande e nem sempre a gente acorda assim, mas sei que estou no caminho certo.”
Num setor ainda marcado pelo desperdício e pela pressa, a CÓS faz o movimento oposto: trabalha com o que já existe, valoriza o tempo de quem produz e mostra que é possível unir moda e responsabilidade sem abrir mão da beleza.
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