Ele largou três faculdades, fez carreira como desenvolvedor autodidata e acaba de criar um chatbot para ajudar a população gaúcha

Aline Scherer - 5 jun 2024
O desenvolvedor Caio Kaspary, cocriador da plataforma AjudeRS.
Aline Scherer - 5 jun 2024
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Moradores de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, Thais Torres e Caio Kaspary têm parentes no Rio Grande do Sul. 

Os familiares deles não chegaram a ser afetados diretamente pelas inundações que atingiram 90% das cidades gaúchas. Isso, porém, não impediu o casal de se impactar com o noticiário:  

“Na sexta-feira [3 de maio] à noite, me dei conta do tamanho da tragédia e me sensibilizei não só pelas pessoas, mas também com os animais a ponto de começar a procurar passagem aérea para prestar ajuda na região”, diz Thais, que trabalha como especialista de marketing. “Foi quando o Caio pensou em uma solução digital que conseguisse impactar um número maior de pessoas.”

A solução digital é o AjudeRS, um aplicativo web dotado de inteligência artificial para conectar pessoas que precisam de ajuda a quem quer ajudar. Em menos de 72 horas após o lançamento, a plataforma – criada por Caio com o amigo Pedro Elias e outros voluntários – registrou mais de 2 mil ocorrências e mais de 500 resgates efetuados. 

Desenvolvedor autodidata, Caio chegou a cursar engenharia civil, mecânica e química. Acabou largando as três faculdades e montou um marketplace para ajudar estudantes de engenharia com dificuldade na aprendizagem das matérias a encontrar colegas que dominam melhor os temas e têm interesse em ensinar. O negócio, segundo ele, rendeu mais de 10 mil vendas e 750 mil reais de faturamento entre 2020 e 2022. Caio afirma:  

“Aprendi na prática e eu recomendo isso pra todo mundo que quer aprender: empreenda. Com a mão na massa, operando o negócio, a gente aprende muita coisa sobre negócios. Eu aprendi sobre recrutamento, desenvolvimento, produto”

Ele se tornou especialista em programação low-code, isto é, a partir de ferramentas que permitem a montagem de softwares com pouco código de programação, mais simples e rápidas de usar. “Se for fazer um paralelo, é como se fosse o Canva comparado ao Photoshop”, diz. 

No início de maio, Caio avisou a dois clientes no Vale do Silício (para os quais presta serviço desde agosto e novembro do ano passado) que iria pausar seu trabalho e colocar outro profissional no lugar por tempo indeterminado. 

Ele já vinha ensaiando empreender novamente – e a situação de calamidade pública no RS despertou seu propósito de ajudar com seu conhecimento tecnológico e habilidade de validar novos negócios. 

A plataforma funciona com um chatbot no Whatsapp (+55 67 99963 4831) que coleta as informações de pessoas afetadas pelas enchentes, por meio de mensagens de texto, áudio, vídeos e fotos; e um site com um mapa que traz a localização e as necessidades de quem precisa de ajuda. 

A seguir, Caio conta sobre o desenvolvimento e os desafios do projeto:

 

Como surgiu a ideia de criar o AjudeRS?
A Thais, minha esposa, estava super comovida com tudo que estava acontecendo lá. E entendi que ela queria fazer alguma diferença, ir pessoalmente ajudar. Ela sempre teve o perfil de apoiar a causa animal. 

Eu falei pra ela que dá pra gente fazer algo mais escalável e ter um impacto maior. Se a gente fosse pra lá, daria pra salvar 50, 500 [pessoas e animais]. Daqui, trabalhando duro, a gente consegue salvar 50 mil 

Se a gente dá as informações certas, evita que alguém perca tempo, que marmitas sejam desperdiçadas e por aí vai. Construindo um produto de tecnologia, a gente tem que saber o que os usuários precisam e o que está acontecendo lá, tem que estar toda hora conversando. 

Então, eu tô me informando bastante com cerca de vinte pessoas que estão lá e toda hora me mandam feedback: “Aconteceu isso, podia ter isso”.

Essas vinte pessoas que estão no Rio Grande do Sul, o que estão fazendo?
Algumas são usuárias [do AjudeRS], pessoas que foram resgatadas, outras são líderes de abrigos, ou transportando itens entre várias cidades, e outras do time interno [de desenvolvimento]. São de Santa Maria, Porto Alegre, Lajeado, Canoas e Eldorado do Sul. 

Qual o seu trabalho?
Eu estava tentando iniciar uma empresa que envolve automações de WhatsApp com inteligência artificial. Fundei empresa, sei como construir um negócio. Aí eu quis ajudar, quis começar, não sabia que ia virar tudo isso. 

Chamei o Pedro [Elias], que trabalha comigo, contei da ideia, disse que é algo semelhante com o que a gente já faz. Em dois dias a gente lançou a primeira versão. 

Trabalhamos bastante. Começamos sábado à noite, com bastante trabalho, domingo também bastante trabalho. Segunda-feira resolvemos alguns bugzinhos, terça-feira já tinha 20 pessoas sendo voluntárias, porque a gente estava divulgando 

Quarta-feira viralizou, entraram umas 100 mil pessoas ao mesmo tempo e daí para frente a gente recebeu bastante visibilidade. 

Qual o diferencial do AjudeRS?
É a gente conseguir receber informações via WhatsApp de pessoas que precisam de ajuda. 

Não é todo mundo que sabe entrar num formulário, preencher todos os detalhes, preencher o CPF da forma adequada, a data da forma adequada, com validação de campo. Agora, todo mundo sabe pegar o celular e mandar um áudio pelo WhatsApp explicando: “meu endereço é esse, preciso de ajuda, eu tenho isso, são tantas pessoas, tantos animais”

Então, a gente focou bastante em facilitar para os usuários reportarem onde eles precisam de ajuda. A inteligência artificial que a gente colocou no WhatsApp faz o papel de extrair as informações relevantes e publicar isso num site. Esse site tem uma lista de vários pedidos de ajuda, e é acessado por milhares de pessoas que vão prestar essa ajuda. 

Estamos caminhando para ser um marketplace; tem mais de 4 mil voluntários na lista de espera para poder atuar, mesmo de forma remota, verificando as informações, checando com a pessoa alguns detalhes a mais, porque ali no momento do sufoco ela esquece de falar alguns detalhes extras que precisa 

A gente recebeu bastantes pedidos de ajuda de resgate no início, o que se tornou agora bem mais focado em alimento, recursos, e também ajudas a animaizinhos. Fizemos uma iniciativa com alguns estudantes da Universidade do Ceará que liberaram pra gente um reconhecimento facial de cachorros, que ajuda bastante a identificar quem já está em algum abrigo, e alivia quem está procurando. 

Muita gente perdeu muita coisa. Com a tecnologia, a gente sabe como pegar chamados de múltiplas transações – de pacote de arroz, cesta básica, colchão –  todos esses recursos e gerenciar doações.

Como se organiza a distribuição do trabalho entre esses 4 mil voluntários ou mais, especialmente com a urgência necessária?
A parte mais complicada tem sido essa, porque envolve qual é a melhor forma de distribuir demandas. 

Como acontece hoje de forma geral? Alguém precisa de ajuda, faz um vídeo comovente, esse vídeo viraliza, e essa pessoa recebe muita ajuda – enquanto várias outras pessoas também precisam de ajuda tanto quanto, mas não fazem um vídeo comovente e recebem bem menos. 

É desbalanceado como as pessoas recebem ajuda hoje. A melhor forma de resolver isso é com tecnologia. Dar o mesmo poder de voz para a senhorinha que mandou um áudio falando que precisa de ajuda como para o jovem que sabe gravar, editar e postar um vídeo

A resposta é criar um algoritmo para fazer match dando prioridade de acordo com os que mais precisam, o que é difícil. A gente está desenvolvendo uma solução, mas hoje isso está acontecendo de maneira um pouco manual, existem disparos saindo da plataforma para voluntários que já são cadastrados.

Essas 4 mil pessoas de onde são e se voluntariaram para fazer o quê?
A gente tem dados de se a pessoa quer trabalhar remoto ou presencial. 

Tem bombeiros que vieram de outros estados pra ajudar. Tem pessoal com hobbies como escalada e demais esportes radicais, que têm familiaridade com subir um muro arriscado; tem quem tem uma caminhonete que pode ajudar com frete; tem psicólogo que oferece atendimento online… 

Basta escrever uma frase no cadastro sobre como podem ajudar.

Essas ajudas já estão acontecendo?
Já. A gente tinha uma frente mais manual para enviar os pedidos de ajuda. Hoje estamos querendo focar bem mais em receber as informações com qualidade, e não tanto nessa segunda etapa do match. Porque se a informação vem pobre e a gente manda alguém pra lá, pode ser que a informação não esteja 100 % certa. 

Às vezes, a pessoa não deu todos os detalhes que precisava. Ela falou “oi, preciso de ajuda”, só que era ela e mais 80 pessoas no mesmo quarteirão, por exemplo. Então, estamos focando bem mais em apurar informações. Áudios, fotos, localização, número de WhatsApp 

A gente fez algo bem rápido: recebe informações, posta numa página e quem puder ajudar, ajuda. E os administradores também pegam alguns casos e enviam no WhatsApp para outros voluntários cadastrados. 

Não temos um sistema de match automático para enviar a pessoa mais próxima porque isso é complexo, levaria mais tempo – e a gente não teria lançado ainda se decidisse fazer isso.

Quanto tempo deve durar o AjudeRS?
Estamos bem motivados para construir algo muito bom que vai trazer muito resultado. Então, [vai durar] o tempo que precisar. 

A gente ainda nem cuidou das questões burocráticas direito. Por enquanto, as contas e custos das ferramentas, por exemplo, estão indo para o cartão CNPJ da minha empresa [enquanto prestador de serviço]. Estamos atrás de empresas parceiras, mas assim, eu não vejo problema nisso, eu quero ajudar. 

O PNI, que é a ferramenta de Inteligência Artificial, a gente estava gastando uns 70 dólares por dia. Bubble, a ferramenta de software, estava na faixa dos 3 mil dólares por 10 dias. A gente conseguiu, por meio do meu networking, entrar em contato com o CEO, eles abonaram a conta que seria de 10 mil dólares até o fim do mês. 

Porque a gente fez uma solução extremamente eficiente, e a precificação depende de quantas pessoas estão usando recursos da ferramenta. O mapa do Google Maps estava com 3 mil dólares de previsão de custo no mês.

A gente montou muito rápido tudo e não se preocupou em eficiência financeira, mas com a eficiência na prática – uma eficiência humanitária, digamos assim 

Porque tem como a gente se preocupar em consumir menos tokens do PNI, consumir menos recursos do Google Maps, mandando menos informações para o mapa, mas a gente só queria lançar rápido porque sabemos que seria a melhor forma de ajudar. 

E está dando certo. Fiz uma reunião com o pessoal da Microsoft, a gente vai receber alguns créditos do OpenAI. Google Maps também acho que vai dar certo.

Como foi reunir voluntários para construir o aplicativo web e o chatbot?
O pessoal está gastando tempo mesmo, pelo menos oito horas por dia. 

Eu, por exemplo, pausei 99% das tarefas dos clientes que eu tinha. Diminuí 40 vezes o tanto de horas que eu estava prestando pra eles. O Pedro também. E a gente está com quatro pessoas de desenvolvimento no time de chatbot e outras três no time do aplicativo que estão gastando muito tempo. 

O Pedro trabalha comigo no mesmo nível numa outra empresa. Ele e o Rodrigo, que ajuda com infraestrutura e eu já tinha contratado para alguns serviços, são os únicos que eu conhecia antes disso tudo. 

Atrair os outros voluntários no começo foi trabalho de formiguinha. Alguns primeiros vieram de [a gente] “encher o saco” do pessoal no WhatsApp – enviei um vídeo explicando o desafio, e dizendo pra quem puder colaborar me chamar 

Eu postei isso em várias comunidades do WhatsApp, do Slack, comunidade pagas também na forma de grupos no WhatsApp, de criadores de conteúdo que falam sobre as ferramentas que a gente utiliza para construir os apps e chatbots, e ajudam as pessoas a trabalhar com essas ferramentas. 

Por exemplo, a comunidade do Renato Asse, que é o maior influenciador que fala sobre Bubble, no Brasil, tem 160 mil inscritos no YouTube, e uma comunidade paga com 15 mil membros. Eu já usei a comunidade dele várias vezes para achar gente. Pedi, e o Renato também postou nos stories dele. 

Outras pessoas compartilharam. A gente ainda está recebendo aplicações de novos voluntários. 

Quais são os próximos passos no trabalho de vocês que estão fazendo?
Construir um sistema de match automático legal para conectar esses 4 mil voluntários com quem está precisando do trabalho deles. Por exemplo, vai ser preciso reforma de casas, eletrodomésticos, oportunidades de trabalho. Tem muita coisa ainda para acontecer. 

De time de tecnologia, eu acho que a gente está bem, oito pessoas; gosto de trabalhar com time enxuto. Mas faltam pessoas de produto, para estar em contato direto com pessoal que precisa de ajuda lá. Para fazer aquisição de abrigos parceiros [fazer com que eles se cadastrem na ferramenta], de transportadoras parceiras. 

Então, [precisamos de] pessoas de produto focadas em conversar bastante com os usuários e fazer a aquisição [registro] de novos usuários e parcerias, pessoas que já construíram negócios ou têm experiência em startups… 

O cara que tem a caminhonete e que pode fazer um monte de frete, se estiver disponível. Ou o cara que tem um galpão disponível… Ou a igreja. Entidades precisam ser cadastradas para gente poder ajudar para poderem fazer pedidos no site, receber a cesta básica, roupas e por aí vai. 

Basta entrar no site, clicar no botão “Seja um Voluntário” e preencher os detalhes. 

A crise climática vai fazer com que esse colapso que estamos vendo no Rio Grande do Sul aconteça com mais frequência, segundo especialistas. Então há várias possibilidades para pessoas empreenderem soluções de reação ou prevenção às catástrofes. Como fazer disso um negócio, ou pelo menos uma ONG sustentável?
Pergunta boa. Não acho que seja um grande problema monetizar. Tem um monte de iniciativa que fez o mesmo, só que elas não foram tão pra frente porque não teve gente usando. 

Eu considero um dos maiores desafios de uma startup a aquisição de usuário. Para empresas que já adquiriram usuários, o principal problema é como fazer para ter usuários pagantes. Neste caso [do AjudeRS], eu não sei se o objetivo seria fazer algo lucrativo. 

É claro: tendo time de desenvolvimento, precisa pagar o salário do pessoal, então tem que entrar dinheiro de alguma forma… Por meio de parcerias com empresas, talvez. 

Não é o nosso objetivo, ainda. A gente não está se preocupando com dinheiro e em fazer lucro nessa iniciativa 

Vamos constituir empresa talvez, algo de tecnologia que tenha essa iniciativa da AjudeRS junto. Mas se a gente fosse focar em fazer dinheiro para manter os custos, seria uma parceria. Por exemplo, com a Brastemp, a Coca-Cola, e outras marcas que queiram colaborar e colocar o produto delas ali de alguma forma. 

Parcerias com prefeituras também – eu não gosto muito de B2G, mas elas podem ajudar bastante, porque é muito caótico esse cenário de desastres globais. Filantropia também. A gente sabe que a adoção do aplicativo tem um potencial viral. 

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