Verbete Draft: o que são low-code e no-code

Dani Rosolen - 22 set 2021
Foto de Markus Spiske no Pexels
Dani Rosolen - 22 set 2021
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Continuamos a série que explica as principais palavras do vocabulário dos empreendedores da nova economia. São termos e expressões que você precisa saber: seja para conhecer as novas ferramentas que vão impulsionar seus negócios ou para te ajudar a falar a mesma língua de mentores e investidores. O verbete de hoje é…

LOW-CODE E NO-CODE

O que é: Low-code (“pouco código”, em tradução livre) e no-code (“sem código”) são metodologias que buscam a utilização de menos — ou nenhum — código no desenvolvimento de produtos e serviços.

As plataformas low-code possibilitam a criação de aplicativos, games, sites, inteligências artificiais ou outros sistemas por profissionais sem nenhum conhecimento sobre programação — um “programador cidadão”, como é chamado nesse ecossistema.

A criação do sistema funciona num esquema “montagem-de-Lego”, em que blocos ou interfaces gráficas são combinadas para chegar ao resultado desejado. O ajuste final do produto ou serviço, no entanto, fica por conta da área de TI da empresa ou de um programador profissional.

Já as plataformas no-code estão um passo à frente. Não exigem nenhuma linha de código, ou seja, tudo é feito pelo “programador cidadão”, sem que o trabalho precise passar posteriormente pelo “refinamento” de alguém da TI. É um mercado mais recente, com algumas ferramentas de uso mais básico; mesmo assim, o no-code desponta como uma tendência forte para os próximos anos.

No entanto, não é porque o usuário da ferramenta low-code ou o no-code não precisa entender de linguagem de programação que será super simples e fácil criar um aplicativo ou uma inteligência artificial. Há uma curva de aprendizado no uso dessas soluções.

Para que serve: Para agilizar processos que precisam do apoio da área de TI em um ecossistema que sofre com a escassez de desenvolvedores. Segundo Rafael Bortolini, Head of Product Management da Zeev, empresa que desenvolve e fornece softwares com tecnologia low-code:

“Pela falta desses profissionais, as áreas de TI das empresas têm uma fila enorme de demandas. Com aplicações low-code, 80% do desenvolvimento de um aplicativo pode ser feito por uma pessoa sem conhecimento técnico. E os outros 20% serão finalizados por um especialista, responsável por tarefas mais complexas, como integrações” 

Sua adoção tem sido cada vez mais comum no mundo corporativo por economizar recursos humanos, financeiros e de tempo. Segundo a consultoria Forrester, com plataformas low-code é possível desenvolver aplicativos de forma até dez vezes mais rápida do que usando métodos tradicionais. Ainda de acordo com uma análise pré-Covid feita pela consultoria, este mercado deve chegar a mais de 21 bilhões de dólares já em 2022.

A Gartner, por sua vez, apontou que, até 2024, 80% dos produtos e serviços de TI serão construídos por pessoas que não são profissionais de tecnologia. A consultoria ainda destaca que só neste ano de 2021, esse mercado deve movimentar aproximadamente 14 bilhões de dólares, cerca de 23% mais do que em 2020.

Quando surgiram: Segundo Rafael, a ideia de criar plataformas low-code já existe há mais de 20 anos, mas a tecnologia da época ainda não permitia sua concretização. “Há dez anos, o pessoal chamava isso de outra coisa, como RAP (Rapid Aplication Development). Com o tempo, essas siglas e nomes foram mudando.”

O termo low-code, no entanto, foi utilizado pela primeira vez em 2014, pela Forrester Research para se referir a plataformas com interfaces de desenvolvimento baseadas em Graphical User Interface (GUI). No-code, por sua vez, é um conceito mais recente, de 2018; uma espécie de “evolução” do low-code, já que dispensa o uso de código.

Os dois termos ganharam ainda mais relevância no ano passado, quando a pandemia acelerou a transformação digital de várias empresas. Em busca de soluções rápidas em um país que sofre com a escassez de profissionais de TI, uma alternativas mais práticas foi buscar por plataformas low-code ou no-code.

A opção parece fazer sentido, levando em conta uma pesquisa da Softex que mostra que o Brasil enfrentará um déficit de 408 mil desenvolvedores em 2022, mesmo com o “corre” de escolas de programações e inciativas gratuitas para formar novos programadores.

“Em geral, quem usa essas plataformas na empresa são pessoas de gestão e do back office para automatizar sistemas e resolver problemas de suas áreas”, afirma Rafael, da Zeev.

Vantagens: O principal benefício para os profissionais de forma geral é a democratização da inovação, permitindo que resolvam problemas de suas áreas sozinhos, ao estilo “faça-você-mesmo”.

Para as empresas, ainda de acordo com Rafael, a vantagem é ajudá-las a se manter competitivas:

“Essas plataformas permitem que pequenas e médias empresas consigam se modernizar de forma viável, já que não teriam condições financeiras de contratar uma fábrica de softwares ou um programador”

Outra vantagem para negócios e empreendedores é facilitar o processo de prototipação.

“Em vez de investir seis meses na construção de uma nova tecnologia, é possível usar uma plataforma low-code ou no-code para, em algumas semanas, construir um aplicativo mais simples e validar hipóteses. E, se der certo, partir para um segundo estágio de investir mais pesado neste caminho.”

Além disso, esses recursos geram produtividade: em vez de focar na criação de linhas de códigos ou na necessidade de reescrevê-las em casos de atualizações, a área de desenvolvimento da empresa pode concentrar sua energia nas demandas do usuário por aprimoramentos.

“Alguns anos atrás, os profissionais de TI viam com maus olhos essas ferramentas, pois achavam que elas não poderiam fazer o mesmo do que eles que se capacitaram por no mínimo quatro anos em um curso de graduação”, afirma Rafael. “Hoje, os programadores são os primeiros a dizer que precisam de uma plataforma low-code ou no-code para atender pontualmente os problemas de uma empresa enquanto ‘apagam incêndios’, como questões relacionadas à segurança.”

Desvantagens: Se as plataformas low-code ou no-code não forem utilizadas para o uso adequado, há riscos de segurança e de erros, aumentando o trabalho (ou até o retrabalho) dos especialistas em TI.

“Se estamos falando em fazer um sistema de banking, por exemplo, com grandes transações, códigos complexos, alta performance e volume de acesso, o certo é a empresa contratar um programador. Agora, existe uma série de processos do dia a dia das empresas que estão sendo feitas em planilhas de Excel, e-mail, papel… E que podem ser automatizados por ferramentas low-code e no-code”

Outro eventual problema, de acordo com especialistas, é a empresa ficar “aprisionada” à tecnologia, flexibilidade e integração disponíveis pelo fornecedor da plataforma low-code e no-code. Além disso, a personalização do seu aplicativo ou site será baixa, já que a empresa terá que se limitar ao que a plataforma oferece (geralmente soluções massificadas).

Como ficam os programadores: As plataformas low-code e no-code são criadas por desenvolvedores profissionais. Ou seja, os especialistas em TI continuarão a ser fundamentais. E, com o dia a dia facilitado pela criação de códigos automatizada, terão mais tempo para se dedicar a desafios que tragam avanços tecnológicos para empresas e consumidores.

Em um artigo no Medium (acesse o texto na íntegra em “Para saber mais”), Aytekin Tank, fundador da JotForm, afirma: “Como em qualquer novo movimento, sempre há aqueles que contestam o progresso e espalham o mito de que a ausência de código significa que a codificação está morta. Aqui está a verdade: todas essas plataformas [low-code e no-code] existem por causa de desenvolvedores brilhantes. E desenvolvedores brilhantes sempre estarão em alta demanda.”

Na Harvard Business Review, Chris Johannessen, diretor de Transformação Digital no Axis Group, e Thomas H. Davenport, professor de TI e Gerenciamento na Babson College, reforçam que o uso de plataformas com pouco ou nenhum código pode ser uma solução para a escassez de profissionais de programação: “Quase todas as organizações hoje precisam de mais talentos no desenvolvimento de sistemas. Low-code e no-code não são um remédio milagroso, mas podem resolver parte dessa carências de recursos…”

Os autores citam ainda Chris Wanstrath, cofundador do Github, que afirma: “O futuro da programação é não programar.” (Leia o artigo na íntegra no link disponível em “Para saber mais”).

Quem cria low-code e no-code no Brasil: Além da própria Zeev, existem diversas outras empresas atuando neste mercado, como Abstra, Cronapp, Pipefy, Nick Builder e uMov.me.

A startup pioneira no segmento e líder de mercado é a portuguesa Outsystems, que já é um unicórnio com valor de mercado de aproximadamente 9,5 bilhões de dólares.

Para ter uma ideia de uso prático dessas ferramentas, com a solução da Zeev, o Instituto Espírita Batuíra de Saúde Mental (hospital 100% SUS de Goiânia) criou sua própria ferramenta de controle do processo de acompanhamento dos pacientes e de gestão administrativa, reduzindo em 90% a necessidade de treinamento do time.

A ferramenta da Zeev também ajudou a otimizar processos no Banco BMG, com a criação de uma ferramenta de gestão de processos de negócio.

Para saber mais:
1) Leia, no Medium, o artigo Why no-code doesn’t mean no coders;
2) Também, no Medium, acesse o texto The rise of ‘no code’;
3) Confira o artigo da Harvard Business Review intitulado When low-code/no-code development works — and when it doesn’t;
4) Leia, na Forbes, How to harness the potencial of low-code/no-code plataforms;
5) Saiba mais sobre o unicórnio low-code Outsystems em uma reportagem da Exame.

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