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Viver perto da natureza é um privilégio cada vez mais raro. No caso de Renato Paquet, 34, foi também um fator que influenciou decisivamente sua trajetória profissional e seu propósito empreendedor.
Até os 17 anos, Renato viveu em uma Área de Proteção Ambiental, em Macaé de Cima, no território do município de Nova Friburgo, na serra fluminense.
“Cresci com a consciência de que era importante prezar aquilo, mas principalmente conseguir desfrutar do que a gente tinha em volta, como passear na floresta, tomar um banho de cachoeira”
Essa visão o levou a cursar Ecologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Eu queria trabalhar com a conservação da área em que vivi e morei.” Mas ainda durante a graduação, Renato conta que topou com a revisão do Código Florestal, em 2012.
A medida mudou completamente o zoneamento das áreas de conservação ambiental e fez com que Renato entendesse que mudanças regulatórias poderiam alterar completamente sua atuação profissional, levando-o a repensar a trajetória.
Naquela época, diz, começava-se a falar muito em ecologia industrial, campo que estuda o sistema industrial como um ecossistema, em que os resíduos e subprodutos de uma empresa servem como matéria-prima para outra. “Ali, entendi que a reciclagem é uma forma de conservação ambiental, o caminho que eu desejava seguir.”
Com isso em mente, Renato — que, na época trabalhava na área de meio ambiente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) —, desenvolveu um projeto interno para a organização. “Como não quiseram tocar a ideia adiante, pedi demissão para fazer isso.”
Assim, ele trocou sua versão de ecólogo pela de empreendedor — e fundou a Polen, em 2o17.
A Polen começou como um marketplace, ligando indústrias geradoras de resíduos a outras que poderiam usar esses insumos como matéria-prima.
“A gente conectava, por exemplo, uma fábrica de embalagem de garrafa PET que tinha um excedente a uma empresa que fazia camisetas a partir de tecido de PET reciclado.” A startup também cuidava de toda a parte de transporte, pagamento, segurança e qualidade da carga.
“Durante um ano e meio, conseguimos angariar bastante indústrias, mas não o suficiente para ter o que a gente chama de efeito de rede e gerar um volume bom de negócios. E depois que a gente fazia essa primeira conexão, o marketplace se tornava desnecessário”
Mas a Polen tinha um diferencial, conta Renato: “A gente conseguiu desenvolver um software espetacular de rastreabilidade balizado em blockchain, que monitorava a origem da carga, destino, transporte, reunia todas as documentações e tokenizava essas informações”.
O marketplace talvez não fosse tão interessante para a indústria, mas o software até então usado internamente, sim. E Renato percebeu isso ao receber a ligação de uma grande empresa de cosméticos, que já era cliente da Polen.
“Eles estavam interessados na nossa ferramenta de rastreabilidade para comprovar a destinação correta de embalagens dentro de sua operação de logística reversa”
Num país que recicla cerca de 3% do que produz, Renato enxergou ali uma dor mais ampla do mercado, confirmada depois por conversas com outras empresas, órgãos ambientais, Ministério Público e cooperativas. A partir daí, a empresa migrou do marketplace para um software e modelo focado em logística reversa de embalagens.
De olho na obrigação das empresas, segundo decreto federal, de cumprir com a logística reversa de 32% de suas embalagens de plástico (2026) para obterem suas licenças ambientais, a startup estruturou um sistema em que cuida desse processo para os clientes.
“Na prática, se a empresa coloca mil toneladas de plástico no mercado, a Polen cuida de recuperar a mesma quantia — independente se o plástico que reciclamos é daquela empresa —, e isso é registrado no nosso sistema, gerando um crédito”, diz. E completa:
“Criamos um sistema de compensação do impacto ambiental muito similar ao de carbono, só que de crédito de logística reversa”
O modelo da Polen, conta Renato, acabou servindo de referência para a regulamentação federal do setor, em 2019. E a empresa participou ativamente dessa discussão. “Contribuímos para a adoção de nota fiscal como base de rastreabilidade, por ser um documento de fé pública, pois antes a empresa só precisava fazer uma declaração e assinar.”
Hoje, a startup conta com cerca de 500 clientes utilizando esse serviço.
Em 2024, a startup lançou mais um produto para atender à necessidade das empresas de inserir 22% de conteúdo reciclado em suas embalagens, prevista em decretos e normas do setor.
“Nosso raciocínio foi o seguinte: se o Brasil tem uma taxa de reciclagem tão baixa e todas as indústrias passarem a ser obrigadas a usar material reciclado, não vai ter matéria-prima para todo mundo”, diz.
Ele explica o porquê desse dilema:
“As grandes empresas não conseguem comprar de um fornecedor pequeno, como catadores e sucateiros, pela falta de documentos desses profissionais —fora isso, eles geram poucas quantidades de materiais e cada um tem um padrão de separação”
A Polen Materiais surgiu para resolver esses gargalos que dificultam o processo industrial em escala. O produto, segundo Renato, conta com cerca de 60 empresas clientes. A proposta é consolidar essa cadeia pulverizada de materiais recicláveis, padronizá-los e fornecê-los diretamente a indústrias recicladoras e grandes empresas.
A operação conta atualmente com seis hubs — em Porto Alegre, Itajaí (SC), Curitiba, Betim (MG), Salvador e Rio de Janeiro — e capacidade instalada de cerca de 3 mil toneladas por mês de material reciclado.
Segundo o empreendedor, os hubs da Polen não olham apenas para a eficiência da cadeia de materiais reciclados, mas para a dignidade de quem faz parte dela.
“Atuamos com a dimensão da melhoria da qualidade de vida e trabalho dos catadores autônomos, então nossos hubs contam com assistentes sociais, salas para educação à distância de jovens e adultos, vestiários, local de descanso e refeitório”, afirma Renato.
“Além disso, formalizamos esses profissionais, abrindo um MEI para que possam emitir nota, passem a ter registro bancário de suas operações financeiras para comprovar renda e poderem, por exemplo, sair de situação de rua e alugar uma casa”
Ainda segundo Renato, a Polen oferece aos integrantes das mais de 300 cooperativas parceiras orientações básicas jurídicas, de gestão financeira, marketing e vendas. “A ideia é ajudá-las a ter senso crítico para a análise de um contrato e incentivá-las a, mais do que receber e vender material, prestar serviço para, por exemplo, um grande evento ou um shopping center no bairro onde o atuam.”
Ele informa que a Polen investiu, em 2025, cerca de 30 milhões de reais em infraestrutura para cooperativas, hubs e estruturas ligadas à reciclagem.
Agora em 2026, a startup vai lançar mais um serviço, a Polen Atlas, um software de gestão e endereçamento de ações para o portfólio de embalagens das indústrias.
Na prática, o que a ferramenta irá fazer, depois que a empresa cliente alimenta o software com informações do seu portfólio, é mapear todos os subtipos (SKUs) de embalagens da companhia (uma garrafa pet, por exemplo, conta com o vasilhame em si, o rótulo e a tampinha, ou seja, três SKUs), cruzar especificações sobre estados de venda daqueles produtos e metas regulatórias para então apontar qual é a melhor embalagem para inserir conteúdo reciclado e também como otimizar a logística reversa.
“Imagine uma empresa com um portfólio de 60 produtos, ela vai ter cerca de 500 SKUs. Seria humanamente impossível tomar decisões pautadas em inteligência levando em conta essa quantia de embalagens. Mas o software, com o uso de IA, pode fazer isso”
Ainda segundo Renato, a plataforma Polen Atlas consegue recomendar, por exemplo, mudanças na embalagem secundária para gerar mais eficiência e menor custo — dispensando a fabricante de precisar mexer em sua embalagem primária. Cerca de 60 empresas já estão testando essa novidade.
Há anos atuando nesse mercado, Renato cita alguns gargalos a serem superados pelo setor, incluindo a baixa fiscalização do cumprimento das obrigações de logística reversa e os possíveis impactos da reforma tributária sobre a cadeia da reciclagem.
Nesse contexto, ele é favorável à aprovação da PEC 34/2025 (PEC da Reciclagem), proposta que busca eliminar a bitributação dos materiais recicláveis (a matéria aguarda a instalação de uma Comissão Especial na Câmara para ser votada em dois turnos no Plenário).
Segundo o empreendedor, o problema ocorre porque embalagens que retornam à cadeia produtiva como material reciclável acabam sendo novamente tributadas após já terem recolhido impostos quando colocadas originalmente no mercado. Sem um tratamento específico para a reciclagem na regulamentação da reforma, diz Renato, a carga incidente sobre o setor, hoje na faixa de 7% a 11%, poderia chegar a cerca de 27%.
“Essa proposta da PEC tem um peso pequeno no orçamento: os estudos mostram um impacto direto de 7 bilhões de reais sobre a arrecadação do governo. Mas o que ela entrega, na verdade, é um ganho de 11 bilhões com a formalização”
Esse ganho ocorreria, na visão dele, porque uma carga tributária compatível com a realidade do setor reduziria os incentivos à informalidade, ampliando a geração de empregos e a arrecadação total do sistema.
Apesar dos desafios, o fundador da Polen vê o momento atual como uma oportunidade para estruturar um mercado que ganha cada vez mais relevância. Para os próximos meses, sua meta é acelerar a expansão da empresa.
“Vamos lançar mais quatro hubs da Polen Materiais, atendendo 70% da população brasileira, e estruturar melhor a cadeia da reciclagem para ter matéria-prima suficiente para fornecer a todos os nossos clientes.”
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