Governos e empresas estão de olho no que hoje se apresenta como a melhor alternativa conhecida para a redução de emissões de gases poluentes nas cidades brasileiras: a eletromobilidade. Em junho passado, o presidente Luís Inácio Lula da Silva fez questão de inaugurar pessoalmente a fábrica da Eletra, indústria brasileira de ônibus elétricos e híbridos, em São Bernardo do Campo (SP). O recado estava dado: a partir de agora, há uma sinalização de políticas públicas ao setor.
“O Brasil está há uma década atrasado na eletromobilidade, em relação aos países mais avançados, mas estamos recuperando o tempo perdido. O que retardou foi a crise econômica pela qual o transporte coletivo vem passando nos últimos 10 anos. Tivemos uma perda de passageiros de 25% que migraram para veículos individuais. Acho que faltaram incentivos públicos, mas agora a consciência pública e privada sobre a importância da eletromobilidade chegou, com um interesse maior por soluções alternativas e viáveis financeiramente”, afirmou Milena Romano, presidente da Eletra.
Com a nova fábrica, o objetivo da empresa é chegar a uma produção de 150 ônibus elétricos por mês, ou até 1.800 por ano. Demanda é que não falta: estima-se que o transporte de passageiros se multiplicará por 2,3 vezes em 2050, de acordo com a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
O DESAFIO FINANCEIRO
Eletrificar a frota pública não é algo tão simples e que acontece da noite para o dia. Um primeiro desafio é o custo: o valor inicial de um ônibus elétrico é cerca de três vezes o de um ônibus a diesel, sendo a bateria responsável por 50% desse valor.
No entanto, a Eletra afirma que esse investimento deve ser pago em 5 anos, com outros custos sendo barateados. Por exemplo, por ser veículo de câmbio automático e com uma simplificação em relação ao diesel que diminui o número de componentes de 15 mil para menos de 1 mil na estrutura do chassi, o ônibus elétrico promete devolver o investimento com um custo operacional até 70% menor.
Uma ideia veio inspirada em um case de sucesso do Chile, hoje com 1223 ônibus elétricos em circulação, 90% na capital. Em Santiago, o governo contratou uma empresa para fornecer ônibus elétricos e outra para operar o serviço. Dessa maneira, o contrato da frota entre a cidade e empresas foi feito por aluguel, barateando e agilizando o processo, além de diminuir o custo do serviço como um todo.
“O custo inicial é uma grande questão ainda para aderir ao veículo elétrico, mas a operação e a manutenção são mais baratas do que nos veículos movidos a diesel, e os problemas são menores, o que acaba atenuando esse investimento inicial. Então, replicando esse modelo de locação, acho que conseguiremos avançar aqui no Brasil”.
BENEFÍCIOS DOS ÔNIBUS 100% ELÉTRICOS
O principal benefício da eletrificação da frota é para o meio ambiente – um ônibus despeja, na atmosfera, 2,64 quilos de CO2 a cada litro de diesel consumido. Em média, cada ônibus roda 200 quilômetros por dia, na cidade, gastando, aproximadamente, 1,4 km/l de diesel. Ou seja, diariamente, cada veículo joga no ar quase 377 quilos de CO2. Mas há também outros pontos de destaque como o bem-estar dos passageiros e melhores condições de trabalho dos motoristas, estes, peças chaves no processo.
“Iniciamos essa operação no BRT em Salvador há mais ou menos um ano e no novo corredor foram colocados carros a diesel e os nossos elétricos. Eram ônibus do mesmo ano, com a mesma carroceria, mesmo chassi, mas um elétrico e o outro a diesel. Com isso, pudemos ter comparativos muito reais dos dois modelos”, disse Milena. Ela completou:
“O que observamos foi que os passageiros esperavam o ônibus elétrico passar por ser mais silencioso, ter mais leveza e menos trancos no trajeto, ou seja, o passageiro teve mais conforto”.
O fato de ser novidade e sustentável, segundo ela, também atraiu a curiosidade dos passageiros. Outro benefício foi o ganho em energia. “Em média, o elétrico economiza entre um quarto e um quinto de energia com relação ao ônibus a diesel. Em Salvador, com o treinamento adequado dados aos motoristas, essa economia está chegando a um sexto. O motorista pode reduzir em até 20% o consumo da bateria dependendo da forma que ele dirige”.
A CHINA NA LIDERANÇA
Hoje existem mais de 600 mil ônibus elétricos à bateria rodando no planeta, segundo o EV Outlook 2021. A China lidera (98%) e de lá vem o exemplo de mais sucesso: a cidade de Shenzhen tem 100% da frota de transporte público eletrificada, somando 16.500 ônibus.
No Brasil, do total de 323.902 mil ônibus municipais e metropolitanos em operação, segundo o Anuário Estatístico 2023 da Anfaeva (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), apenas 376 ônibus são elétricos. Desses, 282 são fabricados pela Eletra, 65 pela chilena BYD, e outros 29 por diferentes fabricantes. Os dados são da E-bus Radar.
Na fábrica da Eletra já estão sendo produzidos os veículos de 12,5 m, o de 15m, o 12,8m que é um ônibus com recarga, com menos baterias, mais leve e com maior capacidade de passageiros. Com operações em Vitória (ES), Salvador (BA), Curitiba (PR), Goiânia (GO), São Paulo capital e na região do Grande ABC, além de Argentina e Nova Zelândia, com a nova fábrica, a meta agora é ser líder latino-americana e global na produção de ônibus elétricos.
Segundo estimativas do Grupo de Veículos Pesados da ABVE, a cadeia produtiva do ônibus elétrico no Brasil terá capacidade para gerar cerca de 10 mil empregos diretos e indiretos nos próximos três anos. Milena vê potencial também para o setor ser líder nessa reindustrialização brasileira.
“O Brasil tem agora a possibilidade de retomar o mercado de ônibus perdido nos últimos 20 anos. Nós éramos os principais produtores e fornecedores de ônibus para toda a América Latina e perdemos esse lugar porque a indústria foi enfraquecendo, os impostos subindo, os incentivos acabando e perdemos a competitividade. Dentro dessa nova ideia de reindustrialização do país, estamos super bem posicionados. Existe vontade política, há uma solução brasileira, demanda de empresas e estamos prontos para fazer isso acontecer e ampliar empregos. É um caminho sem volta. O diesel vai diminuir cada vez mais, então precisamos estimular o mercado nacional para a gente não perder isso para um outro país, como perdemos para a China na América Latina”.
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