Empreender para quê? (Ou: trabalho é lugar para ser feliz ou para ganhar dinheiro?)

Adriano Silva - 11 ago 2016
Você precisa mesmo “fazer aquilo que ama” - ou essa conversa é apenas a “ditadura da felicidade no trabalho" impondo mais horas de insônia à sua vida? (Essa e outras 100 pequenas grandes reflexões sobre o mundo do empreendedorismo e a vida do empreendedor, no novo livro de Adriano Silva, publisher do Projeto Draft.)
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Muito se tem falado sobre “trabalhar com aquilo que você gosta”, “fazer o que você ama”, trabalhar com “propósito”, ter uma “missão” na carreira e na vida. Seja você um executivo ou um empreendedor.

De um lado, essa conversa já virou clichê. De outro, já tem gente se insurgindo contra essa “obrigação de ser feliz”, contra o que seria uma “ditadura da felicidade”.

Gostaria de dizer o seguinte:

Carreira é como casamento

Você precisa escolher bem. Trata-se de uma relação de longo prazo, que você precisa escolher com o coração, pela paixão. Mesmo sem saber como fará para pagar o aluguel ou para mobiliar a casa ou para por comida em cima da mesa ou para arcar com a escola dos futuros filhos. Quando você está com a pessoa certa, passa a ver o mundo e as coisas de outra forma. Suas prioridades mudam. E o que você considera “sucesso” também.

No fim, tudo dá certo. Em termos práticos, sempre acabamos sobrevivendo. Então, já que chegaremos “lá” de um jeito ou de outro, o que importa mesmo é você ser feliz no processo, é o tanto de alegrias e de sorrisos que você experimenta ao longo do caminho.

O contrário disso também é verdade: quando você está com a pessoa errada, mesmo que tudo dê “certo”, a coisa já deu errado, já começou errada, está irremediavelmente errada. Na carreira, quanto mais você avançar por uma estrada que não é a sua, mais você se afastará de si mesmo. Nesse cenário – desolador – quanto mais você der “certo”, mais “errada”, ou errática, será a sua vida profissional.

Eis o ponto: você tem que fazer o que você tem que fazer. O resto é secundário, o resto vem depois. Nenhum fracasso será maior do que não fazer aquilo que você tem que fazer. Qualquer alternativa é pior do que isso. Quando você está fazendo com sua vida exatamente aquilo que você deveria estar fazendo com sua vida naquele momento, mesmo se der errado já deu certo. O contrário também é verdadeiro: quando você está fazendo algo que não tem nada tem a ver com você, mesmo se der certo, já deu errado.

Enfim: você projeta para a sua vida amorosa uma relação quente, apaixonada, com sexo bom, com cumplicidade, olho no olho, beijo na boca, intensidade – ou uma relação morna, baseada em interesses e em conveniência, sem prazer, sem intimidade, marcada pela distância e pela indiferença entre os consortes? Com a vida profissional, na relação entre você e o trabalho, é a mesma coisa.

Você faz por amor ou por dinheiro?

É tanto esforço que você precisa dispender para fazer alguma coisa bem feita, para criar um legado com o seu trabalho, para construir uma crônica bacana dos anos em que você estiver na ativa, que só é possível fazê-lo se você gostar de verdade do que está fazendo. Mais: se houver paixão, brilho no olho, entusiasmo verdadeiro. Se não tiver isso, não rola. Não haverá combustível suficiente para ir adiante. (Fazendo o que se gosta já é difícil, já é preciso dar um bocado de sangue pelo caminho, imagine com uma trava na roda…)

Sem paixão, você virará um burocrata cuja única meta no mês é ver chegar o dia do pagamento. É muito pouco. Um holerite, ou um pró-labore, em maior ou menor medida, qualquer atividade lhe trará. Satisfação, realização profissional, não vêm no automático. Sem amor pelo que você faz não haverá nada – nem obra construída, nem trabalho criativo, nem alegria, nem dedicação. A vida ficará muito árida. E a carreira, uma coisa insossa, insípida – intragável.

Dono do Próprio Nariz, recém-lançado, encerra a trilogia O Executivo Sincero, de Adriano Silva, publisher do Projeto Draft

O livro “Dono do Próprio Nariz”, recém-lançado, encerra a trilogia O Executivo Sincero, de Adriano Silva, publisher do Projeto Draft

 

O trabalho precisa fazer sentido

Sair todo dia de casa e entregar 10 horas da sua vida a uma atividade precisa ter um significado. Quando se fala em true call (“chamado verdadeiro”), ou “propósito”, ou “missão”, é disso que estamos falando – um sentido para o trabalho, um significado para a vida. Isso é profundo pacas. Tem um valor muito maior do que um salário ou do que um pró-labore.

Não negligencie a si mesmo

Desistir de extrair do trabalho mais do que um contracheque ou a emissão de uma nota fiscal equivale a desistir de si mesmo. É preciso coragem para descobrir o que lhe faz feliz e para seguir a trilha da sua realização profissional. Ao mesmo tempo, é preciso uma dose cavalar de indiferença – e de negligência – consigo mesmo para desistir dessa busca.

A gente às vezes desiste de fazer o que gosta imaginando que a equação – financeira – não vai fechar. Mas a grande equação que não fecha – e que nos mina a saúde física e mental, inclusive – é quando nos dedicamos a fazer algo que não nos diz o menor respeito, em nome de um punhado de moedas.

Uma carreira, muitas vezes, é a sua própria recompensa

O prazer de fazer bem feito algo que lhe dá orgulho e prazer de realizar tem um valor intrínseco enorme. A gente olha muito para fora – e olha de menos para dentro. A gente faz muita conta – quando as somas e subtrações já estão semiprontas, internamente. A gente fica tentando racionalizar uma decisão equivocada – quando, emocionalmente, já sabe qual é a decisão correta a tomar.

A questão não é fazer alguma coisa que possa lhe render um bom dinheiro, mas, ao contrário, tentar ganhar um bom dinheiro, ou o máximo possível de dinheiro, fazendo alguma coisa que você gosta.

Seu padrão de vida deve se adaptar ao seu padrão de felicidade – e não o contrário. Porque sacrificar a sua alegria de viver – e de trabalhar – em nome de um punhado de moedas é uma conta absurda, que simplesmente não fecha.

Em suma: deixar que o critério da grana seja o primeiro a ser considerado é correr o risco de que ele distorça tudo e de que, portanto, suas decisões saiam tortas. Esses dias ouvi uma mãe detonar uma possibilidade profissional aventada por um filho com uma simples pergunta feita à queima-roupa – “quanto você imagina que vai ganhar fazendo isso?” Como se esse fosse o único item a ser considerado numa análise de caminho profissional. Eis como um adulto infeliz pode transformar uma criança noutro adulto infeliz.

Para alguns, o “propósito” pode ser simplesmente ganhar dinheiro

Sim, é possível que a “missão” profissional de alguns, que o true call para algumas pessoas, seja meramente adquirir esse ou aquele patrimônio vida afora. Se isso for de fato o desejo central do sujeito, não fará muita diferença o que ele estiver fazendo, a substância do seu trabalho, desde que isso lhe proporcione os cobres necessários.

Como saber se você é uma pessoa assim? Simples. Esse indivíduo jamais estará infeliz no seu dia-a-dia profissional – porque seu coração não bate ali. Ele também não será uma pessoa triste com a sua escolha de carreira – porque seus interesses serão atendidos noutra dimensão da vida.

Se você não se importa de trabalhar desapaixonadamente, se sua rotina de trabalho não se esvaziar nem ficar insuportável porque sua cabeça está permanentemente ligada noutro cenário, se você não se incomoda de fazer “sexo sem amor”, com quem quer que lhe pague o que você pediu, siga em frente e seja feliz, a seu modo. Sem culpa e sem tristeza. Seja como executivo, seja como empreendedor.

A escolha pela paixão muitas vezes implica ganhos menores

Você trocaria parte da sua remuneração em nome de fazer aquilo que você mais gosta? E você toparia um pacote de compensação maior para fazer algo de que não gosta? (É notável, e paradoxal, no entanto, que muita gente que opta pela relação pragmática e fria com o trabalho também acabe ganhando mal…)

Me pergunto se a ausência de paixão não acaba conduzindo a uma performance menos brilhante que gera, em consequência, com o passar do tempo, recompensas mais opacas. É possível que o trabalho com amor gere um esmero e uma entrega tais que, mesmo na comparação meramente financeira, venha em algum momento desbancar a opção profissional desapaixonada.

Você só é feliz aos sábados e domingos?

Não é crime gostar de feriado – mas começar a segunda-feira já sonhando com a sexta é um sinal claro de que alguma coisa não vai bem em sua vida profissional. Se o seu ano só faz sentido nos períodos de férias, nos feriadões e nas Festas de Fim-de-Ano, talvez valha a pena rever suas escolhas.

Como em qualquer revisão, isso poderá exigir mudanças em seu jeito de fazer as coisas. E, como em qualquer mudança, isso exigirá coragem. Mas não é muito mais amedrontador encarar duas ou três décadas de trabalho pela frente com uma permanente sensação de infelicidade?

Nós nos mantemos infelizes em modelos que não nos satisfazem – porque queremos

Com frequência imaginamos que estamos perdidos em becos sem saída – quando estamos apenas trancafiados em modelos mentais, em arapucas que armamos para nós mesmos.

Escreve aí: ninguém é obrigado a isso ou aquilo. Nenhuma situação é definitiva. Fazemos opções. Algumas delas absolutamente irracionais. E nos trancafiamos dentro dessas escolhas de modo bizarro, às vezes pela vida toda, sem percebemos que podemos fazer outras opções a qualquer momento.

O que você está fazendo com seu tempo?

Às vezes repasso meu dia e vejo que não fiz nada daquilo que deveria estar fazendo. Nada daquilo que gostaria de estar fazendo. Isso é abandonar minha missão na vida, meu talento mais essencial, meu desejo mais pulsante. Não importa que tenha gastado aquele tempo ganhando dinheiro ou resolvendo problemas ou atendendo expectativas a meu respeito. Importa que tergiversei. Que desperdicei horas preciosas.

Quando você não sabe qual é o seu propósito, é fundamental descobri-lo. Quando você sabe, que sentido faz dedicar um minuto que seja a qualquer outra coisa?

 

 

Este artigo é um excerto do livro Dono do Próprio Nariz – reflexões para quem sonha com uma vida sem crachá nem chefe, de Adriano Silva, publisher do Projeto Draft. O livro traz, em 270 páginas, mais de 100 pequenas grandes reflexões sobre o mundo do empreendedorismo e a vida do empreendedor. Você pode adquiri-lo aqui ou aqui.

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