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“Entendi que o meu caminho era aproximar as pessoas do sonho de estudar música e da alegria de tocar um instrumento”

Moana Martins - 6 maio 2022
Moana Martins, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Música e Educação.
Moana Martins - 6 maio 2022
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Apesar dos graves problemas econômicos que enfrentei ao lado da família, minha infância foi muito feliz. Nasci em Salvador e me mudei algumas vezes até chegar ao extremo sul da Bahia, onde vivi dos 12 aos 31 anos.

Naquele momento, meu mundo eram os colegas da escola, as atividades esportivas e os amigos da vizinhança. Nesta época, passei a ter contato com a música, a começar pelo meu pai, que tocava violão em casa, ao lado da minha mãe, que adorava cantar.

Foi, no entanto, a escola a grande responsável por me mostrar que a música poderia ser um caminho profissional. Com falta de referências sobre essa possibilidade no meu universo familiar, vislumbrava apenas carreiras como medicina e direito 

No 3º ano do Ensino Fundamental, vivi uma experiência encantadora, quando a professora Cláudia formou um coral para os alunos se apresentarem na Páscoa, acompanhando-nos com seu violão.

Anos depois, a música entrou definitivamente na minha vida. Cursava então a 7ª série no Educandário Pestalozzi, no município de Coaraci (BA), quando a professora Elza me abriu um universo novo.

Ao lado da minha irmã, comecei a estudar piano no contraturno escolar, no âmbito de um projeto social. Estava selada ali a minha paixão pela música!

SEMPRE TIVE DISPOSIÇÃO PARA ASSUMIR RISCOS, UM DELES FOI DEIXAR A BAHIA PARA ME AVENTURAR NO RIO DE JANEIRO

Por outro lado, continuava atenta aos desafios socioeconômicos no cotidiano da minha família, como as instabilidades no emprego e as difíceis condições de sustento.

Meu espírito de liderança já se destacava naqueles primeiros tempos. Fui muitas vezes líder de sala e participei do grêmio estudantil. Aos 12 anos, observando como a baixa qualidade do quadro negro prejudicava nosso aprendizado, reuni os alunos da turma, procuramos a Prefeitura e conseguimos uma lata de tinta para reformar o equipamento escolar.

A criatividade e a coragem destacavam-se como traços relevantes da minha personalidade, além da alegria, do amor pelas pessoas e a persistência: não sou de desistir dos meus sonhos! Foi assim que assumi grandes riscos para conquistar meus objetivos, muitas vezes de forma intuitiva

O Rio de Janeiro era um desses sonhos desde os 14 anos, quando um professor me ensinou a tocar “Samba do Avião”, de Tom Jobim. Eu ficava imaginando a cidade enquanto cantarolava: “Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara”

MESMO SEM O MESMO NÍVEL DOS OUTROS ALUNOS, PASSEI NA UNIVERSIDADE (E RALEI PARA ACOMPANHAR A TURMA)

Guardei minhas inseguranças e tentei ingressar no bacharelado em piano na Conservatório Brasileiro de Música, no Rio.

Na prova prática, quando me apresentei para a banca, os professores questionaram de onde eu havia vindo e com quem tinha aprendido a tocar piano.

Meu nível era nitidamente inferior ao dos colegas, não tive qualquer professor para me preparar. Ainda assim, consegui a vaga e me dediquei para terminar o curso no mesmo nível dos outros alunos

Quando concluí a faculdade, voltei para a Bahia com lágrimas nos olhos — mas sabia que a minha história no Rio de Janeiro ainda não tinha acabado.

Já de volta, comecei atuando como professora, intencionando também tocar ou reger orquestras e coros.

PARA AJUDAR QUEM QUERIA ESTUDAR MÚSICA, LARGUEI A BATUTA E PASSEI A ME DEDICAR AO TRABALHO GERENCIAL

Abri uma escola de música privada, mas encontrei muitas dificuldades: os alunos permaneciam por pouco tempo devido à pressão das famílias, que queriam que eles tomassem direcionamento profissional diferente.

Assim, era difícil formar grupos duradouros.

Ao mesmo tempo, conheci jovens que integravam uma fanfarra, sedentos por ter na música sua atividade profissional, mas que não podiam pagar qualquer mensalidade…

Com essas frustrações, acabei entendendo que meu caminho era justamente diminuir a distância entre aqueles que queriam estudar música e muitas vezes não conseguiam, além de aproximar deste universo quem não conhecia a alegria de tocar um instrumento.

Percebi que precisava assumir a responsabilidade de trabalhar pela continuidade dos projetos. Então, larguei a batuta e passei a me dedicar ao trabalho de gerência relacionado a eles.

Mais à frente, comecei a atuar com prefeituras nas cidades da Bahia, realizando concertos e apresentações musicais em datas especiais.

Os patrocinadores apostaram em nossos projetos e vieram parcerias com empresas locais e outras de grande porte, como o BNDES e o Criança Esperança

Além da disciplina, aprendi, com mais experiência, a ser menos individualista, a ter mais empatia — dividindo sonhos, realidades e conquistas.

O propósito comum é meu combustível para continuar olhando para os objetivos com persistência, apesar de todas as dificuldades neste meio.

O INSTITUTO BRASILEIRO DE MÚSICA E EDUCAÇÃO COMEÇOU COMO UM PROJETO NO MORRO DA PROVIDÊNCIA, NO RIO

Lembra que falei que minha relação com o Rio não tinha acabado? Continuei a viajar para a capital fluminense para realizar diversos cursos. E, em meio a idas e vindas, conheci no aeroporto um grande amor.

Já são 12 anos de parceria pessoal, que também se estendeu para o campo profissional, já que ele é um grande músico e produtor.

Ao lado de outros profissionais, como jornalistas, pedagogos, historiadores, geógrafos, professores e os mais diversos profissionais de música, fundamos, em 2011, no Rio, a Associação Cultural Amigos da Providência, no Morro da Providência, conhecido como a primeira favela do país

Tratava-se do embrião do que viria a ser o Instituto Brasileiro de Música e Educação (IBME), projeto que leva formações musicais na rede municipal de ensino do Rio de Janeiro para mais de 12 mil crianças e jovens, como a Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca (OSJC) e suas ramificações.

Durante esses mais de dez anos, firmamos grandes parcerias com empresas como Petrobras, Braskem e Uber, que beneficiaram milhares de participantes em nossas ações.

POR MAIS DIFÍCIL QUE SEJA TRABALHAR COM CULTURA NO BRASIL, ME REALIZO COM CADA CRIANÇA QUE SE INICIA NO UNIVERSO MUSICAL

Temos vivido tempos desafiadores, de muita dor coletiva.

Para além da pandemia (momento em que seguimos firmes com as atividades remotas), nesses quase 25 anos dedicados a este propósito, percebo que sempre temos que lutar muito para fazer arte e cultura no Brasil — especialmente quando o trabalho é com crianças e jovens com poucas oportunidades.

Lutamos diariamente contra a falta de visão, apoio, financiamento, infraestrutura… e contra políticas públicas ineficientes

Por outro lado, a experiência e as vivências fortalecem os aprendizados, conquistas, realizações e alegrias. Seguimos em frente mirando as oportunidades que se abrem, e celebrando cada conquista.

Temos um sonho muito grande. Para realizá-lo, trabalhamos com afinco, conquistando novos parceiros e fortalecendo a participação de alunos, famílias e comunidades.

Acabamos de iniciar o Programa Geração de Sons no município de Areal (RJ), com orquestras, coros e polos musicais em todas as escolas.

Me realizo a cada nova criança e jovem que se inicia na música, a cada polo que se abre, a cada orquestra que se constitui, a cada concerto executado. Hoje, minha trajetória profissional se confunde com a do Instituto Brasileiro de Música e Educação. E sou muito grata por cada conquista.

 

Moana Martins é pianista e diretora executiva do IBME – Instituto Brasileiro de Música e Educação.

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