Falta água potável na região amazônica. A solução da Amana Katu: um sistema de filtragem da água da chuva de baixo custo

Leonardo Maran Neiva - 9 dez 2019
Noel Orlet, sócio-fundador da Amana Katu.
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Fica na Floresta Amazônica a maior bacia hidrográfica do mundo. Abarcando uma área de 3,8 milhões de km², ela engloba Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Mato Grosso e Pará. Seu principal rio, o Amazonas, corre por quase 7 milhões de quilômetros.

Apesar dessa abundância hídrica, a região sofre com a falta de acesso à água tratada e saneamento básico. Segundo o Instituto Trata Brasil, 6,5 milhões de pessoas não têm acesso à água tratada na região Norte e 13,8 milhões não têm coleta de esgoto.

Combater esse quadro com uma solução acessível para comunidades ribeirinhas é a proposta da Amana Katu, um negócio social fundado por estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA). Com apenas 22 anos, Noel Orlet, o sócio-fundador, venceu em outubro a etapa nacional do Global Student Entrepreneur Awards (GSEA), premiação de empreendedorismo voltada a universitários. Segundo ele:

“Acesso à água é um direito humano básico, e em 500 anos de Brasil ele persiste como um problema não resolvido. Empreendedorismo social pode ser uma ferramenta poderosa para garantir esse direito”

O nome da empreitada vem do tupi-guarani e significa “chuva boa”. E é exatamente isso, transformar a abundante chuva da região em água potável. Segundo a empresa, até agora 6 932 foram impactadas diretamente, recebendo acesso a água limpa.

A IDEIA NASCEU COM APOIO DE UMA ONG DE EMPREENDEDORISMO SOCIAL

Filho de pai austríaco e mãe filipina engajados em atividades de assistência social, Noel chegou a viver nas Filipinas durante quatro anos, antes de retornar aos 9 para Belém, onde nasceu. No início do curso de direito, o rapaz projetava atuar na área, trabalhando com direitos humanos.

Na UFPA, Noel tomou contato a Enactus, uma ONG global (com sede em Springfield, Missouri, EUA) que promove o empreendedorismo social entre universitários — a rede reúne 72 mil estudantes de 37 países. Paralelamente, estagiava no Ministério Público na área de combate à violência doméstica, enquanto integrava a equipe de um projeto da Enactus que lutava contra o mesmo problema.

“Vi que no MP não ajudaria a resolver o problema, ao contrário do projeto que tínhamos na Enactus. Por mais que me esforçasse, só atuava no sintoma, não na causa dos abusos, que é a dependência financeira de muitas mulheres”

O tema do acesso a água entrou na sua vida em 2017, num treinamento realizado pela Unilever, em São Paulo, com universitários da UFPA e da rede da Enactus. “Nesse treinamento, eles fizeram uma provocação: ‘bora pensar em soluções para água e saneamento no Brasil? Então voltamos de lá pensando em transformar a realidade da Amazônia. Pesquisamos e criamos uma primeira tecnologia usando água da chuva.”

UM ERRO: PENSAR NA SOLUÇÃO ANTES DE REFLETIR SOBRE O PROBLEMA

A Amana Katu nasceu assim. Chegar no resultado atual não foi simples. A primeira solução criada pelos estudantes — o trio inicial era formado por Noel, Isabel Nobre e Marivana Almeida, que depois deixaram o projeto — pretendia purificar a água por meio da energia solar. O grupo chegou a desenvolver um protótipo, entre abril e agosto de 2017, mas a solução se mostrou muito cara e complicada para o público-alvo.

O erro, diz Noel, foi não ter estado mais próximos das comunidades que seriam atendidas pela tecnologia.

“Pensamos na solução antes do problema. Quando fomos nas comunidades ribeirinhas, onde a maioria dos moradores é analfabeta, vimos que precisaria ser algo mais simples, sem muita complexidade para operar, e de baixo custo — algo que uma comunidade na base da pirâmide social conseguiria comprar”

Mudaram para um modelo mais simples de purificação da água. E assim, o projeto conquistou, em 2018, o primeiro lugar do World Water Race, competição da Enactus para premiar as melhores iniciativas na área de água e saneamento no mundo.

A INSPIRAÇÃO VEIO DE UMA TECNOLOGIA SOCIAL DE MINICISTERNA

A inspiração para o sistema atual, diz Noel, veio de uma tecnologia social de minicisterna desenvolvida pelo Edison Urbano, que criou a tecnologia para ajudar a mitigar a crise hídrica que atingiu São Paulo, entre 2014 e 2016. “Conversamos com ele e, nos inspirando na minicisterna, desenvolvemos o Sistema Amana Katu, com adaptações para resolver o problema de acesso à água na Amazônia.”

A tecnologia é simples, mas, segundo o empreendedor, está provando que “não é preciso ser caro e nem complexo para resolver o problema”:

“O sistema usa, basicamente, três materiais: tubulação, tonéis de plástico e filtros. Os tonéis são reaproveitados da indústria alimentícia, onde eram utilizados para armazenar e transportar azeitonas”

Cada bombona tem capacidade para 240 litros. Instalado nos telhado da casa, esse equipamento capta a água da chuva e a submete a quatro barreiras de tratamento sanitário.

Um primeiro filtro elimina impurezas maiores, como folhas e galhos. Depois, um separador descarta a primeira água da chuva, eventualmente mais suja, e a que sobra já pode ser usada em casa para fins não-potáveis, como limpeza.

Por fim, a água restante passa por um tratamento com cloro e por um filtro de carvão ativado, saindo própria para o consumo humano. Caso o cliente opte por usar a água captada apenas para fins não potáveis, há também uma versão sem o filtro de carvão.

PARCERIAS COM EMPRESAS AJUDAM A LEVAR O NEGÓCIO À FRENTE

Hoje, além de Noel, a Amana Katu tem dois sócios, ambos também alunos da UFPA: Wilson Costa, mestrando em engenharia civil, e Isabel Cruz, que cursa biotecnologia. Os dois entraram em 2018 no negócio, ele para cuidar da gestão, e ela da parte das comunidades e da inovação. Noel atua como diretor de parcerias.

Empresas parceiras apoiam de diversas formas. A Mariza Foods cede os tonéis; a Amanco Wavin doa tubulações, calhas e filtros. Outras adquirem os sistemas completos para doação. A Ambev, explica Noel, comprou sistemas para beneficiar 30 de seus produtores de guaraná em comunidades rurais de Maués, no Amazonas.

Atualmente, o sistema básico sai por R$ 550, valor que a empresa afirma ser 52% mais baixo que o oferecido por concorrentes. Cada expansão do sistema (para atender também a residências e famílias próximas) custa R$ 250.

Foram 37 sistemas instalados no Pará até o momento — sem contar as várias expansões, que atendem até mais de 100 pessoas por sistema — e outros 30 já vendidos no estado do Amazonas, ainda aguardando instalação.

Entre setembro de 2018 e o mesmo mês de 2019, a empresa faturou R$ 42 mil. A cada cinco produtos vendidos, um é doado para uma família de baixa renda.

UM NOVO PRODUTO DEVE AJUDAR NA IRRIGAÇÃO DE PEQUENOS PRODUTORES

Outro produto em fase de desenvolvimento, numa parceria com a empresa de tecnologia agrícola Nufarm, é um sistema para o uso da água da chuva na agricultura familiar, para a irrigação da lavoura. “O MVP foi instalado em uma escola na periferia de Belém, onde está sendo utilizada para irrigar sua horta urbana.”

A expectativa é de que os primeiros resultados dos testes fiquem prontos em dezembro.

“O sistema Amana Katu tradicional já ajuda pequenos agricultores: agricultores da cadeia produtiva do açaí da ilha ribeirinha do Combu, no Pará, utilizam a água coletada na lavagem do açaí, diminuindo o consumo hídrico e evitando a contaminação do produto comercializado”

Em 2020, segundo Noel, essa nova tecnologia chegará a Minas Gerais, onde a Amana Katu está trabalhando com a Nexa Resources para gerar desenvolvimento local e social junto aos pequenos produtores e agricultores familiares localizadas nas comunidades do entorno de suas atividades. A ideia é beneficiar até 60 pequenos produtores em comunidades rurais de Vazante e Paracatu.

O PLANO É COMEÇAR A VENDER SOLUÇÕES PARA ZIMBÁBUE E FILIPINAS

A participação da Amana Katu em acelerações como o 100+, da Ambev, o Climate Ventures, e o Lab Habitação, da Artemisia, e premiações em concursos nacionais e internacionais. Os R$ 3 mil conquistados pelo terceiro lugar no Desafio Inove Mais ajudaram a criar e testar o protótipo do sistema.

Em 2018, a Amana Katu recebeu outros US$ 5 mil ao vencer o Ford Mobility Innovation Challenge. Esse dinheiro foi usado para formalizar o negócio (o CNPJ saiu neste ano). Também há planos para buscar aportes externos, mas a equipe aguarda um momento de expansão do empreendimento para investir na iniciativa.

Os empreendedores da Amana Katu sonham alto. A partir do ano que vem,o plano é vender soluções para países como Zimbábue e Filipinas, que segundo Noel vivem paradoxo semelhante ao da Amazônia, com muita chuva e índices baixos de acesso à água potável

Também em 2020, no mês de abril, o fundador vai representar o Brasil na etapa final do Global Students Entrepreneur Awards, na Cidade do Cabo (África do Sul), concorrendo com jovens empreendedores de outros 54 países.

“Nossa participação vai ajudar nos planos de expansão internacional. A Amazônia está nos holofotes globais, mas o problema da falta de água na região ainda é invisível lá fora.”

 

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  • Projeto: Amana Katu
  • O que faz: Oferece um sistema de filtragem da água da chuva para uso doméstico na Amazônia.
  • Sócio(s): Noel Orlet, Isabel Cruz e Wilson Costa
  • Funcionários: 5
  • Sede: Belém (PA)
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: R$ 3 mil
  • Faturamento: R$ 42 mil
  • Contato: [email protected]
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